1 - Muitos ligam para a família (mães, filhas e filhos, irmãos, sobrinhas) e desligam quando alguém atende porque têm vergonha. Outros mentem dizendo que está tudo bem, porque não querem que a mãe sofra. A maioria, quando a gente pergunta sobre sua família, responde: "É esta aqui", mostrando os moradores de rua ao seu redor.
2 - Em São Paulo, muitos se referem ao seu lugar (debaixo de um viaduto, colado ao muro, no meio de um canteiro) como "maloca" e se denominam "maloqueiros". Ficam muito irritados se chamados de "mendigos".
3 - Em várias ocasiões, pedem ajuda para parar de fumar, cheirar ou beber. "Me arruma uma internação?" é um pedido frequente. Muitos já passaram várias vezes por CAPS e internações. Muitos pararam de fumar e cheirar, mas não conseguem largar a pinga. Uma garrafa conhecida como "barrigudinha" ou "gorote" custa R$2,50.
4 - Por que não querem ir para albergues? Porque não podem levar a mulher, os amigos, as crianças e os cachorros - e é lógico que jamais os deixariam para trás. Porque não podem deixar a carrocinha na rua (pode ser levada pelo rapa ou roubada). Porque não querem dormir em um quarto com dezenas de conhecidos com quem não se dão ou desconhecidos. Porque não podem beber ou fumar enquanto estiverem lá (e ficam furiosos quando outros cheiram ou usam pedra nos banheiros). Porque as camas têm pulgas. Porque alguns albergues os obrigam a sair da cama antes das 6 da manhã. Porque alguns albergues são muito distantes de onde "moram", e tem kombi pra levar mas ninguém os traz de volta.
5 - Elas e eles adoram ganhar kits de higiene: sabonete, barbeador, desodorante, xampu, escova e pasta de dentes. E também gel (homens) e esmalte de unha.
6 - Muitos cobertores são abandonados durante o dia por motivos diversos, entre eles o fato de que moradoras e moradores de rua, por problemas fisiológicos, psicológicos etc, urinam enquanto dormem. E lavar a roupa, para quem mora na rua, é um luxo. Os que fazem questão procuram um chafariz ou a sarjeta mesmo.
7 - De um jeito ou de outro, assistem televisão. Ontem mesmo um garoto que dormia no meio da ciclovia da Auro Soares viu minha camisa de futebol e perguntou "E o Peru, hein?". Também comentam política e filmes. Outro dia o assunto de madrugada no ponto de ônibus do Pateo do Colégio era "A Lagoa Azul".
8 - Muitos tomam remédios controlados porque têm convulsões. Às vezes (toda hora) o rapa leva seus objetos - mochila com documentos, roupa, livros (sim, livros!), remédios - e eles não conseguem repor o que foi levado.
9 - Se morrerem sem terem nenhum documento com foto (acontece muito) e sem que se localize a família, um amigo que queira evitar que sejam enterrados como indigentes ("não reclamados", "não identificados") precisará ir duas vezes a uma delegacia tentar obter autorização para providenciar a "inumação". Às vezes não dá certo.
10 - É impressionante como gostam de comemorar seus aniversários. Experimente fazer festa para um deles (bolo, velinhas, refrigerante) - os outros todos vão ficar ansiosos na expectativa do seu dia e fazer contagem regressiva.
"...But when you talk about destruction/Don't you know that you can count me out"
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quarta-feira, 15 de junho de 2016
Dez maneiras de ajudar moradores de rua neste frio inclemente
(Quase tão inclemente quanto algumas pessoas):
1 - Leve uma roupa a mais: além do agasalho que você pretende usar, carregue mais um. Alguém no seu caminho vai estar com frio, infelizmente, e vestindo menos que o necessário.
2 - Se no seu caminho não tem ninguém com frio, pergunte para as outras pessoas do seu trabalho ou da escola... Elas vão passar por alguém. Se é que elas mesmas não vivem em condições que aumentam o sofrimento com as temperaturas polares (eu sonho com o dia em que as pessoas conheçam onde mora o porteiro, o segurança, o manobrista, a copeira...)
3 - Se vc anda de carro, carregue não uma, mas "umas" roupas a mais. Casacos, moletons, camisetas, blusas de pijama.
4 - Carregue meias. Até no bolso do casaco dá pra levar um par ou dois.
5 - Carregue luvas para doar (capaz de ter alguma na sua gaveta de que você nem se lembra porque não tem o hábito de usar).
6 - Carregue um cachecol - que você mesmo pode fazer, até mesmo sem agulhas. Neste vídeo (um dos muitos disponíveis na web) você aprende a fazer um, mesmo sem saber tricô ou alemão, é só imitar os gestos - também não precisa de agulhas!! :) https://youtu.be/CxJXoqCXOP4
7 - Se você já sabe tricotar, maravilha. Além de fazer cachecóis (a coisa mais fácil de todas), você pode ENSINAR pessoas a fazer. Que podem ser: amigas e amigos - filhas e filhos - voluntárias e voluntários de instituições.
8 - Sabe o que mais você pode fazer com tricô e crochê? básico: xales, gorros, sapatinhos de lã e sapatões.
9 - Com retalhos de tecido, roupas super furadas, meias e cuecas velhas (e limpas, duh), você pode fazer uma colcha, almofada ou travesseiro super quentes e baratos - coisa de portugueses pobres, como meus avós. Você pode rechear uma fronha ou capa de almofada ou fazer um "envelope" de tecido no tamanho de uma colcha, fronha ou "rolinho" para preencher. Com ou sem frio, é horrível não ter um lugar para apoiar a cabeça na hora de dormir. Sua obra vai ficar melhor ainda se der para forrar a parte que encosta no chão com um tecido "isolante" de frio e umidade, como as capas daqueles guarda-chuvas "balatinhos" que não aguentam um ventinho.
9 - A coisa tá se sofisticando, né? As primeiras cinco são bem mais fáceis... Se você quer fazer mais do que isso, pode produzir uma teia de solidariedade. Pense em lugares em que as pessoas ficam muito tempo esperando, como salas de espera de consultorios médicos. Em locais em que as pessoas tem tempo livre e sentem falta de serem "úteis", amadas e reconhecidas, como casas de repouso/asilos. Você pode ir até um desses lugares com lãs e agulhas e ensinar (ou aprender) a fazer tricô ou crochê e estimular as pessoas a colaborarem com suas próprias doações. Generosidade em rede :)
10 - Quer ajudar quem já ajuda? A internet, o seu whatsapp, sua igreja, trabalho, família e amigos estão cheios de informações sobre grupos de voluntários com os quais você pode contribuir de mil maneiras - desde um depósito em conta, uma doação de roupas e cobertores, um serviço de recolhe-a-doação-aqui-e-leva-ali-na-ONG... Eu trabalho em uma instituição chamada CASA Bodisatva, que tem página aqui no Face, e estamos sempre aí pelas ruas levando cobertores, abraços, companhia e amor. É só uma sugestão dentre as muitas possíveis :)
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Eu amo o SUS, eu odeio o SUS
Eu acredito que reclamar do que não funciona, especialmente no serviço público, é um dever cívico. Ainda mais quando o caso é grave.
Por omissão de socorro/negligência/discriminação, um amigo meu morreu encostado em um poste da Praça da Sé.
Mandei uma mensagem no dia 5 de janeiro para o Ouvidor SUS via portal, recebi a seguinte resposta:

Curioso eles dizerem ao mesmo tempo "assunto não pertinente" e "demanda não aceita do portal por insuficiência de dados". Em todo caso, atendi às instruções quanto à "insuficiência" e fiz "um novo registro contendo as informações anteriores e as solicitadas acima".
Abri um novo registro. Claro que eu não sabia o "endereço do SAMU" e "o nome do socorrista". Liguei 192 e não perguntei o nome do rapaz que "socorreu" meu amigo; essa informação eu queria que ELES obtivessem. Eu não tenho acesso à escala de trabalho, eles têm. Escrevi:
Hoje, 20 de janeiro, recebi duas mensagens no mesmo horário. Uma dizia:
A outra:
Inacreditável. A Ouvidoria diz "Faltam dados, faça outro registro com as informações anteriores e as solicitadas acima". Depois diz "Demanda rejeitada, você já fez denúncia com o mesmo teor". Estão de brincadeira. Espero, em todo caso, que essa resposta cretina seja da Ouvidoria Nacional, e que a Municipal tenha realmente encaminhado a demanda para o SAMU. Vou pessoalmente lá, já que eles fornecem o endereço e tudo, para me certificar.
Enquanto isso, quero reclamar da Ouvidoria do SUS. Ao Papa, talvez.
Por omissão de socorro/negligência/discriminação, um amigo meu morreu encostado em um poste da Praça da Sé.
Mandei uma mensagem no dia 5 de janeiro para o Ouvidor SUS via portal, recebi a seguinte resposta:

Curioso eles dizerem ao mesmo tempo "assunto não pertinente" e "demanda não aceita do portal por insuficiência de dados". Em todo caso, atendi às instruções quanto à "insuficiência" e fiz "um novo registro contendo as informações anteriores e as solicitadas acima".
Abri um novo registro. Claro que eu não sabia o "endereço do SAMU" e "o nome do socorrista". Liguei 192 e não perguntei o nome do rapaz que "socorreu" meu amigo; essa informação eu queria que ELES obtivessem. Eu não tenho acesso à escala de trabalho, eles têm. Escrevi:
1 - No início da tarde do dia 16 de dezembro de 2015, foi feito um chamado pelo 192 para socorrer um homem na Praça da Sé, São Paulo, capital, que estava se sentindo mal desde a véspera e que relatava ter escarrado sangue.
2 - Depois de reiterar o pedido muitas e muitas vezes, o socorro foi finalmente prestado por volta da meia-noite.
3- O socorrista foi extremamente rude, demonstrando inequívoca má-vontade, assim como o motorista, que chegou a dizer "eles não querem ir para albergue porque lá não pode beber" - isso porque se tratava de um morador de rua que admitiu ter usado bebida alcoólica naquele dia. Asseverei, no entanto, que ele não estava alcoolizado e que não tínhamos solicitado a ambulância por causa de embriaguez, mas sim por seu estado extremamente debilitado e a suspeita de tuberculose. O socorrista respondeu que "para onde ele vai, AMA Sé, não tem nem maca. Se quiser, vai esperar em cadeira-de-rodas", sugerindo, mais uma vez, que o homem estivesse apenas procurando um lugar para passar a noite.
4 - Testemunhas relatam que, pouco tempo depois (a estimativa varia de "15 minutos" a "meia hora"), o homem socorrido estava de volta e passou a noite toda ao relento, no frio. Na manhã seguinte foi ao banheiro com enorme dificuldade para andar; pouco depois "começou a tremer o corpo todo". Não tardou muito para ele vir a falecer no chão da praça, não reagindo sequer a tentativa de ressuscitação por uma integrante da Guarda Civil.
5 - Para corroborar o relato das testemunhas, procurei a AMA Sé e não há qualquer registro de entrada desse paciente na noite de quarta/madrugada de quinta-feira.
6 - Minha reclamação anterior não foi aceita porque não continha o nome do socorrista. Incluo assim neste novo registro o pedido para que seja fornecido o nome do socorrista e do motorista que atenderam aquele chamado, uma vez que o sistema deve conter essa informação.
Hoje, 20 de janeiro, recebi duas mensagens no mesmo horário. Uma dizia:
REGISTRAMOS SUA DEMANDA SOB PROTOCOLO 1665560 E ENCAMINHAMOS PARA SERVIÇO DE ATENDIMENTO MÓVEL DE URGÊNCIA - SAMU/SP
CASO QUEIRA ACRESCENTAR NOVAS INFORMAÇÕES OU ALTERAR DADOS DO REGISTRO EFETUADO, POR FAVOR ENTRE EM CONTATO COM O NOSSO SERVIÇO DE OUVIDORIA.
ATENCIOSAMENTE,
OUVIDORIA DO SUS
MENSAGEM AUTOMÁTICA. NÃO RESPONDA ESTE E-MAIL.
SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO - SP
OUVIDORIA CENTRAL DA SAÚDE - SMS/OCS
ENDEREÇO DA OUVIDORIA: RUA GENERAL JARDIM, 36 -
VILA BUARQUE
DISQUE OUVIDORIA SUS SMS-SP - 156
A outra:
MENSAGEM DE REJEIÇÃO DE REGISTRO DA DEMANDA
PREZADO(A) SR(A) SONIA FRANCINE GASPAR MARMO,
A SUA DEMANDA FOI REJEITADA SEGUNDO O MOTIVO ABAIXO DESCRITO:
ASSUNTO NÃO PERTINENTE: DEMANDA JÁ CADASTRADA COM MESMO TEOR
OBSERVAÇÃO: MUNÍCIPE JÁ FEZ DENUNCIA COM O MESMO TEOR
HTTP://WWW.SAUDE.GOV.BR/OUVIDORSUS/ACOMPANHAMENTOWEB
ATENCIOSAMENTE,
OUVIDORIA DO SUS
Inacreditável. A Ouvidoria diz "Faltam dados, faça outro registro com as informações anteriores e as solicitadas acima". Depois diz "Demanda rejeitada, você já fez denúncia com o mesmo teor". Estão de brincadeira. Espero, em todo caso, que essa resposta cretina seja da Ouvidoria Nacional, e que a Municipal tenha realmente encaminhado a demanda para o SAMU. Vou pessoalmente lá, já que eles fornecem o endereço e tudo, para me certificar.
Enquanto isso, quero reclamar da Ouvidoria do SUS. Ao Papa, talvez.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Programa de Metas do Haddad - A Real em 123 posts
Meta 1

