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quinta-feira, 12 de julho de 2018

"Constituição é clara e equivocada"

O título dessa matéria da Folha já é a síntese perfeita do que eu penso sobre a prisão em segunda instância -

Constituição é clara e equivocada ao vetar prisão em segunda instância, dizem especialistas


Segue uma parte do texto:

Em debate, especialistas em direito afirmaram que a Constituição é tão clara quanto equivocada ao vetar a prisão após condenação em segunda instância.

O evento na Fundação FHC em parceria com o site Jota ocorreu nesta segunda-feira (26), horas antes de o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) negar mudança na decisão que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso tríplex, e abriu caminho para a determinação da prisão do petista.

"Do ponto de vista teórico, não vejo sentido algum em, uma vez que a pessoa tenha sido condenada em primeiro grau e confirmada a condenação em segundo, que ela aguarde o trânsito em julgado. Porque não existe relação lógica entre presunção de inocência e trânsito em julgado do ponto de vista do processo penal", disse Nino Toldo, desembargador do TRF-3 (SP e MS).

"Agora, não posso negar. A Constituição diz claramente lá que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado. Então, se a interpretação for literal, não tem jeito. A Constituição está errada. É um equívoco lógico", sustentou Toldo.

O professor da FGV e colunista da Folha Oscar Vilhena Vieira disse que "a Constituição é razoavelmente clara. Ela diz trânsito em julgado". Ele, contudo, questionou a Carta. "Não existe democracia no mundo em que a execução, ainda que provisória, não se dê pelo menos na segunda instância. Todos os tratados internacionais de direitos humanos trabalham com o duplo grau de jurisdição."


Perfeito! A Constituição garante o princípio da presunção de inocência, e se uma pessoa já teve duas oportunidades diferentes de ser julgada, e já foi condenada duas vezes e por pessoas diferentes, a presunção foi respeitada - e a inocência, denegada. Mas o "trânsito em julgado" é norma, não princípio. Ou seja: a Constituição estabeleceu uma norma que, a meu ver, exorbita o princípio e deveria ser modificada por meio de uma Emenda Constitucional devidamente debatida no Congresso.

Há quem entenda que a questão estaria garantida em cláusula pétrea, portanto nem uma EC poderia modificá-la. Discordo e reitero: o princípio da presunção de inocência não exige mais do que duas instâncias para ser garantido.

A Lei da Ficha Limpa é claríssima também: não pode disputar eleição quem tiver sido condenado em segunda instância. Em vista disso, minha opinião é que o Lula não devia estar preso agora, mas não pode ser candidato de jeito nenhum. Não é a prisão que o impede de disputar a presidência, é a condenação em segunda instância.

Mas o STF decidiu, em relação ao Lula, o que já tinha decidido antes: pode começar a cumprir pena depois de condenação em segunda instância. Eu discordo do Supremo, mas não foi uma decisão-política-destinada-a-impedir-o-herói-do-povo-brasileiro-de-correr-o-país-pedindo-voto. Foi mais um erro do STF em seu "ativismo judiciário"... Todos nós temos nosso juízo sobre quais de suas muitas decisões seriam erros ou acertos e podemos ter, mas precisamos obedecer - fazer o que?

O famosos desembargador lulista que, ~por coincidência~, estava de plantão quando deputados do PT protocolaram o pedido de Habeas Corpus para o ex-presidente e concordou com a tese do "fato novo" ("ele será candidato e precisa ter liberdade para se manifestar como tal") cometeu uma atrocidade jurídica (1 - "Fato novo"?? 2 - Se fosse mesmo um fato novo, seria um que justificaria rever o processo????).

Até aí, enumerei certezas. Tenho apenas uma dúvida: se o desembargador podia ou não decidir um HC de caso transitado em segunda instância. Porque é assim: decisão judicial a gente cumpre, por mais ridícula que seja, e questiona o mérito em instância superior. Mas e se o camarada tomou decisão sobre assunto que não lhe compete? A ordem tem algum valor? Ou tem tanta autoridade quanto um documento assinado por qualquer outra pessoa alheia ao processo?

Podem responder nos comentários, eu realmente quero ouvir opiniões diversas para escolher a minha :-)


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sonoras

Políticos se matam por um microfone. 15 segundos de sonora no Jornal Nacional valem por meses de esforço para aparecer de outras maneiras. Os motivos pelos quais querem aparecer podem até ser nobres, creiam! Chamar atenção para um tema em pauta (ou fora da pauta :oP) no Congresso... Fazer uma denúncia... Um esclarecimento importante...

