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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Se fosse na Vila...

Ou: Por que pode ser difícil aplicar a Lei Maria da Penha.

Gritos, correria. Um homem dobrando a esquina, um homem com um tijolo na mão atrás do primeiro, uma menina desesperada atrás. Briga? Assalto. Os vizinhos saindo às janelas se olhavam desolados e aflitos.

Minutos depois, aplausos e assobios vindos do prédio do outro lado da rua: pegaram. A menina chorava de sacudir os ombros, muito nervosa. Não queria que fizessem mal ao ladrão.

***

Aconteceu em uma rua tranquila da Pompeia no domingo de manhã. A menina estava na porta do café onde trabalha, evitando usar o celular na rua. Mas o telefone tocou, ela pegou para atender e foi o que bastou.

***

“Ele é loirinho, de olho claro”. Por alguma razão, isso parecia fazer dele um ladrão ainda mais estúpido. Como se, sei lá, estivesse deixando escapar a oportunidade de fazer algo muito melhor da vida, coisa que não esperariam de um escurinho, talvez.

***

A menina chorava muito, os moradores a acolhiam. Os trabalhadores de uma casa em reforma, que a tinham acudido e perseguido o rapaz, perguntavam, atônitos: “Se você queria deixar ele ir embora, por que passou aqui gritando pega ladrão”?

Quem o alcançou foi o motorista de um carro vermelho; carro meio velho, que a gente já não sabia, naquela corrida maluca, se era da “polícia” ou do ladrão. O garoto fez menção de puxar uma arma, tomou logo um safanão. O perseguidor, contendo a vontade de dar mais alguns; fez o certo: ligou 190 e o levou no carro até a obra, onde aguardariam a viatura.

A menina ficou triste e confusa, “É só um garoto. Eu também moro na quebrada, sei como é”. Conversando e se acalmando, concordou que ele não podia ficar à vontade para continuar causando mal a outras pessoas.

“Quantos anos você tem, arrombado?”, perguntou um dos trabalhadores da obra. “16”. Os colegas pedreiros balançaram a cabeça: “Amanhã já tá na rua de novo”.

“Se fosse lá na Vila...”, disse um deles. Perguntei qual vila. “Penteado. Tava aqui sossegado assim não”. Outro balançou a cabeça. “Ah, não mesmo”.

A polícia não seria incomodada.

***

Os PMs chegaram, a menina foi com eles fazer o Boletim de Ocorrência. Um dos policiais respondeu que ela poderia sim acompanhar os rumos do processo, saber o que seria do rapaz.

Pedi o número do seu zap para depois saber se tinha ficado bem. Ela precisou me ligar, não lembrava o próprio número – celular recém-adquirido, o anterior tinha sido roubado. “Você tem como comprovar que esse é seu?”, perguntou a policial. “Sim, tenho a caixa, tenho a nota”.


(Era só o que faltava).

***

Sofri uma tentativa de assalto em 2009, quando era Subprefeita da Lapa. O rapaz me seguiu em uma rua deserta e escura, me ultrapassou e apontou uma faca de açougueiro: “Celular”. Debati, argumentei, consegui “comprar” meu celular de volta por R$30.

Algumas semanas depois, ele foi encontrado no mesmo lugar, no mesmo horário, com a mesma faca, na mesma tocaia. Ainda assim, fiquei com medo que fosse a pessoa errada. Outras semanas se passaram e fui chamada ao Fórum Criminal. Lá estava o rapaz, que tinha ficado detido aguardando o julgamento. Calça cáqui, camisa branca, cabeça raspada, mãos algemadas atrás do corpo. Estava tudo bem comigo, eu só tinha perdido 30 reais. E passado um medo do cacete, mas já fazia tanto tempo...

Entende? Eu me sentia culpada por aquele rapaz preso. Depois a Justiça me informou que ele tinha sido condenado a três anos em regime fechado. Putz. Será que era caso pra tanto?

“Sonia, ele não era primário. Ele tinha uma faca. Ele assaltou outras pessoas no Terminal Lapa desse mesmo jeito. Duas senhorinhas, inclusive. Essas mulheres ficaram com medo pra vida inteira”. A Lylian levantou a capivara do moço para me “consolar”.

***

Lembrei da história, contei pra moça. É o certo, chama a polícia, cumpre o pacto social: o que ele fez não é certo, tem de haver sanção. "Na Vila Penteado ele teria levado um cacete por roubar uma mocinha". Se aparecesse polícia na quebrada atrás dele por causa de um celular, cacete em dobro pra deixar de ser besta. Nosso papel é acionar o sistema, fiscalizar o sistema, insistir para o sistema funcionar.

Mais tarde ela mandou um zap: ele era fichado e estava em posse de uma boa quantia em dinheiro. Acho que foi pra casa mais aliviada.

***

Um rapaz foi preso “por minha causa”, o outro “por causa dela”. Claro que não, a causa foi eles mesmos, mas é estranho.

Enfim, o subtítulo: entendem agora por que pode ser tão difícil aplicar a parte punitiva da Lei Maria da Penha? Às vezes não queremos “mal” sequer a um ladrãozinho; “se ele ao menos tomasse um susto e aprendesse”, desejamos... Não temos certeza se cadeia é bem o caso; se cadeia vai “dar jeito” na vida dele ou se é lá que vai desandar de vez.

Imagine quando é alguém a quem um dia a mulher quis bem... Alguém a quem ela amou.

Né fácil não, gente.

Precisamos enfatizar os outros caminhos e saídas para mulheres vítimas de violência doméstica, porque a via policial pode ser muito difícil para muitas delas.

“Peçam ajuda”, “peçam apoio”, precisamos dizer a elas. "Bem antes de ser um caso de polícia; para que não chegue a ser caso de polícia". (Mas se precisar, CHAME A POLICIA).