O prefeito diz: "Foram inseridas 349 mil famílias no Cadastro Único, superando a meta estabelecida de 280 mil".
PROBLEMAS:
1) Desde o início, a definição e justificativa da meta:
Por que "280 mil famílias"? De onde saiu esse número?
Como poderíamos verificar o cumprimento da meta, já que são números grandiosos e pouco palpáveis?
Qual o verdadeiro impacto (eficácia/efetividade) da mera inclusão de famílias no Cadastro?
É correto dizer que se trata de um "novo serviço ou benefício"?
A inclusão atende ao objetivo de "superar a extrema pobreza na cidade de São Paulo, elevando a renda, promovendo a inclusão produtiva e o acesso a serviços públicos para todos"?

O Cadastro Único em si, como se vê, é apenas um grande Banco de Dados, não é sinônimo de recebimento de serviços ou benefícios. A única meta razoável seria: "inclusão de TODAS as famílias que atendem os requisitos para fazerem parte do Cadastro Único". É o mínimo que precisa acontecer: que elas existam oficialmente nos registros oficiais de pobres e miseráveis.
2) O cálculo é "meio" confuso. Compare as seguintes informações, todas elas prestadas pela própria prefeitura:
- "O número de famílias cadastradas em dezembro de 2012 era de 493 mil. Em julho de 2013 este número passou para 709.595, chegando a 922.259 em julho de 2014, data da última atualização do CadÚnico".
Portanto, entre dezembro de 2012 e julho de 2014, o número de famílias cadastradas aumentou em 499 mil, não em 349 mil. Qual número é o certo? Por que há essa diferença de 150 mil famílias entre um cálculo e outro?
- Na página do Observatório Social da SMADS , que dá publicidade aos dados oficiais sobre os programas da Assistência Social, a informação mais recente é a de janeiro de 2013 (!): 520.515 famílias estavam no Cadastro Único.

(Pra complicar ainda mais, o gráfico de janeiro de 2013 foi "elaborado" em "julho de 2014"!)
Combinando as fontes (ambas oficiais), temos a seguinte evolução:

A prefeitura se comprometeu com "Prioridade para implementação das ações nas Subprefeituras com maior concentração de famílias em situação de extrema pobreza e pobreza". Cidade Tiradentes, por exemplo, região muito pobre da cidade, teve menos inserções no cadastro do que a Lapa. Pode ser que realmente o cadastramento na Lapa estivesse mais defasado; é preciso esclarecer.

Também chama atenção o fato de Parelheiros e Mooca terem tido famílias excluídas do Cadastro, como mostra a tabela acima. Por que?
4) Recursos empregados:

Essa consulta foi feita hoje, 20 de fevereiro de 2015. O custo previsto era de R$ 103 milhões. O valor executado em 2013 foi de R$ 9,4 milhões (é o dado mais recente e ainda está "em atualização"). Ou seja: ou o gasto em 2014 foi de 94 milhões (dez vezes maior que em 2013), ou o orçamento inicial foi absurdamente maior do que o efetivamente realizado. Como foi possível errar tanto?
Também não fica claro como esses nove milhões foram empregados.
CONCLUSÕES:
O prefeito afirma que superou a meta estabelecida e na metade do prazo previsto. Diz que gastou 1/10 do que estimava. Mas há uma série de incoerências nos números apresentados (as contas "não fecham"), o emprego dos recursos não foi explicado e, acima de tudo, o verdadeiro benefício para a população não é claro. Centenas de milhares de famílias foram incluídas no Cadastro Único, e...?
Preparei uma serie de perguntas para o e-sic, o Sistema de Informações, e também para a Coordenadora do Observatório de Políticas Sociais - COPS, responsável pela apuração e divulgação dos dados oficiais, para ver se consigo esclarecer as dúvidas.

O prefeito diz: "Foram inseridas 349 mil famílias no Cadastro Único, superando a meta estabelecida de 280 mil".
PROBLEMAS:
1) Desde o início, a definição e justificativa da meta:
Por que "280 mil famílias"? De onde saiu esse número?
Como poderíamos verificar o cumprimento da meta, já que são números grandiosos e pouco palpáveis?
Qual o verdadeiro impacto (eficácia/efetividade) da mera inclusão de famílias no Cadastro?
É correto dizer que se trata de um "novo serviço ou benefício"?
A inclusão atende ao objetivo de "superar a extrema pobreza na cidade de São Paulo, elevando a renda, promovendo a inclusão produtiva e o acesso a serviços públicos para todos"?

O Cadastro Único em si, como se vê, é apenas um grande Banco de Dados, não é sinônimo de recebimento de serviços ou benefícios. A única meta razoável seria: "inclusão de TODAS as famílias que atendem os requisitos para fazerem parte do Cadastro Único". É o mínimo que precisa acontecer: que elas existam oficialmente nos registros oficiais de pobres e miseráveis.
2) O cálculo é "meio" confuso. Compare as seguintes informações, todas elas prestadas pela própria prefeitura:
- "O número de famílias cadastradas em dezembro de 2012 era de 493 mil. Em julho de 2013 este número passou para 709.595, chegando a 922.259 em julho de 2014, data da última atualização do CadÚnico".
Portanto, entre dezembro de 2012 e julho de 2014, o número de famílias cadastradas aumentou em 499 mil, não em 349 mil. Qual número é o certo? Por que há essa diferença de 150 mil famílias entre um cálculo e outro?
- Na página do Observatório Social da SMADS , que dá publicidade aos dados oficiais sobre os programas da Assistência Social, a informação mais recente é a de janeiro de 2013 (!): 520.515 famílias estavam no Cadastro Único.

(Pra complicar ainda mais, o gráfico de janeiro de 2013 foi "elaborado" em "julho de 2014"!)
Combinando as fontes (ambas oficiais), temos a seguinte evolução:

Se considerarmos como ponto de partida os dados de janeiro de 2013 (não os de dezembro, como faz o site do Plano de Metas):
- De janeiro a julho de 2013, entraram 198 mil famílias.
- De julho de 2013 a julho de 2014, entraram 212 mil famílias.
Total: 410 mil famílias inseridas na gestão Haddad.
Também não bate com o acréscimo anunciado.
- O cronograma também tem inconsistências (aka "é uma zona"):
Assim está no portal do Programa de Metas:

Na atualização cadastral de julho de 2013, 137.187 famílias haviam sido incluídas (número que não condiz com nenhum dos cálculos acima).

As duas atualizações realizadas em 2014 registram a entrada de 125.796 famílias (janeiro) e 86,868 famílias (julho).

350 entrevistadores foram contratados em novembro de 2013 para a realização de novos cadastros, quando 137 mil famílias já tinham sido incluídas. No total, 572 pessoas se envolveram diretamente com o cadastramento - apenas para dar uma ideia de volume, embora o trabalho de cada um seja evidentemente diferente, dá uma média de 610 famílias por cadastrador.
3) A distribuição geográfica das inserções deixa algumas dúvidas sobre sua correção.
Também não bate com o acréscimo anunciado.
- O cronograma também tem inconsistências (aka "é uma zona"):
Assim está no portal do Programa de Metas:

Na atualização cadastral de julho de 2013, 137.187 famílias haviam sido incluídas (número que não condiz com nenhum dos cálculos acima).

As duas atualizações realizadas em 2014 registram a entrada de 125.796 famílias (janeiro) e 86,868 famílias (julho).

350 entrevistadores foram contratados em novembro de 2013 para a realização de novos cadastros, quando 137 mil famílias já tinham sido incluídas. No total, 572 pessoas se envolveram diretamente com o cadastramento - apenas para dar uma ideia de volume, embora o trabalho de cada um seja evidentemente diferente, dá uma média de 610 famílias por cadastrador.
3) A distribuição geográfica das inserções deixa algumas dúvidas sobre sua correção.
A prefeitura se comprometeu com "Prioridade para implementação das ações nas Subprefeituras com maior concentração de famílias em situação de extrema pobreza e pobreza". Cidade Tiradentes, por exemplo, região muito pobre da cidade, teve menos inserções no cadastro do que a Lapa. Pode ser que realmente o cadastramento na Lapa estivesse mais defasado; é preciso esclarecer.

Também chama atenção o fato de Parelheiros e Mooca terem tido famílias excluídas do Cadastro, como mostra a tabela acima. Por que?
4) Recursos empregados:

