quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

31 de deciembre

Acabei de chegar a Uspallata, a duas horas de onibus de Mendoza, que por sua vez fica a pouco menos de duas horas de voo de Buenos Aires.

Imagino que, depois de muitas viagens morro acima, a paisagem pode parecer terrivelmente monótona para quem a assiste da janela do onibus - nao à toa, os monitores sobre as poltronas exibiam "ari poter" (si, dublado em castellano). Mas para quem olha pela primeira vez, é impossível despregar os olhos das infinitas nuances de rosa e marrom da cordilheira. Paisagem seca, seca, seca - areia e pedra o tempo todo. Mas um rio - que na largura e desenho lembra o Paraíba quando margeia a Dutra - nos acompanha quase o tempo todo, com água marrom vigorosa que se pode desafiar fazendo rafting. Eu e o menino ao meu lado fotografávamos o tempo todo; às vezes ele me cutucava para mostrar alguma coisa do lado dele do onibus. Nao sei seu nome, de que país ele é, mas fomos companheiros de registros enquanto a Julia dormia encostada à janela, sem se animar muito quando EU a cutucava para mostrar alguma coisa bonita, como um lago de azul estranho.

Cada montanha impressiona de uma maneira - pela altura, inclinaçao, cor, pelas pedras enormes ou a infinidade de pedras pequenas, pela vegetaçao escassa e valente. Procurei animais, mas nao vi um sequer (exceto um grupo de humanos enfileirados observando um vale). E de repente, no meio das muitas variaçoes sobre o mesmo tom, aparece um cerrito de pedra esverdeada; chego a temer por ele, que talvez seja feito de qualquer coisa preciosa (deve ser influencia das inumeras pichaçoes pelo caminho: "No al oro, si a agua" e um "Nao à mineraçao contaminante" (esse eu nem me arrisco a tentar reproduzir no idioma original).

E de repente começam a aparecer cabañas, hosteles, cartazes de propaganda. E, principalmente, verde. Árvores magérrimas e altíssimas cobreo piso. Chegamos! Uspallata é uma graça, pelo pouco que vi até agora (desci do onibus e vim para o internet café recuperar o nome da pousada em que tenho reserva - meus celulares estao fora de combate e nao fui eu que fiz isso, foi a Samsung em parceria com a Claro. Meu novo aparelho, do alto de sua modernidade, nao serve para roaming internacional).

Portanto, o único jeito de me comunicar à distancia é pela internet. Por incrível que pareça, aqui é mais fácil falar pelo computador do que por telefone.

Sem mais para o momento, atenciosamente,
Sonia 2009 (válido até a meianoite de hoje)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

L9 - o Fenômeno

Impressionante o que carisma e currículo podem fazer - além de uma estratégia fenomenal de comunicação, oposição desmobilizada e imprensa com receio de ir contra a maré.

O presidente do Brasil foi escolhido "Homem do Ano" pelo Le Monde, que elogiou (reproduzo o que ouvi na TV, não li o original) o "crescimento econômico", o "combate à miséria" e "o desenvolvimento que privilegia o meio ambiente", entre outras coisas - mais ou menos na mesma linha da exaltação escrita por Zapatero dias atrás no El País.

Essa avaliação se baseia totalmente em impressões subjetivas. No "clima" que exala do governo brasileiro. Na propaganda oficial.

O Brasil vai bem? Muito bem? Sim, em prestígio internacional. Em estabilidade institucional e financeira. Assim como o Flamengo, temos a capacidade de transformar limão em limonada (ou caipirinha) como ninguém. Somos o país que inventou a feijoada, transformando os restos indesejados pelos brancos em um prato delicioso (embora não seja exatamente saudável). Não nos deixamos abalar facilmente por coisas como mega escândalos de corrupção; temos uma capacidade de assimilação impressionante. Outros países sobreviveram a várias guerras; nossa resiliência se manifesta na tolerância infinita a desvios de conduta (depois de alguns minutos de indignação seletiva e polarizada).

Mas o Brasil, meu deus, continua horrível. O que é que estamos comemorando, a empolgação de presidentes de outros países? O aplauso da mídia estrangeira? A consagração de nosso governante? Mas é isso mesmo que é o mais importante em um país?

É, o Brasil está na moda. Mais uma vez. Tivemos nosso grande momento nos anos 50 e 60 - Bossa Nova, Cinema Novo... Juscelino, Brasília, indústria automobilística, Copa do Mundo. Tudo muito bacana, charmoso, mas... Enquanto isso, estávamos construindo um país desigual, injusto, cruel.

Hoje reclamamos do passado como se ele tivesse sido uma imposição de deuses mitológicos, um acaso astrológico ou algo assim. "Não temos ferrovias! Destruímos nossos rios, desmatamos o litoral, nossas cidades não foram preparadas para o crescimento. Não tem redes adequadas ou suficientes de transporte sobre trilhos, não tem sistemas de drenagem, não tiveram planejamento. Nossa educação é deficiente, há milhões de analfabetos. O campo expulsa a população pobre para as cidades".

Verdade, e não foi só o Regime Militar o responsável por esses descompassos. Fizemos da fabricação de automóveis nosso maior orgulho, o passaporte para o primeiro mundo; das estradas de rodagem a coisa mais bonita do mundo. Destruímos serras, várzeas, florestas, mangues. E continuamos nesse passo, longe do desmame do transporte individual motorizado, talvez o mais forte símbolo de sucesso, expressão máxima do consumo como forma de realização pessoal - por extensão, nacional.

