quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Enquanto isso, no Campeonato Brasileiro...

"Se eu fosse o Belluzzo, mandava o Obina embora. E olha que eu sou são paulina!"

Belo jeito de chegar em casa. A mensagem da minha irmã chegou quando eu estava entrando no elevador. Comentei o torpedo com meu vizinho, que subia com uma cheirosa pizza, e ele detalhou: "Saiu na mão com o Mauricio na beira do campo". Entrei em casa a tempo de ver a expulsão do zagueiro, na volta para o segundo tempo.

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Estou chegando de uma plenária, isto é, reunião em formato de auditório em que os presentes tem direito à palavra. Um evento quase sempre fadado à frustração, irritação, agressividade.

Era uma audiência promovida pelo NAL, grupo organizado de moradores da Vila Romana. A ideia deles: chamar os vereadores mais votados na região para discutir a possibilidade de destinarem recursos de emendas orçamentárias para melhorias e intervenções diversas. A Subprefeitura foi convidada também para ajudar a esclarecer onde recursos adicionais poderiam ajudar a executar melhor nossas tarefas.

Fiz uma lista com as obrigações básicas do dia-a-dia - poda, capinagem, limpeza de boca-de-lobo... - que podem ser mais bem desempenhadas se pudermos contratar mais equipes (e para isso precisamos de mais $). Fui um pouco além das tarefas de zeladoria e manutenção: podemos contratar projetos de requalificação de praças, becos, escadarias, ruas e quadras; podemos organizar muito mais eventos e atividades, como projetos de educação ambiental junto a escolas e entidades da região ou promoção de apresentações musicais ao ar livre no fim da tarde. E coloquei também alguns sonhos, como implantar rede wi-fi para acesso dos cidadãos em toda a Lapa e reformar os Cingapuras Água Branca e Madeirit... Querendo mandar dinheiro pra gente, temos um vasto cardápio de alternativas!

Mas é impossível fazer um encontro desse tipo entre a população, vereadores e Subprefeitura sem que vire uma sessão de desabafo, reclamações, protestos enraivecidos.

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"Faz UM ANO que eu tenho um problema sem resolver!".
Sabe o que é pior? Deve haver uns 1000 problemas esperando mais de um ano para serem resolvidos.

"Eu vou lá na Subprefeitura e não consigo falar com você!".
Mas não pode aparecer lá sem marcar e achar que eu vou poder. Pode até dar sorte, mas eu posso não estar no prédio, posso estar recebendo as pessoas que marcaram hora, respondendo duzentos mil emails, tomando providências... Não dá pra garantir que eu vou estar livre para atender.

"A gente tá CANSADO de pagar imposto e não ver ninguém fazer nada! Queremos segurança, queremos polícia"
Eu também moro aqui, também pago imposto, também quero segurança. Mas não é simples assim: "Eu pago imposto, tudo vai dar certo". E a Subprefeitura não tem responsabilidade sobre a polícia.

"Por que vocês não conseguem cortar uma mísera árvore?"
Porque não é "uma mísera". Tem seis mil pedidos para atender, fora as que não tem pedido e também precisam de providências; podar como se deve e, principalmente, remover uma árvore são serviços demorados. Eu queria poder podar todas amanhã, mas NÃO DÁ.
"Não dá por que?"
Porque com os recursos que eu tenho dá para contratar cinco equipes. Se me mandarem mais recursos, por exemplo por meio de emendas parlamentares, eu contrato dez!

"E a sujeira das calçadas? Não aguento mais tanta imundície"
Deixa eu contar uma coisa: o contrato de varrição determina que as equipes varram o meiofio. A calçada é responsabilidade do munícipe. Muitos não varrem - e eu já vi muita gente varrendo a calçada e deixando o lixo no meiofio...

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Caras feias, cabeças abanando, ruídos de desaprovação.
"Eu não posso vir aqui e dizer "vou fazer, deixa comigo, logo estará tudo resolvido" Vocês iam gostar mais de ouvir, mas seria mentira!"
Caras feias, etc.