Essa consulta foi feita hoje, 20 de fevereiro de 2015. O custo previsto era de R$ 103 milhões. O valor executado em 2013 foi de R$ 9,4 milhões (é o dado mais recente e ainda está "em atualização"). Ou seja: ou o gasto em 2014 foi de 94 milhões (dez vezes maior que em 2013), ou o orçamento inicial foi absurdamente maior do que o efetivamente realizado. Como foi possível errar tanto?
Também não fica claro como esses nove milhões foram empregados.
CONCLUSÕES:
O prefeito afirma que superou a meta estabelecida e na metade do prazo previsto. Diz que gastou 1/10 do que estimava. Mas há uma série de incoerências nos números apresentados (as contas "não fecham"), o emprego dos recursos não foi explicado e, acima de tudo, o verdadeiro benefício para a população não é claro. Centenas de milhares de famílias foram incluídas no Cadastro Único, e...?
Preparei uma serie de perguntas para o e-sic, o Sistema de Informações, e também para a Coordenadora do Observatório de Políticas Sociais - COPS, responsável pela apuração e divulgação dos dados oficiais, para ver se consigo esclarecer as dúvidas.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Você sabe quanto custa o gás?
Um botijão vazio sai por R$160,00.
"Tem até por $20, mas aí não compro não", disse a Nena, da Associação Futuro Promissor.
"Não dá pra se arriscar comprando alguma coisa meia boca, né?".
"Não é por isso não, é porque é roubado".
***
Foi a única que se preocupou com isso. Uma liderança comunitária digna de medalha de honra ao mérito. Não que outras mais "flexíveis" não tenham também muito valor, mas quando você teima em certos princípios (tipo "não recorrer à bandidagem"), a maratona vira prova de IronMan.
TODO mundo pra quem perguntamos se tinha botijão vazio para doar ou emprestar respondeu: "Você encontra por R$40/R$20/na Feira do Rolo".
***
Por coincidência, ontem vieram pedir ajuda para conseguir um botijão de gás duas mulheres que não se conhecem mas estão exatamente no mesmo pé: acabaram de se separar de maridos violentos e estão recomeçando do zero. Ou melhor, precisam se esforçar para chegar ao zero, inclusive porque ficaram com filhos para cuidar sozinhas (grande novidade).
As duas são lá da ZN de São Paulo: Brasilandia, Cachoeirinha, por ali.
Uma apanhava do marido a torto e direito. Trouxe o irmão do Rio Grande do Norte para ajudar na sua proteção, mas ele "entrou na pedra e ainda batia nela junto com o marido". Se ela denunciasse, ele "acabava com ela". Uma vizinha pediu socorro onde sabia que ia encontrar: no crime. Deram um pau no cara, juraram, ela se viu livre do traste mas está sem nada. Consegue uma coisa daqui, outra dali, agora precisa de um botijão de gás.
A outra "fez o marido, assim dizer: ela carregou a pizzaria nas costas. Se hoje ele tem alguma coisa, é por causa do trabalho dela". Ele também "batia feio" na mulher, "até na frente dos clientes ele humilhava ela". A muito custo conseguiu se separar, mas ficou apenas com um imóvel ~gentilmente~ cedido em um predio simples no Jardim Paulistano e o filho. De resto, NADA NADA NADA. "A roupa do corpo". Algumas coisas já conseguiram, mas o bendito botijão de gás ainda não.
- Ela tinha que por ele no pau. Nem pro filho ele dá nada?!
- Ele diz que mata ela.
- Claro que diz. Foda-se, vai pra cima.
Não, Sonia, você não está entendendo. Não é aquele falar grosso de homem folgado que ameaça a mulher para que ela se encolha (o que já é bem grave). "Ele fala pra ela: Já matei uma, não me custa nada. E matou mesmo a ex-mulher dele. Era quando ele tava na cadeia que essa montou e manteve a pizzaria que hoje sustenta ele. Fora as casas de aluguel que ele tem".
***
Bom, se alguém tiver um botijão de gás para doar... Manda um email que a gente dá um jeito de ir buscar: rp@soninha.com.br
***
(No bairro onde eu moro tem gás encanado. MUITO mais barato, MUITO mais prático. Será que existe alguma meta de canalização para a cidade toda??)
"Tem até por $20, mas aí não compro não", disse a Nena, da Associação Futuro Promissor.
"Não dá pra se arriscar comprando alguma coisa meia boca, né?".
"Não é por isso não, é porque é roubado".
***
Foi a única que se preocupou com isso. Uma liderança comunitária digna de medalha de honra ao mérito. Não que outras mais "flexíveis" não tenham também muito valor, mas quando você teima em certos princípios (tipo "não recorrer à bandidagem"), a maratona vira prova de IronMan.
TODO mundo pra quem perguntamos se tinha botijão vazio para doar ou emprestar respondeu: "Você encontra por R$40/R$20/na Feira do Rolo".
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Por coincidência, ontem vieram pedir ajuda para conseguir um botijão de gás duas mulheres que não se conhecem mas estão exatamente no mesmo pé: acabaram de se separar de maridos violentos e estão recomeçando do zero. Ou melhor, precisam se esforçar para chegar ao zero, inclusive porque ficaram com filhos para cuidar sozinhas (grande novidade).
As duas são lá da ZN de São Paulo: Brasilandia, Cachoeirinha, por ali.
Uma apanhava do marido a torto e direito. Trouxe o irmão do Rio Grande do Norte para ajudar na sua proteção, mas ele "entrou na pedra e ainda batia nela junto com o marido". Se ela denunciasse, ele "acabava com ela". Uma vizinha pediu socorro onde sabia que ia encontrar: no crime. Deram um pau no cara, juraram, ela se viu livre do traste mas está sem nada. Consegue uma coisa daqui, outra dali, agora precisa de um botijão de gás.
A outra "fez o marido, assim dizer: ela carregou a pizzaria nas costas. Se hoje ele tem alguma coisa, é por causa do trabalho dela". Ele também "batia feio" na mulher, "até na frente dos clientes ele humilhava ela". A muito custo conseguiu se separar, mas ficou apenas com um imóvel ~gentilmente~ cedido em um predio simples no Jardim Paulistano e o filho. De resto, NADA NADA NADA. "A roupa do corpo". Algumas coisas já conseguiram, mas o bendito botijão de gás ainda não.
- Ela tinha que por ele no pau. Nem pro filho ele dá nada?!
- Ele diz que mata ela.
- Claro que diz. Foda-se, vai pra cima.
Não, Sonia, você não está entendendo. Não é aquele falar grosso de homem folgado que ameaça a mulher para que ela se encolha (o que já é bem grave). "Ele fala pra ela: Já matei uma, não me custa nada. E matou mesmo a ex-mulher dele. Era quando ele tava na cadeia que essa montou e manteve a pizzaria que hoje sustenta ele. Fora as casas de aluguel que ele tem".
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Bom, se alguém tiver um botijão de gás para doar... Manda um email que a gente dá um jeito de ir buscar: rp@soninha.com.br
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(No bairro onde eu moro tem gás encanado. MUITO mais barato, MUITO mais prático. Será que existe alguma meta de canalização para a cidade toda??)
sábado, 8 de fevereiro de 2014
SUS em tempo real
8 de fevereiro, 16h27.
O seu Walter, irmão de um conhecido meu, passou muito mal de madrugada. Parece que o problema é no rim.
Foi para o João Paulo, pronto-socorro que fica perto de onde ele mora (Brasilândia). Chegou morrendo de dor e pediu um remédio. Não sei bem qual foi o diálogo, sei que a médica que o atendeu falou "o sr quer o que, que eu faça milagre"? Ele tomou uma dipirona, que mal aliviou.
A esposa dele, servidora (não sei se da ativa ou aposentada), tem direito ao Hospital do Servidor. Bem cedo, um médico do Posto enviou um fax com o relatório sobre a condição do paciente, solicitando sua remoção para lá. Do Hospital, responderam que não tinham entendido nada, o pedido estava ilegível e eles não podiam mandar ambulância. Diante da oferta/pedido para que falassem por telefone com o médico para que ele explicasse o que não tinha ficado claro, foram taxativos: NÃO. Tem de mandar outro fax.
Enquanto isso, seu Walter, morrendo de dor, está (adivinhe?) no corredor do PS. Deitado no chão.
Finalmente, outro médico fez outro relatório (deve ter mudado o plantão) e novo fax foi enviado. Até agora... Nada de remoção. O cirurgião que o examinou agora é "rapaz moço, muito gente boa". A funcionária encarregada de solicitar a remoção também foi "bem atenciosa". Mas ela disse que até com ela eles lá do hospital foram meio estúpidos no telefone.
***
Trabalhar em hospital, pronto-socorro etc deve ser uma das coisas mais estressantes que há. Mas pelo amor de deus, se as pessoas não tem compaixão por quem sofre, não podem trabalhar em Saúde.
O seu Walter, irmão de um conhecido meu, passou muito mal de madrugada. Parece que o problema é no rim.
Foi para o João Paulo, pronto-socorro que fica perto de onde ele mora (Brasilândia). Chegou morrendo de dor e pediu um remédio. Não sei bem qual foi o diálogo, sei que a médica que o atendeu falou "o sr quer o que, que eu faça milagre"? Ele tomou uma dipirona, que mal aliviou.
A esposa dele, servidora (não sei se da ativa ou aposentada), tem direito ao Hospital do Servidor. Bem cedo, um médico do Posto enviou um fax com o relatório sobre a condição do paciente, solicitando sua remoção para lá. Do Hospital, responderam que não tinham entendido nada, o pedido estava ilegível e eles não podiam mandar ambulância. Diante da oferta/pedido para que falassem por telefone com o médico para que ele explicasse o que não tinha ficado claro, foram taxativos: NÃO. Tem de mandar outro fax.
Enquanto isso, seu Walter, morrendo de dor, está (adivinhe?) no corredor do PS. Deitado no chão.
Finalmente, outro médico fez outro relatório (deve ter mudado o plantão) e novo fax foi enviado. Até agora... Nada de remoção. O cirurgião que o examinou agora é "rapaz moço, muito gente boa". A funcionária encarregada de solicitar a remoção também foi "bem atenciosa". Mas ela disse que até com ela eles lá do hospital foram meio estúpidos no telefone.
***
Trabalhar em hospital, pronto-socorro etc deve ser uma das coisas mais estressantes que há. Mas pelo amor de deus, se as pessoas não tem compaixão por quem sofre, não podem trabalhar em Saúde.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Maus Médicos, Mais Médicos, Maus Modos
O debate sobre o Mais Médicos trouxe uma boa novidade: aqueles que normalmente defendem incondicionalmente e homogeneamente categorias inteiras de funcionários públicos reconheceram, pela primeira vez, que há profissionais com zero compromisso no serviço público.
Sou usuária do SUS e tenho amizade bem próxima com usuários da periferia - Brasilândia, Jardim Capela, Santo Amaro, Grajaú. Há ocasiões em que os médicos simplesmente não vão trabalhar. Em outras, chegam com horas de atraso. Ficam batendo-papo enquanto a sala de espera está cheia. "Examinam" as pessoas sem se levantar da cadeira, sem encostar um dedo no paciente. São estúpidos no trato com os doentes. Receitam qualquer coisa, no chute. Não querem nem saber se o medicamento está disponível no SUS ou não.
Com a decisão do Ministério da Saúde de incentivar a facilitar a vida de médicos estrangeiros, petistas começaram a se referir aos médicos que já trabalham no sistema público "vagabundos" e "mercenários". Aí já transformaram todo mundo em vilão.
Se há médicos que nem por todo o dinheiro do mundo aceitam ir trabalhar na periferia, serão eles os mercenários? Não seriam os que aceitam um salário que consideram ridículo, desde que possam trabalhar "nas coxas" na rede pública e acumular outro emprego?
Quem não aceita é muito mais digno do que quem vai só pelo dinheiro. Alguns recusam ir para "as bordas" das cidades ou o interiorzão do país porque temem por sua própria segurança. Outros não suportam a falta de condições de trabalho. Outros não querem levar duas ou três horas para chegar ao seu local de trabalho; outros não querem morar a centenas de km de distância da família. Estão errados?
***
Sem melhorar as condições de trabalho (afinal, o Programa não inclui reformas nos locais de trabalho, aquisição de novos equipamentos, garantia de abastecimento dos materiais necessários, contratação de pessoas para todos os postos de trabalho, informatização dos prontuários etc), o governo oferece dez mil reais para quem aceitar trabalhar no SUS do jeito que ele está agora.