“Ofereçam ajuda”, “não neguem ajuda” (“não julguem, não condenem, não desencorajem”), precisamos dizer a todas as pessoas que conhecem uma mulher que possivelmente esteja sendo vítima de algum tipo de violência. Para que a opressão finde antes de ser caso de polícia.

***

(Se isto fosse uma coluna de jornal, estaria assinado “Soninha Francine, vereadora pelo Cidadania em São Paulo, é relatora da CPI da Violência Contra a Mulher”).

 

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Maconha ainda dá cadeia"?

(Escrevi ontem de manhã, quarta, no Face)

Todo mundo muito louco na discussão sobre o que diz a atual Lei de Entorpecentes sobre maconha. Inclusive jornalista que, pra variar, nao se deu ao cuidado de ler o texto da lei.

Não, porte de maconha para uso proprio nao da cadeia. Mas a policia, se pegar, nao pode fazer vista grossa, sob pena de depois aparecer na televisao em cameras de segurança e dizerem: "A 500 m de uma escola e os policiais nao fizeram nada".

Entao eles tem de fazer. Seja na Pompeia, na quebrada ou no campus da universidade. Em qqer um desses lugares pode até haver uma tolerancia por omissao deliberada... "Vamos mandar as viaturas para coisas mais urgentes".

Na minha rua, fuma-se muita maconha sossegadamente e nao é possivel q ninguem saiba. Alguem ja reclamou no Conseg. Algum vizinho ja reclamou no 190. Aí uma noite passou la uma viatura e enquadrou um casalzinho. Super educados, sem tapa na cara, ameaças, humilhaçao, good cop x bad cop, revista com apertao nos testiculos ou cassetete entre as pernas.

Deu dó. Do casalzinho, que estava tao quieto, sentado na guia, fazendo mal no maximo a si mesmos (fora o fato de que o dinheiro foi para o crime e seria mil vezes melhor q eles pudessem comprar dentro da lei. Do desperdicio de tempo da PM e da Civil.

Voltamos ao Campus. Onde o pessoal da quebrada diria que "só tem burguesinho". Que não é um Vaticano, um território com suas próprias leis. Onde a garantia de liberdade para atividade acadêmica não inclui exceções à legislação vigente.

Entao os usuarios flagrados nao seriam "presos", como disse o Bom Dia Brasil, mas detidos. No "vulgo" é a mesma coisa, mas jornalista tem obrigação de saber e fazer a distinção.

O usuário não vai ser submetido a julgamento e talvez condenado à prisão. Vai assinar, se nao me engano (preciso reler a lei), um Termo Circunstanciado, que é "menos" que um Boletim de Ocorrência.

Entao a discussao nao é "a policia decide na hora se é pra uso proprio ou trafico", mas o usuario tb tem de ser conduzido ao distrito. Pobre, classe media ou rico.

Sou a favor da legalização da produção e comercio e vejo a situação atual como um Frankestein. Nao pode plantar pra consumo proprio nem comprar em estabelecimento com CNPJ, nota fiscal e licença de funcionamento, o trafico vai continuar abastecendo o usuário.

Eu nao me canso de debater esse assunto onde quer que seja, na Luciana Gimenez ou no Senado. Espero q outros q tb pensam assim tenham cada vez dar mais a cara a tapa. Nao do policial na esquina mas em sentido figurado.

***
PS(escrito hoje, quinta-feira):

Estudantes ocuparam a reitoria da Universidade Federal. Não terão a solidariedade de petistas dessa vez, porque não é uma universidade estadual em São Paulo... A Polícia Federal foi quem chamou o Batalhão de Choque da PM para conter o tumulto no Campus. A Polícia Federal "da Dilma"; a PM "do Raimundo Colombo", governador de SC que deixou o DEM para ir para o PSD e ser base da Dilma. A quem ele é "muito grato" pela imensa transferência de recursos federais para o estado - como se fosse um favor, um gesto de carinho da presidente.

Os invasores (ou ocupantes) da reitoria exigem que a polícia seja proibida de entrar no campus. Já disse isso quando era na USP, digo novamente: o Campus é ou não é um espaço público? Polícia pode agir no mundão aqui fora, mas o Campus tem segurança exclusiva? Não tem um diacho a ver a presença da Polícia Militar com a repressão militar à liberdade de pensamento e a autonomia universitária. A PM pode agir certo ou errado, no morro de São José ou na Campus da Federal, e o errado tem de ser combatido. Mas roubo de carro, assalto, agressão, estupro são as ocorrências que queremos evitar e razões pela qual o Estado tem forças policiais, a quem delega o poder-dever de combater. Querer tratar campus como um condomínio com segurança exclusiva é algo com que não concordo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Tudo errado, todo mundo errado...

... na greve de professores no Rio:

1) A Polícia Militar

Comete os erros mais visíveis, como usar spray de pimenta quando não há ameaça que justifique e disparar bala de borracha, essa coisa cretina que não serve pra nada a não ser causar ferimentos graves em alguém atingido meio ao acaso.

Aliás, a PM do Rio parece paródia do Tropa de Elite - 2. O caso Amarildo repercutiu MUITO POUCO. Um crime bárbaro, hediondo, envolvendo muitos policiais, inclusive de patentes mais altas (um Major?!).

Quando houve o famoso caso da Favela Naval em Diadema, muitos anos atrás, o mundo parou para vermos e revermos aquilo, chocados. Entrevistando um representante da PM no estúdio do Bom Dia Brasil, Renato Machado não se aguentou quando ouviu dele que era "um caso isolado". Puto, reagiu: "O sr me desculpe, mas todos nós sabemos que esse não é um caso isolado. A diferença é que foi gravado".

E no Rio???

2) Os manifestantes mascarados

Os Black Blocs tem a prepotência de acreditar que, sem eles, protestos não servem pra nada. "Se não houver destruição, não sai na mídia". Ainda que fosse (seja) verdade: justifica? Destruir orelhões, vitrines, placas, agências bancárias, bancas de jornal, lixeiras etc para sair na televisão é legítimo?

