- Até que não foi tão mal no Detran. De carro teria sido horroroso, mas o metrô Armênia é perto e na plataforma já tem várias placas indicando o lado certo para sair da estação. No prédio do Detran o caos é menor do que parece. Muita muita gente, mas serviço razoavelmente bem organizado (bem sinalizado, sem dúvida). No mesmo prédio tem Banco do Brasil, CET e DEV. As moças da recepção dão nova dimensão à expressão "paciência de Jó".
- Tive de ir até lá porque estou inscrita no CADIN - Cadastro de Inadimplentes, tipo um SPC do governo do estado - porque não paguei uma multa que nem sabia que tinha levado. Mas não era lá, era no DER, do outro lado da avenida, porque a multa foi em uma estrada. (R$85,00 - ok, vai).
- Para atravessar a avenida do Estado (4 ou cinco pistas do lado "de cá", mais 3 ou 4 do lado "de lá", mais o largo "rio" Tamanduateí), tem de andar atééé o semáforo, atravessar, andar atééé o prédio do DER. Com essa calorzinho bão mais a ameaça de temporal, delícia. #imaginaumidoso #imaginaumapessoacomdeficiência. Vou fazer tanta passarela nessa cidade qdo eu for prefeita que ninguém vai nem lembrar que um dia elas não existiam.
- Voltei ao Detran e descobri que meu endereço para correspondência que consta lá é o antigo; não é à toa que não recebi xongas (multa, IPVA, Licenciamento). "Posso mudar o endereço pelo site?". Rá. Tava indo bem demais. Não, tem de levar cópia da CNH, do documento do carro e de comprovante de endereço. Se não fizer isso, o Detran acredita que eu continuo morando na Apinajés e que se dane.
- "Tem xerox aqui"? "Ali do lado do posto de gasolina" (isto é, lá na avenida Tiradentes). No Poupatempo tem xerox... :o/
- Não tinha um p. no bolso. A xerox aceitava cartão de débito... do Bradesco. No Banco do Brasil do Detran e na conveniência do posto de gasolina não tinha caixa eletrônico. Ali em volta, desolação total. Vou ter de voltar outro dia. Tudo bem, tudo bem, já vi que não é tão infernal assim.
***
- Cartaz na vitrine de uma livraria na HADDOCK LOBO (no alto!): fechados por causa do alagamento de ontem. F.
***
- Sempre achei esse Pistorius meio esquisito (falar agora é moleza). Na última Paralimpíada, ele (+ e o mundo) foram surpreendidos por um atleta (ah, não lembro quem :oP) que ficou com o ouro. Ele reclamou, esperneou... Não achei legal. HMPF.
Daí a ter um monte de arma em casa, morando em um "condomínio fechado super seguro", e matar a namorada com quatro tiros... Não, isso eu não achava.
***
Relatos de Tania, minha ex-empregada que agora faz uns frilas lá em casa, sobre o temporal de ontem e a vida no Jardim Capela (Estrada do M'Boi Mirim logo ali, altura do número 2000):
- Não choveu NADA, acredita? Mas ventou muito forte, muito. Arrancou um pedaço do telhado da vizinha. O Luís (filho dela) saiu correndo de medo, nem fechou a porta de casa.
- Faz duas semanas que não recebo (no escritório onde ela faz faxina 1 vez por semana). O homem quer que eu abra conta no Banco. Diz que tem de ser Itaú, porque aí ele transfere direto. Será que precisa fazer algum depósito pra abrir? Mas tenho de esperar a Sabesp terminar a instalação de água, porque aí vai chegar conta e eu vou ter (como comprovar) endereço.
- Antes, quando a gente pagou o funcionário lá da Sabesp para fazer um gato, a água chegava com uma força que era uma beleza. Vinha direto da rua, forte mesmo. Agora não tá vindo. Nas casas lá de cima não chega nada. Nada. E aí, vamos reclamar como? Agora que vai ter conta, espero que não falte mais.
- Você pode me adiantar alguma coisa? Eu vou te falar... Tô passando fome. Ontem não tinha nada, nada, nada pra comer em casa. E o Felipe (ex-marido) diz que "talvez depois" ele consiga me ajudar.
- Uma mulher da minha rua tá pagando telefone e ainda nem instalaram, acredita? A Telefônica puxou a linha até os Bombeiros, lá embaixo, e disse que dali em diante é ela quem tem de puxar.
- Fui levar o Luis na creche porque foi difícil tirar o Luis da cama e ele acabou perdendo a perua. Corri, cheguei às 7h06, a porta estava fechada e a diretora não queria deixar entrar de jeito nenhum. Eu e outras mães desesperadas lá na porta. No fim ela abriu, mas deu uma senhora bronca: "SETE HORAS é para eles estarem DENTRO DA CLASSE",
- Eu vi esse cruzamento aqui do lado na televisão. Quer horror a enchente, hein?