No caso dos brasileiros, bolsistas que estão fazendo Residência. Para quem não sabe, esse é o período em que um profissional já formado na faculdade de medicina começa a dar expediente em um hospital etc sob a supervisão de um profissional experiente. (Veja no site do Ministério da Educação)
Tem gente que até reclama de ser atendido por residente no Hospital das Clínicas, por exemplo, dizendo que não quer passar por "estagiário", mas a Residência equivale a uma pós. Só que EXIGE a supervisão (diz lá o MEC: "sob a orientação de profissionais médicos de elevada qualificação ética e profissional").
Perguntei ao Ministério da Saúde no Twitter como ela seria feita. A resposta foi que haveria um preceptor POR ESTADO. Imagine se é suficiente!
***
Quando da implantação da gestão de unidades de saúde por Organizações Sociais na cidade de São Paulo, os opositores (basicamente o PT) criticavam o programa por ser "privatização" da Saúde (não é; o equipamento continua público, universal, gratuito); pela "precarização" das relações de trabalho (por serem os profissionais contratados em regime de CLT pelas OSs em vez de serem servidores efetivos, portanto com estabilidade); "flexibilização" ou "falta de transparência" no processo seletivo (por não haver concurso público); desequilíbrio entre pessoas que exercem as mesmas funções (o médico que é "de carreira", com seus vencimentos normais, e o celetista contratado pela OS, que tem salário melhor).
Pois bem - o Mais Médicos é tudo isso e pior ainda. Profissionais são incorporados à rede pública em condições nem sempre claras, com processo seletivo "especial", alguns trâmites legais contornados e um salário muito maior do que o dos demais profissionais.
Imagine o médico que há anos pasta no serviço público trabalhando ao lado de um residente que ganha dez mil reais. E imagine o cubano que veio para exercer a medicina, não como militante político, descobrir que ele é tratado como um estrangeiro "diferenciado" - para pior. Ganha muito menos do que os outros e parte de seu salário é depositada à força em uma caderneta de poupança, como fazem com presidiários, ao qual ele só terá acesso quando terminar de cumprir o contrato e voltar para Cuba.
Retenção de rendimentos como forma de manter o profissional "preso" ao contrato é uma das características de trabalho análogo à escravidão... Sem contar as restrições impostas quanto à circulação, convivência com a família etc.
"Vieram porque quiseram", dirão alguns. "Se não leram o contrato, problema deles". "Se leram e não se opuseram antes, por que resolveram falar agora"?
Ora, quem nunca descobriu depois de começar a trabalhar que tinha se metido em uma roubada? Ou se deu conta do tamanho da roubada?
No caso da médica que "desertou" o Mais Médicos (desertou! é a palavra usada quando soldados obrigados a lutar por sua pátria se recusam a fazê-lo), imagine o que é descobrir que foi tapeado pelo patrão e ele é... o governo de seu país. Ou o governo do Brasil. Ou a OPAS, sei lá.
Porque esse é um dos problemas da situação dos cubanos do Mais Médicos. A contratação deles foi "em massa" e passou por um intermediário. Parte do salário ficou retida por ele e parte foi remetida ao governo de Cuba - que é isso, aluguel de mão-de-obra? E o compromisso é com o governo brasileiro, que "flexibilizou" várias regras para poder contar com eles.
"A OPAS já fez convênios assim com dezenas de outros países", defende o Ministério da Justiça. E...? Que sabemos sobre as condições de trabalho nesses outros países?
Enfim, o "programa" é repleto de pontos obscuros ou francamente irregulares. MAS, como é comum acontecer neste governo, quem faz críticas a ele é contra os pobres, a favor das corporações, capitalista maldito, coxinha etc. Impressionante o discurso panfletário em defesa do governo. Do governo!
***
"Programa", entre aspas, porque não faz jus a essa classificação. Trata-se tão somente da contratação temporária de profissionais para preencher postos vagos na rede pública. Supostamente, para reduzir as filas e melhorar muito o atendimento à população, além de fazer a prevenção e promoção da Saúde.
Mas faz muito menos do que isso. A Atenção Básica é fundamental; o acompanhamento atento, próximo, continuado. Perceber as condições que propiciam o surgimento de doenças ou detectá-las bem no início. Mas isso envolve bem mais do que o médico no consultório. As equipes de Saúde da Família, que visitam as residências em vez de esperar que as pessoas vão ao médico, são fundamentais. E são EQUIPES, com vários profissionais envolvidos, não um médico sozinho para dar conta de tudo.
A promoção da Saúde exige mais ainda do que isso. Saneamento Básico, por exemplo. Moradia digna, em condições de salubridade. Meio Ambiente equilibrado. Educação. Alimentação saudável. Boa dentição. Trabalho decente. E o governo é PÉSSIMO na garantia desses direitos.
Para completar, em locais sujos, com janelas quebradas, sem medicamentos, sem lençóis limpos, sem suprimentos como material para sutura ou equipamento de Raio-X, o médico não melhora o sistema o suficiente para reduzir o sofrimento das pessoas. Elas vão continuar na fila, no vai-e-vem, na incerteza, na dor, na recaída.
Os Pronto-Socorros continuam em petição de miséria. Faltam outros profissionais - pediatras, geriatras, ortopedistas, fisioterapeutas, psiquiatras, dentistas. Ambulâncias. Combustível para ambulâncias.
(O Ministério costuma colocar a culpa nas prefeituras pelas ambulâncias que não rodam. Mas se elas NÃO TEM DINHEIRO, o que vão fazer? Vender uma para conseguir abastecer a outra? Os municípios sofrem com falta de dinheiro e não é só um problema de "má gestão" ou da corrupção; nosso sistema tributário, nossa federação toda torta os suga e concentra MUITO dinheiro na União, à disposição do governo federal. Que devolve pingadinho daqui ou dali e ainda diz "e não reclamem! Agradeçam pelo que estamos dando". E os hospitais das Universidades FEDERAIS, como o da UFRJ, estão caindo aos pedaços!!!).
Mas na propaganda - que custa caríssimo! Anúncios no intervalo do Jornal Nacional! - tudo é lindo, claro. Quem está sofrendo lá longe não aparece na TV. E quem está aqui conforável assistindo e tem boa vontade ou paixão pelo governo Dilma diz "como somos bons para os pobres", sem jamais por os pés em uma UBS, UPA, Pronto-Socorro ou coisa que o valha.
***
Tristeza e raiva que me dá.
Sou usuária do SUS e tenho amizade bem próxima com usuários da periferia - Brasilândia, Jardim Capela, Santo Amaro, Grajaú. Há ocasiões em que os médicos simplesmente não vão trabalhar. Em outras, chegam com horas de atraso. Ficam batendo-papo enquanto a sala de espera está cheia. "Examinam" as pessoas sem se levantar da cadeira, sem encostar um dedo no paciente. São estúpidos no trato com os doentes. Receitam qualquer coisa, no chute. Não querem nem saber se o medicamento está disponível no SUS ou não.
Com a decisão do Ministério da Saúde de incentivar a facilitar a vida de médicos estrangeiros, petistas começaram a se referir aos médicos que já trabalham no sistema público "vagabundos" e "mercenários". Aí já transformaram todo mundo em vilão.
Se há médicos que nem por todo o dinheiro do mundo aceitam ir trabalhar na periferia, serão eles os mercenários? Não seriam os que aceitam um salário que consideram ridículo, desde que possam trabalhar "nas coxas" na rede pública e acumular outro emprego?
Quem não aceita é muito mais digno do que quem vai só pelo dinheiro. Alguns recusam ir para "as bordas" das cidades ou o interiorzão do país porque temem por sua própria segurança. Outros não suportam a falta de condições de trabalho. Outros não querem levar duas ou três horas para chegar ao seu local de trabalho; outros não querem morar a centenas de km de distância da família. Estão errados?
***
Sem melhorar as condições de trabalho (afinal, o Programa não inclui reformas nos locais de trabalho, aquisição de novos equipamentos, garantia de abastecimento dos materiais necessários, contratação de pessoas para todos os postos de trabalho, informatização dos prontuários etc), o governo oferece dez mil reais para quem aceitar trabalhar no SUS do jeito que ele está agora.
No caso dos brasileiros, bolsistas que estão fazendo Residência. Para quem não sabe, esse é o período em que um profissional já formado na faculdade de medicina começa a dar expediente em um hospital etc sob a supervisão de um profissional experiente. (Veja no site do Ministério da Educação)
Tem gente que até reclama de ser atendido por residente no Hospital das Clínicas, por exemplo, dizendo que não quer passar por "estagiário", mas a Residência equivale a uma pós. Só que EXIGE a supervisão (diz lá o MEC: "sob a orientação de profissionais médicos de elevada qualificação ética e profissional").
Perguntei ao Ministério da Saúde no Twitter como ela seria feita. A resposta foi que haveria um preceptor POR ESTADO. Imagine se é suficiente!
***
Quando da implantação da gestão de unidades de saúde por Organizações Sociais na cidade de São Paulo, os opositores (basicamente o PT) criticavam o programa por ser "privatização" da Saúde (não é; o equipamento continua público, universal, gratuito); pela "precarização" das relações de trabalho (por serem os profissionais contratados em regime de CLT pelas OSs em vez de serem servidores efetivos, portanto com estabilidade); "flexibilização" ou "falta de transparência" no processo seletivo (por não haver concurso público); desequilíbrio entre pessoas que exercem as mesmas funções (o médico que é "de carreira", com seus vencimentos normais, e o celetista contratado pela OS, que tem salário melhor).
Pois bem - o Mais Médicos é tudo isso e pior ainda. Profissionais são incorporados à rede pública em condições nem sempre claras, com processo seletivo "especial", alguns trâmites legais contornados e um salário muito maior do que o dos demais profissionais.
Imagine o médico que há anos pasta no serviço público trabalhando ao lado de um residente que ganha dez mil reais. E imagine o cubano que veio para exercer a medicina, não como militante político, descobrir que ele é tratado como um estrangeiro "diferenciado" - para pior. Ganha muito menos do que os outros e parte de seu salário é depositada à força em uma caderneta de poupança, como fazem com presidiários, ao qual ele só terá acesso quando terminar de cumprir o contrato e voltar para Cuba.
Retenção de rendimentos como forma de manter o profissional "preso" ao contrato é uma das características de trabalho análogo à escravidão... Sem contar as restrições impostas quanto à circulação, convivência com a família etc.
"Vieram porque quiseram", dirão alguns. "Se não leram o contrato, problema deles". "Se leram e não se opuseram antes, por que resolveram falar agora"?
Ora, quem nunca descobriu depois de começar a trabalhar que tinha se metido em uma roubada? Ou se deu conta do tamanho da roubada?
No caso da médica que "desertou" o Mais Médicos (desertou! é a palavra usada quando soldados obrigados a lutar por sua pátria se recusam a fazê-lo), imagine o que é descobrir que foi tapeado pelo patrão e ele é... o governo de seu país. Ou o governo do Brasil. Ou a OPAS, sei lá.
Porque esse é um dos problemas da situação dos cubanos do Mais Médicos. A contratação deles foi "em massa" e passou por um intermediário. Parte do salário ficou retida por ele e parte foi remetida ao governo de Cuba - que é isso, aluguel de mão-de-obra? E o compromisso é com o governo brasileiro, que "flexibilizou" várias regras para poder contar com eles.
"A OPAS já fez convênios assim com dezenas de outros países", defende o Ministério da Justiça. E...? Que sabemos sobre as condições de trabalho nesses outros países?