3) Os grevistas

Bom, eu já acho péssimo greve na Educação e na Saúde. Entendo que é o último dos últimos dos últimos recursos. E olhe lá. Como paralisar o atendimento em Saúde? Como deixar crianças semanas sem escola?

No caso, os professores entraram em greve porque não concordam com o plano de cargos e salários apresentado pelo prefeito na forma de Projeto de Lei, que é como tem de ser. Direito de discordar? Claro que tem. De dizer "ou sai do jeito que queremos ou ninguém tem aula por tempo indeterminado"? Não. Isso não é mobilização e pressão, é coerção.

O plano tem defeitos, ô se tem. Mas ainda preferiria mil vezes que eles se manifestassem sem parar as aulas.

4) O prefeito

"Os grevistas são do PSOL, partido que derrotei na última eleição". Provavelmente ele tem razão - muitas greves tem "filiação partidária". PSOL, PT e PSTU são os partidos que mais comandam sindicatos importantes de servidores públicos e muitas vezes fazem greve para emparedar e enfraquecer o governo, mais do que para garantir direitos e conquistar benefícios. Há casos em que mudam a pauta das reivindicações com o tempo, aumentando-a cada vez mais. Fazem reivindicações impossíveis de atender, como "60% de reajuste". Condicionam a volta ao trabalho à "melhora da educação pública".

Como tem grande poder de organização, aumentam o número de manifestantes com apoiadores solidários - trabalhadores de outras categorias, estudantes, assessores parlamentares, filiados ao partido de modo geral. Às vezes até com "manifestantes profissionais", que comparecem porque foram pagos para isso.

Ok.

Mas afinal, o que a prefeitura propõe, custa dizer. E daí que o PSOL foi derrotado na última eleição? Democracia é assim - tem eleição e alguns são derrotados. Só não tem derrota quando não tem disputa. Tratar o partido derrotado como "loser" é ridículo.

5) A imprensa

Ah, essa não tem jeito.

O QUE estabelece o projeto de lei do Plano de Cargos e Salários? Qual é o resultado prático disso para os professores que já estão na Rede Municipal e os que vão entrar nos próximos anos? Qual o impacto no orçamento do município?

O QUE reivindicam os professores? Do que eles discordam e por que? O que seria viável entre suas demandas?

Esquece... Ela só vai mostrar cenas de confronto do lado de fora, as palavras de um, as palavras de outro. Quem quiser informação que se vire para conseguir.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Mau humor vespertino

O mau humor bateu de manhã, como sempre, ao dar uma olhada no noticiário. Eu que só vim para o blog agora.

A Folha de São Paulo de hoje conseguiu fazer uma manchete de primeira página que isenta a presidenta de  responsabilidade pelo caos energético no Brasil.

"Escassez de luz faz Dilma convocar o setor elétrico"

Primeiro, a escolha da palavra "escassez". Neutra. Demais. Governistas podem achar que é até forte, "como assim escassez, não é caso pra tanto". Mas é uma palavra que remete à contingências, mais usada para se referir a forças da natureza. Escassez de chuvas, escassez de alimentos... Enfim, não é uma palavra crítica, como "problemas", "crise", "risco", "ameaça". Aliás, o "risco de apagão" está ali - em letras pequenas.

Capa de jornal é decidida com muito cuidado. Nada é sem querer.

Aí a escassez, que parece obra da natureza, faz Dilma "convocar setor elétrico". Nenhuma palavra do título dá a menor, a mais remota ideia que o governo tem responsabilidade sobre a situação. Parece que Dilma, preocupada com algo que mal é da sua conta, teve que se mexer senão ninguém o faria.

ZERO contundência. Como se o problema não fosse muito grave. Como se Dilma não fosse triplamente responsável pelo estado das coisas, tendo sido Ministra de Minas e Energia, a gerenta do PAC e seu espetacular cronograma de obras de infraestrutura, e, oras, atual presidenta, herdeira do próprio legado.

"Dilma convoca setor elétrico". Puxa, valeu! Assim é que se faz! Mostra pra eles, Dilma!

F.

(Eles faziam tanta questão de usar "setor elétrico" que tiveram de inventar uma expressão meio tosca, "escassez de luz". Se fosse "convoca ministro" seria melhor, embora continuasse dando a impressão de que ela bateu a mão na mesa e é a tal. É release de agenda. Não precisa ser uma Veja, mas assim também não dá. A Folha tem muito medo de patrulha, impressionante).

***
A matéria, ao menos, é crítica. Começa assim:


Racionamento de luz acende sinal amarelo

Pouco depois de descartar problema, Dilma chama reunião de emergência por causa de nível baixo dos reservatórios

Participantes tiveram que cancelar agendas; técnicos criticam governo e veem risco 'acima do prudencial'


Dez dias depois de dizer que é "ridículo" falar em racionamento de energia, a presidente Dilma Rousseff convocou reunião de emergência sobre os baixos níveis dos reservatórios, para depois de amanhã, em Brasília.
A reunião foi acertada entre Dilma, durante suas férias no Nordeste, e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, que a presidirá. Balanço e propostas serão levadas diretamente à presidente.

Alguma dúvida de que a chamada de capa é bem mais suave do que o texto em si?? A foto que ilustra a capa é forte, mas se a presidenta "sounds like" a salvadora, tanto pior.

***
E essa agora? São 4 notícias sobre economia. TRÊS ruins. A que aparece em destaque, com letras maiories, é a única com "viés positivo".



