Destaques, pra mim, da apresentação da Secretária de Transportes de Nova York, Janette Sadik-Khan, na Câmara Municipal:
1) Implantar mudanças em "Real Time" - interferências simples com resultado que vão transformando a cultura de mobilidade e demonstrando concretamente como pode vir a ser na cidade toda.
Dá pra fazer isso com pouco dinheiro e pouco material (até com tinta, floreiras, mobiliário simples).
2) Essas intervenções são feitas de maneira provisória dentro de um PLANO de médio e longo prazo. Metas, etapas, custos, atores. (Aqui se chama qualquer promessa/ lista de boas intenções/ ajuntamento de desejos de "plano").
3) Ela teve de enfrentar muita má-vontade, críticas, campanhas contrarias. O prefeito bancou.
4) Tudo é feito com acompanhamento permanente e levantamento de números de todos os tipos, comparando honestamente os resultados para saber se estão no caminho certo ou não (e não usando os mais bacanas, ligeiramente modificados para melhor, para fazer propaganda).
Alguns desses números mostram, por exemplo, que o numero de usuários e a extensão das viagens de bicicleta aumentou MUITO, mas o numero de acidentes não. Praticamente não se alterou.
O movimento no comercio aumentou MUITO nos locais em que passou a haver mais bicicletas e pedestres.
5) Quando o Bloomberg anunciou o plano de mobilidade com bicicleta, designou uma fatia de orçamento para isso
6) Pedestres não precisam só de calçadas melhores e travessias mais seguram (e precisam MUITO), mas também de SINALIZAÇÃO (defendo tanto isso... Imagina na Copa!). A cidade agora tem totens com mapas de localização para tudo quanto é lado. E as pessoas não precisam só de lugar para andar, mas também para FICAR (isso! Isso!). Então ela encheu a cidade de bancos e, em alguns lugares, de "praças pop-up", construídas rápida e temporariamente em fins-de-semana, por exemplo, com mesas, cadeiras e guarda-sóis.
7) Foi necessário reduzir a velocidade em muitas vias para aumentar a segurança. Se os motoristas amam isso tudo? No final (bem no final) das contas, da certo e todo mundo aprova, mas no começo eles querem esganar a Secretaria. Mas no começo a prefeitura tem de fazer um esforço enorme, criativo e consistente para sinalizar, explicar, convencer e acostumar as pessoas à novidade.
Eis aí a síntese da apresentação... O que me fascina é que ela não é uma urbanista sonhadora sem nenhum compromisso com a exequibilidade - ela FAZ. Não é uma funcionaria pública que usa as dificuldades o tempo todo para justificar seus fracassos - ela ENFRENTA as dificuldades. Ela não chega baixando decreto mas também não passa anos "debatendo democraticamente". E ela não está em uma cidade pequena em um país que não liga muito pra carro. Ela está em NY, USA. E FAZ. Se precisar, vai pessoalmente ao mercado comprar cadeiras de praia para a primeira intervenção na Times Square (ela fez isso - pensa que burocracia só tem aqui?)
Amo. Se lá tem jeito, aqui também tem.
"...But when you talk about destruction/Don't you know that you can count me out"
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Aquele mau humor persistente
"Pesquisa indica que a inflação prejudica mais os mais pobres". Ah vá.
***
Eu estava crente que os pobres ou não existiam mais, porque o governo LulaDilma levou eles todos ao paraíso (das compras), ou eram protegidos de todos os males pelo governo e sua revolucionária política social.
***
Mas acho que os pobres estão todos em São Paulo, né? O pior lugar do Brasil.
***
São Paulo é uma vergonha. Tem só 70km de metrô! Vai na contramão do Brasil.
***
Sabe por que as cidades brasileiras, especialmente as capitais, estão milhares de km à frente de São Paulo? Porque o partido do MalufPitta (PP) é, há muito tempo, aliado do governo LulaDilma e ocupa o Ministério das Cidades. Como eles tem uma tradição muito boa em política urbana, haja vista o que seu maior expoente fez em São Paulo, fizeram uma revolução no Brasil: metrôs, moradia decente para todo mundo, saneamento básico 100% ao menos nas cidades, trânsito maravilhoso etc.
***
Aliás, a quilometragem do metrô, os milhões de pessoas vivendo em favelas ou conjuntos habitacionais muito sem-vergonha e longe pra cac., as enchentes, o trânsito não tem nada a ver com a passagem do Maluf pela prefeitura e o governo do estado. A culpa é daquele safado do Covas etc.
***
E a lição que o Rio de Janeiro dá pra gente em matéria de Habitação, Transporte e Segurança, hein? Espetáculo! A gente tem muito que aprender. Violência zero!
***
Vamos mudar de assunto e falar da construção de alianças.
O chamado "mensalão", pensavam alguns membros do governo, era só para pagar dívidas de campanha do PT e partidos da base aliada, em função de despesas realizadas com recursos não contabilizados. Pô, se fosse isso tudo bem, né! Que encheção.
Mas eu sempre fiquei curiosa. Digamos que fosse.