Continuamos nos gabando de nossa grandeza e invocando, quando conveniente, nossa condição de pobreza, fragilidade, o chavão consolidado: somos um país "em desenvolvimento". (Desde que eu estava no colégio, o governo - naquela época, o militar - rejeitava o rótulo de "subdesenvolvido". A nova tag acabou pegando). Seremos a 5a maior economia do mundo muito em breve! O petróleo nos transformará em superpotência! Emprestamos dinheiro ao FMI! Mas ainda falamos com desprezo dos "ricos"; os ricos que poluíram e aqueceram o mundo e agora vem encher o saco querendo preservar as florestas, melhorar o clima e blá-blá-blá. Deixem-nos crescer! Se precisarmos desmatar, poluir e aquecer, nós o faremos. No máximo, prometemos não aumentar tanto assim as agressões ao ambiente e pronto, esse é o nosso sacrifício. Em vez de diminuir as emissões de carbono, vá lá, vamos aumentar menos.

(É essa a grande proposta que o governo brasileiro levou à Cop-15... Que um comentarista na Globo News saudou como "audaciosa". Fantástico).

O Brasil continua muito miserável, desigual, cruel, injusto. O campo continua expulsando as pessoas - não porque o mundo mudou e a mecanização chegou a todas as lavouras, mas porque continua gerando muita riqueza para alguns e miséria para tantos outros. Os velhos e aparentemente eternos coronéis, as chamadas "elites" políticas e econômicas continuam mantendo seus currais eleitorais às custas da pobreza, da dependência, do papel de salvadores da pátria. Eles são os que intercedem junto ao poder central de modo a conseguir um auxílio, um socorro, uma esmola. Dirigidos, limitados, finitos, jamais transformadores e capazes de levar à independência, à autonomia.

O povo continua na merda (RT @opresidente). As cidades, incapazes de absorver dignamente os expulsos do campo, incham, se espraiam e deterioram. Aumenta a desigualdade, a violência. Não é a pobreza a causa da violência, é a falta de projeto, de uma perspectiva que não a aspiração do prazer imediato e do consumo. Pesquisas recentes traduziram em números o que mitos já observaram no contato direto e diário: a maioria das meninas se prostitui para conseguir bens como celulares. A maioria dos meninos entra para a indústria do crime para se fazer admirar pela "valentia"; para serem admirados pelas meninas que, imersas nesse mundo em que a "ascensão social" se dá pelo crime, adoram as armas ostentadas por eles.

O Brasil cresceu pouco - aliás, os números da economia no último trimestre foram comentados, muito discretamente, como sendo "decpecionantes" para o governo. E tudo bem. Parece até que vale mais a propaganda ufanista do que o fato em si - "Ah, não vamos abaixar o astral da população, o mundo inteiro aplaudindo o Brasil, o país do momento, e a gente vai contrariar a maioria agora?".

O Brasil cresceu pouco e redistribuiu muito mal. Tenho curiosidade em saber: quantas pessoas recebem o Bolsa Família há vários anos? O que seria delas AGORA se perdessem o benefício? Transferência de tenda é medida emergencial necessária, mas não pode ser mecanismo de eterna dependência. Além de reunir vários benefícios em um só, qual é, afinal, a grande diferença dessa Bolsa para a do governo Fernando Henrique, que criticamos tanto? O quanto melhorou a VIDA das pessoas - não apenas o COMSUMO? Ironizávamos as declarações do então presidente quando ele dizia que a população estava comprando mais dentaduras, frango e iogurte. Não era disso que falávamos quando exigíamos reformas, revoluções. Mas agora erguemos um brinde à venda de carros e geladeiras, como se a nação estivesse melhor por conta do carnê das Casas Bahia. Sim, as pessoas erguem suas casas com material de construção mais barato, compram eletrodomésticos de última geração - mas moram no Pantanal na Zona Leste de São Paulo, uma obra conjunta da qual as últimas quatro ou cinco administrações podem se orgulhar... E continuam se chacoalhando várias horas por dia na condução, jogando lixo em qualquer lugar à sua volta porque essa é a paisagem a que se acostumaram, e repetindo com os colegas os lugares-comuns sobre os políticos que não prestam.

Temos imagens horríveis para mostrar ao mundo, como sempre. Depois da exaltação internacional à India e à China, chegou a vez do Brasil mostrar suas belezas. Assim como India e China, nossa beleza ainda exclui milhões. Nosso sorriso continua banguela. Mas os miseráveis não aparecem tanto, exceto em casos de flagelos - ou nas manisfestações organizadas em cidades governadas pela oposição... Antes, a culpa pela miséria era do governo central. Agora, é dos tucanos, dos demos, de qualquer um, menos do presidente. O presidente combate a miséria e a fome. Se não dá certo, não é ele quem tem de responder por isso.

A história pessoal do presidente é belíssima. Mas o que já foi motivo de chacota indecente agora virou anteparo indevassável; criticar o presidente Lula é quase blasfêmia. E ele investe - inconscientemente, creio - na imagem do homem humilde de baixa escolaridade de modo a acentuar, artificialmente, essas características. O discurso de Lula deputado criticando o Bolsa Escola era muito mais elaborado do que a fala de hoje em dia, com mais expressões chulas e erros de concordância que ele antes não cometia...

