domingo, 29 de novembro de 2009

Amigos, inspiradores e bicicletas

Coitado do Neto, ex-assessor e amigo querido...
Conheci o Neto na campanha eleitoral de 2004. Acho que ele ainda fazia Direito na PUC. Terminada a campanha, veio trabalhar comigo no Gabinete. Sofreu com meu megaestresse na campanha de 2006, foi mais feliz (como eu também fui) na de 2008.
Ao longo do mandato, fez várias coisas diferentes – acompanhou temas como Juventude, LGBT, redação e pareceres sobre projetos de lei de modo geral. Com o tempo, acabou sendo o principal colaborador nos assuntos de mobilidade e, principalmente, bicicletas. Compramos juntos nossa primeira dobrável... Ele foi usando cada vez menos carro, cada vez mais bicicleta. E olha que fazia deslocamentos freqüentes de Perdizes até a Serra da Cantareira – se alguém disser que não dá pra pedalar em São Paulo por causa das ladeiras e tiver a idade dele, discordo :o)
Depois do fim do mandato o Neto foi trabalhar em Brasília, no Ministério da Cultura. Adora. Aprendeu horrores. Sofre um pouco também – com a falta de estrutura, a incompreensão de alguns (dentro ou fora do Ministério), algumas sacanagens (de governo ou de oposição), dificuldade de relacionamento com parlamento... Enfim, aquele cardápio básico da Administração Pública. Mas adora.
Neste fim-de-semana, quando eu soube que Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, estaria em São Paulo para um café na Secretaria Municipal de Esportes e um passeio pela Ciclofaixa, perguntei se ele gostaria de ir junto.
Gostaria! Fomos.
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Os Peñalosa são incríveis. No meio da semana, o Walter Feldman (o Secretário de Esportes) convidou para uma palestra com o Gil Peñalosa – que, pelo que entendi, foi Secretário de Transportes na gestão de seu irmão. A apresentação dele foi espetacular – mais ainda porque não é apenas um conjunto de propostas e idéias fantásticas, mas a demonstração de um trabalho muito bem feito.
(Imagine se ele fosse impedido de trabalhar por ser irmão do prefeito, sob as acusações rasteiras de nepotismo... Por culpa da “esperteza” de alguns (ok, de muitos), ser parente virou motivo de suspeita, indício de prática criminosa...)
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Ele não falou apenas sobre Bogotá, mas também sobre Nova Iorque, Copenhagen e outros lugares do mundo que já investiram muito em transporte não-motorizado, com dezenas de dados e ilustrações.
No pequeno auditório lotado da Secretaria, uma pessoa ao meu lado comentou: “Aqui vai demorar muito pra ter algo assim...”
Respondi: “Não pensa que foi fácil em todos os lugares. Eles tiveram de comprar muita briga nessas cidades também!”.
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Não demorou nada para Gil começar a falar de brigas compradas.
“Aqui cabiam 73 carros”, disse enquanto mostrava uma rua que margeia um canal no centro de Copenhagen. Estacionados a 45 graus, tomavam quase todo o espaço da rua. “Estes comerciantes protestaram – vamos ficar sem nossos clientes! Nosso negócio vai falir!”.Cutuquei o vizinho ao meu lado – “viu?”. O colombiano prosseguiu: “O prefeito ouviu todos, ouviu todas as pessoas. Mas existe algo que é sagrado: o interesse da coletividade”.
Em seguida, mostrou a foto da rua fechada (ou quase fechada) para automóveis, com dezenas de mesas ao ar livre, pedestres e ciclistas passeando. “Vocês acham que os negócios pioraram ou melhoraram?”.
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Em Bogotá, a batalha não foi diferente. A prefeitura começou a proibir para valer o estacionamento de automóveis sobre a calçada. Era uma zona; carros no passeio e pessoas no meio da rua (já pensou? Tsc, tsc). Houve protestos. A prefeitura bancou. A cara da cidade mudou. A vida na cidade mudou.
“Estacionar não é um direito constitucional em nenhum país do mundo, tenho certeza!”. Esse já é o Enrique Peñalosa falando – a frase foi aplaudida em “cena aberta” no Urban Age em Istambul, com risos de aprovação (eles dois são muito expressivos; as apresentações são fantásticas). Ele repetiu a frase em São Paulo e se estendeu um pouco mais – “Tenho certeza que a Constituição brasileira prevê direito à saúde, à educação, à moradia. Não fala em direito ao estacionamento! As pessoas vinham me questionar – ‘então o que faço com meu carro? Onde vou estacionar?’. Ora, providenciar isso não é um dever do Estado. É como se me perguntassem “não tenho lugar para minhas roupas, o que a prefeitura vai fazer a respeito?”
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Mais Enrique Peñalosa: “A mobilidade é um direito de todos, não só de quem tem carro. Não é possível que só haja segurança na rua para quem passar de automóvel e o pedestre esteja ameaçado”. “Cidades são para as pessoas, não para os carros”. “Em Bogotá, a taxa de homicídios diminuiu. [Ele deu o número; não me lembro]. As pessoas passaram a ter outros parâmetros – de respeito, de civilidade, de valor da vida”. “A ciclovia é uma demonstração muito importante do princípio de que todos são igualmente importantes; todos tem direito à mobilidade com segurança, quer possua um veículo de 30 dólares ou um veículo de 30 mil dólares”. “A ciclofaixa é a semente da revolução. Ela é a demonstração, a lembrança de que as pessoas tem direito ao espaço público. Depois de pedalar um pouquinho que seja na ciclofaixa, as pessoas percebem que é possível pedalar, que é possível percorrer 5 km com facilidade. De carro, a gente acaba pensando que as distâncias são todas enormes, e de bicicleta você vê como as coisas são próximas”.
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Ainda vou escrever muito mais sobre eles. Mas preciso explicar por que “coitado do Neto”.
Porque fiquei horas falando, quase sem parar, sobre prefeitura, Câmara, imprensa, comunidade, Istambul, etc. Acho que ele ficou até tonto. Mas foi muito bom pra mim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

"Área de esporte e convivência? SOMOS CONTRA!"

"Queremos estacionamento!"

Oh my God.

Foi isso quevivemos no final do ano em relação à ocupação dos baixos do Viaduto da Lapa.

Há MUITO tempo mal utilizada, a área está (ou estava) prestes a ser revitalizada e devolvida à população em condições melhores, mas alguns moradores se mobilizaram e barraram o projeto que a Sub tinha aprovado.