- Dívidas de campanha, de vários milhões? Ahn... Com quem, hein? Quem foi que levou um calote desse tamanho?
- Caixa 2, quer dizer, "recursos não contabilizados", são doações feitas "por fora", por quem não quer aparecer como doador. Então peraí, o partido pegou dinheiro "por fora" e ainda precisa de empréstimos vultosos para pagar as dívidas de campanha? Gente, cassa o registro do contador deles.
- Se o partido se enforcou desse jeito durante a campanha, como é que ainda consegue crédito no banco? Vai pegar milhões de recursos emprestados para pagar as dívidas de campanha, quando podia contar inclusive com patrocinadores "por fora", e vai pagar a dívida para o banco (que cobra aqueles juros suaves) como?
***
E muita gente boa, honesta, inteligente defendeu e continua defendendo o PT. Como se o partido fosse deles, não dos demais.
***
Ontem o representante do PSOL em um debate em escola de Ensino Médio condenou, mais uma vez, as doações de campanha feitas por grandes empresas aos outros candidatos. "Ninguém rasga dinheiro! Se alguém doa para um candidato, é porque espera alguma coisa de volta".
No meu mundo, pessoas fazem doações, sim, porque acreditam em uma pessoa, um projeto, uma causa. Não todas, mas elas existem, eu já vi!! Doam para o Greenpeace, os Médicos Sem Fronteiras, o SOS Criança, o Criança Esperança e para algumas campanhas políticas também.
O PSOL acaba criminalizando as doações - e justamente as que são feitas "por dentro", quando os doadores aparecem na prestação de contas. E criminalizando quem aceita doação assim, com registro oficial.
Faz nada bem pra política. A velha divisão do mundo em "o Bem e o Mal".
***
O PSOL arrecadou mais, até agora, que o PPS. Claro, vão dizer que os doadores deles são pessoas do bem, os nossos não.
***
Se é impossível acreditar que alguém faça uma doação de campanha sem estar mal intencionado, então um doador pessoa-física do PSOL - a menos que tenha doado os 5 ou 10 reais que eles mencionam - pode (ou melhor, SERÁ) alguém mal intencionado, certo? Porque uma pessoa física também tem seus problemas, seus interesses...
***
Campanha precisa ser MAIS BARATA, isso sim.
Algumas formas de fazê-lo:
- Voto distrital. Em vez de MIL candidatos a vereador disputando votos pela cidade toda, doze candidatos por distrito.
- Fim do Horário Eleitoral. NÃO SERVE pra escolher candidato. E custa uma fortuna - inclusive os acordos mais absurdos para conseguir aumentar o tempo do TV.
Pra começar, tá bom.
***
Eu estava crente que os pobres ou não existiam mais, porque o governo LulaDilma levou eles todos ao paraíso (das compras), ou eram protegidos de todos os males pelo governo e sua revolucionária política social.
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Mas acho que os pobres estão todos em São Paulo, né? O pior lugar do Brasil.
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São Paulo é uma vergonha. Tem só 70km de metrô! Vai na contramão do Brasil.
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Sabe por que as cidades brasileiras, especialmente as capitais, estão milhares de km à frente de São Paulo? Porque o partido do MalufPitta (PP) é, há muito tempo, aliado do governo LulaDilma e ocupa o Ministério das Cidades. Como eles tem uma tradição muito boa em política urbana, haja vista o que seu maior expoente fez em São Paulo, fizeram uma revolução no Brasil: metrôs, moradia decente para todo mundo, saneamento básico 100% ao menos nas cidades, trânsito maravilhoso etc.
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Aliás, a quilometragem do metrô, os milhões de pessoas vivendo em favelas ou conjuntos habitacionais muito sem-vergonha e longe pra cac., as enchentes, o trânsito não tem nada a ver com a passagem do Maluf pela prefeitura e o governo do estado. A culpa é daquele safado do Covas etc.
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E a lição que o Rio de Janeiro dá pra gente em matéria de Habitação, Transporte e Segurança, hein? Espetáculo! A gente tem muito que aprender. Violência zero!
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Vamos mudar de assunto e falar da construção de alianças.
O chamado "mensalão", pensavam alguns membros do governo, era só para pagar dívidas de campanha do PT e partidos da base aliada, em função de despesas realizadas com recursos não contabilizados. Pô, se fosse isso tudo bem, né! Que encheção.
Mas eu sempre fiquei curiosa. Digamos que fosse.
- Dívidas de campanha, de vários milhões? Ahn... Com quem, hein? Quem foi que levou um calote desse tamanho?
- Caixa 2, quer dizer, "recursos não contabilizados", são doações feitas "por fora", por quem não quer aparecer como doador. Então peraí, o partido pegou dinheiro "por fora" e ainda precisa de empréstimos vultosos para pagar as dívidas de campanha? Gente, cassa o registro do contador deles.