Aí teve a reportagem sobre os cinco pronto-socorros que ficaram sem médicos no Distrito Federal. Sem apurar direito, a Globo decidiu: foi por causa da prova de residência médica. O funcionário de uma das unidades disse que esse era um fim-de-semana peculiar por causa dessa prova, que estaria sendo feita por vários profissionais. Ouvido, o Secretário de Saúde disse que não tem nada a ver; que a prova de residência é para quem quer entrar no serviço médico, não para quem já está lá. E... PRONTO, acabou a apuração. Um diz, o outro diz, fim. Problema seu descobrir quem tem razão, se os médicos faltaram porque foram fazer mesmo a prova ou faltam sempre...

Tá mais no que na hora de por em pauta a assiduidade de funcionários públicos, especialmente das áreas de Saúde e Educação, onde muitos, como o neurocirurgião que deu cano no plantão de Natal, alegam "falta de condições" (e podem até ter razão!) e... não vão trabalhar. E... fica por isso mesmo. Os estatutos de servidores permitem um número x de faltas abonadas, não justificadas e o escambau.

Imagine se isso valesse para motoristas de ônibus, se policiais e merendeiras e faxineiras se utilizassem do mesmo expediente, se o lixeiro simplesmente não fosse trabalhar em protesto contra a escala injusta.

Que se organizem, protestem, processem o Estado, o diacho. E, em último caso, paralisem o serviço - atendendo, pelo amor de Deus, às determinações da Justiça quando ela estipular a porcentagem mínima de atendimento obrigatório.

Que, se bobear, será maior do que os atendimentos oferecidos "normalmente".

Não estou isentando a responsabilidade dos governos não - até porque "batem" pouco, muito pouco nas administrações Cabral, Agnello... Qdo falam em violência nas cidades-satélite também parece que é um fenômeno social sobre o qual o governo não tem culpa nenhuma. Mas não há governo no mundo que sustente um serviço público de qualidade sem servidores comprometidos. Se o trabalho é insuportável, pede pra sair.

***
Por que de uns tempos pra cá a Rota virou a tropa "de elite" da polícia de São Paulo? Quem começou com isso? É como o comando passou a se referir a ela ou foi a mídia que espontaneamente a denominou assim?

Eu, hein.

***
Para evitar que os apresentadores no estúdio entrassem sorrindo depois de uma matéria triste ou coisa parecida, começaram a adotar cada vez mais o hábito salutar de comentar na volta do VT. Agora virou obrigação e eles falam qualquer coisa só pra não passar em branco em horas em que não precisava/ era melhor não falar. Dão aquela risada forçada, dizem "parabéns!" como se estivessem acrescentando alguma coisa... Qdo eu escrevia para os VJs da MTV, ou já previa um texto para o "desanuncia" - "Essas imagens do final são uma citação ao filme tal..." - ou conversava antes com o VJ ("Vc já viu o clipe? Lembra como é a sequencia final? Tem alguma coisa que você gostaria de dizer sobre ela ou posso te passar uma informação?").

Tem horas que eu tenho saudade de trabalhar em televisão. Nos bastidores. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

É sério

A história é a seguinte:

O pai fugiu com o filho. A mãe chegou em casa ontem [sexta] e encontrou um bilhete e os armários vazios. Ele levou tudo que era da criança, não disse para onde ia. 

Ela procurou a polícia, que disse que não pode fazer nada porque "ele é o pai". Registrou o fato, mas não como ocorrência criminal. 

A mãe do menino ligou para a família do pai. Nada. Ligou para a empresa onde ele trabalha, tentando saber de seu paradeiro. "Não podemos informar". 

A polícia reitera: não pode tomar providência nenhuma. Na segunda-feira, com um advogado, ela pode conseguir alguma coisa. (Intimação? Mandado de busca? Não sei).

Pergunto (a mãe é minha conhecida):

É isso mesmo? Não há nada que ela possa fazer HOJE? Não se pode expedir algum tipo de comunicado alertando para a subtração do menor? Não existe algum tipo de plantão (Defensoria Pública, Vara da Infância) que possa determinar uma providência imediata? Até onde eu sei o pai não é um psicopata ou coisa parecida, mas... não se pode dizer que a criança, vítima de ação irresponsável do pai, está correndo risco?

Agradeço MUITO aos que puderem ajudar - com uma dica, um contato, uma orientação. Por favor, respondam por email (rp@soninha.com.br) porque não quero colocar aqui o celular dela porque o mundo está cheio de gente sem noção.

***
Isso foi escrito no sábado de manhã. Não cheguei a publicar porque, enquanto escrevia, pesquisávamos (eu e a minha amiga) aqui e ali para saber o que fazer.

Encontrei algumas páginas bem interessantes, daquelas que é bom favoritar para achar fácil, como o Participais. Ou estes endereços úteis, na página do Pró-Menino.

Encontrei trechos de decisões judiciais, como esta: "O fato de a mãe do menor ter abandonado a residência do casal, sem o consentimento do pai, levando consigo o filho menor, caso comprovado, consubstancia matéria que deve ser enfrentada para a decisão do pedido de guarda, em conjunto com outros elementos que demonstrem o bem estar do menor. A competência para decidir a respeito da matéria, contudo, ..."

Encontrei links e telefones. Minha amiga (vou chamá-la de Eva) conseguiu o número do plantão do Conselho Tutelar no Butantã. Nada, todos os números desligados. Tentou a Lapa e conseguiu falar com a conselheira de plantão, que lhe deu... conselhos. "Olha, conversa com ele, tenta resolver por bem". Finalmente, depois de vencer o porteiro da Defensoria Pública que respondia como um robô "O horário de funcionamento é de segunda a sexta...", conseguiu falar com um plantonista. "Reúna tais e tais documentos e leve até o Fórum da Barra Funda, que hoje atende até as 15h00".

Talvez ele tenha dito "treze" e ela tenha entendido "três". O fato é que chegamos ao Fórum às duas e meia e soubemos duas coisas: 1) O plantão estava funcionando no Hely Lopes Meireles, perto da Praça da Sé; 2) Terminava à uma da tarde.