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O clima era tão beligerante que, a certa altura, nem me lembro por que, eu disse: "Tô vendo gente aqui do Jaguaré, Pompeia, Vila Anglo, Vila Ipojuca..." Uma parte do auditório protestou ruidosamente: "Não! Não! Aqui é reunião da Vila Romana! Da VILA ROMANA!"
Oh god. Parecia até que eu tinha inventado, por alguma razão maluca. Ou que aquelas pessoas não deviam estar ali.

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Os vereadores presentes se manifestaram.

Um deles criticou a terceirização dos serviços - "antes, as prefeituras tinham suas equipes. Se pecisava cortar mato, limpar bueiro, mandava lá os funcionários da prefeitura, saía mais barato".

Discordo.

Para a prefeitura fazer a poda de árvores, por exemplo, teria não só de ter os funcionários em quantidade suficiente (e "perder" cada um deles no mínimo um mês por ano doze, contornar as ausências a que os servidores concursados tem direito, etc) mas também ter motosserras, gasolina para as serras, caminhões, kombis... E precisar comprar cada parafuso, armazenar, manter, consertar... NÃO, o serviço ganha muito mais eficiência quando uma empresa contratada tem o dever de providenciar kombi, caminhão, motosserra, funcionários treinados. Se um caminhão quebrou, o problema é deles; eles tem de mandar outro caminhão no horário marcado, ou serão descontados.
"Ah, mas tem muita malandragem, você contrata a equipe e pensa que ela está trabalhando em um lugar e ela não está".

Como se isso não pudesse acontecer com funcionários diretos!

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No momento de maior ódio aos políticos, à prefeitura e, em particular, à Subprefeita um senhor gritou: "Tomara que você vá lá também, tropece e bata a cabeça!"
Já com o auditório vazio e ele mais calmo, reclamei: "O senhor me desejou O MAL, seu Ramón?!"
"Ah, a gente perde a cabeça... É que tá tudo errado. Um país como esse, em que nasce batata o ano todo, em que nasce de tudo, não podia estar desse jeito. Sabe o que é? Aquela revolução de 64 destruiu tudo".
"É, a gente deixou de fazer muita coisa quando devia ter sido feita e também fez muita coisa mal feita que agora tem de corrigir... É muito difícil".

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Antes de ir embora, lembrei que é impossível ouvir todo mundo hoje à noite (se cada uma das 60 pessoas falasse 2 minutos, seriam duas horas só falando...), e que também não é necessário ouvir cada um dos problemas individuais no auditório... Não é um caso de "falem agora ou calem-se para sempre". Podemos continuar conversando.

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Fomos embora moderadamente em paz. A moto que eu peguei emprestada estava na porta! Aí eu chego em casa e o Palmeiras deu mais um vexame.

Por que me deprimo - 2

Boa reportagem do Tiago Maranhão, meu ex-colega de ESPN-Brasil.
Boa mas muito, muito deprimente.
Por que?
Porque as crianças trabalham.
Porque os comerciantes largam o material misturado na rua para que os catadores peguem de madrugada.
Porque o catador ganha mais catando material na calçada do que no emprego que ele tinha antes.
Porque empresas compram material deles assim, no meio da rua.
Porque deixam a rua imunda depois de retirarem o que interessa.
Vejam:

Da Série "Por Que Me Deprimo" - 1

Correspondência interna

"Sr.Supervisor,

Conforme contato telefônico, informamos que os ultimos desabrigados do incendio que ocorreu no ultimo dia 11 de Outubro, que estavam alojados no Clube (abrigo provisório), foram embora no dia 06 de Novembro (sexta-feira), e o Cras (Setor Assistência Social da Prefeitura), fechou oficialmente o abrigo. Estamos realizando uma limpeza geral, nos dias 09 e 10/11 (segunda e terça), e reabriremos para o público no dia 11/11 (quarta-feira), com algumas ressalvas.