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Logo no começo do ano passado, moradores vizinhos ao viaduto perguntaram em uma reunião do Conseg: "O que vocês pretendem fazer ali? Na época da Erundina havia quadras esportivas - tão boas que o piso e a sinalização no chão ainda estão razoáveis. Seria bom recuperá-las. E também oferecer atividades para terceira idade, porque são muitos os idosos que moram e circulam por ali".

"Faz tempo que eu não vou lá. Como está agora?"

"Uma zona, tem gente estacionando carro ali, tem um lava-rápido clandestino usando água da prefeitura..."

Fui lá ver, estava uma zona mesmo. Começamos a tomar providências para impedir o uso indevido e a pensar no que fazer para recuperar a área, usando como base um projeto simples mas bem feito apresentado pelos moradores.

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Logo depois, uma entidade nos procurou em busca de um espaço para desenvolver suas atividades - capacitação profissional, geração de renda, formação em cidadania etc. Precisavam de um espaço. Indicamos o viaduto da Lapa - com a condição de que eles nos ajudassem a atender a demanda dos moradores. Mostramos o projeto, eles concordaram. Fizeram contato com o autorda proposta e ficou tudo acertado. Nem todas as expectativas seriam atendidas, mas com pequenos ajustes seria possível.

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Passamos um ano tocando a papelada para firmar a parceria. Enquanto isso, saíram comunicados no Diário Oficial (ok, ninguém lê), matérias em jornais locais (aqui, todo mundo lê) e eu mencionei o projeto em várias reuniões públicas. Estava tudo indo bem.

Até que...

Ao fechar de vez o estacionamento clandestino etc., causamos, é claro, incômodo a quem o utilizava. Não sei se os prejudicados foram os responsáveis por isso, mas a partir daí começou a circular uma história completamente distorcida a respeito do que seria feito debaixo do viaduto. Quando a diretora do projeto foi visitar as instalações para começar a tomar providências, foi cercada por moradores - e muito maltratada.

Eles vieram até aqui em comitiva, e nós os recebemos. Eram, na maioria, idosos preocupados com "o lixão" que ia se instalar ali (a atividade proposta é de reciclagem de produtos eletrônicos) e "a baderna" decorrente da utilização das quadras.

Explicamos que não tem nada de "lixão"; seria um lugar para lidar com baterias de celular, peças de computador, etc. Tudo sem cheiro, sem chorume, sem bichos. E que as quadras teriam sua utilização monitorada, agendada, organizada. Ninguém ia ficar batendo bola ali a noite toda.

Aliviados, pareceram convencidos de que seus temores não tinham razão de ser. Quiseram acompanhar as atividades de perto, para garantir que o viaduto não seria invadido por maloqueiros drogados interessados em usar a quadra como ponto de drogas (sabe como é...). Ok, garantimos a eles que o uso ia MELHORAR o lugar, não piorar!

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Dali a alguns dias, como se nada tivesse acontecido, houve novas manifestações. "Somos contra, a população não é ouvida, nós temos direito, queremos ser consultados". Os bestas aqui não fizeram ata da reunião, não pediram para os presentes assinarem... Não adiantou explicar, com a maior clareza, quais eram os planos. Não adiantou ouvir a preocupação das pessoas e garantir que nós estávamos atentos a isso.

E aqui estamos nós, quase na estaca zero. Recebi a cópia de um abaixo-assinado enviado ao prefeito; estou elaborando uma resposta (quilométrica, por isso não terminei ainda). Vou blogá-la em capítulos para que todos os interessados possam avaliar o projeto - e, ao que parece, ver o que estamos perdendo.

(A diretora da instituição não se sente nada confortável em começar um trabalho que conta com rejeição tão forte - de uma parte apenas da população, mas uma parte organizada e barulhenta. Talvez tenhamos de começar tudo de novo)


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Destruída, reconstruída, tomada, retomada...

(Istambul - Primeiras impressões e um bocado de história)

Era pouco mais de meia-noite e chovia. A primeira visão de Istambul não foi especialmente memorável. Eu esperava encontrar, de cara, sinais de história milenar para todo lado e ares de Expresso do Oriente. Mas o que eu via ao longo das avenidas eram prédios "modernos" à moda "antiga", como nas cidades do litoral de São Paulo (Santos, São Vicente). Nada do charme enigmático da minha imaginação.

Aos poucos foram aparecendo as belezas esperadas (minaretes, pontes) e as inesperadas, como uma profusão de bandeirinhas ao longo de uma avenida (sobras da comemoração do dia da Proclamação da República) e painéis fotográficos iluminados por toda a extensão de uma muralha. Nos dois últimos casos, homenagens a Kemal Atatürk, o maior herói da pátria.

A Wikipedia me facilita o trabalho de explicar quem foi ele (estou para fazer um depósito em contribuição a ela...)

Mustafa Kemal Atatürk (Selânik, 1881 — Istambul, 10 de novembro de 1938) foi um oficial do exército, estadista revolucionário e fundador da República da Turquia, assim como o seu primeiro presidente. (...) Suas campanhas militares bem-sucedidas asseguraram a liberação do país e a proclamação da república no lugar do antigo governo imperial otomano. (...) Como primeiro presidente da Turquia, Atatürk embarcou num ambicioso programa de reformas políticas, econômicas e culturais. Um admirador do Iluminismo, Atatürk procurou transformar as ruínas do Império Otomano numa nação-Estado democrática e secular. Os princípios das reformas de Atatürk costumam ser chamados de "kemalismo", e continuam a formar a fundação política do Estado turco moderno.

Istambul tem uma história tumultuada como poucos lugares no planeta (e a concorrência é pesada). É que ela começa longe... “Em 2008, durante as obras de construção da estação de metrô Yenikapı e do túnel Marmaray, na península situada no lado europeu, encontrou-se um assentamento neolítico até então desconhecido, datado como sendo de cerca de 6500 a.C.”. Depois de povoados da época dos fenícios, registros de tribos trácias etc, foi fundada, por colonos gregos, a cidade de Bizâncio, já em 600 e tanto antes de Cristo.

Bizâncio foi tomada e perdida por persas, espartanos, atenienses, macedônios, celtas...