***
Dali a pouco, um amigo meu da ZN veio pegar o material escolar que eu comprei pra filha dele, que se animou a voltar a estudar, graçadeus. Desanimou porque, na 5ª série, não sabia ler e escrever e não entendia bulhufas da aula. A professora, bem legal, toda hora a chamava para fazer a lição na lousa. Ela não conseguia e tomava um "é burra mesmo". Pediu um caderno, lápis, caneta, estojo, mochila, enquanto não chega o material que o governo fornece (não sei se a escola é estadual ou municipal). Mochila fiquei devendo que ♪A coisa aqui tá preta♫
A mulher - famosa Quitéria, pra quem lê blog meu faz tempo - ligou pra ele desesperada de dor de cabeça, pra ele não esquecer de conseguir um comprimido (sem dinheiro pra comprar). "Eu acho que essa dor de cabeça dela é psicológica. É muito nervoso que ela passa. E também ontem ela foi dormir sem comer nada, porque não tinha nada em casa.
Um dia, duas famílias passando fome em São Paulo. #imaginequantas. Na rua - não tô brincando - é mais fácil conseguir comer do que em casa, quando não se tem dinheiro nenhum.
Esse amigo trabalhou para uma "cooperativa" que opera "lotação" (os microônibus) na ZN e saiu agora. Trabalho de cão. Pega o carro na garagem às 4 da manhã - na casa do chapéu (Jaraguá). Sai de casa no escuro, morrendo de medo dos "nóia" etc. Ganha por viagem - portanto, se não tiver um pingo de juízo e correr feito demente, ganha mais. Se quiser esticar 20 horas seguida, beleza.
Hoje era o dia de ir, cheio de esperança, receber o dinheiro que faltava para de desligar de vez. O encarregado queria dar R$200 com a condição de assinar um recibo dizendo que tinha recebido R$3mil. Não aceitou.
***
Um outro amigo, que recaiu no crack e se mandou para longe do ponto de venda porque não estava conseguindo se controlar, ligou pra dizer que conseguiu orçar tratamento dentário mais barato que os anteriores - R$700. Como é canal etc, não conseguiu pelo SUS (sei lá, acho que mandaram de um lado para outro e ele não está aguentando de dor). Ele está trabalhando - 12 horas por dia, 6 dias por semana - por R$600. Como ele vai pagar? With a "little" help from his friends.
País rico é país sem pobreza.
"...But when you talk about destruction/Don't you know that you can count me out"
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
terça-feira, 27 de novembro de 2012
X9 ZS
Helena, minha diarista, mora em um CDHU na Zona Sul.
Outro dia o sobrinho dela foi assassinado quando chegava de moto à casa da namorada. "Motona, rapaz bonito... Ninguém sabe se foi ciúme, se foi à toa, se confundiram ele com policial. Trabalhava como garçom em evento, era muito querido".
***
Além da violência galopante, tem as tensões cotidianas. Os "nóias", as brigas entre vizinhos, as ameaças.
E o desrespeito disseminado.
"A vizinha alugou o apartamento dela (no CDHU) e construiu uma casa pra ela no terreno em frente (que é da CDHU). Ganha dinheiro com o aluguel, o bar que ela construiu também, não paga luz, não paga água...."
"Outro dia um senhor vizinho nosso estava começando uma hortinha no terreno em frente. Vieram uns caras com um revólver pra cima dele - "Metade do terreno aqui é CDHU, a outra metade é particular". Como é particular se agora estão fazendo uma escola? Uma parte é CDHU, uma parte é do estado!".
***
Armas, armas, armas. Como é fácil ter.
***
Afilhada dela veio para São Paulo fugida da miséria e violência no interior da Paraíba. A história de como ela conseguiu chegar a Campina Grande e depois a São Paulo é daqueles épicos que a literatura "da seca" já escreveu um par de vezes.
Estuprada lá - coisa difícil de admitir - chegou a São Paulo e rapidinho "se perdeu". Bebia vinho vagabundo com as amigas, dormia na rua, caía no funk, sumia.
Tinha dores atrozes, sangramento. Médicos atendiam a menina como se fosse algo que o gato tivesse pegado no lixo e arrastado até a Unidade de Saúde. Um chegou a falar do nojo que sentia (vou perguntar para a Helena para relembrar as palavras exatas). Tomou um senhor esporro de outro médico que a atendeu dias depois, mais doente do que da primeira vez, quando ele soube da "fineza" do colega.