É importante resaltarmos que, após o período de abrigo, não estamos devolvendo a comunidade o Clube no bom estado de conservação que se encontrava, mas sim totalmente depredado.

Solicitamos que viabilize, junto a Secretaria e a Subprefeitura, as providencias necessarias, com a maior brevidade possivel, no sentido de arrumarmos esta unidade, trazendo de volta o que foi quebrado e depreciado.

RELATÓRIO:

# As salas de ginástica e corredor estão com as paredes sujas e pichadas;

# Os banheiros masculino e feminino, também foram bastante pichados e danificados, incluindo as bacias e as valvulas;

# A porta do congelador e porta geladeira foi quebrada e riscada;

# O microondas foi quebrado;

# Os utensilios que eram utlizados na cozinha, e que foram comprados com verba prória (eu comprei), não temos mais como: copos, pratos, talheres e algumas panelas;

Para colocarmos a casa em ordem precisamos de material e mão de obra, com urgência.

Outrossim, informamos ainda, que o débito da Casa de Material Pedroso, é de R$ 923,35 (Novecentos e Vinte e Tres Reais e Trinta e Cinco centavos), tenho em mãos a resposta do almoxarifado, informando que os materiais relacionados não existem em estoque.

Atenciosamente,"


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Por que me deprimo?
Acho que não precisa nem explicar. Em todo caso, se precisar, eu explico.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O "I" do BRIC

Já que estou desencavando rascunhos não publicados, vou publicar mais um. Comecei a escrever esse texto assim que cheguei a Istambul - na verdade, a tradução de um boletim publicado pelo Urban Age sobre quatro cidades da India e algumas comparações com Londres, Nova Iorque, Berlim e Joanesburgo.

Urban Age é "uma investigação mundial sobre o futuro das cidades". Como funciona? Foi concebida a como "uma sequência de seis anos de conferências internacionais promovidas em cidades na Africa, Asia, nas Américas e na Europa entre 2005 e 2010. O Urban Age vai construir um suporte para uma rede crescente de indivíduos que trocam informações, experiências e dados, enfatizando as relações entre investimentos, planejamento e construção, e os processos econômicos, ambientais, sociais, políticos e culturais que moldam a vida na cidade".

Não tinha publicado ainda porque queria traduzir mais um pouco, mas acho melhor compartilhar logo. Como é comum em casos como esse, o texto nos parece dolorosamente familiar. O que se diz sobre a Índia poderia tranquilamente ser usado em uma publicação sobre o Brasil, com mínimas alterações. A foto da capa do Boletim poderia ter sido feita em alguma cidade nossa.

Quero escrever muito mais sobre o Urban Age - a Conferência de que participei em Istambul foi uma das coisas mais legais que fiz nos últimos tempos. Como nunca terei tempo para fazer os imensos relatos e reflexões como gostaria, acho que vou gravar em vídeo, como se fosse uma entrevista. Já queria ter feito isso, mas também não deu tempo. Quem sabe hoje...

Por enquanto, vai aí o tal texto sobre a India. Tem mais no site, mas em inglês: http://www.urban-age.net/publications/reports/india/



"Em 2007, o Urban Age, uma iniciativa conjunta da London School of Economics and Political Science e da Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society, iniciou um programa de pesquisa em quatro cidades da India (Mumbai, Calcutá, Delhi e Bangalore), seguido por uma conferência em Mumbai, para entender como essas cidades estão lidando com os desafios do crescimento e comparar essa resposta com as que são encontradas em outras cidades pelo mundo.

As quatro cidades estudadas tem uma população de quase 35 milhões de pessoas (78 se incluirmos as regiões metropolitanas) e uma economia que movimenta cerca de $360 bilhões no escopo de suas aglomerações.