No século II a.C. vieram os romanos, que primeiro a reconheceram como aliada e depois acabaram se apossando dela. A cidade foi destruída por conta de uma disputa entre os próprios romanos . Reconstruída outra vez, rebatizada (Augusta Antonina, Nova Roma), foi estabelecida como capital do Império Romano pelo imperador Constantino I. Império que se dividiu alguns anos depois; a cidade, mais conhecida como Constantinopla (o nome Nova Roma não chegou a pegar...), permaneceu como capital do Império Romano do Oriente, depois Império Bizantino (referência, claro, à colônia de Bizâncio, ocupação pioneira da região).

A combinação do imperialismo e a posição estratégica desempenhariam um papel importante, como encruzilhada entre dois continentes (Europa e Ásia) e caminho para a África e outros territórios (...) em termos de comércio, cultura, diplomacia e estratégia. Em um enclave tão valioso, Constantinopla era capaz de controlar a rota entre a Ásia e Europa, assim como a passagem do Mar Mediterrâneo ao Mar Negro. Embora a parte ocidental do Império Romano tivesse entrado numa crise econômica, comercial, política e demográfica, Constantinopla manteve a sua posição durante séculos, convertendo-se na grande metrópole européia medieval

Manter a posição “durante séculos” não quer dizer que não tenha havido mais um milhão de sobressaltos. Depois eu volto a eles.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Enquanto isso, no Campeonato Brasileiro...

"Se eu fosse o Belluzzo, mandava o Obina embora. E olha que eu sou são paulina!"

Belo jeito de chegar em casa. A mensagem da minha irmã chegou quando eu estava entrando no elevador. Comentei o torpedo com meu vizinho, que subia com uma cheirosa pizza, e ele detalhou: "Saiu na mão com o Mauricio na beira do campo". Entrei em casa a tempo de ver a expulsão do zagueiro, na volta para o segundo tempo.

***
Estou chegando de uma plenária, isto é, reunião em formato de auditório em que os presentes tem direito à palavra. Um evento quase sempre fadado à frustração, irritação, agressividade.

Era uma audiência promovida pelo NAL, grupo organizado de moradores da Vila Romana. A ideia deles: chamar os vereadores mais votados na região para discutir a possibilidade de destinarem recursos de emendas orçamentárias para melhorias e intervenções diversas. A Subprefeitura foi convidada também para ajudar a esclarecer onde recursos adicionais poderiam ajudar a executar melhor nossas tarefas.

Fiz uma lista com as obrigações básicas do dia-a-dia - poda, capinagem, limpeza de boca-de-lobo... - que podem ser mais bem desempenhadas se pudermos contratar mais equipes (e para isso precisamos de mais $). Fui um pouco além das tarefas de zeladoria e manutenção: podemos contratar projetos de requalificação de praças, becos, escadarias, ruas e quadras; podemos organizar muito mais eventos e atividades, como projetos de educação ambiental junto a escolas e entidades da região ou promoção de apresentações musicais ao ar livre no fim da tarde. E coloquei também alguns sonhos, como implantar rede wi-fi para acesso dos cidadãos em toda a Lapa e reformar os Cingapuras Água Branca e Madeirit... Querendo mandar dinheiro pra gente, temos um vasto cardápio de alternativas!

Mas é impossível fazer um encontro desse tipo entre a população, vereadores e Subprefeitura sem que vire uma sessão de desabafo, reclamações, protestos enraivecidos.

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"Faz UM ANO que eu tenho um problema sem resolver!".
Sabe o que é pior? Deve haver uns 1000 problemas esperando mais de um ano para serem resolvidos.

"Eu vou lá na Subprefeitura e não consigo falar com você!".
Mas não pode aparecer lá sem marcar e achar que eu vou poder. Pode até dar sorte, mas eu posso não estar no prédio, posso estar recebendo as pessoas que marcaram hora, respondendo duzentos mil emails, tomando providências... Não dá pra garantir que eu vou estar livre para atender.

"A gente tá CANSADO de pagar imposto e não ver ninguém fazer nada! Queremos segurança, queremos polícia"
Eu também moro aqui, também pago imposto, também quero segurança. Mas não é simples assim: "Eu pago imposto, tudo vai dar certo". E a Subprefeitura não tem responsabilidade sobre a polícia.

"Por que vocês não conseguem cortar uma mísera árvore?"
Porque não é "uma mísera". Tem seis mil pedidos para atender, fora as que não tem pedido e também precisam de providências; podar como se deve e, principalmente, remover uma árvore são serviços demorados. Eu queria poder podar todas amanhã, mas NÃO DÁ.
"Não dá por que?"
Porque com os recursos que eu tenho dá para contratar cinco equipes. Se me mandarem mais recursos, por exemplo por meio de emendas parlamentares, eu contrato dez!

"E a sujeira das calçadas? Não aguento mais tanta imundície"
Deixa eu contar uma coisa: o contrato de varrição determina que as equipes varram o meiofio. A calçada é responsabilidade do munícipe. Muitos não varrem - e eu já vi muita gente varrendo a calçada e deixando o lixo no meiofio...

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Caras feias, cabeças abanando, ruídos de desaprovação.
"Eu não posso vir aqui e dizer "vou fazer, deixa comigo, logo estará tudo resolvido" Vocês iam gostar mais de ouvir, mas seria mentira!"
Caras feias, etc.

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O clima era tão beligerante que, a certa altura, nem me lembro por que, eu disse: "Tô vendo gente aqui do Jaguaré, Pompeia, Vila Anglo, Vila Ipojuca..." Uma parte do auditório protestou ruidosamente: "Não! Não! Aqui é reunião da Vila Romana! Da VILA ROMANA!"
Oh god. Parecia até que eu tinha inventado, por alguma razão maluca. Ou que aquelas pessoas não deviam estar ali.

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Os vereadores presentes se manifestaram.

Um deles criticou a terceirização dos serviços - "antes, as prefeituras tinham suas equipes. Se pecisava cortar mato, limpar bueiro, mandava lá os funcionários da prefeitura, saía mais barato".

Discordo.

Para a prefeitura fazer a poda de árvores, por exemplo, teria não só de ter os funcionários em quantidade suficiente (e "perder" cada um deles no mínimo um mês por ano doze, contornar as ausências a que os servidores concursados tem direito, etc) mas também ter motosserras, gasolina para as serras, caminhões, kombis... E precisar comprar cada parafuso, armazenar, manter, consertar... NÃO, o serviço ganha muito mais eficiência quando uma empresa contratada tem o dever de providenciar kombi, caminhão, motosserra, funcionários treinados. Se um caminhão quebrou, o problema é deles; eles tem de mandar outro caminhão no horário marcado, ou serão descontados.
"Ah, mas tem muita malandragem, você contrata a equipe e pensa que ela está trabalhando em um lugar e ela não está".

