segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Em defesa da Monja Coen...

 ... e até da Ambev.

Eu nem sabia o que estava acontecendo até uma amiga compartilhar comigo o link de um site (que eu acho bem legal) com críticas severas à parceria profissional estabelecida entre Ambev e Monja Coen. Que me lembre, ela estava um pouco em dúvida sobre o que pensava a respeito. 

Li o artigo, do qual destaco alguns trechos e comento em seguida:

Monja Coen é a nova embaixadora da Ambev; mensagem de moderação não combina com dados sobre alcoolismo durante pandemia

A filosofia de vida que promove uma relação mais calma, serena e mediada com o mundo não parece ser condizente com o consumo de bebidas alcoólicas.

Mensagem de moderação é sempre benvinda, esteja o mundo passando por uma crise ou não. Não vejo como o aumento do alcoolismo pode ser uma razão para NÃO falar em moderação. 

E tem mais: pessoas serenas não consomem bebidas alcoólicas? Ser serena implica em abstinência? Quem bebe é só quem é locão, estressado, nervoso? Não é possível ter uma relação saudável com o consumo de álcool? 

“Autoconhecimento é liberdade. A Ambev está falando sobre moderação e autoconhecimento e me convidou para ser embaixadora da moderação da marca Ambev. Eba! Você se conhece em profundidade? Você percebe qual é a necessidade verdadeira e quais são os limites de seu corpo e de sua mente? É preciso conhecer-se. O autoconhecimento nos liberta. Nos torna mais leves”, disse Coen.

Será que o autoconhecimento torna tudo mais leve? Enquanto a Organização Pan-Americana da Saúde revela que 35% das pessoas entre 30 e 39 anos estão tomando doses excessivas de álcool durante a pandemia e que o alcoolismo se tornou mais comum por conta do isolamento social (...). 

Então... Se as pessoas estão tomando doses excessivas de álcool, por que não tentar ao menos falar com elas sobre perceber seus limites e suas necessidades verdadeiras? Qual a alternativa, dar uma bronca? 

Trabalhei anos na MTV e quebrávamos a cabeça pensando qual a melhor maneira de falar sobre uso de drogas, "legais" inclusive, e sobre sexo e direção responsáveis. Certamente não era com discurso moralista e desconectado da realidade. Precisávamos partir do princípio de que as pessoas vão fazer sexo, por exemplo - então vamos falar sobre sexo seguro. Sobre não transar (nem beber ou fumar etc) apenas para se afirmar, para impressionar amigos ou não se sentir excluído. Sobre gostar de si e se conhecer. 

E mais uma vez precisamos separar o "uso excessivo" - super disseminado em momentos bons ou ruins, casamentos ou separações, carnaval ou formatura, coquetel da firma ou depois da demissão - do alcoolismo, que é uma doença. Ainda assim, SUPER importante é uma pessoa alcóolatra ser capaz de olhar para si mesmo e admitir que é dependente; que não tem nada sob controle e que está causando mal a si e aos outros. 

O site prossegue com a citação de uma postagem no Instagram: 

Tanto marca como embaixador chegam a um acordo comum. Será que a @monjacoen acredita mesmo nesse papo bem intencionado da Ambev que, concomitante a contratação desse discurso, investe pesado em outras frentes demonstrando completo descaso na preocupação com qualquer mensagem de autoconhecimento e moderação no consumo? Sinceramente, eu não sei aonde iremos chegar. Daqui a pouco podemos ter padres sendo embaixadores de Rivotril!. Será?”, afirmou a doutora em antropologia do consumo, Hilaine Yaccoub, no Instagram.

Se tiver um padre dizendo "use camisinha", "cuidado com a automedicação", "não abuse de remédios", por mim tudo bem. 

E acho bom também que as próprias empresas gastem dinheiro em campanhas relacionadas ao uso responsável do que vendem. Senão, restaria apenas ao Estado a obrigação de tratar disso. Uns lucram com a venda, outros bancam as consequencia para a sociedade...

Sobre o "investimento pesado demonstrando completo descaso" - caramba, como demonstra descaso se contrata uma "celebridade" para falar de moderação?

Seria melhor adotar a estratégia de outras empresas e marcas de cerveja, que associam o prazer de uma gelada a bundas femininas? Que praticamente dizem "se você não beber, nao vai se divertir"?

Segue:


Não me parece que essa seja uma imagem legítima da campanha mas sim uma montagem feita pela autora da postagem. 

Me lembra muito a capa da Época de 2001 que trouxe uma foto minha com cara de tonta dizendo "EU FUMO MACONHA". A proposta da revista quando me procurou era falar de maconha "com moderação", isto é, sem os estereótipos usuais, as mensagens aterrorizantes, e tentar discutir em bases mais verdadeiras os resultados da criminalização do seu comércio. Quiseram entrevistar "gente normal" que trabalha, estuda, cria os filhos... Que não é dependente, desajustada, delinquente, não bate na mãe pra roubar dinheiro. A capa deturpou completamente o prometido e muitos concluíram que eu estava fazendo apologia ao uso de maconha - "pode fumar, vai ficar tudo bem". Não era isso que eu estava dizendo - era "fumar maconha não é sinônimo de desgraça"; embora algumas pessoas possam realmente ter problemas associados ao uso, defendo que o monopólio do comércio por organizações criminosas causa muito mais dano. 