Lula antes queria falar de igual para igual com os poderosos e precisava provar que era capaz. Hoje quer provar que é "do povo", e esculacha sua sintaxe para se fazer entender. Não precisa. Não devia. Sua coloquialidade é uma graça; a vulgaridade, um desperdício.

Lula consegue se manter com alta popularidade no sétimo ano de governo entoando um discurso de oposição. "Vamos tirar o povo da merda! Vamos mostras às elites quem é que manda". Mas Lula não é mais o sindicalista, o opositor eloquente, o intruso na festa dos bacanas, o delator dos 300 picaretas. Lula é o anfitrião. Lula é governo. Lula tem a caneta, a faixa presidencial, o poder. Mas os governistas se comportam como mártires da oposição, desqualificando toda crítica como invejosa, ressentida, golpista. Lula pode dizer o que quiser que passa como graça, e os grandes movimentos organizados de outrora - sindicatos, estudantes - quedam-se calados, talvez comentando entre eles que "nessa o presidente pisou na bola", mas jamais convocando manifestações, publicando charges, pichando muros. Resta a um ou outro opositor mainstream fazer um comentário crítico, destilar veneno irônico na televisão ou no jornal e aos pequenos movimentos radicais colar lambelambes de "Fora Sarney, Fora Todo Mundo".

Lula é um grande personagem. Mas o governo Lula é muito ruim, especialmente no balanço a longo prazo. Nos primeiros anos, ocupando o Executivo pela primeira vez, é de se esperar que haja dificuldades. Lidar com o Parlamento venal é sempre um problema, mesmo quando não há uma oposição aguerrida, quase encardida como a que fazia o PT. Mas já se passou tempo demais. E, nesse tempo, os oligarcas se acomodaram. As grandes reformas não saíram. Antigas posições foram abandonadas. O governo se deslumbrou com o aplauso das agências de risco, o deslumbramento de banqueiros, o luxo palaciano, a amizade dos poderosos. Agora não quer queimar o filme com os novos amigos, e se vê defendendo Renans e Sarneys, celebrando Collors e quetais.

Não é raro acontecer essa canonização de um personagem. Quando um Lech Walesa, Nelson Mandela (ou Obama...) chegam ao poder, é difícil criticá-los. Apontar seus erros pode parecer a condenação de toda a luta, de toda a trajetória, da esperança. E não faltará quem aja deliberadamente dessa maneira, pronto a apontar o primeiro deslize, a primeira tentativa frustrada, o primeiro inevitável problema para dizer "Estão vendo? É tudo uma farsa! São todos farinha do mesmo saco! Que saudade de seus antecessores!". E talvez essa reação intolerante, raivosa e injusta seja exatamente o fermento para que, junto com o belo passado, a popularidade de um político aumente sobremaneira. Lula e o PT foram escorraçados de maneira grotesca em vários momentos. Um psicanalista ganhou capa da Folha de São Paulo ao dizer que o acidente da TAM em Congonhas era obra do "governo assassino", uma aberração absoluta. Um canal de TV (se não me engano, a Record) fez um cliping que colava imagens da Marta Suplicy e sua declaração sobre "relaxar" em meio ao caos aéreo à explosão do avião. Uma denúncia de corrupção contra um vereador petista no interior de Minas Gerais gerava uma onda de comentários "e agora, o presidente vai dizer que não sabia de nada?". A governadora do Pará foi cobrada por não saber que um distrito policial a centenas de quilômetros da capital tinha uma menina de 15 anos presa junto com homens.

Lula foi vaiado na abertura do Panamericano, mistura de galhofa e grosseria na qual muitos acharam graça. Lula fez uma pergunta sincera, singela e espontânea ("afinal, o Ronaldo está gordo ou não está?") e de novo acharam graça na resposta deselegante de Ronaldo - que estava gordo.

E, como se gabavam alguns, Lula cresceu feito massa de pão (quanto mais apanha...). E hoje é isso, um presidente que é descrito segundo sua própria propaganda, independentemente de fatos que o desmintam. Não acabamos com a fome, longe disso. Não diminuímos significativamente a miséria, embora massas tenham adentrado o maravilhoso mundo do crediário. Temos uma rota levemente ascendente? Temos, até porque muitas coisas mudaram no mundo a ponto de se tornarem mesmo mais baratas e acessíveis - a tecnologia, por exemplo. A internet e os benditos celulares. As passagens de avião. Mas no máximo mantivemos uma tendência, quando precisávamos de um salto. Chacoalhar as estruturas, modificar a lógica, revolucionar. E isso não fizemos. Diminuiu um pouco a participação proporcional de São Paulo no PIB? Grande coisa, devia ter diminuído muito mais. Continuamos desiguais demais.

Será que é porque ainda estamos verdes, nossa recém-conquistada democracia é imatura? Quem sabe. Continuamos reféns de ídolos carismáticos, simpáticos, salvadores. Continuamos dividindo o mundo em bons e maus. Continuamos simplistas, imediatistas, superficiais. E não é só um problema de baixa escolaridade não - graduados e pós-graduados também produzem juízos de valor preconceituosos, auto-referentes, reproduzindo velhos conceitos cristalizados e jamais revistos. Na biblioteca comunitária do Jardim Fontales ou em uma turma da GV, o nível de conhecimento e informação sobre instituições políticas, por exemplo, é parecido. Ninguém sabe quem faz o que. Ninguém nunca teve a chance de aprender.