- Se o partido se enforcou desse jeito durante a campanha, como é que ainda consegue crédito no banco? Vai pegar milhões de recursos emprestados para pagar as dívidas de campanha, quando podia contar inclusive com patrocinadores "por fora", e vai pagar a dívida para o banco (que cobra aqueles juros suaves) como?
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E muita gente boa, honesta, inteligente defendeu e continua defendendo o PT. Como se o partido fosse deles, não dos demais.
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Ontem o representante do PSOL em um debate em escola de Ensino Médio condenou, mais uma vez, as doações de campanha feitas por grandes empresas aos outros candidatos. "Ninguém rasga dinheiro! Se alguém doa para um candidato, é porque espera alguma coisa de volta".
No meu mundo, pessoas fazem doações, sim, porque acreditam em uma pessoa, um projeto, uma causa. Não todas, mas elas existem, eu já vi!! Doam para o Greenpeace, os Médicos Sem Fronteiras, o SOS Criança, o Criança Esperança e para algumas campanhas políticas também.
O PSOL acaba criminalizando as doações - e justamente as que são feitas "por dentro", quando os doadores aparecem na prestação de contas. E criminalizando quem aceita doação assim, com registro oficial.
Faz nada bem pra política. A velha divisão do mundo em "o Bem e o Mal".
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O PSOL arrecadou mais, até agora, que o PPS. Claro, vão dizer que os doadores deles são pessoas do bem, os nossos não.
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Se é impossível acreditar que alguém faça uma doação de campanha sem estar mal intencionado, então um doador pessoa-física do PSOL - a menos que tenha doado os 5 ou 10 reais que eles mencionam - pode (ou melhor, SERÁ) alguém mal intencionado, certo? Porque uma pessoa física também tem seus problemas, seus interesses...
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Campanha precisa ser MAIS BARATA, isso sim.
Algumas formas de fazê-lo:
- Voto distrital. Em vez de MIL candidatos a vereador disputando votos pela cidade toda, doze candidatos por distrito.
- Fim do Horário Eleitoral. NÃO SERVE pra escolher candidato. E custa uma fortuna - inclusive os acordos mais absurdos para conseguir aumentar o tempo do TV.
Pra começar, tá bom.
terça-feira, 31 de julho de 2012
"Com'assim prédio popular nos Jardins?"
Pergunta que eu respondo!
Questiona que eu explico :o)
Amanhã (quarta), às 19h30, vou responder pela internet ao vivo - pode mandar sua pergunta desde já para soninharesponde@soninha.com.br.
Não seja mal-educado senão a sua mãe lava sua boca com sabão.
O endereço da transmissão eu vou passar amanhã mesmo pelo tuíter: www.twitter.com/soninhafrancine
bjs :)
Questiona que eu explico :o)
Amanhã (quarta), às 19h30, vou responder pela internet ao vivo - pode mandar sua pergunta desde já para soninharesponde@soninha.com.br.
Não seja mal-educado senão a sua mãe lava sua boca com sabão.
O endereço da transmissão eu vou passar amanhã mesmo pelo tuíter: www.twitter.com/soninhafrancine
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sábado, 19 de junho de 2010
Recuerdos da África do Sul - 1
Passei duas vezes por Joanesburgo – na ida e na volta de uma viagem para o Nepal, em dezembro de 2003.
Era pra ser só uma conexão (São Paulo – Joanesburgo – Mumbai – Nova Delhi – Katmandu), mas acabou sendo uma estadia. Na dia, porque nos impediram (eu, meu marido e uma amiga) de embarcar: “Vocês não tem visto para entrar na Índia? Então não posso deixá-los seguir viagem”.
Em São Paulo, tínhamos sido informados de que o visto era desnecessário, uma vez que não chegaríamos a pisar fora do aeroporto. Mas, segundo o funcionário da companhia aérea, era necessário sim. E se nós chegássemos lá e não nos deixassem entrar, nós seríamos meio que deportados de volta, e ia sobra para eles.
Morrendo de frustração – eu ia para uma cerimônia religiosa no Nepal, a cremação do meu mestre budista, que começaria no dia seguinte – ficamos retidos em Joanesburgo, fazer o que?
Primeiro passo, encontrar um lugar para ficar – escolhemos uma pousada perto do aeorporto. Segundo, descobrir os horários de funcionamento do consulado da Índia e como chegar lá. Logo descobrimos que seriam no mínimo 48 horas de espera – o pedido era protocolado em um dia e o visto só era emitido no dia seguinte (e custaria uma grana preta, acho que US$80).
Então fomos passear...
A primeira impressão de Jo’burg foi muito esquisita. Parecia uma cidade feita de condomínios fechados, com casas de alto padrão e ruas lindas, arborizadas e ajardinadas, e favelas – sem meio termo. Fora dos condomínios, aridez, obras, poeira. Obras com trabalhadores sem a menor proteção - capacetes, botas ou mesmo, em alguns casos, sapatos.
“Temos tempo. Como podemos sair daqui?”. Queríamos pegar um ônibus. “Não tem... Tem vans, mas elas não servem pra vocês. E os táxis também não são muito bons”, disse o filho do dono da pousada, um rapagão loiro, muito simpático e gentil. (Tivemos medo de perguntar o que ele pensava do apartheid e ele falar qualquer coisa a favor... Medo).