A isso, alguns respondiam (e respondem até hoje): "Legalizar??? As drogas legais são as que mais matam, como o álcool e o cigarro. Em vez de proibir essas, vai liberar as outras"? Eu replico: "Prefiro que a Souza Cruz venda cigarros do que o Comando Vermelho. Que a Ambev venda álcool em vez do Al Capone". 

Ainda não terminei. Depois continuo. 




quarta-feira, 7 de abril de 2021

Desperdício

 Palavras positivas para descrever o Brasil: criatividade, flexibilidade, inventividade, resiliência. 

Palavra negativa para descrever o Brasil: desperdício. 

Aqui temos a capacidade de desperdiçar de tudo:
- luz solar
- vento
- água
- fertilidade do solo
- alimentos
- conhecimento
- talento
- "lixo"

Sim, tratamos como lixo o que ainda podia ter muito uso, de muitas maneiras diferentes. Utilizado, reutilizado, reciclado, transformado, compostado e, em último caso, incinerado para geração de energia. Nada, jogamos fora e pronto. Se for para o lugar certo (aterro sanitário), tanto melhor. Mas ainda é raro. 

Na pandemia a lista de desperdício passou a incluir "autoritarismo". 

Lidar com uma pandemia exige muita, muita firmeza de autoridades. A sociedade precisa se engajar para que ela seja contida. Comunicação é essencial - jornalismo, campanhas publicitárias, redes sociais, whatsapp são fundamentais para espalhar (viralizar...) a ideia certa, a informação correta, o sentimento necessário (responsabilidade, cuidado, solidariedade). E medidas concretas que criem o ambiente favorável para que a sociedade adote os procedimentos necessários. 

Combate a uma pandemia é um dos maiores exemplos de "interesse coletivo que pode obrigar a suspensão de algumas liberdades individuais". Ou seja: não é mesmo muito democrático. É uma emergência. Não dá pra ficar debatendo, submetendo a votações, audiências públicas, plebiscito. Em um incêndio você convocaria reunião de condomínio? Durante a passagem do furacão, reuniria a Associação Comercial pra decidir abrir ou fechar as lojas?

Já viu onde eu quero chegar, né. 

Pra alguém que já não é lá muito fã de democracia, divergência de opiniões, disputa, votação, debate, assembleia, consulta pública, participação popular, as medidas necessárias durante uma pandemia deveriam representar um momento de "êxtase"! Não precisa negociar com o Centrão, não precisa pedir voto pra ninguém - baixa a medida e pronto! Obedeçam! Eu sou a autoridade, eu tenho aqui os especialistas em Saúde dizendo que é isso que deve ser feito, eu tenho responsabilidade, eu tenho exemplos pelo mundo, então podem chorar, mas vocês me elegeram para zelar por esta nação.  É lockdown e acabou!

Mas não. 

A gente consegue ter uma autoridade máxima no Poder Executivo que baba pela ditadura; que vive dizendo "quem manda aqui sou eu"; que manda jornalista calar a boca; que fala "meu exército"; que ameaça instituir Estado de Sítio - e que não usa o poder que realmente detém para mandar todo mundo ficar em casa trancado por pelo menos 15 dias!! Pra dizer que só pode sair na rua se provar pra autoridade policial que era necessário!

Não me conformo. Deveria ser o sonho de um capitão que ama escolas cívico-militares. Que odeia o Congresso. Mas ele resolveu defender... a liberdade individual!!!!!! Ama ditadura, mas abomina a obrigação de uso de máscara!

É de f. 

Desperdício de autoritarismo. 

A que ponto chegamos. 




segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Se fosse na Vila...

Ou: Por que pode ser difícil aplicar a Lei Maria da Penha.

Gritos, correria. Um homem dobrando a esquina, um homem com um tijolo na mão atrás do primeiro, uma menina desesperada atrás. Briga? Assalto. Os vizinhos saindo às janelas se olhavam desolados e aflitos.

Minutos depois, aplausos e assobios vindos do prédio do outro lado da rua: pegaram. A menina chorava de sacudir os ombros, muito nervosa. Não queria que fizessem mal ao ladrão.

***

Aconteceu em uma rua tranquila da Pompeia no domingo de manhã. A menina estava na porta do café onde trabalha, evitando usar o celular na rua. Mas o telefone tocou, ela pegou para atender e foi o que bastou.

***

“Ele é loirinho, de olho claro”. Por alguma razão, isso parecia fazer dele um ladrão ainda mais estúpido. Como se, sei lá, estivesse deixando escapar a oportunidade de fazer algo muito melhor da vida, coisa que não esperariam de um escurinho, talvez.

***

A menina chorava muito, os moradores a acolhiam. Os trabalhadores de uma casa em reforma, que a tinham acudido e perseguido o rapaz, perguntavam, atônitos: “Se você queria deixar ele ir embora, por que passou aqui gritando pega ladrão”?

