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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Dez maneiras de ajudar moradores de rua neste frio inclemente

(Quase tão inclemente quanto algumas pessoas):
1 - Leve uma roupa a mais: além do agasalho que você pretende usar, carregue mais um. Alguém no seu caminho vai estar com frio, infelizmente, e vestindo menos que o necessário.
2 - Se no seu caminho não tem ninguém com frio, pergunte para as outras pessoas do seu trabalho ou da escola... Elas vão passar por alguém. Se é que elas mesmas não vivem em condições que aumentam o sofrimento com as temperaturas polares (eu sonho com o dia em que as pessoas conheçam onde mora o porteiro, o segurança, o manobrista, a copeira...)
3 - Se vc anda de carro, carregue não uma, mas "umas" roupas a mais. Casacos, moletons, camisetas, blusas de pijama.
4 - Carregue meias. Até no bolso do casaco dá pra levar um par ou dois.
5 - Carregue luvas para doar (capaz de ter alguma na sua gaveta de que você nem se lembra porque não tem o hábito de usar).
6 - Carregue um cachecol - que você mesmo pode fazer, até mesmo sem agulhas. Neste vídeo (um dos muitos disponíveis na web) você aprende a fazer um, mesmo sem saber tricô ou alemão, é só imitar os gestos - também não precisa de agulhas!!  https://youtu.be/CxJXoqCXOP4
7 - Se você já sabe tricotar, maravilha. Além de fazer cachecóis (a coisa mais fácil de todas), você pode ENSINAR pessoas a fazer. Que podem ser: amigas e amigos - filhas e filhos - voluntárias e voluntários de instituições.
8 - Sabe o que mais você pode fazer com tricô e crochê? básico: xales, gorros, sapatinhos de lã e sapatões.
9 - Com retalhos de tecido, roupas super furadas, meias e cuecas velhas (e limpas, duh), você pode fazer uma colcha, almofada ou travesseiro super quentes e baratos - coisa de portugueses pobres, como meus avós. Você pode rechear uma fronha ou capa de almofada ou fazer um "envelope" de tecido no tamanho de uma colcha, fronha ou "rolinho" para preencher. Com ou sem frio, é horrível não ter um lugar para apoiar a cabeça na hora de dormir. Sua obra vai ficar melhor ainda se der para forrar a parte que encosta no chão com um tecido "isolante" de frio e umidade, como as capas daqueles guarda-chuvas "balatinhos" que não aguentam um ventinho.
9 - A coisa tá se sofisticando, né? As primeiras cinco são bem mais fáceis... Se você quer fazer mais do que isso, pode produzir uma teia de solidariedade. Pense em lugares em que as pessoas ficam muito tempo esperando, como salas de espera de consultorios médicos. Em locais em que as pessoas tem tempo livre e sentem falta de serem "úteis", amadas e reconhecidas, como casas de repouso/asilos. Você pode ir até um desses lugares com lãs e agulhas e ensinar (ou aprender) a fazer tricô ou crochê e estimular as pessoas a colaborarem com suas próprias doações. Generosidade em rede 
10 - Quer ajudar quem já ajuda? A internet, o seu whatsapp, sua igreja, trabalho, família e amigos estão cheios de informações sobre grupos de voluntários com os quais você pode contribuir de mil maneiras - desde um depósito em conta, uma doação de roupas e cobertores, um serviço de recolhe-a-doação-aqui-e-leva-ali-na-ONG... Eu trabalho em uma instituição chamada CASA Bodisatva, que tem página aqui no Face, e estamos sempre aí pelas ruas levando cobertores, abraços, companhia e amor. É só uma sugestão dentre as muitas possíveis 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

+ Brasileiros e Brasileiras

Ontem ele veio aqui.

"Soninha, me disseram que você morava aqui, eu vim tentar pedir ajuda. Eu sou dependente e tô há um tempão tentando vaga em uma clínica em Campinas. Agora eu consegui e se não aparecer lá em no máximo dois dias, sou considerado desistente e perco a vaga. Eu não tenho um centavo e queria ver se você tem como me ajudar. Você imagina como é por aí, te tratam que nem cachorro".

"Dinheiro em casa eu nunca tenho... Mas olha, mesmo que eu tivesse, eu sei como é, depois bate uma vontade insuportável e você acaba indo comprar..."

"Olha, juro pra você que não. Tô há um mês sem usar, não vou querer agora. Tô tentando muito parar, fiz o maior esforço pra conseguir essa clínica".