Em todo caso, corremos ao Hely. Quem sabe era uma outra informação errada, desta vez a nosso favor... Não era.

Eva voltou pra casa, disposta a procurar o Fórum no domingo de manhã. Fiquei admirada com a calma dela. "É porque chorei a noite inteira, agora estou até grogue".

***
Às dez pras nova ela já estava na porta do Fórum, esperando abrir. O Defensor Público escreveu a petição. Eu não estava junto dessa vez, então ela ia me contando por SMS. 10h12: "To aqui no Fórum Hely e eles vão fazer mandado de busca e pedido de guarda a meu favor... Ainda vai demorar um pouco". 12h44: "Já está na mão do juiz o pedido, estou só aguardando a resposta... Mas pode demorar um pouco ainda!". 13: 11: "Soninha foi negado, tô desesperada..."

E, às 18h29: "Soninha, sem citar nomes por enquanto coloca o meu caso na internet, em seu face, twitter, veja se não há um advg que possa opinar, ajudar! Só estou buscando alternativas... bj".

***
Imagine a angústia, a tristeza, a sensação de desamparo e injustiça. Pelo que entendi, o juiz negou o pedido por opinar que o caso era para Vara de Família, não Criminal. Talvez outro interpretasse como sendo sequestro, sei lá. Fato é que o pai arrancou a filha de cinco anos de casa, não mandou mais nenhuma notícia,  não informa o paradeiro.

Mantido, então, o pedido de ajuda. Obrigada. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

E o Malafaia?

Coletânea de perguntas & respostas sobre Malafaia, Telhada, Maluf, conservadores, reacionários, corruptos... Incluí o link para o texto original, mas a reprodução aqui é idêntica.

1 - http://ask.fm/SoninhaFrancine/answer/7468321351

Soninha, aliança com Malafaia, Telhada, truculência com jornalista (hoje foi o K Alencar), isso é fazer diferente? É isso que você quer representar?

Claro que não. E se eu não puder mais condenar as atitudes de pessoas e partidos que fazem parte da minha aliança, saio fora do PPS. Uma das coisas que me desgostava no PT era a defesa "incondicional" (palavra sempre usada) de tudo que fosse "do nosso lado" - qualquer meganha, qualquer safado, empresário corrupto, oligarca, feitor de escravos, prefeito ladrão... O PSDB defende pouco os seus; o PT defende demais.

2 - http://ask.fm/SoninhaFrancine/answer/10678230855

Considero contraditório alguém criticar aliança com Maluf com tanta veemência, enquanto está de mãos dadas com um charlatão do tipo Malafaia. Contraditório e hipócrita, me desculpe.

Então me diga você: 1) Qual o papel do Maluf e o do Malafaia em cada aliança? (Respondo: um é deputado federal, dirigente de partido político, ALIADO de fato; o outro é apoiador. São pesos completamente diferentes). 2) O Maluf é um político que o PT acusou a vida toda - E NÃO ESTAVA ERRADO - de corrupto, de alguém a serviço dos piores interesses. De mentiroso. Ele foi prefeito e governador e deixou a cidade em frangalhos. Ele roubou dinheiro público (me processem, se for o caso).
3) O Maluf por acaso tem opiniões mais progressistas que o Silas Malafaia? Desde quando??? E o Chalita? E o Jair Bolsonaro, do partido do Maluf? E o suplente que assumiu o lugar da Marta no Senado, que votou A FAVOR do Dia do Orgulho Heterossexual? 4) A DIFERENÇA DECISIVA É O SEGUINTE: para ter apoio de conservadores, o PT RECUA de suas bandeiras. Tira projetos de pauta, manda recolher o kit-anti-homofobia. Para ter apoio de chantagistas, o PT CEDE às chantagens. Dá lá um ministério pra um, uma estatal pra outro. Deu dinheiro pra vários (vide Ação Penal 470). Ou o Maluf apoia desinteressadamente? Odeia tanto o Serra que abraça até o PT? Pode até ser, mas acho que suas convicções políticas não superam outros interesses... O Serra não recua e não fica só no blablabla. A Marta sai na Parada Gay, mas quem criou a Coordenadoria da Diversidade Sexual foi ele . Aliás, ele E O ALCKMIN fizeram mto mais do que os governos do PT. RESUMINDO, se precisar: o Maluf é um aliado político que não tem biografia, tem ficha corrida. A aliança do PT tem vários reacionários e conservadores, inclusive o Maluf. O Haddad já deu mostras de que não peita aliados conservadores e nem resiste às armações do PT.


3 - http://ask.fm/SoninhaFrancine/answer/10675411783

Soninha, como é estar lado a lado na campanha com Silas Malafaia? Ele é menos nocivo que o ex-político em atividade Paulo Maluf. Tem certeza disso?
Certeza absoluta. Todas as opiniões conservadoras ou reacionárias que o Silas tem, o Maluf também tem. Mas o Maluf foi defensor ardoroso do regime autoritário, muito além da mera defesa de posições conservadoras em relação a questões de comportamento. E ele diz com a maior tranquilidade que não foi ele que mudou; ele está onde sempre esteve, foi o PT que mudou. Foi prefeito e governador e fez obras "hiper"faturadas; mesmo que não tivesse roubado um tostão de dinheiro público (arrã), colhemos hoje resultados de coisas estúpidas que ele fez e de tantas outras que deixou de fazer - na Saúde, no transporte coletivo etc. O Silas é líder de uma igreja; o Maluf, dirigente de um partido político. E o mais importante: dos dois lados tem gente "ruim" (ruim mesmo), gente desonesta, gente com posições "reaça". A diferença é o cabeça de chapa: o Haddad (e o PT) já demonstrou mais de uma vez que se encolhe, recua, abre mão para não "desagradar a base" - imagine a Dilma dizer que ia recolher o famoso kit porque "o governo não tem de fazer propaganda [sic] de opção sexual [sic]" (ela disse). Já o Serra, no governo, faz o que tem de fazer. Criou vários órgãos de defesa de direitos dos homossexuais, por exemplo, mesmo que isso contrarie alguns de seus aliados. Então não só o Serra é mais competente, é muito mais determinado em não ceder a chantagens da base, muito mais obstinado em confrontar interesses de pequenos grupos se isso for preciso para garantir direitos coletivos.


