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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Rua das Crianças, parte 1

Samuel, 3 anos. Três! Pensei que era uma criança miúda de cinco, de tanto que ele fala, contesta, pergunta, observa, conta, elabora.

- Soninha, pode nadar no rio?

CADA frase dele começa com "Soninha, ...". Foram umas 200 frases nas 5 horas em que passamos juntos.

- Naquele rio da sua casa não pode, porque ele é muito sujo.

Breve discussão no carro sobre "sujo de que". As meninas mais velhas, moradoras como ele da Rua das Crianças, Jardim Pantanal, discorrem sobre lama no fundo, xixi, cocô.

- Soninha, se o rio fosse limpo, pode nadar?
- Depende. Se ele for fundo não, porque pode morrer afogado.
- Por que morre afogado?

Porque afunda, fica com o pé preso na lama, engole água, água suja... Enche o pulmão, não consegue respirar.

- Mas pode gritar para alguém tirar você de lá.

Pode não ouvir, pode não dar tempo, pode não ter ninguém por perto, pode não conseguir gritar, pode não conseguir tirar.

- Soninha, se o rio fosse limpo e fosse raso, pode nadar?
- Sozinho, não. Se tiver um adulto por perto, pode.
- Por que um adulto?

Incrível, o Samuel. Que ao fim conseguiu reunir todas as condições para poder nadar no rio.

***
- Esse ano vai ter enchente.
- TOMARA que tenha enchente (Joyce, 14 anos).
- Você tá LOUCA? (Juliana, a irmã de 17).
- Eu não, tomara que encha logo porque só assim tem apartamento. Não aguento mais esse lugar. Ninguém merece. Não vejo a hora de ir embora daqui.

***
O Pantanal é o fim do mundo. 40 km de distância da Pompeia, no ponto cardeal oposto (Poente). Mas não é só a quilometragem; o fim da Rua das Crianças já é o fim do mundo se comparado à avenida mais próxima.

Parece que eu estou de volta à Vila Operária no começo dos anos 70, o bairro caiçara no fundão de Peruíbe, perto da linha do trem. Taperas de madeira, ruas de areia e água, crianças, pobreza. Mas é São Paulo, SP, Brasil, século XXI.

Corintiano pra todo lado rs. UM corajoso menino pequeno com camisa do São Paulo. Muito menino pequeno, muito.

***
Chegar até o Jardim Helena é fácil. Marginal, Trabalhadores, passa a entrada para Cumbica, passa o acesso à Jacu Pêssego/Anchieta/Imigrantes, segue para São Miguel - a segunda, entrada, que também dá acesso a Pimentas. Logo sai pra esquerda, direita na rua larga com nome de japonês, esquerda, direita, esquerda, acabou o asfalto. Aí é que complica, porque as ruas ("ruas") são todas muito parecidas. Passei do ponto, fui parar do lado de lá da curva do rio. Fiquei esperando uma porca passar com dois filhotinhos atrás. No fim achei a rua (pombas, se eu soubesse que chama "Das Crianças", o GPS teria me informado. Placa com o nome dela não ia ter mesmo, mas o Iphone é mais esperto e confiável que o poder público).

***
Tenso. A menina com quem eu tinha combinado o passeio sai de dentro de casa aos prantos, chama uma vizinha pra ajudar - "Corre, tá quebrando tudo lá dentro". Logo sai uma mulher fora de si girando uma vassoura como se fosse uma boleadeira e a menina diz "sai com o carro, sai, vai pra lá, para lá na frente".

Parei "uma quadra" adiante. Cinco minutos depois a mulher vem pela rua, andando pesadamente, na direção do meu carro. Fiquei onde estava, janela aberta. Sem vassoura, no máximo me daria uma bofetada. Já ia passando sem se deter quando deu um passo pra trás. "Que susto!" (Assustei de verdade, e já funcionou antes para surpreender alguém que pretendia me agredir). A voz enrolada pediu desculpas. "Claro que desculpo", disse beeem suavemente. "Tem miliano que eu moro aqui, você entrou, você vai sair, quero ver quem não vai deixar você sair. Você me desculpa. Me desculpa? Eu não bebo não, viu".