O crescimento dessas cidades foi explosivo nas últimas décadas do século XX, largamente alimentado pelas pessoas que se mudaram do campo para trabalhar nas cidades que se industrializavam rapidamente. Esse crescimento diminuiu nos últimos anos, mas criou forte pressão sobre a infraestrutura. Ruas que não foram projetadas para carros estão sufocadas pelo tráfego, com conseqüências que incluem o aumento da poluição, queda da eficiência econômica e uma contribuição para o desafio global das mudanças climáticas. Sistemas de drenagem e saneamento também estão sobrecarregados, levando a índices consideráveis de fatalidade decorrentes de enchentes e doenças (mais ainda pelos padrões climáticos alterados como resultado do aquecimento global).

Depois de décadas de mudanças velozes, essas cidades ocupam hoje o ponto de culminância entre a economia globalizada e os desajustes que surgem em seguida: indústrias de ponta na área da Tecnologia da Informação convivem com baixas taxas de alfabetização, novos condomínios dão vista para favelas. As densidades variam, mas tendem a ser mais altas nas áreas mais pobres: na Grande Mumbai, mais de 50% da população vive em favelas que ocupam 8% do solo da cidade.

(...)

Cada uma das cidades estudadas pelo Urban Age está buscando empregar o uso do solo e o planejamento de transporte para assegurar uma forma mais integrada e eficiente de desenvolvimento urbano, mas toas enfrentam desafios sistêmicos e comportamentais:

- O crescimento urbano acelerado atropelou o processo de planejamento, resultando em planos reativos e, frequentemente, ultrapassados;
- A execução é fraca e a área do planejamento é vista como de baixa capacidade, levando à perda da credibilidade;
- Uso do solo e planejamento do transporte são conduzidos como atividades separadas, levando a novos empreendimentos sem transporte, e infraestrutura de transporte que falha na expansão das visões de longo prazo da cidade;
- A responsabilidade pelo uso do solo e o planejamento de transportes é fragmentado entre diferentes órgãos e níveis de governo, apesar de recentes mudanças constitucionais voltadas para a racionalização das estruturas locais de governo.

(...)

Aproveitando o dinamismo do desenvolvimento urbano na India, os líderes das cidades podem fazer a diferença. Com reforma organizacional e a criação de novas estruturas governamentais que reconheçam o papel das cidades, eles podem colocar suas cidades na linha de frente do crescimento sustentável".

sábado, 14 de novembro de 2009

Gentis fina

Calor da moléstia em São Paulo. Comércio ilegal de cãezinhos correndo solto da Praça Apecatu.

Os bichinhos são mantidos em caixas de papelão o dia todo, sem o menor cuidado. Claro que eles não tem documentos, certificado de vacina, vermifugação, nada disso. Não tem nem água e comida durante o dia... Morrem de calor, enquanto a freguesia não se decide por um deles.

Vai saber o grau de responsabilidade dos compradores. Se não se importam com as condições em que se encontram ali no canteiro central da avenida, será que estarão dispostos a agüentar todas as dificuldades de ter um animal de estimação por treze anos ou mais?

***
“Quando eu voltar, tiro uma foto deles”. Já reprimimos esse comércio por dois meses no lado da praça que fica na Subprefeitura da Lapa. Deixamos uma viatura da fiscalização estacionada ali, com nossos agentes, durante oito ou mais fins-de-semana seguidos. Depois de um tempo sumidos, se instalaram no lado da Sub de Pinheiros.
Na semana passada, fizemos uma operação de repressão a esse comércio, com GCM, Polícia Militar, apreensão e um veterinário voluntário, que pudesse constatar os maus tratos aos bichinhos.

Os vendedores reagiram violentamente. Disseram que o veterinário é de uma ONG que os “persegue” e não aceitariam seu laudo. O veterinário é reconhecido como tal pelo CRMV... Em todo caso, se quisessem contestar a ação na Justiça, ok, não há o que opor. É seu direito

No fim, acabaram todos na delegacia, autuados por sua atividade que, além de irregular, é ilegal. Mas fizeram um escândalo. Ficaram eles mesmos como depositários dos bichos (não podemos metê-los em um saco de ráfia e levar para o depósito da apreensão...) e foram multados.