Eu nao sou seu eleitor, mas admiro sua transparencia. Entretanto fiz duas perguntas respeitosas sobre o que voce acha do Cel. Telhada e do Malafaia e voce nao respondeu. Eu tenho a impressao que voce so responde os criticos seus que falam feito babacas, assim parece que todos sao assim.
Eeeita, já respondi várias vezes sobre o Telhada e o Malafaia. Telhada: representa o oposto de tudo o que eu acredito em segurança pública. Malafaia: deus que me perdoe, mas é um fanfarrão. Que resolveu apoiar o Serra alegando ser contra o kit-gay do Haddad - sem se dar conta que quem retirou o kit-gay de circulação foi o Haddad (e a Dilma), e quem tomou várias atitudes em defesa dos direitos LGBT foi... o Serra. Na prática, o que acontece é o seguinte: o PT deixa de lado bandeiras históricas para não perder apoio dos conservadores no governo (Marcelo Crivella & outros). O Serra faz o que acha que deve ser feito, apesar da resistência dos conservadores. É só ver o que ela bancava na época do combate à Aids e td que fez pelos homossexuais na prefeitura (e tb o Alckmin no governo).


Oq vc acha do Silas Malafaia? Acho que ele quer se aparecer, adora fazer uma polemica. Ele que é a besta do apocalipse. Um dos principais mandamentos é amai-vos uns aos outros. Cade? nao vejo. Só sabe incitar o ódio, parece que tem algo a esconder... É prepotente, e só sabe fazer ataques.
Também não gosto dele. A própria igreja dele tem lideranças muito mais sensatas, esclarecidas.


Sonimha vc qe apoia o Serra que reconheço que fez muito pela causa dos LGBTS em Sp não acha uma contradição aparecer do lado de Malafaia, e sem contar no telhada que que ate ameaças fez a jornalistas pelo Face vale tudo para ganhar ??
Não gosto do Malafaia e menos ainda do Telhada. A diferença é que eu confio no Serra como capaz de defender direitos iguais para todos, pensem o que pensarem os aliados dele. Ele abriu uma linha de investigação contra os grupos de extermínio da polícia que fez bastante diferença (hj a coisa tá beeem mais frouxa, pra dizer o mínimo). E sim, sempre fez mto pelos LGBTs. Se o Malafaia espera que ele recue, tá enganado, porque ele encara. Entende? Já no caso do PT, para agradar ou não desagradar os aliados, o governo abre mão de algumas bandeiras, entrega partes do governo sem sequer exigir qualidade dos indicados. Porque o PMDB tem gente decente, mas aí vai o LOBÃO pras Minas e Energia. Sempre haverá aliados com quem a gente não concorda, mas O QUE você entrega para os aliados e o que NÃO entrega faz a maior diferença. Aliás, por isso eu digo que SOU capaz de lidar com a Câmara Municipal mesmo tendo de fazer acordos com pessoas cuja conduta desprovo: porque sei que É POSSÍVEL fazer acordos que não sejam nocivos para o interesse público, desde que você bata o pé, insista, faça questão.


sônia, eu também apoiava o candidato josé, mas tendo em vista o recente vídeo no qual ele afirma que vetará a lei que visa criminalizar a homofobia, ele perdeu meu voto. ele tem se mancomunado cada vez mais com grupos religiosos nefastos (em especial o pastor malafaia). vc tem como justificar isso?

Ver só um pedaço de um vídeo não vale. Ele diz é que a violência motivada por homofobia tem de ser combatida sim, mas que as igrejas não podem ser penalizadas criminalmente se acreditarem que homossexualidade é errado. E ele vetaria a lei - ou o trecho da lei - que diz isso. Incitar o ódio é uma coisa, manifestar uma crença é outra - como a gente vai impedir uma religião de dizer que acha que o "certo" é homens e mulheres se unirem em casamento? Eu DISCORDO dessa leitura; a Bíblia tem passagens que podem tanto condenar quanto admitir a homossexualidade, as religiões sempre tem suas interpretações divergentes, mas não posso obrigar uma religião a concordar comigo. E é possível sim manifestar restrições à homossexualidade sem violência, portanto sem serem consideradas crime de homofobia. Uma vez na Parada Gay havia uma faixa "você não precisa aceitar, mas tem de respeitar". É isso. O ESTADO tem de respeitar, tem de assegurar direitos iguais para todo mundo e cobater toda forma de violência. O Estado não pode se pautar por uma religião - mas não pode pautar a religião. Entende?? E, pra concluir, o Serra E o Alckmin fizeram muito, em seus governos, pela garantir dos direitos LGBT. Ao contrário do governo federal, que recua toda vez em que a "bancada evangélica" ameaça complicar sua vida no Congresso. Sério - pesquise e você vai ver. O Serra não deixa de fazer o que acredita que tem de ser feito pela garantia de direitos por causa dos conservadores que o apoiam, e isso faz toda diferença. (Já foi assim lá atrás - eu me lembro muito bem da resistência desses setores às campanhas por sexo seguro, "use camisinha" etc. Achavam um absurdo; questionavam o governo por usar dinheiro público no tratamento da Aids. Ele bancou).