Como se isso não pudesse acontecer com funcionários diretos!

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No momento de maior ódio aos políticos, à prefeitura e, em particular, à Subprefeita um senhor gritou: "Tomara que você vá lá também, tropece e bata a cabeça!"
Já com o auditório vazio e ele mais calmo, reclamei: "O senhor me desejou O MAL, seu Ramón?!"
"Ah, a gente perde a cabeça... É que tá tudo errado. Um país como esse, em que nasce batata o ano todo, em que nasce de tudo, não podia estar desse jeito. Sabe o que é? Aquela revolução de 64 destruiu tudo".
"É, a gente deixou de fazer muita coisa quando devia ter sido feita e também fez muita coisa mal feita que agora tem de corrigir... É muito difícil".

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Antes de ir embora, lembrei que é impossível ouvir todo mundo hoje à noite (se cada uma das 60 pessoas falasse 2 minutos, seriam duas horas só falando...), e que também não é necessário ouvir cada um dos problemas individuais no auditório... Não é um caso de "falem agora ou calem-se para sempre". Podemos continuar conversando.

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Fomos embora moderadamente em paz. A moto que eu peguei emprestada estava na porta! Aí eu chego em casa e o Palmeiras deu mais um vexame.

Por Que Me Deprimo - 2

Boa reportagem do Tiago Maranhão, meu ex-colega de ESPN-Brasil.
Boa mas muito, muito deprimente.
Por que?
Porque as crianças trabalham.
Porque os comerciantes largam o material misturado na rua para que os catadores peguem de madrugada.
Porque o catador ganha mais catando material na calçada do que no emprego que ele tinha antes.
Porque empresas compram material deles assim, no meio da rua.
Porque deixam a rua imunda depois de retirarem o que interessa.
Vejam:

Da Série "Por Que Me Deprimo" - 1

Correspondência interna

"Sr.Supervisor,

Conforme contato telefônico, informamos que os ultimos desabrigados do incendio que ocorreu no ultimo dia 11 de Outubro, que estavam alojados no Clube (abrigo provisório), foram embora no dia 06 de Novembro (sexta-feira), e o Cras (Setor Assistência Social da Prefeitura), fechou oficialmente o abrigo. Estamos realizando uma limpeza geral, nos dias 09 e 10/11 (segunda e terça), e reabriremos para o público no dia 11/11 (quarta-feira), com algumas ressalvas.

É importante resaltarmos que, após o período de abrigo, não estamos devolvendo a comunidade o Clube no bom estado de conservação que se encontrava, mas sim totalmente depredado.

Solicitamos que viabilize, junto a Secretaria e a Subprefeitura, as providencias necessarias, com a maior brevidade possivel, no sentido de arrumarmos esta unidade, trazendo de volta o que foi quebrado e depreciado.

RELATÓRIO:

# As salas de ginástica e corredor estão com as paredes sujas e pichadas;

# Os banheiros masculino e feminino, também foram bastante pichados e danificados, incluindo as bacias e as valvulas;

# A porta do congelador e porta geladeira foi quebrada e riscada;

# O microondas foi quebrado;

# Os utensilios que eram utlizados na cozinha, e que foram comprados com verba prória (eu comprei), não temos mais como: copos, pratos, talheres e algumas panelas;

Para colocarmos a casa em ordem precisamos de material e mão de obra, com urgência.

Outrossim, informamos ainda, que o débito da Casa de Material Pedroso, é de R$ 923,35 (Novecentos e Vinte e Tres Reais e Trinta e Cinco centavos), tenho em mãos a resposta do almoxarifado, informando que os materiais relacionados não existem em estoque.

Atenciosamente,"


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Por que me deprimo?
Acho que não precisa nem explicar. Em todo caso, se precisar, eu explico.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O "I" do BRIC

Já que estou desencavando rascunhos não publicados, vou publicar mais um. Comecei a escrever esse texto assim que cheguei a Istambul - na verdade, a tradução de um boletim publicado pelo Urban Age sobre quatro cidades da India e algumas comparações com Londres, Nova Iorque, Berlim e Joanesburgo.

Urban Age é "uma investigação mundial sobre o futuro das cidades". Como funciona? Foi concebida a como "uma sequência de seis anos de conferências internacionais promovidas em cidades na Africa, Asia, nas Américas e na Europa entre 2005 e 2010. O Urban Age vai construir um suporte para uma rede crescente de indivíduos que trocam informações, experiências e dados, enfatizando as relações entre investimentos, planejamento e construção, e os processos econômicos, ambientais, sociais, políticos e culturais que moldam a vida na cidade".

Não tinha publicado ainda porque queria traduzir mais um pouco, mas acho melhor compartilhar logo. Como é comum em casos como esse, o texto nos parece dolorosamente familiar. O que se diz sobre a Índia poderia tranquilamente ser usado em uma publicação sobre o Brasil, com mínimas alterações. A foto da capa do Boletim poderia ter sido feita em alguma cidade nossa.

Quero escrever muito mais sobre o Urban Age - a Conferência de que participei em Istambul foi uma das coisas mais legais que fiz nos últimos tempos. Como nunca terei tempo para fazer os imensos relatos e reflexões como gostaria, acho que vou gravar em vídeo, como se fosse uma entrevista. Já queria ter feito isso, mas também não deu tempo. Quem sabe hoje...

Por enquanto, vai aí o tal texto sobre a India. Tem mais no site, mas em inglês: http://www.urban-age.net/publications/reports/india/



"Em 2007, o Urban Age, uma iniciativa conjunta da London School of Economics and Political Science e da Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society, iniciou um programa de pesquisa em quatro cidades da India (Mumbai, Calcutá, Delhi e Bangalore), seguido por uma conferência em Mumbai, para entender como essas cidades estão lidando com os desafios do crescimento e comparar essa resposta com as que são encontradas em outras cidades pelo mundo.

As quatro cidades estudadas tem uma população de quase 35 milhões de pessoas (78 se incluirmos as regiões metropolitanas) e uma economia que movimenta cerca de $360 bilhões no escopo de suas aglomerações.

