Não tenho lido os comentários do blog, mas sei que estou tomando um cacete. Antes de ler e me irritar (não tem sido difícil me irritar - a vida na Sub não é bem um piquenique, sabe? - e esse não é o melhor estado para discutir com alguém), vou me antecipar e dizer algumas coisas sobre a campanha do PPS na televisão.
Eu me vi nesse instante falando sobre "apoiar [em 2010] quem está governando, não fazendo campanha".
Claro, óbvio, que é um cutucão no fato de a Dilma estar abertamente em pré-campanha à sucessão do Lula. Ninguém no mundo poderá negar que está em curso uma estratégia para torná-la mais conhecida, mais popular, mais ligada ao presidente e suas marcas registradas. Se é legítimo? Até certo ponto,é.
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No Brasil rola uma hipocrisia doida com candidaturas e pré-candidaturas. Enquanto não é feito o registro oficial do candidato junto ao tribunal eleitoral, ele tem de fingir que quer tudo menos disputar a eleição - ou será acusado de "antecipar a campanha". Depois, já candidato, ele também tem de tomar muito cuidado para não fazer campanha, pedir voto, essas coisas - quase tem de fingir que quer tudo menos ser eleito.
Nunca me esqueço da consulta que fizemos ao tribunal eleitoral na eleição para a prefeitura: "Podemos vender camisetas (para arrecadar recursos e divulgar a candidatura)?". "Podem, desde que não tenha o nome do candidato nem o cargo que ele pleiteia". Fantástico.
Não lembro quem foi questionado na Justiça por ter dado entrevista à Folha falando sobre o que pretendia fazer caso fosse eleito - acho que foi a Marta. Queriam que ela falasse tudo, menos dos seus planos para a prefeitura, do contrário configuraria "propaganda eleitoral indevida". É inacreditável.
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Enquanto tudo é proibido, é claro que os pré-candidatos se movimentam para viabilizar suas candidaturas. Costuram apoio dentro dos partidos, planejam ações que dêem visibilidade e reações positivas, cuidam da imagem e da sua assinatura, de suas marcas registradas.
Não era melhor que fosse permitido e pronto?
Que os pré-candidatos pudessem dizer aberta e honestamente: "Sim, eu quero ser presidente e por isso pretendo disputar a próxima eleição"?.
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Quando o pré-candidato já é detentor de um cargo público, fica tudo mais complicado. Ele automaticamente tem mais visibilidade do que os demais. Vai fazendo seu currículo de candidato ao mesmo tempo em que trabalha - sobe na tribuna no Parlamento e discursa sobre os problemas do país, apresenta um projeto de lei, inaugura uma obra.
Mas é possível separar completamente uma coisa da outra? "Olha, eu NÃO ESTOU AQUI querendo ser presidente/governador/prefeito. Estou sendo só deputado/vereador/ministro/governador/senador. Faz de conta que eu e eu somos duas pessoas diferentes".
Claro que não!
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Tem de haver uma medida, no entanto. Que o trabalho sirva como palanque, é inevitável. Que o trabalho seja sacrificado pelo palanque é que não se pode aceitar.
E há várias maneiras dele ser sacrificado. Por exemplo, com o excesso de compromissos sociais, de mídia etc. Em condições normais, o "social" já consome um tempo doido da gente. As pessoas querem porque querem que você resolva os problemas todos do mundo em um dia, mas também querem que você tenha bastante tempo para recebê-las, ouvi-las, comparecer a solenidades, etc. Se você começar a programar muitos eventos de visibilidade pensando na sua candidatura, o trabalho VAI ficar prejudicado.
E tem também a opção por obras mais visíveis em detrimento das mais importantes; mais populares e agradáveis em prejuízo de medidas muito necessárias mas impopulares.
(Não foi à toa que o Fernando Henrique segurou o câmbio irreal por tanto tempo... E que seu segundo governo ficou terrivelmente prejudicado por causa disso).
É fácil traçar claramente essa linha entre o inevitável e o abuso? Não. E cada um vai enxergar conforme suas próprias afinidades nessa história.
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Eu fui petista a vida toda - portanto, oposição quase a vida toda... E fui dura, intransigente, inflexível, intolerante, implacável. Eu e o PT. Não admitíamos uma concessão, conciliação, moderação. E éramos irônicos, sarcásticos, terríveis.
Com o tempo, fui mudando. Ainda sendo absolutamente intolerante com algumas coisas, mas mais compreensiva e flexível com outras. Em boa parte, por influência do budismo. Comecei a prestar cada vez mais atenção no outro lado, nos argumentos dos meus adversários, e a admitir que é impossível viver sem concessões. Importante é ter um limite para elas.