Ele acabou nos levando ao consulado. “Agora queremos andar pelo centro da cidade”. “Não! Ninguém vai ao centro”. Ele não sabia nem como chegar, teve olhar no mapa. Vinte anos de idade e nenhuma ida ao centro.
Não nos deixamos intimidar, claro. Muita gente também diz a estrangeiros para não irem ao centro do Rio ou de São Paulo... Ele acabou nos deixando no Museu do Apartheid e ficou preocupadíssimo com nosso futuro. Insistiu para que ligássemos para a pousada na hora de ir embora – se sobrevivêssemos.
***
Se a cidade é estranha, o centro não deixava por menos. Prédios imensos e modernos, muitos de instituições financeiras, ao lado de edifícios abandonados. De novo, apenas os extremos. Nas ruas, bo parte do comércio era protegido com grades, como as de algumas lojas de conveniência que funcionam a noite toda e impedem a entrada dos clientes. As transações eram feitas na calçada mesmo.
Se a cidade é estranha, o centro não deixava por menos. Prédios imensos e modernos, muitos de instituições financeiras, ao lado de edifícios abandonados. De novo, apenas os extremos. Nas ruas, bo parte do comércio era protegido com grades, como as de algumas lojas de conveniência que funcionam a noite toda e impedem a entrada dos clientes. As transações eram feitas na calçada mesmo.
Havia camelôs pra todo lado, o que nos era bem familiar. O curioso era a quantidade de vendedores ambulantes oferecendo... penteados. Um cardápio mostrava mil modelos de tererê (trancinhas enfeitadas) que seriam feitas ali mesmo, no meiofio. Também surpreendia o número de cobertores vendidos na rua – vibrantes, coloridos. Se tivesse como carregar, eu teria comprado um...
***
Na chegada e na partida do centro, dois episódios bizarros. Primeiro, com um guia de viagem na mão, vimos uma sugestão de passeio no Soweto: “Fulano de Tal é o melhor cicerone. Conheço tudo, poliglota, simpático. Para contato com ele, ligue para ....”. “Se der tempo, vamos?”. Descemos da van conversando e fomos abordados por um sujeito falando português: “Olá, brasileiros? Prazer, sou sou fulano de tal, se quiserem posso levar vocês até Soweto”. Era o cara do guia!!
Acabamos não indo. Já era tarde, preferimos visitar mesmo o museu e andar um pouco pelo rua. Na hora de ir embora, teimamos: pedimos informações sobre trens e ônibus. Se os joanerburguenses usam o transporte coletivo, por que não nós?
Paramos MUITAS pessoas na rua, todas negras (só se viam negros no centro). NENHUMA sabia informar. E desaconselhavam fortemente: “Não façam isso. Chamem um carro por telefone”. Insistimos. Abordamos uma pessoa em um posto de gasolina: “Como chegamos a ...?” (demos o nome do bairro da pousada). O rapaz pensou um pouco e respondeu: “Vocês estão com pressa?”. “Não...”. Ele ofereceu: “Eu vou passar lá perto no caminho de casa. Mas estou com uma amiga ali no carro, também vou dar carona a ela, e nós combinamos tomar uma cerveja antes. Vocês podem nos acompanhar e eu levo vocês – só vou querer uma ajuda pra gasolina”.
Achamos a oportunidade imperdível – não tanto pela carona, embora estivesse começando a anoitecer e o centro ficasse cada vez mais inóspito, mas pela cerveja com eles. Claro que nos entreolhamos e perguntamos: “Será que a gente está entrando em uma daquelas roubadas históricas? Vão nos assaltar e jogar no mato?”. Mas olhamos para ele, para a amiga, e achamos que podíamos ser amigos deles em São Paulo, então fomos. Sou pessimista nata, mas ao mesmo tempo tenho tendência a confiar em estranhos.
***
A cerveja era em um boteco simpático, que mais parecia uma casa (talvez fosse). Sentamos em uma mesa com outros amigos, falamos de África e Brasil, de futebol. O lugar tinha cardápio escrito em uma lousa e um nome de prato em português! ( “Caldo verde” ou algo assim).
A cerveja era em um boteco simpático, que mais parecia uma casa (talvez fosse). Sentamos em uma mesa com outros amigos, falamos de África e Brasil, de futebol. O lugar tinha cardápio escrito em uma lousa e um nome de prato em português! ( “Caldo verde” ou algo assim).
Comemos, bebemos e pegamos a carona. A moça desceu primeiro, e depois ele nos deixou em uma avenida a uns 500 metros da pousada. Andamos pela escuridão das ruas ajardinadas – e achamos que ali dava mais medo do que no temido centro.
O filho do dono da pousada quase caiu duro com nossa aventura.