O crescimento dessas cidades foi explosivo nas últimas décadas do século XX, largamente alimentado pelas pessoas que se mudaram do campo para trabalhar nas cidades que se industrializavam rapidamente. Esse crescimento diminuiu nos últimos anos, mas criou forte pressão sobre a infraestrutura. Ruas que não foram projetadas para carros estão sufocadas pelo tráfego, com conseqüências que incluem o aumento da poluição, queda da eficiência econômica e uma contribuição para o desafio global das mudanças climáticas. Sistemas de drenagem e saneamento também estão sobrecarregados, levando a índices consideráveis de fatalidade decorrentes de enchentes e doenças (mais ainda pelos padrões climáticos alterados como resultado do aquecimento global).

Depois de décadas de mudanças velozes, essas cidades ocupam hoje o ponto de culminância entre a economia globalizada e os desajustes que surgem em seguida: indústrias de ponta na área da Tecnologia da Informação convivem com baixas taxas de alfabetização, novos condomínios dão vista para favelas. As densidades variam, mas tendem a ser mais altas nas áreas mais pobres: na Grande Mumbai, mais de 50% da população vive em favelas que ocupam 8% do solo da cidade.

(...)

Cada uma das cidades estudadas pelo Urban Age está buscando empregar o uso do solo e o planejamento de transporte para assegurar uma forma mais integrada e eficiente de desenvolvimento urbano, mas toas enfrentam desafios sistêmicos e comportamentais:

- O crescimento urbano acelerado atropelou o processo de planejamento, resultando em planos reativos e, frequentemente, ultrapassados;
- A execução é fraca e a área do planejamento é vista como de baixa capacidade, levando à perda da credibilidade;
- Uso do solo e planejamento do transporte são conduzidos como atividades separadas, levando a novos empreendimentos sem transporte, e infraestrutura de transporte que falha na expansão das visões de longo prazo da cidade;
- A responsabilidade pelo uso do solo e o planejamento de transportes é fragmentado entre diferentes órgãos e níveis de governo, apesar de recentes mudanças constitucionais voltadas para a racionalização das estruturas locais de governo.

(...)

Aproveitando o dinamismo do desenvolvimento urbano na India, os líderes das cidades podem fazer a diferença. Com reforma organizacional e a criação de novas estruturas governamentais que reconheçam o papel das cidades, eles podem colocar suas cidades na linha de frente do crescimento sustentável".

sábado, 14 de novembro de 2009

Gentis fina

Calor da moléstia em São Paulo. Comércio ilegal de cãezinhos correndo solto da Praça Apecatu.

Os bichinhos são mantidos em caixas de papelão o dia todo, sem o menor cuidado. Claro que eles não tem documentos, certificado de vacina, vermifugação, nada disso. Não tem nem água e comida durante o dia... Morrem de calor, enquanto a freguesia não se decide por um deles.

Vai saber o grau de responsabilidade dos compradores. Se não se importam com as condições em que se encontram ali no canteiro central da avenida, será que estarão dispostos a agüentar todas as dificuldades de ter um animal de estimação por treze anos ou mais?

***
“Quando eu voltar, tiro uma foto deles”. Já reprimimos esse comércio por dois meses no lado da praça que fica na Subprefeitura da Lapa. Deixamos uma viatura da fiscalização estacionada ali, com nossos agentes, durante oito ou mais fins-de-semana seguidos. Depois de um tempo sumidos, se instalaram no lado da Sub de Pinheiros.
Na semana passada, fizemos uma operação de repressão a esse comércio, com GCM, Polícia Militar, apreensão e um veterinário voluntário, que pudesse constatar os maus tratos aos bichinhos.

Os vendedores reagiram violentamente. Disseram que o veterinário é de uma ONG que os “persegue” e não aceitariam seu laudo. O veterinário é reconhecido como tal pelo CRMV... Em todo caso, se quisessem contestar a ação na Justiça, ok, não há o que opor. É seu direito

No fim, acabaram todos na delegacia, autuados por sua atividade que, além de irregular, é ilegal. Mas fizeram um escândalo. Ficaram eles mesmos como depositários dos bichos (não podemos metê-los em um saco de ráfia e levar para o depósito da apreensão...) e foram multados.

***
Na volta (da inspeção veicular), passei por ali e, como tinha planejado, tirei uma foto (para adicionar aos processos contra eles – e aos planejamento das novas ações. Brinquei com a Rachel – “Fica com o telefone na mão, preparada para ligar para 190”.

Quase chegamos a esse ponto.

Parei o carro e tirei esta foto:



No mesmo instante, ouvi uma pancada no carro. Não sei se foi um tapa ou se arremessaram algo. Tirei mais uma foto dos carros estacionados, mas ficou péssima por causa da distância.



Apareceu um sujeito com um celular tirando fotos do meu carro. Veio na minha direção e começou a berrar: “O que você está fazendo? Não sabe que não pode tirar foto do carro dos outros?”

“Sei que não pode fazer o que vocês estão fazendo. É comércio irregular”.

“Ah, é? Pois eu sou polícia também!”, gritou, apoplético. Olhos injetados, aparência lastimável. Se for policial, deve estar afastado ou de licença – não se chega àquele ponto depois de um ou dois dias de folga. “Você vai ver”.

“Se você é policial, pior ainda”.

“Vou fotografar seu carro”.

“ E eu vou fotografar você, posso?”

Aí ele veio pra cima de mim (que não cheguei a sair do carro): “Se me fotografar eu quebro a sua câmera”

“Eu vou fazer um B.O. de ameça”.

“Faz! Faz!”

Outras pessoas chegaram perto. Uma mulher começou a gritar: “O que você quer? Sai aqui fora! Vem aqui, vou quebrar tua cara!” E começaram a bater no carro, enquanto ela já punha a mão pela janela.

Cheguei a pensar que a coisa ia mesmo ficar feia – o fato de ser em plena luz do dia, a poucos metros de uma delegacia e de um posto da PM, de haver várias testemunhas, não os impediu de gritar, cercar o carro, bater na lataria. Eles quebrariam a câmera, partes do carro, quem sabe a minha cara. Estavam absolutamente transtornados. Como disse um dos presentes à operação da semana passada, “o pessoal ali é barra pesada”.

“Não, eu vou fazer B.O.”

Na delegacia, me disseram que tenho seis meses para fazer o registro da ocorrência e que não precisa ser ali. Mas se além do registro eu quiser levar a ação adiante, precisarei representar contra as pessoas que me ameaçaram no distrito correto.
O que eu quero é reunir elementos para que eles parem de fazer o que estão fazendo e respondam por todos os seus malfeitos. Vou fazer o que for preciso.