Enfim, o "programa" é repleto de pontos obscuros ou francamente irregulares. MAS, como é comum acontecer neste governo, quem faz críticas a ele é contra os pobres, a favor das corporações, capitalista maldito, coxinha etc. Impressionante o discurso panfletário em defesa do governo. Do governo!
***
"Programa", entre aspas, porque não faz jus a essa classificação. Trata-se tão somente da contratação temporária de profissionais para preencher postos vagos na rede pública. Supostamente, para reduzir as filas e melhorar muito o atendimento à população, além de fazer a prevenção e promoção da Saúde.
Mas faz muito menos do que isso. A Atenção Básica é fundamental; o acompanhamento atento, próximo, continuado. Perceber as condições que propiciam o surgimento de doenças ou detectá-las bem no início. Mas isso envolve bem mais do que o médico no consultório. As equipes de Saúde da Família, que visitam as residências em vez de esperar que as pessoas vão ao médico, são fundamentais. E são EQUIPES, com vários profissionais envolvidos, não um médico sozinho para dar conta de tudo.
A promoção da Saúde exige mais ainda do que isso. Saneamento Básico, por exemplo. Moradia digna, em condições de salubridade. Meio Ambiente equilibrado. Educação. Alimentação saudável. Boa dentição. Trabalho decente. E o governo é PÉSSIMO na garantia desses direitos.
Para completar, em locais sujos, com janelas quebradas, sem medicamentos, sem lençóis limpos, sem suprimentos como material para sutura ou equipamento de Raio-X, o médico não melhora o sistema o suficiente para reduzir o sofrimento das pessoas. Elas vão continuar na fila, no vai-e-vem, na incerteza, na dor, na recaída.
Os Pronto-Socorros continuam em petição de miséria. Faltam outros profissionais - pediatras, geriatras, ortopedistas, fisioterapeutas, psiquiatras, dentistas. Ambulâncias. Combustível para ambulâncias.
(O Ministério costuma colocar a culpa nas prefeituras pelas ambulâncias que não rodam. Mas se elas NÃO TEM DINHEIRO, o que vão fazer? Vender uma para conseguir abastecer a outra? Os municípios sofrem com falta de dinheiro e não é só um problema de "má gestão" ou da corrupção; nosso sistema tributário, nossa federação toda torta os suga e concentra MUITO dinheiro na União, à disposição do governo federal. Que devolve pingadinho daqui ou dali e ainda diz "e não reclamem! Agradeçam pelo que estamos dando". E os hospitais das Universidades FEDERAIS, como o da UFRJ, estão caindo aos pedaços!!!).
Mas na propaganda - que custa caríssimo! Anúncios no intervalo do Jornal Nacional! - tudo é lindo, claro. Quem está sofrendo lá longe não aparece na TV. E quem está aqui conforável assistindo e tem boa vontade ou paixão pelo governo Dilma diz "como somos bons para os pobres", sem jamais por os pés em uma UBS, UPA, Pronto-Socorro ou coisa que o valha.
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Tristeza e raiva que me dá.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Uma sexta qualquer
- Até que não foi tão mal no Detran. De carro teria sido horroroso, mas o metrô Armênia é perto e na plataforma já tem várias placas indicando o lado certo para sair da estação. No prédio do Detran o caos é menor do que parece. Muita muita gente, mas serviço razoavelmente bem organizado (bem sinalizado, sem dúvida). No mesmo prédio tem Banco do Brasil, CET e DEV. As moças da recepção dão nova dimensão à expressão "paciência de Jó".
- Tive de ir até lá porque estou inscrita no CADIN - Cadastro de Inadimplentes, tipo um SPC do governo do estado - porque não paguei uma multa que nem sabia que tinha levado. Mas não era lá, era no DER, do outro lado da avenida, porque a multa foi em uma estrada. (R$85,00 - ok, vai).
- Para atravessar a avenida do Estado (4 ou cinco pistas do lado "de cá", mais 3 ou 4 do lado "de lá", mais o largo "rio" Tamanduateí), tem de andar atééé o semáforo, atravessar, andar atééé o prédio do DER. Com essa calorzinho bão mais a ameaça de temporal, delícia. #imaginaumidoso #imaginaumapessoacomdeficiência. Vou fazer tanta passarela nessa cidade qdo eu for prefeita que ninguém vai nem lembrar que um dia elas não existiam.
- Voltei ao Detran e descobri que meu endereço para correspondência que consta lá é o antigo; não é à toa que não recebi xongas (multa, IPVA, Licenciamento). "Posso mudar o endereço pelo site?". Rá. Tava indo bem demais. Não, tem de levar cópia da CNH, do documento do carro e de comprovante de endereço. Se não fizer isso, o Detran acredita que eu continuo morando na Apinajés e que se dane.
- "Tem xerox aqui"? "Ali do lado do posto de gasolina" (isto é, lá na avenida Tiradentes). No Poupatempo tem xerox... :o/
- Não tinha um p. no bolso. A xerox aceitava cartão de débito... do Bradesco. No Banco do Brasil do Detran e na conveniência do posto de gasolina não tinha caixa eletrônico. Ali em volta, desolação total. Vou ter de voltar outro dia. Tudo bem, tudo bem, já vi que não é tão infernal assim.
***
- Cartaz na vitrine de uma livraria na HADDOCK LOBO (no alto!): fechados por causa do alagamento de ontem. F.
***
- Sempre achei esse Pistorius meio esquisito (falar agora é moleza). Na última Paralimpíada, ele (+ e o mundo) foram surpreendidos por um atleta (ah, não lembro quem :oP) que ficou com o ouro. Ele reclamou, esperneou... Não achei legal. HMPF.
Daí a ter um monte de arma em casa, morando em um "condomínio fechado super seguro", e matar a namorada com quatro tiros... Não, isso eu não achava.
***
Relatos de Tania, minha ex-empregada que agora faz uns frilas lá em casa, sobre o temporal de ontem e a vida no Jardim Capela (Estrada do M'Boi Mirim logo ali, altura do número 2000):
- Não choveu NADA, acredita? Mas ventou muito forte, muito. Arrancou um pedaço do telhado da vizinha. O Luís (filho dela) saiu correndo de medo, nem fechou a porta de casa.
- Faz duas semanas que não recebo (no escritório onde ela faz faxina 1 vez por semana). O homem quer que eu abra conta no Banco. Diz que tem de ser Itaú, porque aí ele transfere direto. Será que precisa fazer algum depósito pra abrir? Mas tenho de esperar a Sabesp terminar a instalação de água, porque aí vai chegar conta e eu vou ter (como comprovar) endereço.
- Antes, quando a gente pagou o funcionário lá da Sabesp para fazer um gato, a água chegava com uma força que era uma beleza. Vinha direto da rua, forte mesmo. Agora não tá vindo. Nas casas lá de cima não chega nada. Nada. E aí, vamos reclamar como? Agora que vai ter conta, espero que não falte mais.
- Você pode me adiantar alguma coisa? Eu vou te falar... Tô passando fome. Ontem não tinha nada, nada, nada pra comer em casa. E o Felipe (ex-marido) diz que "talvez depois" ele consiga me ajudar.
- Uma mulher da minha rua tá pagando telefone e ainda nem instalaram, acredita? A Telefônica puxou a linha até os Bombeiros, lá embaixo, e disse que dali em diante é ela quem tem de puxar.
- Fui levar o Luis na creche porque foi difícil tirar o Luis da cama e ele acabou perdendo a perua. Corri, cheguei às 7h06, a porta estava fechada e a diretora não queria deixar entrar de jeito nenhum. Eu e outras mães desesperadas lá na porta. No fim ela abriu, mas deu uma senhora bronca: "SETE HORAS é para eles estarem DENTRO DA CLASSE",
- Eu vi esse cruzamento aqui do lado na televisão. Quer horror a enchente, hein?
***
Dali a pouco, um amigo meu da ZN veio pegar o material escolar que eu comprei pra filha dele, que se animou a voltar a estudar, graçadeus. Desanimou porque, na 5ª série, não sabia ler e escrever e não entendia bulhufas da aula. A professora, bem legal, toda hora a chamava para fazer a lição na lousa. Ela não conseguia e tomava um "é burra mesmo". Pediu um caderno, lápis, caneta, estojo, mochila, enquanto não chega o material que o governo fornece (não sei se a escola é estadual ou municipal). Mochila fiquei devendo que ♪A coisa aqui tá preta♫
A mulher - famosa Quitéria, pra quem lê blog meu faz tempo - ligou pra ele desesperada de dor de cabeça, pra ele não esquecer de conseguir um comprimido (sem dinheiro pra comprar). "Eu acho que essa dor de cabeça dela é psicológica. É muito nervoso que ela passa. E também ontem ela foi dormir sem comer nada, porque não tinha nada em casa.
Um dia, duas famílias passando fome em São Paulo. #imaginequantas. Na rua - não tô brincando - é mais fácil conseguir comer do que em casa, quando não se tem dinheiro nenhum.
Esse amigo trabalhou para uma "cooperativa" que opera "lotação" (os microônibus) na ZN e saiu agora. Trabalho de cão. Pega o carro na garagem às 4 da manhã - na casa do chapéu (Jaraguá). Sai de casa no escuro, morrendo de medo dos "nóia" etc. Ganha por viagem - portanto, se não tiver um pingo de juízo e correr feito demente, ganha mais. Se quiser esticar 20 horas seguida, beleza.
Hoje era o dia de ir, cheio de esperança, receber o dinheiro que faltava para de desligar de vez. O encarregado queria dar R$200 com a condição de assinar um recibo dizendo que tinha recebido R$3mil. Não aceitou.
***
Um outro amigo, que recaiu no crack e se mandou para longe do ponto de venda porque não estava conseguindo se controlar, ligou pra dizer que conseguiu orçar tratamento dentário mais barato que os anteriores - R$700. Como é canal etc, não conseguiu pelo SUS (sei lá, acho que mandaram de um lado para outro e ele não está aguentando de dor). Ele está trabalhando - 12 horas por dia, 6 dias por semana - por R$600. Como ele vai pagar? With a "little" help from his friends.
País rico é país sem pobreza.
- Tive de ir até lá porque estou inscrita no CADIN - Cadastro de Inadimplentes, tipo um SPC do governo do estado - porque não paguei uma multa que nem sabia que tinha levado. Mas não era lá, era no DER, do outro lado da avenida, porque a multa foi em uma estrada. (R$85,00 - ok, vai).
- Para atravessar a avenida do Estado (4 ou cinco pistas do lado "de cá", mais 3 ou 4 do lado "de lá", mais o largo "rio" Tamanduateí), tem de andar atééé o semáforo, atravessar, andar atééé o prédio do DER. Com essa calorzinho bão mais a ameaça de temporal, delícia. #imaginaumidoso #imaginaumapessoacomdeficiência. Vou fazer tanta passarela nessa cidade qdo eu for prefeita que ninguém vai nem lembrar que um dia elas não existiam.
- Voltei ao Detran e descobri que meu endereço para correspondência que consta lá é o antigo; não é à toa que não recebi xongas (multa, IPVA, Licenciamento). "Posso mudar o endereço pelo site?". Rá. Tava indo bem demais. Não, tem de levar cópia da CNH, do documento do carro e de comprovante de endereço. Se não fizer isso, o Detran acredita que eu continuo morando na Apinajés e que se dane.
- "Tem xerox aqui"? "Ali do lado do posto de gasolina" (isto é, lá na avenida Tiradentes). No Poupatempo tem xerox... :o/
- Não tinha um p. no bolso. A xerox aceitava cartão de débito... do Bradesco. No Banco do Brasil do Detran e na conveniência do posto de gasolina não tinha caixa eletrônico. Ali em volta, desolação total. Vou ter de voltar outro dia. Tudo bem, tudo bem, já vi que não é tão infernal assim.
***
- Cartaz na vitrine de uma livraria na HADDOCK LOBO (no alto!): fechados por causa do alagamento de ontem. F.
***
- Sempre achei esse Pistorius meio esquisito (falar agora é moleza). Na última Paralimpíada, ele (+ e o mundo) foram surpreendidos por um atleta (ah, não lembro quem :oP) que ficou com o ouro. Ele reclamou, esperneou... Não achei legal. HMPF.
Daí a ter um monte de arma em casa, morando em um "condomínio fechado super seguro", e matar a namorada com quatro tiros... Não, isso eu não achava.
***
Relatos de Tania, minha ex-empregada que agora faz uns frilas lá em casa, sobre o temporal de ontem e a vida no Jardim Capela (Estrada do M'Boi Mirim logo ali, altura do número 2000):
- Não choveu NADA, acredita? Mas ventou muito forte, muito. Arrancou um pedaço do telhado da vizinha. O Luís (filho dela) saiu correndo de medo, nem fechou a porta de casa.