[continua]
Recuerdos da África do Sul - 2
Na volta do Nepal, não conseguimos embarcar de Nova Délhi para Mumbai – uma tempestade monstruosa cancelou todos os vôos. Fomos levados – depois de MUITO tumulto – a um hotel e embarcados no dia seguinte na hora do almoço. Naturalmente, todas as conexões, que eram bem justinhas, despencaram. Conseguimos chegar a Mumbai, mas não sair de lá. Foram 72 horas na cidade esperando aparecer lugar em outro vôo...
Chegamos a Joanesburgo e novamente não havia lugar em nenhum avião para o Brasil.
Com um detalhe: era dia 24 de dezembro. Já era para estarmos em São Paulo desde a véspera, mas não sabíamos ainda quanto tempo teríamos de esperar até conseguir voltar para casa, para nossa filha de 6 anos, parentes e amigos. O Natal , como mais temíamos, seria bem longe deles, na África do Sul.
***
Éramos, dessa vez, 6 pessoas. Eu, meu marido, um casal de mineiros com sua filha e uma mineira amiga deles.
A pousada da ida era bacana, mas meio cara. O dinheiro da viagem já tinha quase acabado, ainda mais com tantos contratempos. E a companhia aérea, que garantiu a estadia na Índia – primeiro em um ótimo hotel, depois em um pulgueiro – nos tinha abandonado completamente. Precisávamos achar outro pouso.
Pousadas são anunciadas no saguão do aeroporto. As pessoas te abordam com ofertas, de maneira insistente e até agressiva. Ficamos divididos entre duas ofertas; ambas tinham preço bom e, aparentemente, instalações agradáveis. Escolhemos a que parecia ter melhor localização: “Dá pra ir a pé até o mercado de pulgas, uma das atrações mais legais de Joanesburgo. Artesanato africano legítimo, com preço bom. Passeio imperdível”.
Essa era oferecida por uma moça loira de ar meio hippie; a outra, por um negro. Que ficou puto com a escolha: “Só porque ela é branca! Racistas!”. Ficamos putos da vida. “Era mais fácil o contrário, seu bocó. [Teríamos dito “seu bocó” se soubéssemos como, em inglês]. A gente é brasileiro e tem muito mais simpatia por você do que por ela”. Ele não se deu por vencido: “Ela não tem o que promete. Eu daria transporte de van. Ela vai dar transporte?”.
Ela ia dar transporte, claro, estava incluído no pacote. Translado na ida e na volta do aeroporto. “Vamos até o estacionamento. Estou com um carro pequeno, mas já chamei minha amiga para vir ajudar”.
Depois de um tempo, chegou a amiga. Em carro parecido com um Chevette – beeem velho, com uma remota lembrança do que eram molas e amortecedores. E o carro era, como alguns cães, a cara da dona.
A amiga tinha longos cabelos brancos completamente secos e desgrenhados. O rosto era enrugada como a de uma índia que a Nívea usava nas propagandas antigas, mostrando como o sol fazia mal à pele. Ela era baixinha e encurvada, falava um inglês incompreensível com voz adequadamente rouca (do ponto de vista da harmonia do conjunto) e fumava, fumava, fumava. Toda ela recendia a cigarro. As mãos tremiam.
Foi um sacrifício botar as malas todas nos dois carros (tínhamos malas enormes); os dois porta-malas não bastaram e tivemos de carregar uma parte no colo. Mas nós também sentamos no colo uns dos outros.
De um outro lugar no estacionamento, o rapaz da pousada e dois amigos, encostados em uma van, nos olhavam fixamente, com um olhar entre irônico e compadecido.
***
A pousada era uma herança de família. Uma casa espaçosa, bacana, em um condômino fechado. E clandestina – ali não podia haver nada senão residências, mas isso a moça só avisou quando estávamos chegando. “Se alguém parar vocês, digam que são meus amigos e estão hospedados na minha casa”.
O cheiro de ROUBADA já estava impregnado em nossas narinas. Mas achávamos que era tarde demais para voltar atrás. “É por pouco tempo. Erramos, mas agora vamos encarar. Voltar para o aeroporto agora é arriscado – e se não acharmos de novo aquele rapaz? As outras opções eram caras e ruins”.
***
A primeira visão da casa foi o jardim – descuidado. A segunda, a piscina: VERDE. A água. Parecia um pântano.
“Tudo bem, a gente não pretende usar a piscina”.
Por dentro, a pousada parecia uma república. Uma zona. Pela porta entreaberta de um quarto, a dona da pousada cumprimentou o namorado: deitado de roupa sobre a cama desarrumada, chamavam atenção as solas do seu pé: PRETAS de poeira.
***
Precisávamos cuidar do nosso Natal. Primeiro, fomos a um Shopping Center, o único lugar disponível para compras. O shopping tinha realmente de tudo – Bancos, supermercado? Só lá. Nos tais dos condomínios, até o comércio e serviços são confinados.
Compramos frutas secas, vinho e velas. Descobrimos que eles ali cobravam pelas sacolas plásticas, um dos primeiros sinais de “modernidade ecológica” no país.