Pessoas FAZEM diferença. Tem um governo, um sistema, um Secretário, um Coordenador etc. Mas se o filho da p. que tem o diploma, o registro no Conselho, está de plantão e atende os pacientes não tiver um pingo de honestidade, compostura, decência, respeito, nada mais faz sentido.
***
A afilhada usa crack. Engravidou e teve nenê com pouco mais de seis meses de gestação. Mirradinho, tamanho da palma da mão, ficou incubado semanas.
O pai (do bebê) é doido pela menina (a menina-mãe). É um garoto também... Apaixonou-se por ela, "vou tirar você desse lugar" (a rua).
A criança saiu da UTI neonatal e a mãe... Não sei se sabem do paradeiro. O moço queria cuidar da mãe também, mas se não dá, quer cuidar da criança, criá-la em sua casa, junto com a avó.
Mas...
Para adotar, teria, parece, de entrar na fila. Para provar que é mesmo o pai, teria de fazer DNA. Inscreveu-se no sistema público; prazo previsto: dois anos.
Enquanto isso, o bebê iria para um ABRIGO.
Por DOIS ANOS, imagine.
Não sei por que graça de Deus, a menina, me parece, acabou assinando um documento em que afirma que é ele o pai, portanto pode ficar com a guarda provisória até a confirmação oficial.
Talvez eu esteja contando a história errado. Acompanhei em capítulos, ao longo de muito tempo. Mas por mais errado que esteja meu relato, não tem nada mais errado que a história em si.
Outro dia o sobrinho dela foi assassinado quando chegava de moto à casa da namorada. "Motona, rapaz bonito... Ninguém sabe se foi ciúme, se foi à toa, se confundiram ele com policial. Trabalhava como garçom em evento, era muito querido".
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Além da violência galopante, tem as tensões cotidianas. Os "nóias", as brigas entre vizinhos, as ameaças.
E o desrespeito disseminado.
"A vizinha alugou o apartamento dela (no CDHU) e construiu uma casa pra ela no terreno em frente (que é da CDHU). Ganha dinheiro com o aluguel, o bar que ela construiu também, não paga luz, não paga água...."
"Outro dia um senhor vizinho nosso estava começando uma hortinha no terreno em frente. Vieram uns caras com um revólver pra cima dele - "Metade do terreno aqui é CDHU, a outra metade é particular". Como é particular se agora estão fazendo uma escola? Uma parte é CDHU, uma parte é do estado!".
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Armas, armas, armas. Como é fácil ter.
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Afilhada dela veio para São Paulo fugida da miséria e violência no interior da Paraíba. A história de como ela conseguiu chegar a Campina Grande e depois a São Paulo é daqueles épicos que a literatura "da seca" já escreveu um par de vezes.
Estuprada lá - coisa difícil de admitir - chegou a São Paulo e rapidinho "se perdeu". Bebia vinho vagabundo com as amigas, dormia na rua, caía no funk, sumia.
Tinha dores atrozes, sangramento. Médicos atendiam a menina como se fosse algo que o gato tivesse pegado no lixo e arrastado até a Unidade de Saúde. Um chegou a falar do nojo que sentia (vou perguntar para a Helena para relembrar as palavras exatas). Tomou um senhor esporro de outro médico que a atendeu dias depois, mais doente do que da primeira vez, quando ele soube da "fineza" do colega.
Pessoas FAZEM diferença. Tem um governo, um sistema, um Secretário, um Coordenador etc. Mas se o filho da p. que tem o diploma, o registro no Conselho, está de plantão e atende os pacientes não tiver um pingo de honestidade, compostura, decência, respeito, nada mais faz sentido.
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A afilhada usa crack. Engravidou e teve nenê com pouco mais de seis meses de gestação. Mirradinho, tamanho da palma da mão, ficou incubado semanas.
O pai (do bebê) é doido pela menina (a menina-mãe). É um garoto também... Apaixonou-se por ela, "vou tirar você desse lugar" (a rua).
A criança saiu da UTI neonatal e a mãe... Não sei se sabem do paradeiro. O moço queria cuidar da mãe também, mas se não dá, quer cuidar da criança, criá-la em sua casa, junto com a avó.
Mas...
Para adotar, teria, parece, de entrar na fila. Para provar que é mesmo o pai, teria de fazer DNA. Inscreveu-se no sistema público; prazo previsto: dois anos.
Enquanto isso, o bebê iria para um ABRIGO.
Por DOIS ANOS, imagine.
Não sei por que graça de Deus, a menina, me parece, acabou assinando um documento em que afirma que é ele o pai, portanto pode ficar com a guarda provisória até a confirmação oficial.
Talvez eu esteja contando a história errado. Acompanhei em capítulos, ao longo de muito tempo. Mas por mais errado que esteja meu relato, não tem nada mais errado que a história em si.
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