- Faz duas semanas que não recebo (no escritório onde ela faz faxina 1 vez por semana). O homem quer que eu abra conta no Banco. Diz que tem de ser Itaú, porque aí ele transfere direto. Será que precisa fazer algum depósito pra abrir? Mas tenho de esperar a Sabesp terminar a instalação de água, porque aí vai chegar conta e eu vou ter (como comprovar) endereço.
- Antes, quando a gente pagou o funcionário lá da Sabesp para fazer um gato, a água chegava com uma força que era uma beleza. Vinha direto da rua, forte mesmo. Agora não tá vindo. Nas casas lá de cima não chega nada. Nada. E aí, vamos reclamar como? Agora que vai ter conta, espero que não falte mais.
- Você pode me adiantar alguma coisa? Eu vou te falar... Tô passando fome. Ontem não tinha nada, nada, nada pra comer em casa. E o Felipe (ex-marido) diz que "talvez depois" ele consiga me ajudar.
- Uma mulher da minha rua tá pagando telefone e ainda nem instalaram, acredita? A Telefônica puxou a linha até os Bombeiros, lá embaixo, e disse que dali em diante é ela quem tem de puxar.
- Fui levar o Luis na creche porque foi difícil tirar o Luis da cama e ele acabou perdendo a perua. Corri, cheguei às 7h06, a porta estava fechada e a diretora não queria deixar entrar de jeito nenhum. Eu e outras mães desesperadas lá na porta. No fim ela abriu, mas deu uma senhora bronca: "SETE HORAS é para eles estarem DENTRO DA CLASSE",
- Eu vi esse cruzamento aqui do lado na televisão. Quer horror a enchente, hein?
***
Dali a pouco, um amigo meu da ZN veio pegar o material escolar que eu comprei pra filha dele, que se animou a voltar a estudar, graçadeus. Desanimou porque, na 5ª série, não sabia ler e escrever e não entendia bulhufas da aula. A professora, bem legal, toda hora a chamava para fazer a lição na lousa. Ela não conseguia e tomava um "é burra mesmo". Pediu um caderno, lápis, caneta, estojo, mochila, enquanto não chega o material que o governo fornece (não sei se a escola é estadual ou municipal). Mochila fiquei devendo que ♪A coisa aqui tá preta♫
A mulher - famosa Quitéria, pra quem lê blog meu faz tempo - ligou pra ele desesperada de dor de cabeça, pra ele não esquecer de conseguir um comprimido (sem dinheiro pra comprar). "Eu acho que essa dor de cabeça dela é psicológica. É muito nervoso que ela passa. E também ontem ela foi dormir sem comer nada, porque não tinha nada em casa.
Um dia, duas famílias passando fome em São Paulo. #imaginequantas. Na rua - não tô brincando - é mais fácil conseguir comer do que em casa, quando não se tem dinheiro nenhum.
Esse amigo trabalhou para uma "cooperativa" que opera "lotação" (os microônibus) na ZN e saiu agora. Trabalho de cão. Pega o carro na garagem às 4 da manhã - na casa do chapéu (Jaraguá). Sai de casa no escuro, morrendo de medo dos "nóia" etc. Ganha por viagem - portanto, se não tiver um pingo de juízo e correr feito demente, ganha mais. Se quiser esticar 20 horas seguida, beleza.
Hoje era o dia de ir, cheio de esperança, receber o dinheiro que faltava para de desligar de vez. O encarregado queria dar R$200 com a condição de assinar um recibo dizendo que tinha recebido R$3mil. Não aceitou.
***
Um outro amigo, que recaiu no crack e se mandou para longe do ponto de venda porque não estava conseguindo se controlar, ligou pra dizer que conseguiu orçar tratamento dentário mais barato que os anteriores - R$700. Como é canal etc, não conseguiu pelo SUS (sei lá, acho que mandaram de um lado para outro e ele não está aguentando de dor). Ele está trabalhando - 12 horas por dia, 6 dias por semana - por R$600. Como ele vai pagar? With a "little" help from his friends.
País rico é país sem pobreza.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Vamos bem - 2
País rico e sem miséria?
Quando se fala em coleta seletiva de lixo, o pior indicador cabe a Roraima: nenhum dos seus 15 municípios adotou um plano. O único aterro sanitário fica na capital, Boa Vista. Nos demais, os dejetos hospitalares são, por exemplo, despejados em lixões a céu aberto.
"Os municípios não estão estruturados para a questão de saneamento”, afirmou Daniela Santos Barreto, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.
Pesquisa do IBGE recém-divulgada dimensiona os problemas e desafios das cidades brasileiras. Apenas 28% dos municípios têm política de saneamento básico e 32,3% implantaram a coleta seletiva de lixo. Um pouco menos da metade, 47,8%, não possui estrutura para fiscalizar a qualidade da água. E mais: só 6,2% das localidades têm um plano de redução de riscos em caso de desastres naturais, tão comuns durante as intensas chuvas de verão.
Nem nas regiões mais ricas os números empolgam, embora sejam melhores do que nas áreas mais pobres. No Sul, cerca de 70% das cidades possuem planos municipais de saneamento e de fiscalização de qualidade da água. No Sudeste, o índice gira em torno dos 50%.
Quando se fala em coleta seletiva de lixo, o pior indicador cabe a Roraima: nenhum dos seus 15 municípios adotou um plano. O único aterro sanitário fica na capital, Boa Vista. Nos demais, os dejetos hospitalares são, por exemplo, despejados em lixões a céu aberto.
"Os municípios não estão estruturados para a questão de saneamento”, afirmou Daniela Santos Barreto, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.
>>>> 1) Deus queira que o "aterro sanitário" seja digno do nome. No Rio de Janeiro, por exemplo, tinham a cara de pau de dizer "Aterro Sanitário de Gramacho" quando na verdade era um LIXÃO. 2) "Os municípios não estão estruturados". Bom, tem município que não tem dinheiro nem para pagar o piso nacional (que é uma merreca) para os professores de escola pública e depende de repasses do governo federal, Fundo disso, Fundo daquilo. Milhares de municípios, aliás. Se eles "não estão estruturados" - financeiramente, tecnicamente - o governo federal vai fazer O QUE em relação a isso? 3) Em 2009, em um evento no Pará, o então presidente Lula disse "O povo está na merda e eu vou tirar o povo da merda". Realmente, o povo ainda estava na merda depois de 7 anos de governo dele. E continua.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Que potência é essa?
(É tão bom qdo a gente lê algo que poderia/ gostaria de ter escrito...)
BRASÍLIA - A grande (e ótima) novidade anunciada durante as minhas
férias foi que o Brasil passou o Reino Unido e é agora a sexta economia do
mundo. Uau! Somos uma potência! Mas que potência é essa?
A infraestrutura é sofrível. (...) Quanto à educação: Será que o país tem boas escolas para a maioria e
profissionais de ponta para enfrentar os desafios do crescimento e da
competitividade em todos os setores? Há dúvidas.E o país consegue ser a sexta economia mundial com um IDH ainda vexaminoso. Quando você passeia pelo interior do Nordeste, onde as coisas vêm melhorando, é verdade, assusta-se com os ainda extensos bolsões de miséria atolados em dois ou três séculos atrás. Povoados sem asfalto, um atrás do outro, com crianças barrigudinhas e descalças correndo na poeira, entre mulheres de ar sofrido e pele encarquilhada e homens trôpegos pela cachaça e pelo cansaço de uma vida inteira de trabalho duro, debaixo de sol a pino e em regime de semiescravidão. Não consta que haja gente e cenários assim no Reino Unido e na França, o próximo país a ser, bem antes do que se previa, ultrapassado pela economia emergente do Brasil. O que está em pauta não é (só) o ritmo da economia (...) mas principalmente a qualidade do desenvolvimento. Há que se discutir por que, para que e para quem o Brasil assume ares de potência. Eliane Cantanhêde, na Folha de terça-feira (link só funciona para assinantes da Folha ou do UOL :oP)
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
L9 - o Fenômeno
Impressionante o que carisma e currículo podem fazer - além de uma estratégia fenomenal de comunicação, oposição desmobilizada e imprensa com receio de ir contra a maré.
O presidente do Brasil foi escolhido "Homem do Ano" pelo Le Monde, que elogiou (reproduzo o que ouvi na TV, não li o original) o "crescimento econômico", o "combate à miséria" e "o desenvolvimento que privilegia o meio ambiente", entre outras coisas - mais ou menos na mesma linha da exaltação escrita por Zapatero dias atrás no El País.
Essa avaliação se baseia totalmente em impressões subjetivas. No "clima" que exala do governo brasileiro. Na propaganda oficial.
O Brasil vai bem? Muito bem? Sim, em prestígio internacional. Em estabilidade institucional e financeira. Assim como o Flamengo, temos a capacidade de transformar limão em limonada (ou caipirinha) como ninguém. Somos o país que inventou a feijoada, transformando os restos indesejados pelos brancos em um prato delicioso (embora não seja exatamente saudável). Não nos deixamos abalar facilmente por coisas como mega escândalos de corrupção; temos uma capacidade de assimilação impressionante. Outros países sobreviveram a várias guerras; nossa resiliência se manifesta na tolerância infinita a desvios de conduta (depois de alguns minutos de indignação seletiva e polarizada).
Mas o Brasil, meu deus, continua horrível. O que é que estamos comemorando, a empolgação de presidentes de outros países? O aplauso da mídia estrangeira? A consagração de nosso governante? Mas é isso mesmo que é o mais importante em um país?
É, o Brasil está na moda. Mais uma vez. Tivemos nosso grande momento nos anos 50 e 60 - Bossa Nova, Cinema Novo... Juscelino, Brasília, indústria automobilística, Copa do Mundo. Tudo muito bacana, charmoso, mas... Enquanto isso, estávamos construindo um país desigual, injusto, cruel.
Hoje reclamamos do passado como se ele tivesse sido uma imposição de deuses mitológicos, um acaso astrológico ou algo assim. "Não temos ferrovias! Destruímos nossos rios, desmatamos o litoral, nossas cidades não foram preparadas para o crescimento. Não tem redes adequadas ou suficientes de transporte sobre trilhos, não tem sistemas de drenagem, não tiveram planejamento. Nossa educação é deficiente, há milhões de analfabetos. O campo expulsa a população pobre para as cidades".
Verdade, e não foi só o Regime Militar o responsável por esses descompassos. Fizemos da fabricação de automóveis nosso maior orgulho, o passaporte para o primeiro mundo; das estradas de rodagem a coisa mais bonita do mundo. Destruímos serras, várzeas, florestas, mangues. E continuamos nesse passo, longe do desmame do transporte individual motorizado, talvez o mais forte símbolo de sucesso, expressão máxima do consumo como forma de realização pessoal - por extensão, nacional.
Continuamos nos gabando de nossa grandeza e invocando, quando conveniente, nossa condição de pobreza, fragilidade, o chavão consolidado: somos um país "em desenvolvimento". (Desde que eu estava no colégio, o governo - naquela época, o militar - rejeitava o rótulo de "subdesenvolvido". A nova tag acabou pegando). Seremos a 5a maior economia do mundo muito em breve! O petróleo nos transformará em superpotência! Emprestamos dinheiro ao FMI! Mas ainda falamos com desprezo dos "ricos"; os ricos que poluíram e aqueceram o mundo e agora vem encher o saco querendo preservar as florestas, melhorar o clima e blá-blá-blá. Deixem-nos crescer! Se precisarmos desmatar, poluir e aquecer, nós o faremos. No máximo, prometemos não aumentar tanto assim as agressões ao ambiente e pronto, esse é o nosso sacrifício. Em vez de diminuir as emissões de carbono, vá lá, vamos aumentar menos.
(É essa a grande proposta que o governo brasileiro levou à Cop-15... Que um comentarista na Globo News saudou como "audaciosa". Fantástico).
O Brasil continua muito miserável, desigual, cruel, injusto. O campo continua expulsando as pessoas - não porque o mundo mudou e a mecanização chegou a todas as lavouras, mas porque continua gerando muita riqueza para alguns e miséria para tantos outros. Os velhos e aparentemente eternos coronéis, as chamadas "elites" políticas e econômicas continuam mantendo seus currais eleitorais às custas da pobreza, da dependência, do papel de salvadores da pátria. Eles são os que intercedem junto ao poder central de modo a conseguir um auxílio, um socorro, uma esmola. Dirigidos, limitados, finitos, jamais transformadores e capazes de levar à independência, à autonomia.
