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sábado, 21 de maio de 2016

Agatha Christie

Já gostei muito... Lamentava o fim de um livro e corria atrás do próximo. Com o tempo, comecei a perceber a mecânica da narrativa e as coisas foram perdendo a graça. Agora voltei a ler e saquei de tal forma as artimanhas dela que adivinho o assassino antes do fim, percebendo as pistas falsas, as lacunas sugestivas, os detalhes tratados como irrelevantes que no fim são decisivos.

Mas ainda assim me diverti lendo "Os Elefantes Nunca Esquecem" e "cortei" um trecho bacaninha. Posso imaginar a cena :)

“O sr. Goby entrou na sala e sentou-se no lugar de costume, obedecendo à indicação de Hercule Poirot. Antes, porém, deu uma rápida olhada para os móveis, para selecionar com qual travaria a entrevista. Decidiu-se por um aquecedor elétrico, desligado por causa da estação. O sr. Goby tinha por hábito não se dirigir diretamente às pessoas para quem trabalhava. Geralmente escolhia um nicho, um aquecedor, um aparelho de televisão, um relógio e até um capacho, ou mesmo um tapete. Tirou da pasta alguns papéis.

- Bom, o que descobriu? – perguntou Poirot.

- Coletei vários detalhes – perguntou o sr. Goby, famoso em Londres, talvez em toda a Inglaterra e até no exterior, como coletor de informações. Como realizava verdadeiros milagres era um mistério. Sob suas ordens tinha um pequeno número de funcionários, mas vivia se queixando de que “suas pessoas” (como chamava sua equipe) não eram mais as mesmas. Porém, sempre os resultados das informações espantavam a clientela pela precisão e eficácia. – A sra. Burton-Cox – disse como um coroinha recitando os salmos para os fiéis durante a missa dominical. Com a mesma entonação poderia estar dizendo: “verso 3, Capítulo 4, Livro de Isaías”. A sra. Burton-Cox – repetiu o sr. Goby. – casou-se com Robert Aldbury, (...)

- O rapaz já fez testamento?

- Ainda não sei – disse o sr. Goby -, mas saberei em breve. Tenho meios para conseguir esta informação. Assim que tiver uma resposta, falarei com o senhor.

Com essas palavras, o sr. Goby despediu-se do aquecedor elétrico e retirou-se”.

Não é legal? :)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fernando, Antonio, Francisco


Arrumando minhas caixas - infinitas caixas de papeis, revistas e livros - encontrei uma biografia de “Antonio, o Santo do Amor”. Deve ter sido presente da época do Saia Justa (ganhávamos uns 3 ou 4 livros por semana!).

Antonio nasceu Fernando, em família “boa” de Portugal. Menino estudioso, reservado, vivia enfurnado na igreja da praça ou nos livros. O pai o queria fidalgo, cavaleiro, mas ele sonhava com a vida reclusa de um monastério e teve o apoio (de quem mais seria?) da mãe.

Fernando não se conformava com as Cruzadas e seu método “matar para salvar”. O livro conta, com nomes e datas, o que estamos cansados de saber - os interesses nada pios nas conversões forçadas. Papas, bispos, reis e nobres disputavam entre si o poder sobre pedaços de território dos dois lados do mediterrâneo.

O sul da França, por exemplo, queria romper com o poder do rei e declarar independência. Os senhores de terras locais se juntavam, então, aos “hereges”, já que o Papa era “assim” com o rei. E dá-lhe banho de sangue.

Fernando, como alguns rappers dos anos 90, acreditava na força da palavra em vez das armas. E, segundo consta, era muito bom nisso. Convincente, persuasivo, jamais se abalava e persistia na argumentação baseada em sua imensa fé e devoção.

Coerente, o devoto não se sentia nada confortável com a opulência da igreja... As salas de troféus... E ficou cada vez mais encantado com uma nova ordem, fundada por um italiano de nome Francisco. Ahn? Ahn? Pescou?

Pois é, Francisco de Assis, assim como alguns hereges, acreditava em uma vida totalmente destituída de bens como a mais próxima do ideal cristão. Mas os hereges rompiam com o poder do Vaticano e ele não; obteve a “autorização” do Papa para seguir com sua linha de ação. Fernando ficou fascinado com a entrega absoluta de suas vidas – frequentemente literal e trágica - aos ideais cristãos. Dois pregadores obstinados, conta o livro, foram esquartejados em Marrocos depois de passarem por Portugal e Fernando conhecê-los pessoalmente.

Fernando acabou deixando os agostinianos e beneditinos, com quem tinha passado algum tempo, e se juntou aos franciscanos - e foi então que mudou de nome para Antonio.

E eu que nem imaginava que Antonio, que aparece nas estátuas segurando um Menino Jesus, tinha nascido Fernando, em Portugal, conhecido Francisco de Assis pessoalmente e se tornado referência importante na Ordem Franciscana, a ponto de desencadear mudanças.

Francisco era muito avesso ao estudo, por duas razões: porque livros eram posses como quaisquer outras e a necessidade de guardá-los implicava em outras posses, outras preocupações e cuidados. Mais que isso, temia - com motivos de sobra... - que a erudição trouxesse arrogância e a ideia de superioridade sobre os demais (em um tempo em que até reis eram analfabetos, imagine os pobres camponeses e aldeões). E que isso acabasse afastando os franciscanos do convívio e a ação em benefício dos pobres, dos “leprosos”, dos mais rejeitados.