Frio na barriga. Ô saco, será que os bandidos estão implicando com a minha presença (da outra vez que saí com as meninas, elas ficaram com medo de chegar em casa depois do "toque de recolher")? Costumo tretar com bandido nessas situações, mas veja bem, prefiro não.

No fim era "só", somente, apenas um problema de porre da mãe, mesmo. "Ela sempre fica assim".

***
A mãe apareceu duas vezes na conversa durante o passeio.

"Amanhã ela tem consulta" - com uma filha com deficiência intelectual, peleja para conseguir uma pensão para a menina. "Desse jeito ela vai perder a consulta", inquietaram-se as irmãs. "Antes não era assim. Ela podia ficar bebendo atééé de madrugada que no dia seguinte, a hora que precisava levantar ela levantava", contaram com orgulho.

A segunda vez foi quando a mãe da única menina que não é da mesma família, nossa colega de incursão/ excursão pelas luzinhas de Natal do Ibirapuera, ligou brava pra saber que horas eu ia levar as meninas para casa. "Eu tenho que trabalhar amanhã cedo. Ela saiu e nem me pediu porque eu não tava em casa. É só dessa vez que ela vai, da próxima não vai não".

Fiquei preocupada, as meninas me tranquilizaram. "Ih, não liga, minha mãe é chata assim mesmo". "Toda mãe é um pouco chata. Eu sou...". "Não, a senhora não tá entendendo. Ela é muito chata. Mas no fim não pega nada".

Joyce e Juliana acrescentaram: "Não se preocupa não, minha mãe falou com ela já. Minha mãe disse - "Ela é meio doidinha mas é de confiança"".

Demorei dois segundos para entender a frase. Primeiro, pensei que a mãe delas duas estava falando da mãe da outra. Depois, que as meninas estavam falando da própria mãe. No terceiro segundo, pesquei: a "meio doidinha" mas "de confiança" sou eu, uma mãe afiançou à outra.

Dei risada.

A Joyce: "Mas você é meio doidinha".

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"Meu pai é um safado sem vergonha que não paga minha pensão".

Esse foi o Samuel.

"Um dia", contaram as mais velhas, "ele foi na feira atrás do pai. Chegou pra ele na frente de todo mundo e falou assim - "Minha mãe vai colocar você no pau porque você não paga minha pensão"."

Cuidado com o que se fala na frente do Samuel.

domingo, 5 de agosto de 2012

Missão comprida

Hoje eu devia ter zerado o hodômetro. Que foram mais de 100km, tenho certeza. Pompeia - Pqe do Carmo; de lá para o Bom Retiro; dali para Vila Ema. Uma passada no Brooklin para encerrar o dia e pronto, Pompeia #otravez.

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Eu VI no Twitter que ia ter van grátis do metrô Itaquera para o Parque do Carmo, exatamente por causa do Festival das Cerejeiras. Mas tinha decidido ir de carro, ouvindo meus CDs. Domingo... Sussa. #vainessa #trouxa.

Os primeiros 7/8 do caminho foram bem. Quando já estávamos (eu e o Cesar) na avenida que margeia o parque o inferno começou. Tudo parado. 1km em 50 minutos, sabe como é? Não tinha para onde correr. Bom, nem para onde andar, onde parar, onde desistir do carro para sempre. Ali não precisava ter guardador, mas podia ter motorista de aluguel. "Moço, fica com meu carro e leva até a entrada do parque que eu vou a pé".

Não eram só os carros que estavam presos no mega congestionamento - os ÔNIBUS que passam por ali também estavam. Completo absurdo.

Uma hora veio uma ambulância do SAMU gritando desesperada. Fui me apertando, avisando os motoristas ao lado, consegui abrir espaço. Depois de passar pelo meu carro, a ambulância não conseguiu seguir em frente. IMPRESSIONANTE, ninguém mais fez o menor esforço para dar passagem. Ela subiu no canteiro central e foi pela contramão.

Quando eu for prefeita, não vou deixar entrar carro ali não, especialmente em dia de grandes eventos. Claro que o meu também não, que pergunta. Vou criar bolsões de estacionamento com linhas de van para fazer o translado.

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O transporte público TAMBÉM não colaborou com essa primeira parte da nossa jornada. O César vinha (veio) de trem/metrô da casa dele, perto da Estação Berrini, até o centro da cidade. O intervalo entre os trens estava sendo de 20 minutos.