***
Na volta da delegacia, passei por uma das entradas de estacionamento do Parque Vila-Lobos. O rapaz alto e magro, que aparece na foto, estava saindo de lá – tinha acabado de estacionar um dos carros deles ali.
Quer dizer, eles praticam comércio ilegal, maus tratos, sujam o canteiro central, ameaçam... e param o carro no estacionamento do parque, tomando a vaga de quem só queria passear com os filhos ou netos. Que beleza.

***
A inspeção veicular foi tão breve que mal deu tempo de ler uma carta enquanto eu esperava. Fiquei feliz com a organização – nem precisamos apresentar o número do protocolo de agendamento; o moço na primeira cabine digitou o número da placa e já localizou. A orientação é cortês e correta; tudo bem planejado e bem executado.
Comecei a tirar fotos para mostrar como as coisas funcionam bem (ai, como é bom quando funcionam bem... Ali na porta (Engenheiro Billings) a prefeitura tem há meses um problema seríssimo para resolver (solapamento de uma pista) e até agora nada...). Mas logo um rapaz apareceu para dizer que “não pode. Só com autorização”.

“Quem pode autorizar?”

“O Supervisor. A sra quer que chame?”

“Quero”.

O Supervisor veio e disse que só com solicitação prévia à direção da empresa. Ai, que saco, eu queria elogiar o serviço, mas tudo bem, eles foram educados, não quis brigar. Mas também não ia desistir. “E você tem um contato da pessoa para quem preciso pedir autorização?”. “Tem no site, no mesmo lugar em que a sra. agendou a inspeção. Aí marca com a assessoria de imprensa, que vai agendar uma data durante a semana para a senhora vir aqui e dar todas as informações necessárias”.
Já sei o que vou fazer: vou passar as fotos que tirei antes de ser advertida (foram 3 ou 4) por email para a assessoria de imprensa e ver se ela me autoriza a publicar.

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Acho que o meu horóscopo hj desaconselhava tirar fotos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"Reclama"

(Pensei que já tinha publicado esse post, que tem umas duas ou três semanas. Por alguma razão misteriosa, ficou no rascunho)

Quinta-feira, 12:00. Saí de carro de manhã, passei o dia todo sobre quatro rodas, um saco. Não tenho mais moto, tinha várias coisas para fazer em muitos lugares diferentes e, o pior, duas sacolas pesadas para carregar, uma com notebook. Enfim, sucumbi aos encantos teóricos do automóvel – teóricos porque, na prática, é um inferno andar de carro em São Paulo.

Fui da Vila Pompéia para o Paraíso (perto do Sesc Vila Mariana), de lá para o Centro Cultural Vergueiro, de lá para os Jardins. Achei uma vaga na Zona Azul a uns dois quarteirões de distância do lugar onde tinha uma reunião, mas não tinha cartão. Logo se aproximou um senhor para vender: “R$5,00”. “Não, obrigada, quero pagar preço oficial”. “Pelo preço oficial, só se você comprar um talão inteiro”.

Não me interessei (nem tinha dinheiro para um talão inteiro) e fui até a banca de jornal da esquina. “Tem Zona Azul?”. “R$4,00” – e me estendeu uma folhinha com o preço impresso. “Mas o certo é R$3,00”, reclamei. “Aqui é R$4,00”, respondeu a mulher, de queixo erguido. “Não tá certo, tem de vender pelo preço oficial”.

“Reclama”, encerrou, fazendo careta arrogante.

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Liguei 156. Primeira pergunta: “Onde tem um posto de venda oficial da Zona Azul aqui perto?”. A moça pediu “um momento” e me deixou uns 3 minutos ouvindo musiquinha. (“Mas ela nem perguntou onde eu estou? Será que identificou minha chamada por GPS?”, delirei. Ou está transferindo a minha ligação para o departamento correto?”). Ela voltou: “Senhora, os postos de venda oficiais são bancas de jornal e farmácias. Infelizmente, não temos uma lista para informar qual é o mais próximo da senhora”. “Tá bom. Então como eu faço para denunciar uma banca que está vendendo acima do preço oficial?” “Mais um momento”. Dessa vez a musiquinha foi mais rápida. “Senhora, é uma denúncia, não é?”. “É uma denúncia”. “Então, senhora, a denúncia é só com a polícia. A senhora precisa ligar 190”.

Não liguei. Mas ainda vou falar com a Sub de Pinheiros (já devia ter falado, aliás).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Itaberá 2

Hj os jornais comentaram a declaração do ministro Edison Lobão (ex-Arena e PDS, ex-PFL e DEM, atual PMDB) atribunindo o apagão à tempestade elétrica em Itaberá, sul de São Paulo. As moças do tempo concordaram que ali, sim, houve chuva forte, vendaval, raios.

Mas foi isso mesmo que causou o apagão??

No Bom Dia Brasil, o diretor do Operador Nacional do Sistema, Eduardo Barata, disse que "é possível, sim, que as condições climáticas adversas naquela região tenham sido causadoras de curto-circuitos". É "possível"! "Se foi uma descarga atmosférica que causou, isso não foi posicionado com certeza em nenhum momento. A origem desse curto pode ter sido das descargas, ventos que provocam o balanço da cadeia de isoladores e a chuva, que faz com que isolaradores se tornem condutores". Mas o ministro não teve dúvida, disse "foi um raio" e pronto!

Digamos que tenha sido. Afinal, "é possível". Perguntas:

1) Se os registros da ONS apontam claramente que houve um curto naquela linha de transmissão, por que demorou tanto tempo para que essa informação fosse conhecida? (Durante o Apagão, as autoridades só diziam "estamos tentando descobrir o que aconteceu").

2) Tendo havido o curto, o que foi feito para saná-lo? O que precisou ser substituído ou reparado?

3) O diretor da ONS diz que o sistema funcionou muito bem. Se as outras linhas de transmissão não tivessem sido todas desarmadas após a ocorrência do curto, teria havido danos graves a todo o sistema.

Peraê. Um sistema de segurança deve estar estruturado exatamente para evitar que o todo seja atingido quando há um problema com uma das partes. Se dá curto no chuveiro, queima o fusível/cai o disjuntor correspondente. Em casos de maior impacto, cai a "chave geral" - da sua casa, não do bairro todo, muito menos da cidade. O sistema tem suas cancelas, suas barreiras.

Se houve um curto nas três linhas de transmissão, é mais do que compreensível que elas caiam. Mas se todas as outras caíram também, é porque o isolamento de uma para outra não é adequado. Se toda vez que cair um raio em São Paulo (e o ministro diz que ali "tem muito raio", fica o Paraguai sem luz??