Não tenho esperança de que isso melhore a curto prazo. Os que estão dispostos ao debate são muito mais inclinados a simplesmente avacalhar o outro lado do que pensar que não existem só dois lados, duas cores, bons e maus, certos e errados. E há os que sequer estão interessados no debate - "quero saber do meu interesse". Mas se não acreditar que a médio prazo vamos ter mais gente inclinada ao pensamento mais complexo, o olhar generoso e multifacetado, a compreensão das coisas em todas as suas nuances, não sei o que vou fazer. Continuo trabalhando em política, buscando lugares de poder, lendo, escrevendo, debatendo ou vou logo para o Nepal meditar e catar lixo na rua, como oferenda de trabalho? Não sei. No fim de um ano dos infernos como este último não devo estar no melhor dos estados para decidir.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um pouco desta segunda

Hoje de manhã estive no futuro Parque Leopoldina-Villas Boas. Ele precisa de mais um ano de obras para ficar pronto, mas já conseguiremos abrir uma parte para o público nas próximas semanas. Não tem por que manter tudo fechado até a conclusão; quanto antes as pessoas puderem usufruir de um pouco mais de área verde, melhor. Em janeiro já vai ser possível andar, jogar bola, brincar no parquinho, fazer ginástica ao ar livre, ler e namorar à beira do lago ou fazer nada por ali.

***
Estamos com problemas em uma de nossas principais vias - o comércio ambulante irregular, não contente em ocupar as calçadas assim que a fiscalização vira as costas (e alguma hora ela vira as costas, porque não temos exércitos disponíveis para dar plantão 24 horas em todos os pontos), resolveu se instalar no meio da rua, no horário de maior movimento.

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Precisamos mudar uma banca de jornal de lugar; na calçada em que está instalada, ela prejudica de tal maneira a visibilidade para quem entra e sai no estacionamento de um banco que pode vir a causar um acidente (além de estar ocupando um espaço maior do que deveria).

Tentamos conversar amigavelmente. Chamamos o permissionário (o dono da banca) para conversar. Procuramos alternativas de lugares para ele se instalar, bem próximo ao ponto em que se encontra.

No dia marcado para a reunião, ele não veio. E não foi uma só a tentativa de conversa, foram várias, todas infrutíferas. Quando fomos procurá-lo na própria banca, a recepção nunca foi amistosa.

Passamos para o passo seguinte: demos um prazo de 30 dias para que ele se mude para o local determinado (a menos de 100 metros de onde ele está). A banca precisará ser menor do que é agora - ou seja, ele precisará reformar suas instalações.

Aí ele apareceu aqui - furioso, inconformado, falando alto, alegando amizade com esse e aquele. Não quer sair de onde está de jeito nenhum, não quer providenciar outra banca, não quer nada. Não correspondemos à sua expectativa e ele saiu batendo a porta (literalmente).

Soube que alguns amigos cujos nomes ele invocou ligaram tentando interceder por ele.
Tenho certeza que eles não sabem o quanto ele mesmo fechou as portas (com força!) para qualquer possibilidade de negociação (que já estaria praticamente esgotada de todo jeito).

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Continuo recebendo mensagens e mais mensagens reclamando que "a Lapa está cheia de lixo e entulho e ninguém faz nada".

Esse "faz nada" é uma das coisas mais insuportáveis que eu já ouvi. É meu karma - desde a adolescência até os trinta e poucos anos, eu devo ter dito umas mil vezes a mesma coisa. Bem feito pra mim.

Eu ando por aí vendo pilhas de entulho e bagulho nas esquinas e me forçando a recordar os ensinamentos de minha tradição religiosa (um dos básicos é nunca desejar o mal a NINGUÉM). Tem entulho amador e entulho profissional. Tem colchão, sofá, vaso sanitário, tijolos, azulejos, papéis, estantes, lâmpadas fluorescentes... Gente que saiu de casa e jogou uma sacola de tralha na esquina, gente que contratou um carroceiro, gente que cobrou carreto para retirar os bagulhos e despejou na beira da rua, porque ali, mais dia/menos dia, a prefeitura vai recolher.

Eu fico fantasiando uma lei que obrigue as Casas Bahia e outros vendedores de utensílios domésticos a retirar os sofás, colchões etc. usados quando entregar um novo. Ou as fábricas de colchão. Fico querendo montar tocaia de madrugada, quem sabe com uma espingarda de paintball. Ou montar aquelas armadilhas que acionam uma câmera fotográfica quando alguém passa por elas, fotografando os animais, digo, as pessoas que despejam o lixo no escuro.

A gente simplesmente não dá conta de tanto lixo. (Que tanto reformam as casas e trocam os móveis!?) Não temos um sistema de caminhões que funciona como entrega de pizza - é só ligar que em no máximo 40 minutos algum motoqueiro aparece onde você pediu. É bem mais complicado que isso - as equipes tem horário de trabalho, um caminhão não roda por aí com a facilidade de um motoboy, o aterro não fica logo ali para o caminhão descarregar e voltar rapidamente.