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O Parque do Carmo é muito legal - enorme e bastante desfrutável. Mas é mal sinalizado que só ele. O evento  tem interesse maior do que final de campeonato, mas depois de passar pelo portão você precisa de um GPS para achar o caminho. Não tem placa, não tem faixa, não tem pintura no chão, não tem gente para mostrar o caminho.

Pô, demorei um tempão pra falar: #imaginanacopa.

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Tinha mais vereador na festa do que na Câmara.

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Nosso Claudio Fonseca estava lá. Durante a cerimônia de abertura, cujo palco estava repleto de políticos não-candidatos, tivemos boa conversa sobre projetos dele para os professores municipais. Blogarei amanhã.

Nosso Adinelson Motta também. Ele é candidato a ser colega vereador do Claudio Fonseca. Gente finíssima. Gozado foi o prefeito passar por ele: "Mottinha, quanto tempo!".Motta trabalhou na Câmara quando Kassab foi vereador. Eu nem imaginava.

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Resultado do DataIbope no Parque do Carmo: tenho uns 30% de intenção de voto.

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Corta para a Parte 2 da agenda: encontro no Instituto Cultural 7 Porteiras, na Avenida Tiradentes, 1290.
Onde eu pensava que já era Avenida Tiradentes, ainda era Santos Dumont. Quando começou a Tiradentes, o número (ímpar) era bem menor do que o do nosso destino. Fui atééé a Luz fazer o retorno e vim seguindo a Tiradentes de volta até o número... 1280, onde a rua terminava.

Ok, tá difícil entender, depois eu colo um mapa com desenhinho. Resumo da história é que Avenida Tiradentes e Santos Dumont se misturam e se confundem mesmo por um bom trecho - mas a Tiradentes continua como uma tripinha de rua completamente improvável, descontinuada, que devia ter outro nome! #coisasdesãopaulo.

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Eis o mapa com desenhinho:


Faço a menor ideia se ficou mais fácil entender agora.

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O encontro foi muito bom. Nosso anfitrião, Pai Guimarães de Ogum, reuniu dezenas de lideranças e frequentadores de Casas de Umbanda, Terreiros de Candomblé e outros interessados na discussão sobre respeito à liberdade religiosa, bandeira que o levou a disputar um mandato de vereador. Havia algumas dezenas de pessoas na plateia, mas ele estava amargurado com a ausência de dezenas de outras que tinham sido convidadas. Não viu nada... Não é raro o candidato conseguir reunir cinco, dez, vinte em um salão em que ele esperava ter cem amigos ou conhecidos. Campanha para vereador é uma das coisas mais penosas do mundo (exceto aquelas de 3 milhões de reais que, felizmente, são poucas. Mas funcionam).

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De lá fomos para ao encontro do Denilson Perozzo, outro candidato. Ponto de encontro: casa de dona Adelina (ai meu deus, não tenho certeza de que o nome dela é assim), uma figura daquelas que  derretem o coração da gente.

A cozinha da casa, uma belezinha, fica no fundo de um quintal com chão de terra e plantas, muitas plantas. Precisava ir ao banheiro, então entrei antes dos outros. "Ô de casa!", brinquei, sem saber quem ia encontrar. De bate-pronto ela respondeu, com a maior naturalidade: "Ô de fora!". Eu estava imitando um jeito de falar que já era antigo quando eu era pequena; ela estava falando de verdade.

O banheiro da casa tinha porta de cortina, como o da minha avó paterna. Parede e piso sem azulejo. Chuveiro sem box. Túnel do tempo.

Café passado no coador, bolinhos de chuva, garrafa de Fanta, sanduíche de bisnaguinha. E a dona da casa extasiada, pedindo desculpas por distribuir guardanapo de papel e agradecendo por estarmos ali. #vêsepode.

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Caminhamos até um terreno enorme na quadra de baixo. Era a chácara de uma família de alemães da qual fazia parte a Ema (pegou? pegou?). Uma reserva de Mata Atlântica, pequeno maciço verde a 500m da Anhaia Mello e o futuro monotrilho.