Combinamos de fazer um amigo secreto com presentes comprados no Mercado das Pulgas – a maior razão da escolha pela malfadada pousada. Valor máximo: o equivalente a 5 dólares. Estávamos todos duríssimos.
Combinamos de fazer um amigo secreto com presentes comprados no Mercado das Pulgas – a maior razão da escolha pela malfadada pousada. Valor máximo: o equivalente a 5 dólares. Estávamos todos duríssimos.
O mercado era o máximo, dava dó não poder comprar muitas coisas (que, se pudéssemos não teríamos nem como carregar). As peças de artesanato eram lindas e os vendedores, divertidos, acostumadíssimos a lidar com turistas estrangeiros. Nós nos separamos, escolhemos os presentes e voltamos à pousada. Nesse meio tempo, ligamos para a companhia aérea, conforme combinado, e fomos orientados a ir para o aeroporto na manhã seguinte – TALVEZ houvesse lugar no vôo.
***
À noite, não havia ninguém à vista na pousada. Os 3 ou 4 outros hóspedes sumiram; a dona da pousada e o namorado estavam trancados no seu quarto. A sala da casa era toda nossa. Vasculhamos os armários da cozinha e achamos pratos, copos e travessas. Montamos nossa “ceia”, apagamos a luz, acendemos as velas, criamos um clima. Pensamos nas pessoas queridas, fizemos nossos melhores votos, trocamos os presentes, demos muita risada. Os mineiros eram muito, muito engraçados. Ao longe, à meianoite, estouraram alguns fogos.
À noite, não havia ninguém à vista na pousada. Os 3 ou 4 outros hóspedes sumiram; a dona da pousada e o namorado estavam trancados no seu quarto. A sala da casa era toda nossa. Vasculhamos os armários da cozinha e achamos pratos, copos e travessas. Montamos nossa “ceia”, apagamos a luz, acendemos as velas, criamos um clima. Pensamos nas pessoas queridas, fizemos nossos melhores votos, trocamos os presentes, demos muita risada. Os mineiros eram muito, muito engraçados. Ao longe, à meianoite, estouraram alguns fogos.
Fomos para a cama logo depois; precisávamos acordar antes das seis da manhã para ir ao aeroporto. Assim que levantamos, liguei para São Paulo – a Julia estava chegando à casa da avó para dormir, quase chorando de saudade da gente. Eles falavam de nós quando abriram a porta e o telefone tocou... #Aquelascoincidenciasincríveis. (Fazer ligações internacionais não era fácil ali).
Mas nossos problemas ainda não haviam acabado. A dona da pousada tinha prometido nos levar – o translado estava incluído, certo? – junto com sua indefectível amiga. E quem disse que a amiga chegava? Quando finalmente chegou, muito atrasada, nos fazendo quase enfartar de nervoso, ela pediu dinheiro para abastecer, uma vez que estava muito duro e o tanque estava quase vazio.
Mas voltamos, naquele dia mesmo, ao Brasil. Com quatro dias a mais de África do Sul do que planejávamos inicialmente muito mais histórias do que jamais podíamos imaginar.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Três Lagoas, Mato Grosso DO SUL! – 1
Estive lá esta semana para participar da Semana de Comunicação da Faculdade AEMS. Um vôo rápido e confortável até Araçatuba + 150km de estrada boa até Três Lagoas, MS, e pronto.
A expressão “outro mundo” é inevitável. Lugar muito plano, com ocupação também plana (sobre espaço...) fácil de imaginar no calor (estava frio!). Segundo meus anfitriões, por ser cercada de rios, “parece uma panela Wok”, aquela que cozinha no vapor. Signos de agropecuária pra todo lado – caminhões enormes, chapéus de boiadeiro, lojas de implementos.
Não deu tempo de ver muita coisa da cidade, então quase tudo que eu soube dela foi pelo que os moradores me contaram:
“Três Lagoas cresceu muito nos últimos anos; estamos na expectativa do censo para dizer se a população passou de cem mil pessoas (como acredita a prefeita). Vieram para cá uma papeleira, uma siderúrgica...”
“A terra aqui é muito boa, a água brota fácil... Você espeta e já aflora o Aquífero Guarani. O eucalipto que leva sete anos pra brotar na China aqui cresce em três” (Não lembro se foram esses os números exatos, mas a proporção era essa).
“Agora já tem asfalto pela cidade toda, bem mais do que uns anos atrás. Mas não fizeram saneamento, drenagem...”
“Ali tem a termoelétrica do Lula. O gasoduto passa no meio da avenida”.
“Outro dia teve um vazamento da papeleira. A gente teve de cancelar as aulas na faculdade. Agora eles estão tendo de investir em medidas de controle ambiental”
“Aqui tem muita bicicleta e tem ciclovia, mas eles não respeitam muito, não”. “Eles quem” ? “Os ciclistas”.
“Tá vendo esse centro de eventos? Foi feito com dinheiro de uma compensação ambiental da CESP, que era no valor de 18 milhões. Vc acha???”