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Ontem, na Ana Maria Braga (é, eu vi um pedaço...), um especialista em infraestrutura (não consigo achar o nome dele) deu uma entrevista muito boa, crítica e sóbria, sobre nossa bendita infra. Explicou essa história de sistema interligado, que faz com que todas as pontas da rede sejam muito dependentes umas das outras. "Qdo você recebe energia na sua casa, pode estar vindo do Sul, do Centro-Oeste, do Norte... E se ocorre um problema em algum ponto da rede, ela é toda afetada.

Mais do que isso, há um problema de concepção. O governo está investindo em outras mega usinas na Amazônia. Para a energia gerada lá chegar ao resto do país, são milhares de quilômetros de linhas de transmissão. Por melhores que sejam os cuidados, ela está exposta a um sem-número de problemas - acidentes, atentados, sabotagens.

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Senti falta de entrevistarem a Marina Silva sobre isso. Os ambientalistas sempre ficaram de cabelo em pé com essas novas usinas (Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira), por várias razões. 1) Os estudos de impacto ambiental, hiper discutíveis (lembram do discurso do Lula sobre o "bagre" que atrapalhava o progresso? A condução do governo foi nessa linha - "não me venham com essas baboseiras de meio ambiente, o Brasil precisa crescer"); 2) O custo; 3) A existência de alternativas muito melhores.

Na época, o licenciamento das usinas foi considerado (mais) uma derrota da ministra do meio ambiente (achei um texto muito bom sobre isso aqui.

Em um evento em São Paulo (Seminário Produção Mais Limpa, organizado pelo vereador Natalini no Memorial da América Latina em 2008), alguns técnicos apresentaram um cálculo demonstrando que a economia que seria proporcionada pela substituição de chuveiros elétricos por aquecimento solar nos grandes centros equivaleria aos megawatts de energia a serem gerados pela futura Usina de Jirau...

Ou seja, temos IMENSAS possibilidades de depender menos de energia hidrelétrica - o que resultaria em menos custos, obras de menos impacto, menor necessidades das tais linhas megaquilométricas de transmissão. Mas os ambientalistas são sempre os chatos de plantão, que tem má-vontade e só querem atrapalhar o governo e os negócios.

E aí, vão entrevistar a Marina ou não vão? (Se alguém já entrevistou, desculpem, não vi).

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A culpa é de Itaberá

Hoje o Jornal Nacional entrou ao vivo da sala do Operador do Sistema de geração e transmissão de energia elétrica. Um painel mostra em tempo real o nível de consumo do sistema interligado - quantos megawatts estão sendo consumidos de hidrelétricas, termoelétricas, nucleares, energia eólica e sei lá mais o que. O repórter explica que não foram escalados operadores extras porque está tudo tranquilo - "Passado o horário de pico, o consumo se mantém em níveis aceitáveis e o sistema ainda tem muitos milhares de megawatts de capacidade". E encerraram o jornal dizendo "que bom, está tudo tranquilo e de volta à normalidade".

Peraê. E ontem a esta hora, como estavam as coisas? Tranquilas, eu suponho... Pouco depois, poft, caiu tudo. Como eles podem saber que não vai acontecer de novo hoje mesmo?

Ou será que ontem às oito da noite não estava nada tranquilo, e o tal painel mostrava um nível perigoso de consumo? (E ninguém tomou providência nenhuma, se é que seria possível tomar alguma assim na emergência)

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As primeiras hipóteses sobre as causas do apagão divulgadas pela imprensa foram: 1) Queda de um raio. 2) Queda de uma torre de transmissão por culpa de um vendaval.

Hoje, todas as moças do tempo dos jornais disseram que não havia nem sinal de tempestade naquela região. Será que alguém com responsabilidade sobre o sistema realmente chegou a cogitar essas causas ou a imprensa publicou o primeiro palpite que ouviu?

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O último apagão foi batizado com o nome do então presidente. Esse...?

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Lula disse que "nos últimos sete anos, o governo fez o equivalente a 30% de tudo o que foi feito nos últimos 123 anos em termos de energia, com forte investimento no setor de transmissão e também em modernização do sistema".

Não sei se foi mesmo feito "forte investimento no setor", mas essa medida dos últimos "123 anos" é sensacional. Eu tenho uns números assim também:

- Nos últimos vinte anos, o acesso à internet aumentou 120.000.000% em relação aos últimos dois milênios.
- Nos últimos cinco meses, os brasileiros usaram 450% mais o Twitter do que em todo o último século.

E por aí vai.

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O Ministro das Minas e Energia, Edison Lobão (ex-Arena/PDS, PFL-Democratas, atual PMDB), insiste no "acidente causado por mau tempo": "Segundo ele, "descargas atmosféricas, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá, em São Paulo” causaram “um curto-circuito em três circuitos que levam as linhas de transmissão (da usina hidrelétrica de) Itaipu para Itaberá". (do site da BBC)

"Ele (o sistema) não é frágil, é forte, voltou em minutos em alguns Estados e em questão de poucas horas no Rio e em São Paulo", afirmou.
Mas Lobão reconheceu que as condições meteorológicas podem voltar a causar problemas do tipo.
"O Brasil é um dos países em que mais ocorrem estes fenômenos e aquela região (Itaberá) ainda mais."

Puxa, então fomos muito sortudos até agora! Se esse fenômeno acontece muito no Brasil, especialmente "na região de Itaberá", e até agora não tinha acabado a luz em cinco ou seis estados, Deus é brasileiro mesmo.

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Comentário de uma pessoa que encontrei hoje: "Muita gente falou 'ainda bem que não foi ás seis da tarde!'. Já pensou o caos? Milhões de pessoas ainda no trabalho, prédios de escritório cheios de gente, trânsito sobrecarregado sem semáforos funcionando... Foi um aviso de Deus pra ver se a gente toma jeito. Ele já deu muitas dicas, mas agora foi advertência por escrito!"

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Maldadezinha básica (fui criada em um partido que se divertia muito com elas, às vezes tenho umas recaídas): A Ministra da Casa Civil é a principal porta-voz do governo em todos os assuntos - transposição do São Francisco, crédito para moradia popular, obras do "PAC", meio ambiente... Mas, mesmo tendo sido justamente Ministra das Minas e Energia, não foi escalada para responder pelo governo desta vez...