Uma construtora comprou a propriedade e pretendia fazer ali QUATRO TORRES de apartamentos. Disse que não ia derrubar nenhuma árvore. 1) Impossível. 2) Ainda que não derrubasse - seria um condomínio privado. 3) Ainda que liberasse o acesso do bosque ao público - um empreendimento desse tipo ia DESTRUIR a vizinhança. Uma rua estreita, tranquila, pedaço vivo da história do bairro. VIVO.

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Vizinhança agitou, vereadores Chico Macena e Juliana Cardoso encaminharam projeto para transformação da área em Parque Vila Ema e o prefeito baixou um Decreto de Utilidade Pública sobre a área, primeiro passo para a desapropriação. Um GRANDE passo, porque manifesta concretamente o interesse do poder público em tomar providência. Mas providência precisa ser tomada, orapois.

Segundo o povo de lá, estima-se que o terreno vá custar 27 milhões de reais à prefeitura. Se for isso, é uma pechincha. 'Xa comigo.

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De lá fomos para o Ong Ecobraz, que recicla equipamentos eletrônicos. Tão fantasticamente legal que vou deixar para contar essa parte depois. Quero voltar lá durante o dia para vê-la em funcionamento. E ajudá-los a comprar uma kombi em bom estado! Megasena? Ajudaria, mas não joguei. Tava pensado em Catarse mesmo.

(Tem foto da reunião na Ecobraz, e tb do Parque do Carmo etc, aqui no PPS Atualiza)

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Véi, a Anhaia Mello tem placa indicando o caminho para a "Administração Regional Vila Prudente".

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Saí de casa às 9, voltei agora há pouco. De manhã estava com preguiça; à tarde estava cansada, apesar de o passeio no parque ter sido muito legal. À noite estava recuperada e feliz, na vibe "eu amo São Paulo". Ô cidade legal. Doida, cansativa, burra às vezes, divertida, misturada, genial. Amo essa bodega de cidade, amo política, amo ser candidata. Tô com fome, tô com sono, tô sem voz e tô feliz.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"Adorei, vou fazer muitas vezes" - Hmpf



Estive no Cuscuzeiro gravando o piloto de um programa que se chamaria Zero. Não saiu desse número rs.

Os diretores/produtores eram os irmãos da Grifa, o Mauricio e o Fernando (nem sei se a produtora já existia formalmente). Nossos guias eram do Clube Alpino Paulista. Eu tive medo antes da gravação; achava que minha forma física (de molusco) era um impeditivo para o montanhismo... Que nada. Com paciência e a orientação certa, qualquer um (juro!) consegue fazer uma escalada.

Eu AMEI. Perceber cada reentrância ridiculamente pequena como um apoio seguro para a mão e o pé... Entender que a força física tem muito, mas muito menos importância do que a concentração e o equilíbrio, "ganhar" a parede sem competir com ela, mas grudada nela, conhecendo-a com o tato, ganhar altura, ter um parceiro fazendo a segurança lá embaixo e dando orientações com paciência inabalável... Agora me lembro o quanto morri de vontade de fazer isso mais vezes, de participar do Clube. Fiquei dias e dias com a sensação meio inebriante, como quando a gente salta de para-quedas.

(Quando estive lá, precisávamos tomar cuidado imenso para não assustar/atrair abelhas super agressivas... Será que elas não estão mais lá?)

(Super convidativo esse meu último comentário, não?) (NÃO)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Uma parte já está

Hoje foi aberta ao público a primeira parte do futuro parque Orlando Villas Bôas.

Nem acredito.

Recapitulando brevemente a história:

Até 2004, funcionava na Leopoldina uma Usina de Compostagem cujo cheiro se sentia de longe. Passar ao lado dela na Marginal Tietê era difícil, imagine morar ali perto. Os vizinhos se mobilizaram para pedir que a usina fosse desativada. Depois de décadas de mobilização, conseguiram.

O Natalini (vereador pelo PSDB) apresentou um Projeto de Lei que previa a transformação daquela área no Parque Orlando Villas Bôas. A família dele é da região, mora na vizinhança até hoje e se dipôs a ceder o seu rico acervo para um Memorial a ser instalado no parque, daí o nome (se bem que a homenagem se justificaria de todo jeito).