***
Na volta (da inspeção veicular), passei por ali e, como tinha planejado, tirei uma foto (para adicionar aos processos contra eles – e aos planejamento das novas ações. Brinquei com a Rachel – “Fica com o telefone na mão, preparada para ligar para 190”.

Quase chegamos a esse ponto.

Parei o carro e tirei esta foto:



No mesmo instante, ouvi uma pancada no carro. Não sei se foi um tapa ou se arremessaram algo. Tirei mais uma foto dos carros estacionados, mas ficou péssima por causa da distância.



Apareceu um sujeito com um celular tirando fotos do meu carro. Veio na minha direção e começou a berrar: “O que você está fazendo? Não sabe que não pode tirar foto do carro dos outros?”

“Sei que não pode fazer o que vocês estão fazendo. É comércio irregular”.

“Ah, é? Pois eu sou polícia também!”, gritou, apoplético. Olhos injetados, aparência lastimável. Se for policial, deve estar afastado ou de licença – não se chega àquele ponto depois de um ou dois dias de folga. “Você vai ver”.

“Se você é policial, pior ainda”.

“Vou fotografar seu carro”.

“ E eu vou fotografar você, posso?”

Aí ele veio pra cima de mim (que não cheguei a sair do carro): “Se me fotografar eu quebro a sua câmera”

“Eu vou fazer um B.O. de ameça”.

“Faz! Faz!”

Outras pessoas chegaram perto. Uma mulher começou a gritar: “O que você quer? Sai aqui fora! Vem aqui, vou quebrar tua cara!” E começaram a bater no carro, enquanto ela já punha a mão pela janela.

Cheguei a pensar que a coisa ia mesmo ficar feia – o fato de ser em plena luz do dia, a poucos metros de uma delegacia e de um posto da PM, de haver várias testemunhas, não os impediu de gritar, cercar o carro, bater na lataria. Eles quebrariam a câmera, partes do carro, quem sabe a minha cara. Estavam absolutamente transtornados. Como disse um dos presentes à operação da semana passada, “o pessoal ali é barra pesada”.

“Não, eu vou fazer B.O.”

Na delegacia, me disseram que tenho seis meses para fazer o registro da ocorrência e que não precisa ser ali. Mas se além do registro eu quiser levar a ação adiante, precisarei representar contra as pessoas que me ameaçaram no distrito correto.
O que eu quero é reunir elementos para que eles parem de fazer o que estão fazendo e respondam por todos os seus malfeitos. Vou fazer o que for preciso.

***
Na volta da delegacia, passei por uma das entradas de estacionamento do Parque Vila-Lobos. O rapaz alto e magro, que aparece na foto, estava saindo de lá – tinha acabado de estacionar um dos carros deles ali.
Quer dizer, eles praticam comércio ilegal, maus tratos, sujam o canteiro central, ameaçam... e param o carro no estacionamento do parque, tomando a vaga de quem só queria passear com os filhos ou netos. Que beleza.

***
A inspeção veicular foi tão breve que mal deu tempo de ler uma carta enquanto eu esperava. Fiquei feliz com a organização – nem precisamos apresentar o número do protocolo de agendamento; o moço na primeira cabine digitou o número da placa e já localizou. A orientação é cortês e correta; tudo bem planejado e bem executado.
Comecei a tirar fotos para mostrar como as coisas funcionam bem (ai, como é bom quando funcionam bem... Ali na porta (Engenheiro Billings) a prefeitura tem há meses um problema seríssimo para resolver (solapamento de uma pista) e até agora nada...). Mas logo um rapaz apareceu para dizer que “não pode. Só com autorização”.

“Quem pode autorizar?”

“O Supervisor. A sra quer que chame?”