***
Ainda no tema Direitos LGBT, escrevi 


http://gabinetesoninha.blogspot.com/2012/01/nao-facam-isso-em-casa-e-em-lugar.html (sobre uma sessão de "exorcismo" de homossexual conduzida pelo Edir Macedo)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Enquanto isso

Putzgrila, que tesão deve ser - que é - ser corintiano hoje. Noites de lua linda, manhãs ensolaradas lindas.

Agora eles vão ver, vão sentir, vão admitir que aquele Mundial mandrake, cheio de casuísmos, disputado por times B contrariados ou titulares interessados somente no verão do Rio, não tinha graça nenhuma... Ganhar a Libertadores é OUTRA coisa.

***
Escuta, será que não tem como o Brasil assinar algum tratado internacional pelo banimento das armas com bala de borracha??? Tem coisa mais estúpida para usar durante um tumulto?????

O "armamento não letal" é muito interessante para ser usado, por exemplo, contra um criminoso em fuga - um modo de detê-lo sem tirar a vida. Mas para atirar a esmo, em direção a um monte de gente, é um ABSURDO.

Aconteceu ontem de novo na frente do Pacaembu. Inacreditável.

***
E o cara alucinado que acelerou e atropelou dez pessoas (ou quinze, conforme a fonte) no Tatuapé? Que é isso, meu Deus?

***
Enquanto isso, no Planalto, o Senado aprovou o fim do voto secreto para processos de cassação. Mal posso acreditar. QUEM DISSE que as coisas não podem melhorar?

***
Agora a CPI está votando a convocação do dono da Delta, né? Hmmm...

***
Em algumas faixas do Corinthians exibidas no Anhembi, havia o nome de um vereador. Na premiação, lá estava um deputado federal.

Eita.

***
Ontem parecia que tem mais corintiano em São Paulo do que torcedores de todos os outros times juntos. E a festa em outras capitais? Cuiabá, Salvador, Belém... IMPRESSIONANTE. É um diacho de uma nação mesmo.

***
'Bora continuar fazendo uma das coisas que eu mais gosto nessa vida de política: organizar e reorganizar meu Programa de Governo. #adoro.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

P#ta raiva que dá :o(


"Ontem as 18.40 hs meu filho Guilherme Oliva foi assaltado por 2
bandidinhos na Av. Marques de São Vicente, qdo ia para o cursinho. 
Levaram o cel, o guarda-chuva e de brinde meu filho levou uma espetada
de estilete. 

Voltou correndo pra casa e em seguida saiu acompanhado do
meu marido, meu irmão do meu outro filho, enquanto eu ligava para o 190.

Fui atendida pelo soldado Bruno, que disse que enviaria
uma viatura para o local e pediu meu end. Perguntei "qual local? Minha
casa? Ou na Marquês? Precisamos estar junto pra tentar identificar os
bandidos?" "Não não, se encontrarmos algum suspeito a gente liga pra sua
casa". Pergunto qual o numero do protocolo da minha chamada, ele diz
que não tem, pergunto "devo ir fazer um BO"? "A sra que decide"...

Enquanto isso todos voltam frustados, pq não encontraram os suspeitos (graças a
DEUS, pra não dar merda) e encontraram uma viatura papeando num posto
de gasolina e os guardas simplesmente falaram que "calma, calma, vcs
estão muito exaltados por nada"...

Levamos meu filho no Hosp. Sta Isabel para fazer curativo no corte e, segundo a médica que nos atendeu, apesar de ser superficial tinha que tomar uma antitetânica em até 8
h e nos encaminhou para o Instituto Pasteur na Av Paulista.

Chegamos lá, ele está fechado para reforma, e nos mandaram para o Hosp. Emilio
Ribas. O recepcionista Antonio chamou o médico Dr. Francisco, e ambos
fazendo muito pouco caso e piadinha, pq o encaminhamento era de um
hospital particular. Não quis dar a vacina pq disse ter coisa mais
importante pra fazer, mandando voltar hoje. Qdo questionei as 8hs do
ocorrido, disse que ele era o médico ali e que, se eu quisesse, poderia até
abrir ficha e voltar hoje, pq ele tinha mais o q fazer. 

O Antonio da recepção, qdo perguntei o nome completo do médico, me respondeu q ele
não tinha que saber o nome e sobrenome de ninguem e apontou um
cartaz na parede que dizia que func público desrespeitado é crime!"

domingo, 29 de janeiro de 2012

Recapitulando (pra facilitar aos q se interessam)

Realmente, faz tanto tempo que eu escrevi os primeiros posts sobre a desocupação que é bem fácil passar batido por eles, então vamos lá. Tem um trecho de cada e o link para a íntegra.

C#agadas em Série 1 (publicado em 23/jan)
A combinação de necessidade e desejo, laços de amizade e relações de poder, organização cidadã e organização criminosa, interesses honestos e oportunismo dá merda sempre. E a omissão ou ação errada dos agentes públicos (prefeitura, estado, governo federal, vereadores, deputados etc) é o combustível da catástrofe que vai sendo armazenado até explodir.

C#gadas em Série 2 (publicado em 24/jan)
Quem se ferra? É quem NÃO FAZ PARTE DESSA GUERRA. Quem não tem dinheiro, nem armas, nem padrinho, nem faz parte de alguma organização, seja pela razão que for. Porque é idoso, porque não para em casa (2 empregos + escola), porque não quer se envolver mesmo. Digo isso em defesa dos "desorganizados", sempre os mais prejudicados, mesmo quando são maioria.

C#gadas em Série 3 (24/jan)
Discordo da decisão do governo, de fazer cumprir a reintegração de posse. Desaprovo a ação e condeno a violência policial, os abusos, as barbaridades. Duvido que as pessoas desalojadas tenham encaminhamento decente. É muita gente... Não houve preparação verdadeira para sua realocação. Mas também desaprovo e condeno o oportunismo, a exploração, a incitação ao ódio, a mentira de muitos dos que se colocam em defesa dos moradores do Pinheirinho. É relativismo demais? Sinto muito. A vida é mais complexa do que parece nos slogans.