“Aqui tudo tem o nome do [Senador] Ramez Tebet”. (Que foi muito importante na história da cidade do estado morreu há pouco tempo; a prefeita é filha dele)
“Faz uma década que dizem que vão fazer uma ponte nova aqui, entre Três Lagoas e Castilho (SP). Precisa, viu, porque só tem a ponte em cima da Barragem, então todo mundo tem de vir pra cá. E é pra ser uma ponte rodoferroviária; precisa muito, porque a ponte ferroviária é velha demais. Os trens tem de circular com no máximo 20 vagões [outro número que eu não tenho certeza... Será que ele disse 30?], e podia ter muito mais. Compromete a produtividade”.
“Daqui se transporta mercadoria direto para o Porto de Paranaguá. Nem precisa de motor, a gravidade faz o serviço. Mas sai caro, porque cobram taxas altíssimas”.
“Saiu uma matéria no Correio aqui do estado dizendo que nosso maior prejuízo é com sonegação. Aí você vê o posto fiscal e realmente é uma piada”.
“Nosso Cristo é um fenômeno. Ele foi feito por um artesão de Corumbá e veio de trem. Era igual ao do Rio, com os braços abertos. Mas pra vir deitado no trem, teriam de cortar todas as árvores no caminho. Botaram ele de pé – aí não passavam nos fios. Resultado: cortaram os braços na altura do cotovelo e colocaram em outra posição, como se estivesse dando uma benção. Mas imagina o que o pessoal faz de piada – que o Cristo está sendo assaltado, ou fazendo um sinal não muito religioso...”
“A gente tá a 6km de São Paulo, mas as referências locais são sempre Campo Grande. Era tão fácil ir pra Araçatuba, Rio Preto...”
“Aqui pra baixo do rio é lindo. Você tem de vir no festival de pesca em Castilho em agosto e conhecer o “Pantanal Paulista”.”
Fiquei em frente a uma lagoa, lindo cenário. “Anos atrás, isso aqui estava abandonado, não tinha nada urbanizado. Agora tem calçada, pista, luz... A prefeita deu um bom trato. Mas não pode bicicleta nem cachorro, ‘cê acha?!”
“Às vezes vem artista aqui fazer show, aí sabe como é, o cara viaja tanto que nem sabe direito onde está. Outro dia teve um que passou o show inteiro falando “E aí, Sete Lagoas”!
“Quando o cara faz uma saudação ao “Mato Grosso”, o pessoal grita “Do Sul”!
"Naquela palmeiras moram casais de Arara Azul. Todo fim de tarde elas fazem uma revoada pela cidade" (Eu vi quatro araras, lindas!)
“Três Lagoas é o centro do Brasil. O Mato Grosso do Sul é o centro do Mercosul. Este lugar é muito especial”.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Destruída, reconstruída, tomada, retomada...
(Istambul - Primeiras impressões e um bocado de história)
Era pouco mais de meia-noite e chovia. A primeira visão de Istambul não foi especialmente memorável. Eu esperava encontrar, de cara, sinais de história milenar para todo lado e ares de Expresso do Oriente. Mas o que eu via ao longo das avenidas eram prédios "modernos" à moda "antiga", como nas cidades do litoral de São Paulo (Santos, São Vicente). Nada do charme enigmático da minha imaginação.
Aos poucos foram aparecendo as belezas esperadas (minaretes, pontes) e as inesperadas, como uma profusão de bandeirinhas ao longo de uma avenida (sobras da comemoração do dia da Proclamação da República) e painéis fotográficos iluminados por toda a extensão de uma muralha. Nos dois últimos casos, homenagens a Kemal Atatürk, o maior herói da pátria.
A Wikipedia me facilita o trabalho de explicar quem foi ele (estou para fazer um depósito em contribuição a ela...)
Mustafa Kemal Atatürk (Selânik, 1881 — Istambul, 10 de novembro de 1938) foi um oficial do exército, estadista revolucionário e fundador da República da Turquia, assim como o seu primeiro presidente. (...) Suas campanhas militares bem-sucedidas asseguraram a liberação do país e a proclamação da república no lugar do antigo governo imperial otomano. (...) Como primeiro presidente da Turquia, Atatürk embarcou num ambicioso programa de reformas políticas, econômicas e culturais. Um admirador do Iluminismo, Atatürk procurou transformar as ruínas do Império Otomano numa nação-Estado democrática e secular. Os princípios das reformas de Atatürk costumam ser chamados de "kemalismo", e continuam a formar a fundação política do Estado turco moderno.
Istambul tem uma história tumultuada como poucos lugares no planeta (e a concorrência é pesada). É que ela começa longe... “Em 2008, durante as obras de construção da estação de metrô Yenikapı e do túnel Marmaray, na península situada no lado europeu, encontrou-se um assentamento neolítico até então desconhecido, datado como sendo de cerca de 6500 a.C.”. Depois de povoados da época dos fenícios, registros de tribos trácias etc, foi fundada, por colonos gregos, a cidade de Bizâncio, já em 600 e tanto antes de Cristo.
Bizâncio foi tomada e perdida por persas, espartanos, atenienses, macedônios, celtas...