Antonio convenceu Francisco, por seu modo abnegado de se dedicar aos outros, sua fé irreprochável, que era possível ser “estudado” e modesto, letrado e humilde. Graças a sua influência, foi criada a primeira escola para instrução dos monges franciscanos.

Um homem de tanta fé, a quem são atribuídos vários milagres (ou não seria Santo...), tinha lá seus momentos de descrença. Não em Cristo, mas na humanidade...  

Recorro muito a esses momentos de sensação de “não tem jeito, não tem remédio, nada do que se faça é capaz de mudar isso” para me animar quando sou eu que mergulho nesse estado. Grandes homens e mulheres podem nos parecer inabaláveis, totalmente convictos e resolutos da pertinência de seus esforços, mas eles também desanimam, viu?

“  (...) Pouco sabemos hoje sobre a forma como se manifesta a eloquência de Antônio. (...) Do que sabemos bem, pois disso restam os vários registros, é de seu poder de comunicação, a capacidade de convencimento fácil. Pelo que deixa escrito e pelos depoimentos dos contemporâneos, vê-se que considera sua época uma espécie de fundo do poço, em que todos os vícios e violências estão disseminados (...).

[Além disso], existe o medo das doenças inexplicadas numa época em que a medicina tem poucos recursos, o medo da violência praticada por salteadores nas estradas, o medo da guerra que está por toda parte”.

Pois é... Sensação de fim do mundo, fundo do poço, túnel sem luz no fim... Mas Antonio continuou fazendo o que achava que devia fazer...

Quando comecei a escrever (de manhã, antes de sair de casa), estava em meu estado de espírito “normal”: na expectativa boa de fazer algumas coisas, com preguiça de outras, nada de mais. Termino o texto agora (fim da tarde) quando estou triste, desanimada, de saco cheio, com vontade de largar tudo, desencanar, desistir. “Não tem jeito... Não tem”. Dinheiro, “bom trânsito”, amizades, boas impressões, visões pré-concebidas, palpites, isso é o que leva uma eleição para um lado ou para o outro... O Haddad não precisa ser ninguém, não precisa querer ser prefeito (só queria morar em São Paulo, segundo uma matéria sb ele; Lula foi quem sugeriu “por que não sai candidato?”). Não precisa ter sido um bom ministro (levanta a mão quem acha que A EDUCAÇÃO NO BRASIL VAI BEM), não precisa ter sido escolhido pela maioria do PT, não precisa aparecer bem nas pesquisas de intenção de voto, não precisa ter bom conhecimento, leitura ou propostas para a cidade, não precisa ser cercado de pessoas honestas. Só precisa ser o candidato do PT, pronto, tem a garantia de que será coberto pela imprensa como se JÁ ESTIVESSE no segundo turno. O que ajuda bastante a fazer com que esteja.

É foda. Círculo vicioso, moto perpétuo, caminhada em círculo. Quem já está no poder tem mil vezes mais chances de continuar do que quem está tentando entrar agora. Às vezes perco totalmente a vontade de continuar tentando.

Se me conheço bem, daqui a pouco [a falta de vontade] passa. Valei-me Santo Antonio. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Retórica da Intransigência

Esse é o título de um livro de Albert Hirschman, cientista político e social nascido em Berlim em 1915 que imigrou para os Estados Unidos em 1941. "Lecionou nas principais universidades da costa leste americana: Yale, Columbia e Harvard. Dedicou-se por muitos anos à pesquisa no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton. De sua obra, já foram publicados no Brasil: "Saída, voz e lealdade", "De consumidor a cidadão" e "As paixões e interesses"."

Não li esses outros livros, mas adoro "A Retórica da Instransigência - Perversidade, Futilidade, Ameaça". Vou falar bastante dele por aqui, mas por enquanto vou apenas reproduzir um trecho do prefácio.

"Nestes dias de aclamação universal do modelo democrático, pode parecer mesquinho tratar das deficiências de funcionamento das democracias ocidentais. Porém é precisamente o desmoronamento espetacular e revigorante de certos muros que chama a atenção para os que permanecem intactos, ou para as fissuras que se aprofundam".

(Como a referênca a "muros que demoronam" indicam, o livro foi publicado em 1991, logo depois da reunificação da Alemanha).

"Entre estas, uma pode ser encontrada com freqüência nas democracias mais avançadas: a falta sistemática de comunicação entre grupos de cidadãos, tais como liberais e conservadores, progressistas e reacionários. O conseqüente isolamento desses diversos grupos parece-me mais preocupante que o isolamento de indivíduos anônimos na "sociedade de massas", à qual os sociólogos deram tanta importância.

Curiosamente, a própria estabilidade e o funcionamento adequado de uma sociedade democrática bem ordenada dependem de que seus cidadãos se alinhem em uns poucos grupos importantes (...), detentores de opiniões diferentes acerca de questões políticas básicas. Pode facilmente acontecer que tais grupos se fechem uns aos outros - e, nesse sentido, a democracia gera continuamente seus próprios muros
".