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Declaração do reitor da Uniban sobre o Apagão: "A causa foi um curto e tudo que é curto tem de ser banido porque é mau". :o)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Daqui de Constantinopla

Eu não sabia que o check in era até as 17:15. Jurava que o vôo saía lá pela meia-noite (ou seria "meianoite"?). Desde a véspera da viagem, portanto, precisei me preparar para uma tarde curta. Foi ótimo. Eu normalmente trabalho sem parar, mas os limites impostos por um “deadline” (“linha morta”?) me fazem ser muito mais eficiente. Resultado: consegui despachar um milhão de coisas antes de sair. Mas ainda falei com a Lyian umas oito vezes por telefone até o avião fechar a porta.

Consegui despachar um milhão de coisas antes de sair. Mas ainda falei com a Lyian umas oito vezes por telefone até o avião fechar a porta.

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Quando recebi o convite, em março, para participar do Urban Age, achei que era trote. “Deve ser vírus, não é possível”. Vesti minha camiseta “só acredito vendo” e esperei chegar a data (enquanto mandava todas as informações que eles solicitavam, por via das dúvidas. Se fosse vírus, eles iam no máximo roubar o endereço da minha casa).

O dia chegou, e aqui estou eu a caminho de Istambul.
[Mentira, já estou em Istambul, mas escrevi estas mal traçadas dias atrás]

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Engraçado que eu acompanhei um Urban Age em Berlin em 2006 (por coincidência, eu estava lá para outro evento, o concurso de blogs da Deutsche Welle do qual eu era jurada), mas não consegui ir a nenhuma das apresentações em São Paulo (2008). Um assessor meu foi e me contou tudo (claaaaro que não é a mesma coisa).

Ainda não expliquei o que é esse negócio? “A principal meta do Urban Age é formatar o pensamento e a prática de líderes urbanos e o desenvolvimento urbano sustentável. Criado por iniciativa do Programa das Cidades da London School of Economics and Political Science e pela Fundação Alfred Herrhausen do Deutsche Bank, a estrutura Urban Age se assenta em eventos internacionais multidisciplinares e em pesquisas que subsidiem a criação de uma nova agenda urbana para as cidades globais” (minha tradução ficou péssima, mas deixa assim.

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Na primeira noite do evento, entrega do “The Deustsche Bank Urban Age Award” para projetos que provocam mudanças na comunidade. Os ganhadores do prêmio no ano passado (que estão trabalhando na transformação de um dos muitos “treme-tremes” de São Paulo, conhecido como “o cortiço da Rua Sólon”) estão aqui. Eles não gostam de ouvir a palavra “cortiço”. Durante as falas da abertura, um deles, o Chico, ficou brincando de inventar outros nomes: Edifício Professora Maria Ruth (grande incentivadora e orientadora do projeto, que também está em Istambul); Edifício Urban Age ("Ia fazer um sucesso, não ia?").

No dia seguinte começaram as exposições. “Conectando o social ao físico nas cidades globais” (com Ricky Burdett, da London School of Economics); “Comparando atitudes na vida urbana“ (Ben Page, pesquisador da IPSOS MORI UK); “Repensando as cidades na economia global” – “Metrópoles americanas no pós-recessão” (Bruce Katz, diretor de Políticas Metropolitanas da Brookings Institution); “As transformações no contexto urbano na Turquia” (Joan Clos, Embaixador da Espanha na Turquia e ex-prefeito de Barcelona), e por aí foi.

Tenho milhões de coisas para escrever sobre isso tudo. Mas não agora (1:15 da manhã).

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No avião, vim conversando com um francês muito simpático. Ele achou divertidíssimo saber que a vizinha tinha disputado uma eleição para a prefeitura e trabalha em televisão comentando futebol. “So you’re kind of a star”, brincou.

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Foi sua primeira ida a São Paulo, da qual não esperava muita coisa (comparada com o Rio, que ele já conhecia) e (talvez por isso mesmo) gostou muito. Achou as pessoas muito simpáticas, gentis. A cidade organizada e prática (juro!). O centro, agradável e convidativo. Todo o tempo, se sentiu “seguro”.

O Rio, em comparação, lhe pareceu meio bagunçado. “Tomara que melhore agora com essa história da Olimpíada”. Nem lembrou da Copa do Mundo.

“I don’t know... We’ve had many great events (Eco 92, the Pope’s visits, the Panamerican Games) and it hasn’t REALLY changed”. (Eu não falo francês, que droga)

(Bem sei que a visita do Papa é fichinha comparada com os outros, mas lembro do trato superficial que as cidades sempre recebem. Se precursora de prefeito já é uma coisa, imagine a do Papa...)

(A primeira precursora que presenciei foi quando a Marta foi visitar a Julia no Itaci, em uma noite no meio da campanha para prefeita em 2004. A segurança subiu primeiro, inspecionou o elevador, os corredores... Parecia que ela estava chegando a uma cidade inimiga, não a um hospital de tratamento de câncer infantil. Claro que não foi ela que pediu isso, é só o procedimento padrão).

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Até outro dia eu não tinha me dado conta, mas já estive em dez países. Dez!
- Argentina (2 ou 3 idas a Buenos Aires e 1 a Bariloche)
- Estados Unidos (3 idas a Nova York e uma passagem rápida por Los Angeles, a caminho de...)
- Sydney (Olimpíadas 2000)
- África do Sul (Joanesburgo, uma pausa a caminho da...)
- Índia (Mumbai e Nova Delhi, paradas obrigatórias antes de chegar ao...)
- Nepal (cerimônia budista em 2003)
- Portugal (gravando um Mochilão MTV)
- Alemanha (ah, a Copa...)
- Itália (duas passagens relâmpago por Roma)
- Inglaterra (com a minha mãe, quando eu tinha 7 anos)
Agora posso acrescentar França (dois dias inteiros!) e Turquia (quase uma semana).
Uau.

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O francês do avião não se espantou quando eu disse que os brasileiros não imaginavam os franceses como sendo muito simpáticos e amigáveis. “We’re a little bit arrogant, you think? Well, yes, I think we are a little...”

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Outro francês puxou conversa. Ele tem negócios em São José dos Campos - fabrica mísseis Exocet.

Mísseis mesmo, não as calcinhas do Fausto Fawcett.

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No avião, assisti “Whatever works”, do Woody Allen. Não tinha absolutamente nenhuma expectativa (só depois lembrei que as avaliações em geral foram péssimas). Adorei.