Só na Vila Piauí, próximo ao Ribeirão Vermelho (limite entre SubLapa e Osasco), temos quatro equipes (caminhão + trabalhadores) trabalhando direto desde quarta-feira passada, recolhendo terra e lixo arrastados pelas águas do ribeirão (que encheu pra burro ali, um absurdo). E ainda tivemos de deslocar outra equipe (acho que são 5 no total, não tenho certeza agora) para a limpeza das feiras livres (quando a empresa contratada para isso simplesmente deixou de fazer o serviço na quinta passada).

Mas a ladainha continua: ninguém faz nada, ninguém faz nada, ninguém faz nada.

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Hoje o pessoal da campanha Trânsito Mais Gentil esteve aqui para tentarmos fazer algumas ações na região da Sub. As idéias são todas muito boas, simples, irrefutáveis - o lema é "um trânsito melhor começa com você".

Eu vesti a carapuça por cima do capacete. Embora tenha o costume de dar passagem nos cruzamentos e rotatórias, de parar antes da faixa dando preferência ao pedestre (o que não é possível quando tem alguém muito embalado e colado na sua traseira), nem sempre sou paciente, especialmente com quem é folgado. E se montar um placar do tipo "x dias sem acidentes" - na versão "x dias sem xingar ninguém" - o "x" não vai passar de 2, e olhe lá...

Preciso melhorar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Hard Day's Afternoon

De todo lado, histórias tristes.

O ambulante (que não tem licença - por mim ele teria, mas não tem) reclamou que sua mercadoria foi apreendida em uma hora em que ele nem estava perto dela. Levaram, não deixaram lacre (comprovante da apreensão) e ainda por cima a "carterinha de deficiente" (foi como ele falou) foi levada junto. "O senhor saiu e deixou a mercadoria na calçada?". "É, fui almoçar e deixei o rapaz da banca de jornal tomando conta". "E não tem lacre?". "Não tem. A senhora pode pegar meu documento e dar a mercadoria de volta?".

Se a apreensão tiver sido irregular, sem comprovante nem nada, precisamos devolver a mercadoria - é o preço por agir incorretamente. Quanto ao documento, não há o que dizer, nem devia ter sido apreendido.

"Eu sou deficiente, preciso desse trabalho. A senhora não pode deixar eu trabalhar?"
"Não posso, porque eu não tenho como dar permissão nova para ninguém e não dá pra dizer pra fiscalização deixar alguém de lado, né? Já pensou, "Tira uns irregulares, mas deixa este aqui"? Não dá certo.
Quando a fiscalização aparecer, o senhor vai ter de interromper sua atividade, não dá para eles ignorarem. Também não quero que corram atrás de ninguém - eles informam "o senhor não pode vender aqui", e o jeito é acatar".

Feliz com a resposta ele não ficou, mas pareceu compreender.

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Chamei, assim que voltou da rua, o funcionário encarregado das apreensões. Que contou outra história. "O GCM chegou e disse: 'O senhor não pode ficar aqui; por favor, retire suas mercadorias do passeio, ou nós teremos de apreender'. Ele quis ir embora e deixar a bolsa com os pertences pessoais lá, mas o GCM não deixou: 'Vai dar confusão. O senhor leve a sua bolsa".

Por essa versão, portanto, ele estava lá e teve como pegar seus documentos pessoais - tinha até como levar a mercadoria, obedecendo à ordem para interromper a atividade.

Pedi: "Lylian, desce lá, chama o rapaz, chama o GCM, porque um dos dois tá contando a história errada".

Ela desceu. O rapaz já tinha ido embora... Ficamos com qual versão?

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Tem mercadoria que não tem conversa. CD, DVD falsificado... Tem de apreender no ato. Isso é uma indústria poderosa demais, a atividade é a ponta do crime organizado que movimenta milhões em falsificações e contrabandos diversos. Não tem nenhum glamour esse negócio de "filme pirata". É pilantragem da grossa. Já nem se justifica mais a versão romântica do "DVD oficial é muito caro". Por R$12 você compra vários filmes em versão oficial (seja nas Lojas Americanas, no saldão da Siciliano ou na 2001, que tá com umas coisas incríveis), não precisa dar dinheiro pra bandidagem para ter cinema em casa.

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Mandamos um convite para a festa de Natal dos funcionários por email para TODOS eles. Colocamos cartazes nos murais. Mas uma pessoa reclamou: "Ninguém me convidou".
Mostramos que todo mundo foi convidado sim. "Mas eu não vou mesmo".
Ô mania de reclamar de tudo, sô.

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Mandamos inteditar um estacionamento em área pública, que estava cobrando indevidamente pela sua utilização.
Só faltou ligar o Ratzinger pra relcamar da interdição.

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Autuamos um estabelecimento que não tem licença de funcionamento (intimamos para apresentar os documentos comprovando a regularidade (não apresentaram), aplicamos multa e demos ordem para fechar, tudo de acordo com os prazos legais - na verdade, ALÉM dos prazos legais, porque a nossa fiscalização não dá conta de tudo/ não responde às solicitações com a presteza desejada).

O imóvel está irregular; isso significa que a licença de funcionamento não pode ser concedida. Se não me engano, o imóvel é impossível de regularizar porque está completamente fora do permitido para aquele lote (vai ter de demolir alguma coisa). Portanto, o estabelecimento também não tem jeito.