Como já disse muitas vezes para explicar minha saída do PT, o partido também mudou muito. De "concessão nenhuma" - o que era errado, destrutivo, improdutivo - para "todas as concessões do mundo". E dá-lhe ministério e estatal para todo mundo que a gente execrou um dia - não porque fossem adversários, mas porque eram
inimigos de tudo o que acreditávamos e defendíamos. Se eles mudaram? Alguns, sim. Mas muitos continuam sendo os mesmos Sarneys e Barbalhos e Malufes de sempre.
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O PT estaria fazendo uma oposição furiosa ao governo Lula se o Lula não fosse do PT. Criticando a política econômica, a miséria que não termina, a crise do emprego, as barganhas com o Congresso, o excesso de MPs, os desvios de recursos, o assistencialismo, o latifúndio, as obras faraônicas (tipo transposição do São Francisco), a devastação da Amazonia, a política de Comunicação, o loteamento da máquina pública, a clientelismo, o diabo.
Bom, o próprio Lula fala do governo às vezes como se ele fosse da oposição.
Talvez o PT fizesse até uma oposição injusta, exagerada. Mas o PT sempre foi exagerado (eu também!). "Não queremos reformas, queremos a REVOLUÇÃO". Ok, continuo querendo. Mas o carro está andando e a gente precisa trocar o pneu enquanto roda, então faz o que? Faz o que puder fazer, oras. TUDO o que puder, e não fica parado esperando o impossível em nome do ideal.
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Enfim, o PT da oposição de antigamente seria implacável em relação ao Lula.
Mas o PT que hoje é governo não tolera oposição. Nem a debochada nem a mais polida.
Deboche é difícil mesmo de aguentar. E o PT também é vítima de acusações injustas, ataques desleais, críticas desqualificadas. Mas - como eu cansei de dizer enquanto ainda estava no PT - isso não quer dizer que TODAS as críticas e acusações são infundadas e o PT é sempre vítima da maldade alheia; que a oposição é sempre "do mal" e serve a interesses escusos e o diabo.
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O PPS é oposição ao PT. Eu ter ido para um partido de oposição ao PT foi considerado por muitos uma traição inominável. Mas a gente continua tendo o direito de escolher ser oposição, não tem? Só é permitido quando os outros estão no governo??
O PPS critica muito duramente o governo Lula. Se eu concordo com todas as críticas? Não. Já discuti muito com o Roberto Freire por causa de Bolsa Família e Classificação Indicativa da programação de TV, por exemplo... Se concordo com o
tom de todas as críticas? Também não.
Prefiro a argumentação menos exaltada, as discussões menos sangue-nos-olhos. (O Roberto Freire é muito sangue-nos-olhos - de verdade, não é cena). A ponto de ficar incomodada, como muitos aqui, ao ver o bendito anúncio em que criticamos a pré-campanha da Dilma. (Acabei de me ver na TV - ainda não tinha visto).
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Como já disse, a Dilma está, sim, em pré-campanha. E é impossível que seu extenso calendário de lançamentos, pré-lançamentos, convenções e eventos "sociais" pelo Brasil todo não esteja atrapalhando o desempenho de suas importantes atividades como ministra.
(O problema de saúde é outra história e ela tem todo o direito do mundo de atender às necessidades de seu organismo e tirar o pé do acelerador).
Os outros pré-candidatos estão também em pré-campanha? Claro que sim... Serra, Aécio, Ciro pensam em 2010 tanto quanto a Dilma. Talvez o Sergio Cabral também. Heloisa Helena, possivelmente. Mas a proporção de atividades "palanqueais" dela está superando a dos demais fácil, fácil.
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De todo modo, acho justificado e justo dizer isso uma vez, acho bobagem dizer mil vezes. Fica uma coisa raivosa, provocativa, de que já não gosto mais. Aliás, é difícil propaganda política não ser irritante... A tentação para criticar acidamente é sempre muito grande. E a do PPS tem esse tom - menos do que já teve antes, ainda bem (eu detestava o nariz de palhaço). Mas no contexto total da propaganda do partido, eu pareço mais raivosa do que gostaria.
Mas... De novo, quem critica nossa fala dura é quase sempre quem também fala muito duro. Quem desce o pau sem dó nos adversários do PT - sem gentileza, sem suavidade, sem palavras contidas.
Podemos todos mudar o tom?
Acho muito difícil. Mas ok, ainda que não mudem, vou redobrar a vigilância quanto ao meu, contendo minha raiva, minhas ironias. E tentando também aguentar as dos outros sem me irritar.