domingo, 11 de abril de 2010

Clima, política e coragem

A carta abaixo foi enviada para um grupo de discussão chamado Ouvidoria da Barra e compartilhada por sua autora em um grupo de discussão do PPS. Gostei muito do texto e pedi para compartilhá-la também aqui no blog e ela autorizou. 


Com serenidade para reconhecer que há eventos que superam muito a capacidade de reação de qualquer cidade, por melhor que fossem seus sistemas de drenagem e sua manutenção, mas com a necessária observação dos erros históricos e atuais, ela faz uma boa análise da situação do Rio de Janeiro - que pode ser estendida para várias (todas?) grandes cidades brasileiras.


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Caro Paulo e demais companheiros de Ouvidoria

Não sou e não fui eleitora do Eduardo Paes (pertenço ao PPS), mas neste assunto, por força de minha formação profissional ( sou geógrafa,com especialização em Climatologia...), não posso me calar.


O momento vivido por nós é único.Desde quando se começou a registrar índices pluviométricos ( aproximadamente, em meados do século XIX), não se tem notícias de um desague tão intenso e pontual,como o que aconteceu nessas últimas 48 horas.


Nenhuma cidade no mundo, por mais investimentos em estruturas de escoamento, como rede de águas pluviais e similares , seria eficiente para que se evitasse os alagamentos ( diferente de deslizamentos...),exatamente por causa da geomorfologia de nossa cidade.A conjugação entre montanhas de declividade de média a grande com o mar (que com a  maré alta, "tampona" ainda mais o escoamento das águas no continente...) é pura nitro-glicerina para a ocupação humana.


A história de nossa cidade, recheada de iniciativas de engenharia completamente desvinculadas do compromisso com o ambiente ( seja por incapacidade técnica ou maledicência política), aterrando-se e ocupando-se áreas que naturalmente tem a função de serem depositárias das águas das encostas, faz com que tenhamos uma enorme dificuldade de, hoje, contornar este grave problema.


Ora, se por um lado, precisamos nos convencer de nossa LIMITAÇÃO diante de determinados eventos naturais, que sempre estarão no comando , o que fazer para MINIMIZAR as consequências, que homem nenhum, com o maior dos desenvolvimentos tecnológicos possíveis, pode impedir?


A primeira delas, caros companheiros, é que comecemos por admitir que, em se tratando de natureza, devemos estar sempre abertos para o aprendizado.NÃO SABEMOS E NUNCA SABEREMOS de tudo que pode advir de eventos atmosféricos ou tectônicos ( deste segundo, graças a Deus,sofremos quase nada, em relação a outras partes do mundo...).Simplesmente porque a quantidade de variáveis que determinam o funcionamento destes sistemas são inúmeras e complexas, cuja imprevisibilidade reduzimos muito, mas não acabamos .


A segunda, é mudar-se de mentalidade. As ações administrativas nas áreas urbanas, principalmente, naquelas em que a intensificação populacional causa comportamentos condenáveis pelo simples bom senso,  REQUEREM NOVAS ATITUDES DE GOVERNANÇA , adaptadas às mudanças que nos impõem o planeta em que vivemos.


Compartilho do pensamento de cientistas que já puderam, com seus experimentos, provar que a mudança climática que estamos presenciando é inevitável e pertence ao ciclo natural de oscilações climáticas que a Terra sofre desde sua gênese (não vou entrar em detalhes de como isso é mensurado para não ficar mais longo do que desejo...).Contribuimos com o aumento da temperatura?Sim,com 1%,aproximadamente.Os outros 99%? Determinados  por um aquecimento oceânico ainda cientificamente inexplicado.


Com isso, caros amigos, quero dizer que o nível do mar vai subir mais, as características climáticas vão mudar mais e os eventos de que não estamos acostumados vão se apresentar mais frequentes.

(Lembram-se daquela enorme chuva do sábado, dia 06 de março? Só não foi um tornado porque faltou"pista"(superfície lisa") para a formação dos ventos, já que a concentração de nuvens se deu muito próximo da linha de praia.Fui testemunha privilegiada disso,pois estava,naquele preciso momento, saindo do túnel do Joá, vindo para o Recreio... Alguém poderia imaginar um tornado no Rio? Já não acho tão difícil assim, hoje...)


Estas novas atitudes de governança só trarão governabilidade,diante de eventos inesperados como este, se nossos administradores ousarem com ações políticas de precaução, adaptadas a uma nova realidade que exige,urgentemente,mudança de pensamentos e atitudes.


É preciso que dinheiro haja para limpeza de boeiros e galerias, dragagem de rios e lagoas? Sim,mas PRINCIPALMENTE, RETIRADA GRADUAL DAS OCUPAÇÕES DAS ENCOSTAS, processo difícil e lento, mas muito necessário.


Isto, sim, poderia e pode ser evitado.As ocupações,tais como estão no nosso município, só facilitam com que as águas de escoamento se comportem de forma anormal, acumulando-se onde não devem,fragilizando ainda mais solos que não comportam índices maiores de água infiltrada.E não adianta retirar apenas aquelas de áreas de risco.Qualquer interferência nas áreas íngremes propicia escorregamentos das mais variadas dimensões (a base de uma encosta é o suporte para toda ela). Vide o que ocorreu na Ilha Grande, no Reveillon...

Enfim, caros companheiros de Ouvidoria, é preciso cobrar de nossas autoridades iniciativas enérgicas de limpeza, aumento das redes de coleta de águas pluviais ,dragagem das lagoas e canais,mas o que me parece de fundamental importância é que cobremos menos demagogia de nossos políticos quando apóiam ocupações ilegais ( o que não justifica ausência de uma política de habitação decente..), quando promovem cobertura asfáltica SEM  a rede de coleta de água de chuva ( em anos eleitorais, é claro...!),quando não compreendem que a hora é de se discutir políticas de prevenção e alternativas para futuro ( muito próximo,quase já, agora...), incluindo, procedimentos  de evacuação em massa,se necessário.

Não sou profeta da destruição, mas não gosto que tratem de forças tão além das nossas com tanto desdém. E já passou da hora de que atitudes corajosas e conscientes sejam tomadas.
São as nossas vidas  que estão e sempre estarão em jogo.


Paz.
Cristina Magalhães

2 comentários:

  1. Muito boa analise, e esclarecedora. Essas situações estão cada vez mais se repetindo, agora com mais freqüência que antes, mas isto mostra que não estamos aprendendo com os erros. Sabemos que nossas grandes cidades não foram planejadas, o que não absolvi os poderes publicos de suas responsabilidades. Portanto, estes poderes, precisam urgentemente interferir para que as tragédias não se tornem rotineiras!!

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  2. Concordo. Essas atitutdes corarajosas devem ser evitar áreas de riscos. Isso, é uma coisa que os governantes podem e devem fazer!

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