A burocracia e a oferta de informações na prefeitura são coisas muito complicadas, mas nesse caso não tem como alegar "foi difícil descobrir". Dá pra saber fácil que o imóvel está irregular e que não tem como obter licença ali. Ainda que não desse: meses atrás, ele recebeu uma primeira autuação, oras.

Eu tenho dó do empresário, que está desalentado (mas já tinha comentado com alguém - não comigo, naturalmente - que estava pagando "mensalidade" para manter a loja aberta... Então... Em vez de gastar dinheiro assim, seria melhor ter procurado outro ponto!). Tenho dó da dona do imóvel, que tem lá suas dificuldades e vai perder um inquilino. Mas por que as pessoas escolhem o caminho torto, achando que vai dar tudo certo?

Nesse caso, também, só faltou o Obama ligar pedindo compreensão.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Hoje e alguns dias atrás

1) Outro dia

Parei no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil, magnífico) para um lanche rápido. Da mesa ao lado, uma moça chamou: "Prefeita!". Não estava muito certa se era eu, mas arriscou.

Precisava de orientação para uma ação judicial; pelo tema, indiquei a Secretaria de Justiça e da Defesa da Cidadania, ali perto (tinha acabado de encontrar o Coordenador de Políticas para a Diversidade Sexual em um seminário sobre combate à homofobia).

De nossa breve conversa, ficaram marcados os seguintes comentários:
- O Lula é mentiroso e ladrão (Porque prometeu que o SUS ia oferecer determinado procedimento e não cumpriu)
- O Serra é um bandido que quer nos matar ("Nós quem?"; "Nós, professores da rede pública").
- O Maluf ao menos [fez o gesto de quem rouba] mas o que ele fazia, fazia bem feito.

Fantástico.

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No mesmo lugar, ouvi duas moças conversando sobre alguma ação de desocupação (não peguei onde era).
- "Eles estão pagando 25 mil por laje. E onde é que eu vou morar com 50 mil reais?"

2) Hoje

Estava a 70km/h na pista da direita da Marginal Pinheiros, onde a velocidade máxima é de 90 km/h. À minha esquerda, CINCO pistas, trânsito fluindo bem.

Mas um energúmeno, desculpem, um motorista colou atrás da minha moto e começou a dar farol. O que ele queria, me fazer ir mais rápido ou que eu pulasse o muro da USP e seguisse pela raia, para ele poder me ultrapassar sem sair da faixa da direita?

Quem pensa que os motoqueiros estariam muito mais seguros se andassem sempre pelo centro da faixa, não imagina: 1) como são impacientes e agressivos os motoristas que vêm atrás, que não se conformam de ver uma moto ocupando uma faixa toda; 2) como são distraídos e imprudentes os motoristas à sua frente - que, com seus vidros cada vez mais pretos, não te deixam ver o que vem adiante com a antecedência desejada; 3) como o fato de não darem seta antes de mudar de faixa ameaça os motociclistas-no-centro-da-faixa tanto quanto os motoqueiros-do-corredor.

Enfim, esta não é uma apologia ao corredor nem a defesa do modo cachorro louco de dirigir, mas um lembrete básico: sem motoristas mais atentos prudentes, motoqueiros/motociclistas continuarão sendo abalroados, mesmo que sejam menos loucos.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Por Que Me Deprimo - 4

Faz de conta que foi no Brasil
(Ouvido em uma sala de espera)

Uma empresa estava importando maquinária pesada. A máquina veio dividida em duas partes.

O fiscal da alfândega queria que o processo de importação fosse todo refeito porque aquilo configurava a importação de duas méquinas e não uma. Para isso, além do pagamento de novas tarifas, a mercadoria ficaria retida mais uns 45 dias.

A empresa não só não podia esperar isso tudo como não pretendia pagar 45 dias de armazenagem. Sem falar que ela havia feito tudo CERTO; não eram duas mercadorias, era uma só.

Juntando toda a papelada, conseguiu demonstrar que o fiscal estava errado e eles certos. Máquina liberada.

Porém... O fabricante havia incluído, junto à máquina, duas jaquetas como brinde. "Ah, importação de têxteis é OUTRA história. Vamos ter de reter toda a mercadoria, preencher outros formulários, recolher outras taxas, pagar multa..."

Ia sair caro - e, principalmente, DEMORADO.

"Mas eu posso ajudar vocês..."

Ajudou. Pediu oito, ofereceram quatro, fecharam por seis.

Faz de conta que foi no Brasil.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Por Que Me Deprimo - 3

- Um conhecido meu perguntou: "Você conhece a Soninha, né?". "Conheço, nós trabalhamos juntos um bom tempo". "Ela faz acerto?". "Olha, por tudo que eu conheci dela, posso jurar pra você que não". "É, mas na Lapa tem tabela de preço, e estão usando o nome dela".
- Filhos da puta! Pede pra ele me ligar, dizer o que aconteceu!
- Ah, ele não vai querer...
- Mas se ele não me disser quando, quem, o que, o que é que eu vou fazer?!
- Sabe como é, ele fica com medo de denunciar e depois se ferrar, mandarem parar com tudo... Nem sei o que é, se é obra, se é comércio...
- Então tá, ele prefere pagar pro cara do que me contar.
- É, estou te falando só pra você ficar atenta.
- Eu fico atenta, mas se um pede dinheiro e o outro paga, o que é que eu posso fazer??