Mas não é difícil aparecer no JN, no Bom Dia Brasil, no Datena, no Faccioli. Um monte de gente simplesmente está passando na rua, um repórter lhe faz uma pergunta e pronto: sua resposta é selecionada para mega exibição em horário nobre em rede nacional. Um desabafo, uma opinião irrefletida, uma implicância... Tanto faz. Se encaixar na tese da matéria, entra.

Eu não me conformo com essa falta de critério. E me lembro da primeira vez em que alguém chamou atenção pra isso - foi a Hyliana (Hilyana?), professora de Didática no curso de Magistério no Colégio Santana. Ela pediu para assistirmos o Jornal Nacional prestando atenção na ordem das matérias, sua duração e edição. Na aula seguinte, comentaríamos.

Naquela edição, havia uma matéria falando sobre a obrigatoriedade, recém-estabelecida, de motociclistas usarem capacete. Polêmica! Especialistas falavam sobre a necessidade, a segurança, proteção à vida. Motociclistas estavam divididos... Muitos eram contrários (claro :o/).

Pois bem, a professora ficou indignada com o último depoimento utilizado na matéria. Um motociclista dizia que, na verdade, o capacete atrapalhava e piorava a segurança, porque diminui o raio de visão.

Ela achou isso um absurdo. "Como é que ele fica com a última palavra? A última impressão? Depois dele tinha de ter um especialista, ou os próprios apresentadores no estúdio, dizendo que isso não é verdade. Que a visão é mais do que suficiente para a segurança e a proteção à cabeça é fundamental".

A gente achava a professora meio chata, dramática, exagerada. Mas lá no fundo eu reconheci: "É mesmo. Ela tem razão".

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Ela tinha razão. É impressionante a quantidade de bobagens ditas na televisão que passam batido, sem contestação, sem esclarecimento. Quem quiser, pode plantar alguma coisa com dolo (acontece muito!). Mas por genuína ignorância também se disseminam informações erradas.

A Jovem Pan, anos atrás, repercutia algumas "notícias" na rua: "Você sabia que o Maguila será o próximo Ministro da Educação? O que você acha disso?". "O Ayrton Senna foi convocado para a seleção brasileira de futebol. Você apoia?". Neguin' respondia QUALQUER NEGÓCIO. "Vi, acho um absurdo. O Maguila?". "Pelo menos o Senna vai vestir a camisa! Tá certo o Parreira".

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Hoje de manhã a Globo estava comentando a ordem judicial para que o Cingapura perto do Center Norte seja desocupado.

Assim como faz com reconstituições de crimes, esse é o tipo de coisa que merece um "desenhinho" pra explicar. Começa que as pessoas - inclusive as "esclarecidas" - fazem a maior das confusões e não entendem que ordem judicial a prefeitura cumpre; não é uma decisão do Poder Executivo. Ela pode recorrer, ganhar ou perder. Se perder, não tem escolha. É assim que funciona em um Regime Democrático - as instituições se respeitam e as regras do jogo são seguidas.

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A Justiça tem seu poder, sua autoridade. Mas também é uma instituição humana, sujeita a paixões, equívocos, disputas, vaidade. O fato de a Justiça ordenar a desocupação pode ser uma decisão correta ou equivocada.

É delicado, claro que é. Não é trivial determinar o que é cautela - talvez em excesso, talvez não - e o que é oportunismo e sensacionalismo. POR ISSO A IMPRENSA PRECISA SER CRITERIOSA, oras. Ouvir os técnicos, ler o que escreveu o juiz, confrontar opiniões contrárias, ponderar.

Voltando ao Cingapura: a Globo mostrou "moradores" (dois adultos e uns quinze moleques) virando uma caçamba de lixo no meio da rua em "protesto". E mostrou uma moradora dizendo que era um absurdo sair de lá porque eles não teriam para onde ir e "depois a gente não volta mais!", dando a entender (não me lembro das palavras exatas) que havia uma conspiração para tomar os imóveis deles e colocar outras pessoas no lugar.

E pronto. Foi essa a matéria. A prefeitura está recorrendo da decisão judicial, informaram. E quem assistiu que se vire para ter os mínimos elementos concretos para tentar concluir se o certo é sair ou o certo é ficar; se a Justiça está exagerando ou a prefeitura está sendo negligente.

Se eu tivesse mais tempo, iria atrás do despacho que determinou a ocupação. Se alguém quiser fazer isso por mim, aceito :o/.