“Quero”.

O Supervisor veio e disse que só com solicitação prévia à direção da empresa. Ai, que saco, eu queria elogiar o serviço, mas tudo bem, eles foram educados, não quis brigar. Mas também não ia desistir. “E você tem um contato da pessoa para quem preciso pedir autorização?”. “Tem no site, no mesmo lugar em que a sra. agendou a inspeção. Aí marca com a assessoria de imprensa, que vai agendar uma data durante a semana para a senhora vir aqui e dar todas as informações necessárias”.
Já sei o que vou fazer: vou passar as fotos que tirei antes de ser advertida (foram 3 ou 4) por email para a assessoria de imprensa e ver se ela me autoriza a publicar.

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Acho que o meu horóscopo hj desaconselhava tirar fotos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

"Reclama"

(Pensei que já tinha publicado esse post, que tem umas duas ou três semanas. Por alguma razão misteriosa, ficou no rascunho)

Quinta-feira, 12:00. Saí de carro de manhã, passei o dia todo sobre quatro rodas, um saco. Não tenho mais moto, tinha várias coisas para fazer em muitos lugares diferentes e, o pior, duas sacolas pesadas para carregar, uma com notebook. Enfim, sucumbi aos encantos teóricos do automóvel – teóricos porque, na prática, é um inferno andar de carro em São Paulo.

Fui da Vila Pompéia para o Paraíso (perto do Sesc Vila Mariana), de lá para o Centro Cultural Vergueiro, de lá para os Jardins. Achei uma vaga na Zona Azul a uns dois quarteirões de distância do lugar onde tinha uma reunião, mas não tinha cartão. Logo se aproximou um senhor para vender: “R$5,00”. “Não, obrigada, quero pagar preço oficial”. “Pelo preço oficial, só se você comprar um talão inteiro”.

Não me interessei (nem tinha dinheiro para um talão inteiro) e fui até a banca de jornal da esquina. “Tem Zona Azul?”. “R$4,00” – e me estendeu uma folhinha com o preço impresso. “Mas o certo é R$3,00”, reclamei. “Aqui é R$4,00”, respondeu a mulher, de queixo erguido. “Não tá certo, tem de vender pelo preço oficial”.

“Reclama”, encerrou, fazendo careta arrogante.

***
Liguei 156. Primeira pergunta: “Onde tem um posto de venda oficial da Zona Azul aqui perto?”. A moça pediu “um momento” e me deixou uns 3 minutos ouvindo musiquinha. (“Mas ela nem perguntou onde eu estou? Será que identificou minha chamada por GPS?”, delirei. Ou está transferindo a minha ligação para o departamento correto?”). Ela voltou: “Senhora, os postos de venda oficiais são bancas de jornal e farmácias. Infelizmente, não temos uma lista para informar qual é o mais próximo da senhora”. “Tá bom. Então como eu faço para denunciar uma banca que está vendendo acima do preço oficial?” “Mais um momento”. Dessa vez a musiquinha foi mais rápida. “Senhora, é uma denúncia, não é?”. “É uma denúncia”. “Então, senhora, a denúncia é só com a polícia. A senhora precisa ligar 190”.

Não liguei. Mas ainda vou falar com a Sub de Pinheiros (já devia ter falado, aliás).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Itaberá 2

Hj os jornais comentaram a declaração do ministro Edison Lobão (ex-Arena e PDS, ex-PFL e DEM, atual PMDB) atribunindo o apagão à tempestade elétrica em Itaberá, sul de São Paulo. As moças do tempo concordaram que ali, sim, houve chuva forte, vendaval, raios.

Mas foi isso mesmo que causou o apagão??