Quem o alcançou foi o motorista de um carro vermelho; carro meio velho, que a gente já não sabia, naquela corrida maluca, se era da “polícia” ou do ladrão. O garoto fez menção de puxar uma arma, tomou logo um safanão. O perseguidor, contendo a vontade de dar mais alguns; fez o certo: ligou 190 e o levou no carro até a obra, onde aguardariam a viatura.

A menina ficou triste e confusa, “É só um garoto. Eu também moro na quebrada, sei como é”. Conversando e se acalmando, concordou que ele não podia ficar à vontade para continuar causando mal a outras pessoas.

“Quantos anos você tem, arrombado?”, perguntou um dos trabalhadores da obra. “16”. Os colegas pedreiros balançaram a cabeça: “Amanhã já tá na rua de novo”.

“Se fosse lá na Vila...”, disse um deles. Perguntei qual vila. “Penteado. Tava aqui sossegado assim não”. Outro balançou a cabeça. “Ah, não mesmo”.

A polícia não seria incomodada.

***

Os PMs chegaram, a menina foi com eles fazer o Boletim de Ocorrência. Um dos policiais respondeu que ela poderia sim acompanhar os rumos do processo, saber o que seria do rapaz.

Pedi o número do seu zap para depois saber se tinha ficado bem. Ela precisou me ligar, não lembrava o próprio número – celular recém-adquirido, o anterior tinha sido roubado. “Você tem como comprovar que esse é seu?”, perguntou a policial. “Sim, tenho a caixa, tenho a nota”.


(Era só o que faltava).

***

Sofri uma tentativa de assalto em 2009, quando era Subprefeita da Lapa. O rapaz me seguiu em uma rua deserta e escura, me ultrapassou e apontou uma faca de açougueiro: “Celular”. Debati, argumentei, consegui “comprar” meu celular de volta por R$30.

Algumas semanas depois, ele foi encontrado no mesmo lugar, no mesmo horário, com a mesma faca, na mesma tocaia. Ainda assim, fiquei com medo que fosse a pessoa errada. Outras semanas se passaram e fui chamada ao Fórum Criminal. Lá estava o rapaz, que tinha ficado detido aguardando o julgamento. Calça cáqui, camisa branca, cabeça raspada, mãos algemadas atrás do corpo. Estava tudo bem comigo, eu só tinha perdido 30 reais. E passado um medo do cacete, mas já fazia tanto tempo...

Entende? Eu me sentia culpada por aquele rapaz preso. Depois a Justiça me informou que ele tinha sido condenado a três anos em regime fechado. Putz. Será que era caso pra tanto?

“Sonia, ele não era primário. Ele tinha uma faca. Ele assaltou outras pessoas no Terminal Lapa desse mesmo jeito. Duas senhorinhas, inclusive. Essas mulheres ficaram com medo pra vida inteira”. A Lylian levantou a capivara do moço para me “consolar”.

***

Lembrei da história, contei pra moça. É o certo, chama a polícia, cumpre o pacto social: o que ele fez não é certo, tem de haver sanção. "Na Vila Penteado ele teria levado um cacete por roubar uma mocinha". Se aparecesse polícia na quebrada atrás dele por causa de um celular, cacete em dobro pra deixar de ser besta. Nosso papel é acionar o sistema, fiscalizar o sistema, insistir para o sistema funcionar.

Mais tarde ela mandou um zap: ele era fichado e estava em posse de uma boa quantia em dinheiro. Acho que foi pra casa mais aliviada.

***

Um rapaz foi preso “por minha causa”, o outro “por causa dela”. Claro que não, a causa foi eles mesmos, mas é estranho.

Enfim, o subtítulo: entendem agora por que pode ser tão difícil aplicar a parte punitiva da Lei Maria da Penha? Às vezes não queremos “mal” sequer a um ladrãozinho; “se ele ao menos tomasse um susto e aprendesse”, desejamos... Não temos certeza se cadeia é bem o caso; se cadeia vai “dar jeito” na vida dele ou se é lá que vai desandar de vez.

Imagine quando é alguém a quem um dia a mulher quis bem... Alguém a quem ela amou.

Né fácil não, gente.

Precisamos enfatizar os outros caminhos e saídas para mulheres vítimas de violência doméstica, porque a via policial pode ser muito difícil para muitas delas.

“Peçam ajuda”, “peçam apoio”, precisamos dizer a elas. "Bem antes de ser um caso de polícia; para que não chegue a ser caso de polícia". (Mas se precisar, CHAME A POLICIA).

“Ofereçam ajuda”, “não neguem ajuda” (“não julguem, não condenem, não desencorajem”), precisamos dizer a todas as pessoas que conhecem uma mulher que possivelmente esteja sendo vítima de algum tipo de violência. Para que a opressão finde antes de ser caso de polícia.

***

(Se isto fosse uma coluna de jornal, estaria assinado “Soninha Francine, vereadora pelo Cidadania em São Paulo, é relatora da CPI da Violência Contra a Mulher”).