"Hmm... Se você vier aqui amanhã entre 11 e meio-dia, eu te coloco dentro do ônibus".

"Beleza, obrigada. Mas eu vou continuar tentando ir hoje mesmo".

"Então passa aqui pra me avisar? Se não eu não vou saber se você não apareceu porque desencanou ou porque conseguiu".

"Eu NÃO VOU desencanar. Aviso se eu estiver por aqui, mas se não estiver..."

"Tem razão, não vai passar aqui só pra me avisar... Mas não é ruim chegar lá de noite? Esses lugares tem uma disciplina super rigorosa, de repente fecham a porta às dez..."

"Acho que não. Um lugar pra pessoas com problema de droga?"

"Sei lá, meio arrsicado. Você esperou tanto, tá tão decidido, se esperar mais doze horas não vai ser grande coisa".

"Beleza, mas eu vou tentar ir hoje".

***
Meio-dia: não apareceu.

***
19h20 - campainha.

"Vim avisar que eu consegui. Tô indo".

"Pô, já ia te xingar, 'isso é hora'?"

"Não, consegui, vim avisar"

"Que bom, eu ia ficar encanada".

"Eu sei".

***
Lá se foi. Pediu dinheiro pro cigarro, "porque lá pode". Pode ser - acompanhando meu amigo em abstinência de crack, soube que a psiquiatra falou "nem tenta largar o cigarro agora"... Realmente, ele virava um bicho só de começar a pensar em tentar.

Ficou com meu celular. (#Lyliannaomemata). Ele não sabe se pode ligar ou não; talvez de 15 em 15 dias no domingo, "não sei direito".

"Bom, se precisar de alguma coisa em São Paulo, mandar um recado pra alguém, ou só contar como tá indo...Falar com alguém..."

"O que é?"

"Claro. Pode ligar a cobrar, se precisar - a gente não vai ficar meia hora no telefone, né? E não passa o número pra mais ninguém, plis".

"Claro que não!"

"Eu nem sei seu nome!"

"Fábio". E saiu.

Três passos depois, olhou pra trás e deu uma risada. "Fabio Maluf rsrs. Quem sabe depois eu entro no seu partido e a gente faz alguma coisa rsrsrs".

"Primeiro se cuida. Boa sorte".

Brasileiros e brasileiras

Eu quis tirar uma foto da Lucileide, mas não teve meio de ela deixar. Poucos dentes na arcada superior, pele escura, cabelo preso com fios esbranquiçados e uns 50 anos de idade.

Explicou que "o quarto custava 200 real; eu paguei quando eu tinha, mas quando acabou o homem me botou na rua. Eu falei pra ele esperar dar o fim do mês, mas fui na feira comprar umas frutas e quando eu voltei, minha bolsa tava assim na calçada do lado de fora. A sra não tem um lençol velhinho pra me arrumar?"

Arrumei um lençol. Estava velhinho mas era de estimação - what-the-hell, Sonia, dá o lençol pra mulher.

"Mas onde a sra vai usar o lençol"?

"No ponto de ônibus".

"Ruim né?"

"Ah, mas é só até conseguir falar com o Juiz Federal lá da minha cidade, que eu tô ligando pra ele e ele manda o dinheiro da passagem [mostrou um cartão telefônico]. Eu sou de Natal. Quero voltar pra lá. Eu tava trabalhando aqui, mas o homem que eu tava trabalhando quis fazer putaria e eu não deixei. Ele me agrediu e minha mão ficou desse tamanho. Fui pro hospital, fiz corpo de delito lá no Mandaqui, a senhora conhece? Depois ficou doendo, não consigo pegar uma vassoura direito.

A sra conhece Natal? Eu nem sei lembrar as praias que tem lá, porque eu nasci numa fazenda. Fazenda a sra sabe, fica fora da cidade. Meu pai tinha uma outra dona. Ela me batia, judiava de mim. Meu pai me deu mil reais todo mês que era pra eu nunca ficar escrava de ninguém. A mulher dele perguntou pra uma conhecida dela se não tinha ninguém precisando de uma pessoa para trabalhar em São Paulo, porque lá não tinha nada. Mentira dela, tinha, ela que queria que eu fosse embora.