***
Desativada a Usina, havia (há) alguns obstáculos para a implantação do Parque. 1) Suas próprias instalações, enormes. Cada biodigestor é um tubo de 5 ou 6 metros de diâmetro e uns 50 de comprimento. É preciso desmontar aquilo tudo - e vender como sucata. A licitação está em elaboração. 2) Transferir as centrais de triagem de material reciclável que foram instaladas ali provisoriamente - já foram 3, hoje ainda tem uma.

Não é fácil arrumar um lugar para elas. São necessárias áreas muito grandes (tipo 5 mil m²), instalações também de grande porte (barracão, esteiras, vestiários, refeitório, área para armazenamento etc.), acesso fácil de caminhões (e, dependendo do modo de trabalho da cooperativa, de carroceiros). O ideal é que sejam imóveis da prefeitura, mas nem sempre eles existem ou estão disponíveis. E quando se tenta alugar um na emergência, acrescenta-se a dificuldade adicional de convencer o proprietário a aceitar esse uso. Alguns negam, simplesmente. Outros pedem um valor muito acima do mercado.

Uma das cooperativas que passaram pelo terreno, a ViraLata, chegou depois de ter de abandonar seu endereço em Pinheiros. Ela não é conveniada com a prefeitura e se arranjou por conta própria (acho que eles tem patrocínio da Petrobrás e algum tipo de repasse do governo federal, não lembro bem). Outra, a CooperAção, esteve ali "desde sempre" e agora está em um galpão alugado na Rua Froben, no próprio distrito da Leopoldina. A área prevista para sua instalação definitiva é um terreno em torno qual existe um litígio entre a prefeitura e o atual ocupante. Ele alugou uma área do DER, mas nós entendemos que invadiu área municipal. Intimamos a empresa a desocupar a área; ela afirma que nosso entendimento está equivocado e entrou na Justiça, que lhe concedeu uma liminar. Ou seja: não podíamos ficar esperando a conclusão do processo e lá se foi a Cooperativa para nova instalação provisória.

A Cooperativa que ainda está lá é a Coopervivabem, que já tinha sido desalojada da Rua do Sumidouro. A área em que se encontravam, um antigo incinerador, tinha problemas sérios de contaminação; a editora Abril se dispôs a bancar a remediação e a transformação da área em um Parque - o Vitor Civita. Por isso a Cooperativa acabou indo para a Leopoldina, em mais um arranjo provisório que dura mais do que o desejado.

A área destinada a eles em definitivo é em parte municipal e em parte da União - já foi cedida para a prefeitura com a condição expressa de que seja usada para coleta seletiva. Mas ela precisa de obras volumosas(como a construção dos galpões), e a prefeitura tenta, há anos (acompanho essa história desde que eu era vereadora), conseguir recursos do governo federal destinados a esse fim. Uma hora falta um papel daqui, outra hora falta uma providência de lá... Mas foi firmado um compromisso (junto ao Ministério Público, que obrigou a prefeitura a determinar e cumprir um cronograma de implantação) de que a Cooperativa irá para sua casa própria em no máximo 10 meses - se não sair o recurso federal, a prefeitura vai desembolsar do seu mesmo.

***
Enquanto isso...

Ao lado da antiga usina há uma área operacional da Sabesp, quatro vezes maior. Além de instalações administrativas (escritórios, salas de aula) e depósitos, ela funcionava como uma espécie de clube dos funcionários. Tem alamedas arborizadas, um lago, lanchonete, campo de futebol gramado, quadras de tênis, paredão, quadra polisportiva. Funcionários e ex-funcionários da Sabesp comentavam: "Você nunca foi lá? É lindo!".

Mas a Sabesp já havia decidido se desfazer da área. Era um patrimônio dispensável do ponto de vista do estrito cumprimento de sua atividade-fim - e sua venda seria uma fonte importante de recursos. Sim, a Sabesp também tem lá suas dificuldades; entre outras razões porque um empréstimo do BNDES também estava encalacrado. A empresa já havia feito uma avaliação da área e ela seria oferecida no mercado por cerca de 130 milhões de reais.

Na comunidade, na prefeitura e no governo do estado muito gente não se conformava com essa história. O comprador iria manter uma parte da área verde e fazer daquilo um valioso condomínio privado, totalmente fora do alcance da população. Militantes diversos, dentro da administração inclusive, começaram a fazer campanha para que a área fosse desapropriada.

A campanha... deu certo! O governo concordou em fazê-lo. Juntamente com a prefeitura, faria daquela área patrimônio público.