***
Não precisava de mais nada para estragar o dia (já bastam os problemas normais), ainda veio essa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Nem a pau

Cheguei em casa agora, super cansada, mas não quero deixar de escrever ainda hoje o seguinte:

Alguém vir me dizer que o Roberto Freire participou da extorsão de uma empresa para obter recursos para sua campanha tem o mesmo efeito de alguém contar que viu minha filha espancando uma velhinha na esquina, ou chutando um cachorrinho, fumando no posto de gasolina ou tirando racha.

IMPOSSÍVEL.

Se alguém saiu por aí pedindo dinheiro e dizendo "é para o Roberto Freire", é preciso identificar muito claramente essa pessoa e processá-la - por estelionato, corrupção ativa, calúnia, difamação e todos os crimes correlatos. Seja do PPS, parente de alguém do PPS, nada a ver com o PPS, tanto faz.

Não é nada difícil acontecer. Volta e meia fico sabendo que alguém na Lapa anda abordando comerciantes dizendo "eu trabalho com a Subprefeita e estou pedindo isso em nome dela". Não é extorsão não, é um pedido de apoio para uma entidade, um evento ou coisa parecida. Mas as pessoas contribuem porque querem ficar bem na fita com o "amigo da Subprefeita" - ou porque tem medo de, ao negar a contribuição, ficarem sujeitos a algum tipo de represália.

Nas operações contra o comércio ambulante, toda hora aparece alguém dizendo: "Eu acertei com o Anderson!". Mas fala isso para o próprio Anderson... Ou seja, nem sabe quem é mas sabe que tem um funcionário com esse nome, então lança ao vento e se colar, colou. Ah, sim, falam também que "acertaram comigo".

Isso quer dizer que nunca tem "acerto" indevido com funcionários da Subprefeitura? Quem dera. Não faz muito tempo a Bandeirantes flagrou um agente de apoio dizendo que vendia permissão para os ambulantes trabalharem... Mas que não é porque alguém diz alguma coisa que essa coisa é verdade, óbvio!

Mas ninguém tem de acreditar na idoneidade nem jurar pela inocência de ninguém. Ninguém é inatacável, ninguém deve ter imunidade incondicional. Mas nessa droga desse país tudo é tão torto, tão mal ajambrado, que é muito mais fácil acreditar que todo mundo é ladrão do que o contrário. E se a acusação for contra um desafeto/adversário/oponente, aí então é que se acredita em tudo mesmo.

Passei 3 anos da minha vida defendendo meu partido - não em tudo, mas no que evidentemente era absurdo. O filho do Lula recebeu 5 milhões em patrocínio de uma Tele para seu canal de entretenimento com games? Pombas, o negócio era muito bom, o canal era um sucesso e a MTV tinha recebido mais do que isso com uma audiência muito menor! Se havia alguma ilicitude nas relações entre o governo federal e as empresas de telefonia, que não viessem dizer que o grande indício era a parceria muito bem sucedida naquela produtora. (Eu escrevi isso no meu blog da Folha Online, rebatendo um post, se não me engano, do Kennedy Alencar, e foi quando tomei a chamada para não falar mais de política...).A Marta disse uma frase infeliz durante o caos aéreo? Sim, mas isso não tinha nada a ver com a queda do avião da TAM, pelamordedeus! O Lula tem alguma coisa a ver com os Aloprados? NÃO, o Lula estava com a eleição quase ganha no primeiro turno, seu adversário direto era o Alckmin por que ele ia pagar um milhão em um dossiê falso para tentar destruir o Serra em São Paulo??

Vou continuar defendendo qualquer um que eu considere vítima de acusações absurdas. Tucano, petista, palestino, israelense, cubano, estadunidense, palmeirense, corintiano, carioca, paulistano. Vou continuar fazendo críticas a qualquer um que eu considere merecedor delas - aliado, oponente, amigo, desafeto, colega, inimigo. Às vezes fico meio puta por ter apanhado para cacete enquanto defendia o PT das acusações injustas (só das injustiças, e não de todas!) e não ter quase nenhum petista (usei o "quase" porque posso estar esquecendo de alguém) me defendendo em público quando o cacete era em mim, mas tudo bem. Nem todo mundo tem o mesmo saco pra entrar nas brigas como eu tenho. Sou do tipo que entra no meio de dois marmanjos se socando para apartar, mesmo que a razão diga que é melhor não entrar.

E agora sim vou dormir - ou assistir a algum seriado gringo em que os crimes são solucionados com incríveis métodos científicos e os bandidos se dão mal no final, para me consolar na ficção.

Tá valendo

No domingo, elogiei no Twitter a discussão sobre a última rodada do Campeonato Brasileiro na Rádio Eldorado ESPN mas não expliquei por que.

O ponto em debate era: "O Grêmio vai entregar o jogo para o Flamengo na última rodada?". A posição do Flavio Gomes e do Calçade era a mesma: "Claro que não".

(Para os mais desligados do campeonato - que diriam "e por que entregaria?": o Flamengo é o líder. Abaixo dele vem o Inter, mega-rival do Grêmio. Se o Flamengo perder para o Grêmio, aumentam as chances do Inter ser campeão Brasileiro (ele também precisa vencer o seu jogo...). Por isso, para impedir o seu título, o Grêmio deixaria o Flamengo ganhar).

