quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Por que saí do PT - capítulo 2

Claro que é uma longa história, nem sei quantos capítulos serão. A ligação mais próxima com o partido começou em 2003, quando decidi ser candidata a vereadora; a saída foi em 2007. Quatro anos de crise. NUNCA imaginei que ia deixar de ser petista, então imaginem o tamanho dessa crise.

No Capítulo 1, falei sobre o primeiro momento em que senti um mal-estar (literalmente; deu aquela embrulhada no estômago), quando ofereceram seis vagas em um órgão público (a Prodam) para cabos eleitorais meus.

Olhando em retrospecto, parece até que é bobagem passar mal por causa disso. "Boba, todo mundo faz, vai dizer que não?". Mas eu ACREDITAVA MESMO que o PT não usava a máquina para fazer campanha. Os outros sim, o PT não.

Eu realmente olhava os jornais falando de licitações viciadas e achava que era tudo manipulação da mídia. Sacanagem, perseguição, mídia tucana. Pô, a Marta usou colete à prova de balas quando mexeu com o sistema de transporte! Como ousam acusar o governo de corrupção??!

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A campanha da Marta à reeleição tinha uma estrutura gigantesca. O comitê central era um prédio de vários andares na Vila Mariana. Me dava uma certa aflição gastar tanto dinheiro em eleição... Eu aprendi, no PT, a no mínimo desconfiar de campanhas caras demais.

Havia centenas de kombis envelopadas - no segundo turno, com a foto do Maluf. Ele veio de Marta contra o Serra. Vale tudo pra derrotar o adversário??

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Antes do episódio do Circuito Cultural (descrito no Capítulo 1), eu tinha tido outra experiência frustrante no governo Marta.

A favela onde eu fazia trabalhos voluntários era muito podre. Depois de ter ido várias vezes comigo à Heliópolis, quando meu marido conheceu o Jardim Guarani, na Brasilândia, disse "Heliópolis é Pacaembu". Becos, barrancos, lixo, esgoto, escuridão. Ainda tenho as fotos, depois escaneio e publico.

Tinha tido bom contato e boa impressão do Paulo Teixeira, então Secretário da Habitação, que teve ótima participação no RG, da TV Cultura. Fui pedir ajuda. Ele me recebeu no Gabinete; pediu um levantamento da previsão de intervenção naquela área (regularização, reurbanização) e não tinha nada a curto prazo. "O ótimo é inimigo do bom; enquanto não se faz o ideal, podemos melhorar as condições atuais". Ligou na minha frente para a Subprefeitura e pediu para que alguém me acompanhasse ao local e visse o que era possível fazer.

No dia marcado, apareceu uma pessoa tão, mas tão de má vontade... Alguém desinteressado, tosco, desqualificado. Andou pra cima e pra baixo, tomou providência nenhuma.

Isso porque o Secretário da Habitação ligou e pediu!

Claro, a Subprefeitura tinha "dono" e trabalhava para ele, o vereador donatário da Capitania, que tinha seu reduto na Brasilândia e estava pouco se lixando para o real progresso da Brasilândia.

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Isso tudo "faz parte", a política é assim - complexa, imperfeita. Eu continuava acreditando que os problemas (incompetência, desvios) na administração pública aconteciam APESAR de todos os esforços no sentido contrário; algumas coisas são inevitáveis, nada é perfeito, a gente não ia chegar lá e resolver de uma vez 500 anos de problemas.

Com o tempo, fui vendo que o PT não estava necessariamente TENTANDO resolver 500 anos de problemas.

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Corta para depois da eleição.

Um vereador do PT me convida para um café no gabinete; queria me apresentar aos ritos da Casa, me dar uns toques para o mandato. Oba!

Lição número 1: "A palavra-chave, aqui, é acordo".

Ok.

"Quando fecha o acordo, tem de respeitar".

Ok, claro.

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Ainda não tinha me dado conta do aspecto "sagrado" da palavra. Quando se faz um acordo, é para respeitar, qual a novidade nisso?

Aí veio um exemplo.

"Fulano e Beltrano disseram que iam votar no A¹ para Presidente da Câmara. Na véspera da eleição, fecharam com o A². Pra não correr o risco de mudarem de ideia de novo, passaram a noite com ele, lá na Zona Sul. No dia seguinte, votaram e o A² foi eleito Presidente da Casa. Menina... O pau comeu. Pegaram os dois dentro do gabinete e ó!"

Meu Deus. Será que estou entendendo?

"Romperam acordo, viraram dois párias aqui na Casa. Nem nome de rua aprovavam mais".

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Ele ria. Achava graça, como se estivesse contando um capítulo da Gabriela ou do Bem Amado. Como se fosse história de outros tempos, outros países. Mas os vereadores que viraram "párias" estavam ali, exercendo seu mandato. Que apanharam no gabinete porque votaram no outro. O outro, aliás, que era "o nosso"; eles apanharam porque ajudaram a eleger nosso candidato a presidente, mas não fizemos nada para que eles não virassem "párias". E como assim, "não aprovam nem nome de rua"? O projeto é aprovado conforme o moral do vereador na Casa e tudo bem? O "nome de rua" vai a votos no plenário e, se eles estiverem com o filme queimado, o projeto não passa?

Em quinze minutos, eu tinha recebido mais informações sobre a Câmara Municipal do que em 30 anos de pretensa militância política, acompanhando o noticiário, escrevendo cartas para os jornais, participando de manifestações... Eu sabia era p. nenhuma. E meu partido ganhava contornos cada vez mais preocupantes, surpreendentes, assustadores.

3 comentários:

  1. Você ainda não comentou o anterior! Por que faria outro?

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  2. Soninha, continua! Estou adorando!

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  3. Saudade de você na MTV...
    Se bem que nem a MTV é mais a MTV, mas beleza!
    Se você se sentiu chamada à vida política para ajudar mais efetivamente a população, torço por ti!
    Bjo!

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