O povo continua na merda (RT @opresidente). As cidades, incapazes de absorver dignamente os expulsos do campo, incham, se espraiam e deterioram. Aumenta a desigualdade, a violência. Não é a pobreza a causa da violência, é a falta de projeto, de uma perspectiva que não a aspiração do prazer imediato e do consumo. Pesquisas recentes traduziram em números o que mitos já observaram no contato direto e diário: a maioria das meninas se prostitui para conseguir bens como celulares. A maioria dos meninos entra para a indústria do crime para se fazer admirar pela "valentia"; para serem admirados pelas meninas que, imersas nesse mundo em que a "ascensão social" se dá pelo crime, adoram as armas ostentadas por eles.
O Brasil cresceu pouco - aliás, os números da economia no último trimestre foram comentados, muito discretamente, como sendo "decpecionantes" para o governo. E tudo bem. Parece até que vale mais a propaganda ufanista do que o fato em si - "Ah, não vamos abaixar o astral da população, o mundo inteiro aplaudindo o Brasil, o país do momento, e a gente vai contrariar a maioria agora?".
O Brasil cresceu pouco e redistribuiu muito mal. Tenho curiosidade em saber: quantas pessoas recebem o Bolsa Família há vários anos? O que seria delas AGORA se perdessem o benefício? Transferência de tenda é medida emergencial necessária, mas não pode ser mecanismo de eterna dependência. Além de reunir vários benefícios em um só, qual é, afinal, a grande diferença dessa Bolsa para a do governo Fernando Henrique, que criticamos tanto? O quanto melhorou a VIDA das pessoas - não apenas o COMSUMO? Ironizávamos as declarações do então presidente quando ele dizia que a população estava comprando mais dentaduras, frango e iogurte. Não era disso que falávamos quando exigíamos reformas, revoluções. Mas agora erguemos um brinde à venda de carros e geladeiras, como se a nação estivesse melhor por conta do carnê das Casas Bahia. Sim, as pessoas erguem suas casas com material de construção mais barato, compram eletrodomésticos de última geração - mas moram no Pantanal na Zona Leste de São Paulo, uma obra conjunta da qual as últimas quatro ou cinco administrações podem se orgulhar... E continuam se chacoalhando várias horas por dia na condução, jogando lixo em qualquer lugar à sua volta porque essa é a paisagem a que se acostumaram, e repetindo com os colegas os lugares-comuns sobre os políticos que não prestam.
Temos imagens horríveis para mostrar ao mundo, como sempre. Depois da exaltação internacional à India e à China, chegou a vez do Brasil mostrar suas belezas. Assim como India e China, nossa beleza ainda exclui milhões. Nosso sorriso continua banguela. Mas os miseráveis não aparecem tanto, exceto em casos de flagelos - ou nas manisfestações organizadas em cidades governadas pela oposição... Antes, a culpa pela miséria era do governo central. Agora, é dos tucanos, dos demos, de qualquer um, menos do presidente. O presidente combate a miséria e a fome. Se não dá certo, não é ele quem tem de responder por isso.
A história pessoal do presidente é belíssima. Mas o que já foi motivo de chacota indecente agora virou anteparo indevassável; criticar o presidente Lula é quase blasfêmia. E ele investe - inconscientemente, creio - na imagem do homem humilde de baixa escolaridade de modo a acentuar, artificialmente, essas características. O discurso de Lula deputado criticando o Bolsa Escola era muito mais elaborado do que a fala de hoje em dia, com mais expressões chulas e erros de concordância que ele antes não cometia...
Lula antes queria falar de igual para igual com os poderosos e precisava provar que era capaz. Hoje quer provar que é "do povo", e esculacha sua sintaxe para se fazer entender. Não precisa. Não devia. Sua coloquialidade é uma graça; a vulgaridade, um desperdício.
Lula consegue se manter com alta popularidade no sétimo ano de governo entoando um discurso de oposição. "Vamos tirar o povo da merda! Vamos mostras às elites quem é que manda". Mas Lula não é mais o sindicalista, o opositor eloquente, o intruso na festa dos bacanas, o delator dos 300 picaretas. Lula é o anfitrião. Lula é governo. Lula tem a caneta, a faixa presidencial, o poder. Mas os governistas se comportam como mártires da oposição, desqualificando toda crítica como invejosa, ressentida, golpista. Lula pode dizer o que quiser que passa como graça, e os grandes movimentos organizados de outrora - sindicatos, estudantes - quedam-se calados, talvez comentando entre eles que "nessa o presidente pisou na bola", mas jamais convocando manifestações, publicando charges, pichando muros. Resta a um ou outro opositor mainstream fazer um comentário crítico, destilar veneno irônico na televisão ou no jornal e aos pequenos movimentos radicais colar lambelambes de "Fora Sarney, Fora Todo Mundo".
Lula é um grande personagem. Mas o governo Lula é muito ruim, especialmente no balanço a longo prazo. Nos primeiros anos, ocupando o Executivo pela primeira vez, é de se esperar que haja dificuldades. Lidar com o Parlamento venal é sempre um problema, mesmo quando não há uma oposição aguerrida, quase encardida como a que fazia o PT. Mas já se passou tempo demais. E, nesse tempo, os oligarcas se acomodaram. As grandes reformas não saíram. Antigas posições foram abandonadas. O governo se deslumbrou com o aplauso das agências de risco, o deslumbramento de banqueiros, o luxo palaciano, a amizade dos poderosos. Agora não quer queimar o filme com os novos amigos, e se vê defendendo Renans e Sarneys, celebrando Collors e quetais.
Não é raro acontecer essa canonização de um personagem. Quando um Lech Walesa, Nelson Mandela (ou Obama...) chegam ao poder, é difícil criticá-los. Apontar seus erros pode parecer a condenação de toda a luta, de toda a trajetória, da esperança. E não faltará quem aja deliberadamente dessa maneira, pronto a apontar o primeiro deslize, a primeira tentativa frustrada, o primeiro inevitável problema para dizer "Estão vendo? É tudo uma farsa! São todos farinha do mesmo saco! Que saudade de seus antecessores!". E talvez essa reação intolerante, raivosa e injusta seja exatamente o fermento para que, junto com o belo passado, a popularidade de um político aumente sobremaneira. Lula e o PT foram escorraçados de maneira grotesca em vários momentos. Um psicanalista ganhou capa da Folha de São Paulo ao dizer que o acidente da TAM em Congonhas era obra do "governo assassino", uma aberração absoluta. Um canal de TV (se não me engano, a Record) fez um cliping que colava imagens da Marta Suplicy e sua declaração sobre "relaxar" em meio ao caos aéreo à explosão do avião. Uma denúncia de corrupção contra um vereador petista no interior de Minas Gerais gerava uma onda de comentários "e agora, o presidente vai dizer que não sabia de nada?". A governadora do Pará foi cobrada por não saber que um distrito policial a centenas de quilômetros da capital tinha uma menina de 15 anos presa junto com homens.
Lula foi vaiado na abertura do Panamericano, mistura de galhofa e grosseria na qual muitos acharam graça. Lula fez uma pergunta sincera, singela e espontânea ("afinal, o Ronaldo está gordo ou não está?") e de novo acharam graça na resposta deselegante de Ronaldo - que estava gordo.
E, como se gabavam alguns, Lula cresceu feito massa de pão (quanto mais apanha...). E hoje é isso, um presidente que é descrito segundo sua própria propaganda, independentemente de fatos que o desmintam. Não acabamos com a fome, longe disso. Não diminuímos significativamente a miséria, embora massas tenham adentrado o maravilhoso mundo do crediário. Temos uma rota levemente ascendente? Temos, até porque muitas coisas mudaram no mundo a ponto de se tornarem mesmo mais baratas e acessíveis - a tecnologia, por exemplo. A internet e os benditos celulares. As passagens de avião. Mas no máximo mantivemos uma tendência, quando precisávamos de um salto. Chacoalhar as estruturas, modificar a lógica, revolucionar. E isso não fizemos. Diminuiu um pouco a participação proporcional de São Paulo no PIB? Grande coisa, devia ter diminuído muito mais. Continuamos desiguais demais.
Será que é porque ainda estamos verdes, nossa recém-conquistada democracia é imatura? Quem sabe. Continuamos reféns de ídolos carismáticos, simpáticos, salvadores. Continuamos dividindo o mundo em bons e maus. Continuamos simplistas, imediatistas, superficiais. E não é só um problema de baixa escolaridade não - graduados e pós-graduados também produzem juízos de valor preconceituosos, auto-referentes, reproduzindo velhos conceitos cristalizados e jamais revistos. Na biblioteca comunitária do Jardim Fontales ou em uma turma da GV, o nível de conhecimento e informação sobre instituições políticas, por exemplo, é parecido. Ninguém sabe quem faz o que. Ninguém nunca teve a chance de aprender.
Não tenho esperança de que isso melhore a curto prazo. Os que estão dispostos ao debate são muito mais inclinados a simplesmente avacalhar o outro lado do que pensar que não existem só dois lados, duas cores, bons e maus, certos e errados. E há os que sequer estão interessados no debate - "quero saber do meu interesse". Mas se não acreditar que a médio prazo vamos ter mais gente inclinada ao pensamento mais complexo, o olhar generoso e multifacetado, a compreensão das coisas em todas as suas nuances, não sei o que vou fazer. Continuo trabalhando em política, buscando lugares de poder, lendo, escrevendo, debatendo ou vou logo para o Nepal meditar e catar lixo na rua, como oferenda de trabalho? Não sei. No fim de um ano dos infernos como este último não devo estar no melhor dos estados para decidir.
O presidente do Brasil foi escolhido "Homem do Ano" pelo Le Monde, que elogiou (reproduzo o que ouvi na TV, não li o original) o "crescimento econômico", o "combate à miséria" e "o desenvolvimento que privilegia o meio ambiente", entre outras coisas - mais ou menos na mesma linha da exaltação escrita por Zapatero dias atrás no El País.
Essa avaliação se baseia totalmente em impressões subjetivas. No "clima" que exala do governo brasileiro. Na propaganda oficial.
O Brasil vai bem? Muito bem? Sim, em prestígio internacional. Em estabilidade institucional e financeira. Assim como o Flamengo, temos a capacidade de transformar limão em limonada (ou caipirinha) como ninguém. Somos o país que inventou a feijoada, transformando os restos indesejados pelos brancos em um prato delicioso (embora não seja exatamente saudável). Não nos deixamos abalar facilmente por coisas como mega escândalos de corrupção; temos uma capacidade de assimilação impressionante. Outros países sobreviveram a várias guerras; nossa resiliência se manifesta na tolerância infinita a desvios de conduta (depois de alguns minutos de indignação seletiva e polarizada).
Mas o Brasil, meu deus, continua horrível. O que é que estamos comemorando, a empolgação de presidentes de outros países? O aplauso da mídia estrangeira? A consagração de nosso governante? Mas é isso mesmo que é o mais importante em um país?
É, o Brasil está na moda. Mais uma vez. Tivemos nosso grande momento nos anos 50 e 60 - Bossa Nova, Cinema Novo... Juscelino, Brasília, indústria automobilística, Copa do Mundo. Tudo muito bacana, charmoso, mas... Enquanto isso, estávamos construindo um país desigual, injusto, cruel.
Hoje reclamamos do passado como se ele tivesse sido uma imposição de deuses mitológicos, um acaso astrológico ou algo assim. "Não temos ferrovias! Destruímos nossos rios, desmatamos o litoral, nossas cidades não foram preparadas para o crescimento. Não tem redes adequadas ou suficientes de transporte sobre trilhos, não tem sistemas de drenagem, não tiveram planejamento. Nossa educação é deficiente, há milhões de analfabetos. O campo expulsa a população pobre para as cidades".