No Bom Dia Brasil, o diretor do Operador Nacional do Sistema, Eduardo Barata, disse que "é possível, sim, que as condições climáticas adversas naquela região tenham sido causadoras de curto-circuitos". É "possível"! "Se foi uma descarga atmosférica que causou, isso não foi posicionado com certeza em nenhum momento. A origem desse curto pode ter sido das descargas, ventos que provocam o balanço da cadeia de isoladores e a chuva, que faz com que isolaradores se tornem condutores". Mas o ministro não teve dúvida, disse "foi um raio" e pronto!

Digamos que tenha sido. Afinal, "é possível". Perguntas:

1) Se os registros da ONS apontam claramente que houve um curto naquela linha de transmissão, por que demorou tanto tempo para que essa informação fosse conhecida? (Durante o Apagão, as autoridades só diziam "estamos tentando descobrir o que aconteceu").

2) Tendo havido o curto, o que foi feito para saná-lo? O que precisou ser substituído ou reparado?

3) O diretor da ONS diz que o sistema funcionou muito bem. Se as outras linhas de transmissão não tivessem sido todas desarmadas após a ocorrência do curto, teria havido danos graves a todo o sistema.

Peraê. Um sistema de segurança deve estar estruturado exatamente para evitar que o todo seja atingido quando há um problema com uma das partes. Se dá curto no chuveiro, queima o fusível/cai o disjuntor correspondente. Em casos de maior impacto, cai a "chave geral" - da sua casa, não do bairro todo, muito menos da cidade. O sistema tem suas cancelas, suas barreiras.

Se houve um curto nas três linhas de transmissão, é mais do que compreensível que elas caiam. Mas se todas as outras caíram também, é porque o isolamento de uma para outra não é adequado. Se toda vez que cair um raio em São Paulo (e o ministro diz que ali "tem muito raio", fica o Paraguai sem luz??

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Ontem, na Ana Maria Braga (é, eu vi um pedaço...), um especialista em infraestrutura (não consigo achar o nome dele) deu uma entrevista muito boa, crítica e sóbria, sobre nossa bendita infra. Explicou essa história de sistema interligado, que faz com que todas as pontas da rede sejam muito dependentes umas das outras. "Qdo você recebe energia na sua casa, pode estar vindo do Sul, do Centro-Oeste, do Norte... E se ocorre um problema em algum ponto da rede, ela é toda afetada.

Mais do que isso, há um problema de concepção. O governo está investindo em outras mega usinas na Amazônia. Para a energia gerada lá chegar ao resto do país, são milhares de quilômetros de linhas de transmissão. Por melhores que sejam os cuidados, ela está exposta a um sem-número de problemas - acidentes, atentados, sabotagens.

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Senti falta de entrevistarem a Marina Silva sobre isso. Os ambientalistas sempre ficaram de cabelo em pé com essas novas usinas (Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira), por várias razões. 1) Os estudos de impacto ambiental, hiper discutíveis (lembram do discurso do Lula sobre o "bagre" que atrapalhava o progresso? A condução do governo foi nessa linha - "não me venham com essas baboseiras de meio ambiente, o Brasil precisa crescer"); 2) O custo; 3) A existência de alternativas muito melhores.

Na época, o licenciamento das usinas foi considerado (mais) uma derrota da ministra do meio ambiente (achei um texto muito bom sobre isso aqui.

Em um evento em São Paulo (Seminário Produção Mais Limpa, organizado pelo vereador Natalini no Memorial da América Latina em 2008), alguns técnicos apresentaram um cálculo demonstrando que a economia que seria proporcionada pela substituição de chuveiros elétricos por aquecimento solar nos grandes centros equivaleria aos megawatts de energia a serem gerados pela futura Usina de Jirau...

Ou seja, temos IMENSAS possibilidades de depender menos de energia hidrelétrica - o que resultaria em menos custos, obras de menos impacto, menor necessidades das tais linhas megaquilométricas de transmissão. Mas os ambientalistas são sempre os chatos de plantão, que tem má-vontade e só querem atrapalhar o governo e os negócios.

E aí, vão entrevistar a Marina ou não vão? (Se alguém já entrevistou, desculpem, não vi).