Eu participei da reunião em que isso foi decidido. O governo só não estava muito disposto a um desembolso daquele tamanho e disse que considerava a avaliação superestimada; o presidente da Sabesp ficou preocupado porque contava com aquela receita. Mas as duas partes, junto com a prefeitura, se dispuseram a buscar maneiras de fazer um encontro de contas e viabilizar a operação. (Por exemplo, transferindo para a Sabesp a propriedade de áreas municipais que ela ocupa no centro da cidade).

Mas, acostumada que estou a fiascos diversos, saí feliz da reunião, mas ainda com a minha camiseta "Só acredito vendo".

***
E era verdade. Tanto é que hoje a primeira parte do parque já foi aberta ao público, enquanto continuamos trabalhando nas outras etapas.

A área que foi liberada é, naturalmente, a que já estava em melhores condições para isso - onde era a área de lazer dos funcionários. As quadras já estavam prontas. O vestiário precisava de tantas reformas que vai ser construído de novo. Os jardins foram reformulados e agora há um playground (pequeno) e alguns equipamentos de ginástico ao ar livre. A lanchonete que atendia o público interno vai continuar funcionando e agora vai atender todo mundo.

Vários prédios já foram demolidos, para aumentar a área verde e permeável. As outras etapas vão ser implantadas à medida que a Sabesp terminar de desocupar a área. E, quando a área municipal estiver pronta também, tudo aquilo vai ser unificado em um parque só.

Mas já é bem bonito, viu? Pena o barulho da Marginal. Que vai diminuir quando for plantado bambu ao longo da cerca.

***
Algumas pessoas chegaram a hesitar brevemente quanto a abertura dessa primeira etapa para o público - "Ainda falta muito para o Parque ficar pronto; a gente vai tomar pau por entregar um pequeno trecho". Eu nunca tive dúvida. "Azar. Deixa darem pau. O que não teria cabimento seria deixar de usar essa área que está quase pronta só porque o resto não está!".

Então ficou resolvido que os portões seriam abertos nestas férias de verão. Até queríamos entregar antes do fim do ano passado, mas não deu.

E vamos tomar pau, é claro. Uma parte do jardim foi plantado agora, com a demolição das edificações. As plantas estão pegando; a terra ainda está fofa e, com a chuva, vira lama. Os bebedouros são os que já estavam lá, mas os banheiros serão, por enquanto, banheiros químicos.

Eu continuo acreditando que é melhor ter uma área assim para caminhar, olhar o lago, ler um livro, fazer exercícios, jogar bola do que não ter área nenhuma. Se a gente pensar na praia, por exemplo - não tem bebedouro, não tem banheiro, a areia gruda no pé... Não é motivo para não usar. Mas quero só ver o que a Folha vai dizer amanhã (aposto um Fusca como vai falar mal).

***
Uma confusão com o nome quase amargou a abertura da primeira fase.

Como eu disse, a área municipal, de cerca de 50 mil m², está destinada, por lei, a ser o Parque Orlando Villas Bôas. Depois pintou essa área adicional de 200 mil, que está em fase de desapropriação (mas a Sabesp e a prefeitura tem um acordo que permite que a gente vá tomando posse aos poucos...). No futuro, tudo será um parque só, de 250 mil m².

Mas o fato é que por enquanto são duas áreas vizinhas. Por questões legais (não se pode estender o nome a todo o terreno enquanto ele não estiver realmente unificado), práticas (toda hora, nas reuniões, alguém confundia o Parque Villas Bôas com o Parque Vila Lobos) e simbólicas (para assinalar a conquista desse novo espaço), o nome de trabalho ficou "Parque Leopoldina-Villas Bôas".

Mas a família Villas Bôas, compreensivelmente, ficou apreensiva e decepcionada. "Na minha família não tem nenhuma Leopoldina Villas Bôas", brincou um deles. "E se confundem esse parque com o outro porque os nomes são parecidos, mais uma razão para incorporar (na verdade, manter) o nome Orlando - Orlando Villas Bôas, pronto! Se o sobrenome vier depois do nome do bairro, aos poucos vai sumir... Vai sobrar só o Leopoldina".