A mulher falou "conheço, tem uma pessoa idosa que precisa de alguém pra dormir, que não bebe, não fuma, não faz bagunça e não gosta de baixaria". Aí eu fui. Eu tinha 18 anos. Lá eu arrumei emprego - trabalhei com a filha de um jornalista, com um homem que tinha uns arados... Tinha trabalho lá. Se não fosse aquela mulher eu não tinha nem conhecido essa droga de cidade.

Mas olha, aqui eu trabalhei com homem que não conseguia nem sair da cama, fazia cocô, tudo. Eu pequenininha, com 18 anos, mal aguentava com o homem. Outra era uma mulher que ficava em cadeira-de-rodas, eu cuidei, dava banho, fui embora ela tava andando. Outra tinha um ferida assim na perna [mostrou o tamanho]. Eu tratei, ficou assim [bem menor]. O homem lá do Hospital das Clínicas perguntou "quem tá tratando disso?", eu disse "eu", ele falou "pode continuar assim". Teve uma outra mulher que tinha labirintite, a sra conhece? Dá aquela tontura? Cuidei também. Cuidei de uma porção de gente.

Eu durmo lá na São João, no ponto Ana Cintra. Tem a cobertura, tem, como se diz?, iluminação. Eu me ajeito lá. Eu tinha um lençol, mas eu distraí - a senhora sabe, tem as cadeirinhas mas tem espaço entre elas - e a ponta do lençol esbarrou no chão e molhou. Eu fiquei com nojo daquela água suja e joguei ele fora. Mas é bom ali. Eu carrego minha água [mostrou a garrafa na sacola a tiracolo] e sabonete, toalha [mostrou a mochila à frente do corpo], acordo e já pronto.

Ah, não, foto não. Foto não. [Eu: "Eu gosto de ficar com lembrança"!]. Eu pego seu endereço e mando sempre carta pra senhora".

E se foi, debaixo da chuva fraquinha.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sem surpresa, com tristeza

Como o Nelson Alexandre, espectador da ESPN Brasil, escreveu no mural no nosso site (digo, no site da TV), o Uruguai tem uma baita dupla de ataque (Forlan e Suarez); a África do Sul é a "centésima e tralalá no ranking da Fifa) - "deu a lógica".

Mas a lógica às vezes vai passear, e podia ter dado um tempo nesse jogo...

A África do Sul é muito fraca e não teria a menor chance se não fosse o time do país-sede. Provavelmente nem teria se classificado. Mas com o apoio da torcida local e a simpatia do mundo inteiro, ganha uma força adicional, mas evidentemente insuficiente.

Agora precisa ganhar da França (não é impossível...) mas precisa também torcer para empate entre França X México (para que as duas estacionem em 2 pontos) e depois torcer por empate ou contra o México na partida contra o Uruguai... Mas se tiver um vitorioso entre França X México, já haverá dois times com 4 pontos, e suas chances caem a quase zero.

Pena, pena... Em qualquer lugar, a eliminação do país-sede dá uma brochada geral. Quando se trata de um país que desperta tanta simpatia, solidariedade e compaixão, mais ainda.

Enfim, com seu próprio time fora do páreo, o mais provável é que os sul-africanos elejam o Brasil como "seu". Que nós não os decepcionemos.

***
Hoje, 16 de junho, se rememora na África do Sul um episódio muito marcante na sua história, a passeata de 15 mil estudantes que terminou em tragédia. Eles protestavam contra mais uma medida ridícula, indecente, abominável de segregação e exclusão dos negros. Como em outros momentos, a tragédia serviu como ponto de partida, momento de virada. No Brasil, muitos atribuem à morte violenta de Vladimir Herzog esse ponto de virada, de BASTA.

O que sempre me assombrou no apartheid foi, além da crueldade abjeta do sistema, o fato de que era uma imposição da minoria branca sobre a vasta maioria negra. Com a força do dinheiro e das armas, a minoria calou a maioria durante muito tempo. E como sofreu essa maioria para conseguir encerrar esse absurdo, mesmo com pressão internacional, sanções e campanhas.

Às vezes é bom relembrar essas conquistas. Pensar que eu cresci "convivendo" com o apartheid, abismada, me sentindo impotente e descrente da humanidade, e ele... acabou. Racismo e discriminação não acabam facilmente, mas deixar de ser política oficial era fundamental. Parecia uma causa perdida, mas o mundo venceu essa atalha. Sinal de que outras coisas com as quais a gente não se conforma ainda tem jeito.

***
E que figura o Desmond Tutu!