No século II a.C. vieram os romanos, que primeiro a reconheceram como aliada e depois acabaram se apossando dela. A cidade foi destruída por conta de uma disputa entre os próprios romanos . Reconstruída outra vez, rebatizada (Augusta Antonina, Nova Roma), foi estabelecida como capital do Império Romano pelo imperador Constantino I. Império que se dividiu alguns anos depois; a cidade, mais conhecida como Constantinopla (o nome Nova Roma não chegou a pegar...), permaneceu como capital do Império Romano do Oriente, depois Império Bizantino (referência, claro, à colônia de Bizâncio, ocupação pioneira da região).
“A combinação do imperialismo e a posição estratégica desempenhariam um papel importante, como encruzilhada entre dois continentes (Europa e Ásia) e caminho para a África e outros territórios (...) em termos de comércio, cultura, diplomacia e estratégia. Em um enclave tão valioso, Constantinopla era capaz de controlar a rota entre a Ásia e Europa, assim como a passagem do Mar Mediterrâneo ao Mar Negro. Embora a parte ocidental do Império Romano tivesse entrado numa crise econômica, comercial, política e demográfica, Constantinopla manteve a sua posição durante séculos, convertendo-se na grande metrópole européia medieval”
Manter a posição “durante séculos” não quer dizer que não tenha havido mais um milhão de sobressaltos. Depois eu volto a eles.
Era pouco mais de meia-noite e chovia. A primeira visão de Istambul não foi especialmente memorável. Eu esperava encontrar, de cara, sinais de história milenar para todo lado e ares de Expresso do Oriente. Mas o que eu via ao longo das avenidas eram prédios "modernos" à moda "antiga", como nas cidades do litoral de São Paulo (Santos, São Vicente). Nada do charme enigmático da minha imaginação.
Aos poucos foram aparecendo as belezas esperadas (minaretes, pontes) e as inesperadas, como uma profusão de bandeirinhas ao longo de uma avenida (sobras da comemoração do dia da Proclamação da República) e painéis fotográficos iluminados por toda a extensão de uma muralha. Nos dois últimos casos, homenagens a Kemal Atatürk, o maior herói da pátria.
A Wikipedia me facilita o trabalho de explicar quem foi ele (estou para fazer um depósito em contribuição a ela...)
Mustafa Kemal Atatürk (Selânik, 1881 — Istambul, 10 de novembro de 1938) foi um oficial do exército, estadista revolucionário e fundador da República da Turquia, assim como o seu primeiro presidente. (...) Suas campanhas militares bem-sucedidas asseguraram a liberação do país e a proclamação da república no lugar do antigo governo imperial otomano. (...) Como primeiro presidente da Turquia, Atatürk embarcou num ambicioso programa de reformas políticas, econômicas e culturais. Um admirador do Iluminismo, Atatürk procurou transformar as ruínas do Império Otomano numa nação-Estado democrática e secular. Os princípios das reformas de Atatürk costumam ser chamados de "kemalismo", e continuam a formar a fundação política do Estado turco moderno.
Istambul tem uma história tumultuada como poucos lugares no planeta (e a concorrência é pesada). É que ela começa longe... “Em 2008, durante as obras de construção da estação de metrô Yenikapı e do túnel Marmaray, na península situada no lado europeu, encontrou-se um assentamento neolítico até então desconhecido, datado como sendo de cerca de 6500 a.C.”. Depois de povoados da época dos fenícios, registros de tribos trácias etc, foi fundada, por colonos gregos, a cidade de Bizâncio, já em 600 e tanto antes de Cristo.
Bizâncio foi tomada e perdida por persas, espartanos, atenienses, macedônios, celtas...
No século II a.C. vieram os romanos, que primeiro a reconheceram como aliada e depois acabaram se apossando dela. A cidade foi destruída por conta de uma disputa entre os próprios romanos . Reconstruída outra vez, rebatizada (Augusta Antonina, Nova Roma), foi estabelecida como capital do Império Romano pelo imperador Constantino I. Império que se dividiu alguns anos depois; a cidade, mais conhecida como Constantinopla (o nome Nova Roma não chegou a pegar...), permaneceu como capital do Império Romano do Oriente, depois Império Bizantino (referência, claro, à colônia de Bizâncio, ocupação pioneira da região).
“A combinação do imperialismo e a posição estratégica desempenhariam um papel importante, como encruzilhada entre dois continentes (Europa e Ásia) e caminho para a África e outros territórios (...) em termos de comércio, cultura, diplomacia e estratégia. Em um enclave tão valioso, Constantinopla era capaz de controlar a rota entre a Ásia e Europa, assim como a passagem do Mar Mediterrâneo ao Mar Negro. Embora a parte ocidental do Império Romano tivesse entrado numa crise econômica, comercial, política e demográfica, Constantinopla manteve a sua posição durante séculos, convertendo-se na grande metrópole européia medieval”
Manter a posição “durante séculos” não quer dizer que não tenha havido mais um milhão de sobressaltos. Depois eu volto a eles.
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