Eu acho que eles tem razão. Estava confiante de que no final tudo ia se resolver, mas eles não. "Já tem divulgação, fizeram placa de identificação... Muito chato". De fato, não ia dar tempo de desfazer a placa em cima da hora, nem de refazer toda a divulgação. Mas o Kassab confirmou, lá no evento, que o Parque será Orlando Villas Bôas. Talvez Orlando Villas Bôas - Leopoldina :o).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Rodas e trilhos

Domingo foi a inauguração da Ciclofaixa de Lazer entre o Parque das Bicicletas e o Parque do Povo - só para começar, já que ela será estendida para outros parques também.

Muito legal. Milhares de pessoas foram para a festa - grupos organizados de ciclistas e patinadores, famílias, casais. Gente que talvez estivesse dentro de casa, na frente da televisão... Lazer & atividade física é uma ótima combinação em um mundo sedentário como o nosso.

Mas a Ciclofaixa é legal também porque é um passo adiante na mudança de uma cultura; é um jeito de demonstrar mais uma vez que bicicleta e São Paulo tem a ver, sim.
Os ciclistas podem aproveitar o dia sem pressa para se familiarizar com a própria bicicleta e com as ruas da cidade. Se durante a semana pensarem em ir de bicicleta à padaria, locadora, farmácia ou mesmo ao trabalho, terão mais confiança - e talvez seja mais provável que pensem nisso, para começar. Mas se passarem a semana toda atrás do volante, certamente serão motoristas mais atentos, cuidadosos e pacientes com os ciclistas.

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Quero falar mais sobre o assunto, mas agora preciso sair... Depois continuo.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Rede de intrigas

Hoje de manhã, fui a um evento no Pelezão, um clube escola municipal na Lapa. 28 anos atrás, eu ia lá jogar basquete... Minha mãe dava aula na Cultura Inglesa da R. Pio XI; eu pegava carona com ela e encontrava amigos de Peruíbe que moravam ali perto, passava a tarde com eles.

O coitado do Pelezão já passou por fases de total abandono, mas melhorou muito nos últimos anos. Tanto que passou de 500 usuários para 12.000. O acesso é condicionado ao uso de uma carteirinha, mas obtê-la é facílimo (foto 3 X 4, documento de identificação, comprovante de residência).

O Supervisor de Esportes da Sub da Lapa mostrou, justificadamente orgulhoso, algumas das melhorias recentes. “A gente iluminou aquela pista de caminhada. Sabe quanto custou para a prefeitura? 500 reais”. Animador – algumas coisas muito simples deixam de ser feitas apenas por falta de iniciativa; se alguém se importar, elas acontecem.

Nos próximos dias, ficará pronta outra novidade – a piscina se tornará totalmente acessível para cadeirantes. Eles terão vestiário adaptado e uma rampa até a borda da piscina (antes havia degraus). De lá, se tiverem movimento nos braços, conseguem sair sozinhos da cadeira-de-rodas e ir para a água. Algo ao mesmo tempo singelo e fundamental – poder ir sozinho à piscina!

***
A ocasião concentrou dois tipos básicos de reação à minha ida para a Subprefeitura: um, feliz e otimista: “Que bom, eu votei em você, sou seu fã, adoro suas idéias, conta com a gente, tenho certeza que você vai fazer um trabalho muito legal. É um pepino/ uma guerra/ um desafio, mas a gente está torcendo e acreditando”. Outro, especialmente por parte de quem já trabalhou na máquina pública e, em alguns casos, de quem já precisou se relacionar diretamente com ela, tem tom de alerta grave: “Olha... Não é fácil. Você se prepara. A coisa aqui não é bolinho”. E aí contam casos com maior ou menor riqueza de detalhes.

Como já vi em outros lugares, é impressionante a variedade de formas de desonestidade. Por exemplo: tem gente que fala em nome da Subprefeitura sem ter qualquer vínculo real com ela. Concedem autorizações, impõem restrições... O interesse pode ser financeiro (em um caso ou em outro, cobra-se para autorizar, retirar obstáculos) ou político-partidário-beligerante. Exemplo: alguém se apresenta como representante da Subprefeitura e diz: “Vocês se preparem porque qualquer dia desses a prefeitura vai vir aqui e derrubar todas as casas/ fechar a biblioteca/ mandar todo mundo embora/ acabar com o Bilhete Único/ privatizar o hospital e acabar com o atendimento gratuito”. Semeia-se tal terror que é dificílimo convencer as pessoas de que não há risco de aquilo acontecer.