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A torcida do Grêmio pode gritar "Entrega! Entrega!" (como gritou ao fim do jogo de domingo) e até mesmo acreditar nisso (na famosa hora-do-vamo-vê, ver seu time apalermado em campo e perder não é nada divertido...), mas os jogadores nunca terão o mesmo espírito.

Se não fosse por nenhuma outra razão, seria porque, para começar, nem todo jogador do Grêmio é gremista. Já que estamos falando de torcida, tratemos de levar isso em conta... O Souza foi jogador do São Paulo muito tempo; tem muitos amigos lá. Para que o São Paulo (4o colocado) seja campeão, umas das coisas que tem de acontecer é a derrota do Flamengo. Por que o Souza faria corpo mole?

Aliás, se o Flamengo perder, o Palmeiras também pode ser campeão. E se o Lúcio tiver algum afeto pelo clube em que se destacou?

Não, um jogador não deve se deixar levar em campo por suas próprias preferências, e é isso mesmo que acontece. Os jogadores não vão jogar com muito entusiasmo só porque seus ex-clubes estão no pareo, tanto quanto NÃO VÃO deixar de jogar só porque a vitória do Grêmio pode acabar ajudando o Inter.

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O Flavinho, na rádio, lembrou o seguinte: o Grêmio pode jogar sem muito ímpeto simplesmente porque não disputa mais nada, mas isso é completamente diferente de entregar o jogo. De um lado, um time babando pelo título do Campeonato. De outro, uma equipe que teve um ano mais ou menos, cujos grandes objetivos ficaram todos para o ano que vem. Uma vai comer grama; a outra? Provavelmente não.

O Calçade mostrou o desempenho ridículo do Grêmio fora de casa. "Se perder do Flamengo no Maracanã, é um resultado normal. Não ganha de ninguém, quanto mais do embalado líder do Campeonato Brasileiro!"

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Tem gente (que eu admiro, aliás) criticando até o campeonato de pontos corridos por "permitir uma situação dessas". Acontece que a "situação dessas" é: temos QUATRO times com chances de conquistar o título brasileiro de 2009 no próximo domingo (fora os que tentam escapar da segunda divisão). No formato antigo - que tinha sua graça, claro! - teríamos apenas dois, e os outros todos de férias. Nem jogando pra ganhar, nem jogando sem querer ganhar: PARADOS.

Isso neste fim-de-semana da final. No anterior, haveria quatro times em campo - e os outros 16 que jogaram essa 37a rodada também estariam de férias.

No meio de novembro, o oitavo colocado teria jogado contra o primeiro, o segundo contra o sétimo... E tudo o que foi feito ao longo de meses poderia ter sido jogado fora em dois jogos de ida e volta. Enquanto do nono pra baixo, estaria todo mundo na poltrona, assistindo televisão.

Toda forma de competição embute possibilidades de desvios e injustiças. Na Copa de 82, o Brasil de campanha espetacular foi eliminado por um gol por um time que vinha se arrastando, fazendo campanha medíocre com futebol sem vergonha. É do jogo.

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O Flavio Gomes concordou com uma declaração do Mano Menezes: "A gente precisa tomar mais cuidado antes de colocar a honra das pessoas em questão". Ele reconhecer que a mídia - isto é, "nós" - tem a maior facilidade para levantar suspeitas e fazer insinuações e acusações, antecipando um julgamento sobre a ética de dezenas de profissionais. Jogador de futebol tem responsabilidades, tem compromissos, tem noção! Achar que você consegue reunir um grupo - titulares, reservas, técnico, auxiliares - e dizer para todos eles: "Tratem de perder, hein?" é irreal. Se não fosse por outra razão, seria porque estão na vitrine da televisão para o mundo todo e uma conduta absurda como essa poderia colocar em risco seu próprio futuro profissional (quem é que vai confiar em um jogador que se comporta em campo como o mais fanático torcedor de arquibancada)?

O Cledi entrou na conversa: "É que eles [do futebol] dão motivo pra desconfiança, infelizmente". É, infelizmente há casos e casos e casos de maracutaias e desonestidades, leves e pesadas. Mas é justo, por causa da maracutaia de uns, deduzir que todos são desonestos? A gente (da mídia) não gosta de ser objeto de generalização; queremos que respeitem a diferença entre veículos e profissionais. Por que nos damos o direito de jogar lama indiscriminadamente? Se acontecer algo errado, temos o dever de apontar, condenar. Mas dizer antes "é claro que vai ter rolo, estragou o campeonato" é sacanagem.

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(Parei pra pensar se não é isso que eu faço quando torço o nariz para Copa e Olimpíada no Brasil. Hmm, pode até ser - mas não estou falando em hipóteses generalistas, "vai dar errado porque somos desorganizados e corruptos', estou analisando desde já os fatos das candidaturas e dos projetos, que estão cheios de erros e irregularidades. Por isso, e não só porque o Pan foi cheio de escândalos, p, ex., sou tão cética quanto ao sucesso e lisura na realização dos dois eventos).

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Para registro: sem ter nada a ver com a tabela de classificação e as chances de cada um no G4, foi péssima a atitude do Felipe, goleiro do Corinthians, ao nem tentar ir na bola na cobrança de pênalti do Flamengo no fim do jogo. Não é julgamento a priori, é a posteriori: o resultado já estava definido e não foi isso que determinou a vitória rubronegra, mas o certo era ele jogar pra valer até o último minuto.