Verdade, e não foi só o Regime Militar o responsável por esses descompassos. Fizemos da fabricação de automóveis nosso maior orgulho, o passaporte para o primeiro mundo; das estradas de rodagem a coisa mais bonita do mundo. Destruímos serras, várzeas, florestas, mangues. E continuamos nesse passo, longe do desmame do transporte individual motorizado, talvez o mais forte símbolo de sucesso, expressão máxima do consumo como forma de realização pessoal - por extensão, nacional.
Continuamos nos gabando de nossa grandeza e invocando, quando conveniente, nossa condição de pobreza, fragilidade, o chavão consolidado: somos um país "em desenvolvimento". (Desde que eu estava no colégio, o governo - naquela época, o militar - rejeitava o rótulo de "subdesenvolvido". A nova tag acabou pegando). Seremos a 5a maior economia do mundo muito em breve! O petróleo nos transformará em superpotência! Emprestamos dinheiro ao FMI! Mas ainda falamos com desprezo dos "ricos"; os ricos que poluíram e aqueceram o mundo e agora vem encher o saco querendo preservar as florestas, melhorar o clima e blá-blá-blá. Deixem-nos crescer! Se precisarmos desmatar, poluir e aquecer, nós o faremos. No máximo, prometemos não aumentar tanto assim as agressões ao ambiente e pronto, esse é o nosso sacrifício. Em vez de diminuir as emissões de carbono, vá lá, vamos aumentar menos.
(É essa a grande proposta que o governo brasileiro levou à Cop-15... Que um comentarista na Globo News saudou como "audaciosa". Fantástico).
O Brasil continua muito miserável, desigual, cruel, injusto. O campo continua expulsando as pessoas - não porque o mundo mudou e a mecanização chegou a todas as lavouras, mas porque continua gerando muita riqueza para alguns e miséria para tantos outros. Os velhos e aparentemente eternos coronéis, as chamadas "elites" políticas e econômicas continuam mantendo seus currais eleitorais às custas da pobreza, da dependência, do papel de salvadores da pátria. Eles são os que intercedem junto ao poder central de modo a conseguir um auxílio, um socorro, uma esmola. Dirigidos, limitados, finitos, jamais transformadores e capazes de levar à independência, à autonomia.
O povo continua na merda (RT @opresidente). As cidades, incapazes de absorver dignamente os expulsos do campo, incham, se espraiam e deterioram. Aumenta a desigualdade, a violência. Não é a pobreza a causa da violência, é a falta de projeto, de uma perspectiva que não a aspiração do prazer imediato e do consumo. Pesquisas recentes traduziram em números o que mitos já observaram no contato direto e diário: a maioria das meninas se prostitui para conseguir bens como celulares. A maioria dos meninos entra para a indústria do crime para se fazer admirar pela "valentia"; para serem admirados pelas meninas que, imersas nesse mundo em que a "ascensão social" se dá pelo crime, adoram as armas ostentadas por eles.
O Brasil cresceu pouco - aliás, os números da economia no último trimestre foram comentados, muito discretamente, como sendo "decpecionantes" para o governo. E tudo bem. Parece até que vale mais a propaganda ufanista do que o fato em si - "Ah, não vamos abaixar o astral da população, o mundo inteiro aplaudindo o Brasil, o país do momento, e a gente vai contrariar a maioria agora?".
O Brasil cresceu pouco e redistribuiu muito mal. Tenho curiosidade em saber: quantas pessoas recebem o Bolsa Família há vários anos? O que seria delas AGORA se perdessem o benefício? Transferência de tenda é medida emergencial necessária, mas não pode ser mecanismo de eterna dependência. Além de reunir vários benefícios em um só, qual é, afinal, a grande diferença dessa Bolsa para a do governo Fernando Henrique, que criticamos tanto? O quanto melhorou a VIDA das pessoas - não apenas o COMSUMO? Ironizávamos as declarações do então presidente quando ele dizia que a população estava comprando mais dentaduras, frango e iogurte. Não era disso que falávamos quando exigíamos reformas, revoluções. Mas agora erguemos um brinde à venda de carros e geladeiras, como se a nação estivesse melhor por conta do carnê das Casas Bahia. Sim, as pessoas erguem suas casas com material de construção mais barato, compram eletrodomésticos de última geração - mas moram no Pantanal na Zona Leste de São Paulo, uma obra conjunta da qual as últimas quatro ou cinco administrações podem se orgulhar... E continuam se chacoalhando várias horas por dia na condução, jogando lixo em qualquer lugar à sua volta porque essa é a paisagem a que se acostumaram, e repetindo com os colegas os lugares-comuns sobre os políticos que não prestam.
Temos imagens horríveis para mostrar ao mundo, como sempre. Depois da exaltação internacional à India e à China, chegou a vez do Brasil mostrar suas belezas. Assim como India e China, nossa beleza ainda exclui milhões. Nosso sorriso continua banguela. Mas os miseráveis não aparecem tanto, exceto em casos de flagelos - ou nas manisfestações organizadas em cidades governadas pela oposição... Antes, a culpa pela miséria era do governo central. Agora, é dos tucanos, dos demos, de qualquer um, menos do presidente. O presidente combate a miséria e a fome. Se não dá certo, não é ele quem tem de responder por isso.
A história pessoal do presidente é belíssima. Mas o que já foi motivo de chacota indecente agora virou anteparo indevassável; criticar o presidente Lula é quase blasfêmia. E ele investe - inconscientemente, creio - na imagem do homem humilde de baixa escolaridade de modo a acentuar, artificialmente, essas características. O discurso de Lula deputado criticando o Bolsa Escola era muito mais elaborado do que a fala de hoje em dia, com mais expressões chulas e erros de concordância que ele antes não cometia...
Lula antes queria falar de igual para igual com os poderosos e precisava provar que era capaz. Hoje quer provar que é "do povo", e esculacha sua sintaxe para se fazer entender. Não precisa. Não devia. Sua coloquialidade é uma graça; a vulgaridade, um desperdício.
Lula consegue se manter com alta popularidade no sétimo ano de governo entoando um discurso de oposição. "Vamos tirar o povo da merda! Vamos mostras às elites quem é que manda". Mas Lula não é mais o sindicalista, o opositor eloquente, o intruso na festa dos bacanas, o delator dos 300 picaretas. Lula é o anfitrião. Lula é governo. Lula tem a caneta, a faixa presidencial, o poder. Mas os governistas se comportam como mártires da oposição, desqualificando toda crítica como invejosa, ressentida, golpista. Lula pode dizer o que quiser que passa como graça, e os grandes movimentos organizados de outrora - sindicatos, estudantes - quedam-se calados, talvez comentando entre eles que "nessa o presidente pisou na bola", mas jamais convocando manifestações, publicando charges, pichando muros. Resta a um ou outro opositor mainstream fazer um comentário crítico, destilar veneno irônico na televisão ou no jornal e aos pequenos movimentos radicais colar lambelambes de "Fora Sarney, Fora Todo Mundo".
Lula é um grande personagem. Mas o governo Lula é muito ruim, especialmente no balanço a longo prazo. Nos primeiros anos, ocupando o Executivo pela primeira vez, é de se esperar que haja dificuldades. Lidar com o Parlamento venal é sempre um problema, mesmo quando não há uma oposição aguerrida, quase encardida como a que fazia o PT. Mas já se passou tempo demais. E, nesse tempo, os oligarcas se acomodaram. As grandes reformas não saíram. Antigas posições foram abandonadas. O governo se deslumbrou com o aplauso das agências de risco, o deslumbramento de banqueiros, o luxo palaciano, a amizade dos poderosos. Agora não quer queimar o filme com os novos amigos, e se vê defendendo Renans e Sarneys, celebrando Collors e quetais.
Não é raro acontecer essa canonização de um personagem. Quando um Lech Walesa, Nelson Mandela (ou Obama...) chegam ao poder, é difícil criticá-los. Apontar seus erros pode parecer a condenação de toda a luta, de toda a trajetória, da esperança. E não faltará quem aja deliberadamente dessa maneira, pronto a apontar o primeiro deslize, a primeira tentativa frustrada, o primeiro inevitável problema para dizer "Estão vendo? É tudo uma farsa! São todos farinha do mesmo saco! Que saudade de seus antecessores!". E talvez essa reação intolerante, raivosa e injusta seja exatamente o fermento para que, junto com o belo passado, a popularidade de um político aumente sobremaneira. Lula e o PT foram escorraçados de maneira grotesca em vários momentos. Um psicanalista ganhou capa da Folha de São Paulo ao dizer que o acidente da TAM em Congonhas era obra do "governo assassino", uma aberração absoluta. Um canal de TV (se não me engano, a Record) fez um cliping que colava imagens da Marta Suplicy e sua declaração sobre "relaxar" em meio ao caos aéreo à explosão do avião. Uma denúncia de corrupção contra um vereador petista no interior de Minas Gerais gerava uma onda de comentários "e agora, o presidente vai dizer que não sabia de nada?". A governadora do Pará foi cobrada por não saber que um distrito policial a centenas de quilômetros da capital tinha uma menina de 15 anos presa junto com homens.
Lula foi vaiado na abertura do Panamericano, mistura de galhofa e grosseria na qual muitos acharam graça. Lula fez uma pergunta sincera, singela e espontânea ("afinal, o Ronaldo está gordo ou não está?") e de novo acharam graça na resposta deselegante de Ronaldo - que estava gordo.
E, como se gabavam alguns, Lula cresceu feito massa de pão (quanto mais apanha...). E hoje é isso, um presidente que é descrito segundo sua própria propaganda, independentemente de fatos que o desmintam. Não acabamos com a fome, longe disso. Não diminuímos significativamente a miséria, embora massas tenham adentrado o maravilhoso mundo do crediário. Temos uma rota levemente ascendente? Temos, até porque muitas coisas mudaram no mundo a ponto de se tornarem mesmo mais baratas e acessíveis - a tecnologia, por exemplo. A internet e os benditos celulares. As passagens de avião. Mas no máximo mantivemos uma tendência, quando precisávamos de um salto. Chacoalhar as estruturas, modificar a lógica, revolucionar. E isso não fizemos. Diminuiu um pouco a participação proporcional de São Paulo no PIB? Grande coisa, devia ter diminuído muito mais. Continuamos desiguais demais.
Será que é porque ainda estamos verdes, nossa recém-conquistada democracia é imatura? Quem sabe. Continuamos reféns de ídolos carismáticos, simpáticos, salvadores. Continuamos dividindo o mundo em bons e maus. Continuamos simplistas, imediatistas, superficiais. E não é só um problema de baixa escolaridade não - graduados e pós-graduados também produzem juízos de valor preconceituosos, auto-referentes, reproduzindo velhos conceitos cristalizados e jamais revistos. Na biblioteca comunitária do Jardim Fontales ou em uma turma da GV, o nível de conhecimento e informação sobre instituições políticas, por exemplo, é parecido. Ninguém sabe quem faz o que. Ninguém nunca teve a chance de aprender.
Não tenho esperança de que isso melhore a curto prazo. Os que estão dispostos ao debate são muito mais inclinados a simplesmente avacalhar o outro lado do que pensar que não existem só dois lados, duas cores, bons e maus, certos e errados. E há os que sequer estão interessados no debate - "quero saber do meu interesse". Mas se não acreditar que a médio prazo vamos ter mais gente inclinada ao pensamento mais complexo, o olhar generoso e multifacetado, a compreensão das coisas em todas as suas nuances, não sei o que vou fazer. Continuo trabalhando em política, buscando lugares de poder, lendo, escrevendo, debatendo ou vou logo para o Nepal meditar e catar lixo na rua, como oferenda de trabalho? Não sei. No fim de um ano dos infernos como este último não devo estar no melhor dos estados para decidir.
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