(Não fiquei sabendo disso agora, ao me preparar para o cargo. Acompanhei muitas histórias parecidas como vereadora, tentando desmontar redes de intrigas em vários cantos da cidade).

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Algumas pessoas se gabam de terem sido responsáveis pela minha indicação para o cargo; outras espalham que eu não vou tomar posse porque elas vetaram meu nome. É incrível.

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Na “máquina” tem de tudo, é óbvio. Aliás, já devo ter falado isso mil vezes.
Tem, por exemplo, uma funcionária que um dia disse ao chefe: “Não vou mais fazer plantão”. Os plantões fazem parte das suas atribuições; há um rodízio entre todos os funcionários do departamento. O chefe, naturalmente, disse que não poderia atender seu pedido (ordem?). O que ela fez? Passou a usar todas as prerrogativas concedidas aos servidores públicos, tirando seguidas licenças, faltando com e sem justificativa, saindo de férias em seguida... Ou seja, sumiu, largou mão do trabalho, deixou o serviço acumulado para os colegas. E não há quase nada que se possa fazer, uma vez que, oficialmente, está tudo certo, ela só está exercendo seu direito.

Enquanto isso, outra funcionária, de função equivalente à dela, se queixa: “A gente queria fazer muito mais do que faz. Ter mais projetos, mais trabalho”. Fica frustrada com improdutividade ou impotência. É justo que as duas gozem da mesma estabilidade no emprego?

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Existem outras categorias de reação ao meu novo cargo. “Vendida, traidora, duas-caras, oportunista, carreirista, sem-vergonha. Eu sabia, você só queria uma boquinha. Você vai dar sustentação a um partido da ditadura militar”. E também: “Soninha, você sabe o quanto eu gosto de você, não vá. Não porque eu não confie em você, mas porque é missão impossível. É uma máfia/ é muita burocracia/ a estrutura é muito ruim/ você vai encontrar muita sacanagem”.

Não é muito diferente do que eu ouvi quando fui candidata a vereadora e deputada...
Se as pessoas entendem – com bons motivos, infelizmente – que assumir um cargo pode ser o equivalente a arrumar “uma boquinha”, o que elas sugerem que eu faça? Deixe o cargo para quem gosta dessa idéia? Recuse dizendo: “Não, obrigada, eu não quero o cargo porque minha vontade é trabalhar para valer”? – para provar que sou honesta, idealista?

E se entendem que o setor público tem muitos problemas e sacanagens, muita corrupção e má-vontade, o que esperam de mim? Que eu diga “Não, obrigada, eu não quero o cargo, convide alguém que não se importe tanto com os problemas”?

Eu quero problemas... Se fosse formada em medicina, seria do Médico Sem Fronteiras. Quero ir onde tem trabalho para fazer.

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Um dos problemas típicos do bairro: as árvores muito antigas. Algumas aparentemente frondosas, mas condenadas. Outras precisando de uma poda, que precisa ser autorizada pela Secretaria do Verde ou, em alguns casos, até pelo Compresp (Conselho do Patrimônio Histórico). Enquanto isso não acontece pela dificuldade de entendimento (às vezes há pareceres conflitantes – remover X podar) ou dos trâmites burocráticos, algumas árvores caem. Na última chuva forte, foram sete, uma delas em cima de um carro, derrubando postes e fios. Impressionante a quantidade de gente que já me parou para falar das árvores.

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Uma observação – perfeita – de um funcionário da Sub: “A comunidade daqui da Pompéia, da Lapa, é muito articulada, exigente. Mas você tem de ir pro Jaguaré e Jaguara. Lá tá muito largado... Comparado com aquilo, isso aqui tá ótimo”.

Claro que não está perfeito, mas não dá para negar que alguns distritos estão muito melhores do que os outros, por razões diversas. (São seis no total: Pompéia, Perdizes, Barra Funda, Leopoldina, Jaguaré, Jaguara). Mas essa diversidade também me atrai. Lindo é poder respeitar as diferenças entre as regiões e superar as desigualdades entre elas.

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Amanhã é a cerimônia de posse. Estou animada e feliz. Não vejo a hora de começar.