"Novidade" - Em todo lugar tem gente desonesta (publicado em 27/jan)
Aos que aplaudem a violência de um lado ou de outro (Estado, oposição, esquerda, direita), minha condenação. Os que querem ver os exércitos americanos exterminando muçulmanos e os que acham graça em atentados a bomba contra israelenses. Às vítimas da opressão de bandidos ou terroristas e às vítimas da opressão do Estado e suas Forças Armadas, minha igual solidariedade.

***
Acrescento o comentário mais sucinto e ao mesmo tempo completo que li nos últimos dias, "Tragédia de Erros".

Tks pela atenção até aqui.

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Tudo certo", oi???!!!

nirso deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Nem vem!": 

Soninha, desculpe, mas vc não é a pessoa mais indicada para incitar uma reflexão nas pessoas. Você esteve lá em Pinheirinho pra chamar algumas pessoas de "bandidos"? Você sabe o que realmente esta acontecendo lá?

>>>>Nirso, no Pinheirinho eu não estive, mas tenho muita convivência, conhecimento, vivência, conhecidos e amigos em muitas favelas e periferias. Assim como todos nós SABEMOS que há casos e mais casos de violência policial; que na periferia ou com pobres, pretos e homens jovens a “regra” é o abuso, não é possível não saber que nas resistências na periferia há dois grupos perversos de aproveitadores: os bandidos que convivem com os trabalhadores, os “ajudam” e oprimem no dia-a-dia e não querem perder o “feudo”, e extremados militantes partidários que quase torcem para que morra alguém para poderem acusar o governo.

Já me meti em mil brigas e ocorrências confrontando PMs, GCMs, policiais civis... e bandidos “comuns”, mas isso foi mais raro. Às vezes bato e pé e teimo com os recados que mandam: "Não autorizam o evento #myass. Vamos fazer sim um mutirão de mosaico com a molecada aqui e não tem nada a ver com o 'movimento' deles. Não venham com babaquice". Mas acontece muito mais frequentemente de acabar em um DP atendendo a um SOS desesperado, nas horas mais bizarras; Alguns policiais me odeiam porque me acham uma burguesa babaquinha que defende os “direitos humanos dos bandidos”, “maconheira de merda”, “inocente útil”. Do outro lado alguns acham de mim a mesma coisa, só trocando a primeira frase entre aspas por “elites brancas perversas”. Haja...

Sua opinião em relação aos acontecimentos é baseada apenas nas fotografias que vc linkou? Ou nas suas relações com membros do PSDB?

>>> Minha opinião sobre a fotografia que eu linkei é sobre a fotografia que eu linkei, e repito aqui: aquelas pessoas, pra mim, são bandidos infiltrados. Se são trabalhadores, escolheram um método de resistência (repare que são PORRETES COM PREGOS, santo deus!) que eu desaprovo. (Se minha frase acabou associada a outras fotos - nesse álbum do UOL há várias, de muitas outras pessoas - eu sinto muito, sinto muito mesmo, my mistake que devia ter "embedado" a foto certa desde o começo, como aqui) Tanto quanto desaprovo as malditas e perigosas balas de borracha e as estúpidas “bombas de efeito moral” que a polícia emprega a torto e direito (leia aqui, na série de posts “C#gadas em série”)

Bom, sugiro vc ir visitar os "abrigos" onde as familias estão morando agora pra ver se realmente está tudo "certo". 

>>>Onde, Nirso, eu falei que estava “tudo certo”?????????? Tá doido??? Leia AQUI , AQUI e AQUI ! (LEIA, por favor, como eu estou lendo TUDO. Leia e, sendo honesto, interrompa quem disse que eu "defendo a ação da polícia" e "chamei todo mundo de bandido"). Não, eu NÃO ACHO  que tá tudo certo, que foi feito tudo certo, que não havia alternativas, que a população recebeu o tratamento que deveria, que o governo tomou a decisão e providências corretas. Como o começo da frase ficou longe do final, vou repetir: NÃO ACHO. Quer discordar de mim quanto à presença de bandidos, achar que eu estou viajando, ok, é uma divergência entre nós. Mas discordar do que eu NUNCA disse é demais. É como aquelas pessoas que dizem que eu quero incentivar todo mundo a fumar maconha, que não conheço o flagelo da dependência ou que ignoro a violência dos traficantes por causa de minha opinião favorável à legalização de sua produção e comércio.

Justificar sua opnião em relação a 6 mil familias que habitavam o local se baseando apenas em algumas fotografias jornalisticas que mostram grupos de no maximo 50 pessoas é um tant qto precipitado, não?

>>>> De novo, Nirso - QUE opinião em relação às milhares de famílias? QUANDO foi que eu julguei elas todas e neguei que fossem trabalhadores??? Meu deus! Você é um cara que se  interessa e se dispõe a debater, que sabe ler um texto, como é que não nota a diferença de acusar aquele grupo - sim, CLARO, um pequeno grupo oportunista - e desqualificar todo mundo?? Eu não disse que há bandidos APROVEITADORES da situação? Porque uma “situação” real, injusta, lamentável que é fruto  omissão/inoperância/incapacidade/intolerância dos governos e resulta em dano duradouro à vida de pessoas que só queriam um lugar para viver e não tiveram outro. O pequeno (e variado) grupo se aproveita da situação e toca o puteiro.

Há gente de fora realmente preocupada, sensibilizada, interessada genuinamente na situação dos moradores. Mas você REALMENTE não acredita ou não concorda que há aproveitadores? As mulheres e crianças fugiam e pediam misericórdia; foram elas e seus maridos humildes e trabalhadores que atearam fogo em carros?? Bom, se foram os maridos, eu volto ao ponto: má escolha. Não resolve, não ajuda, só aumenta o terror da situação.

Bom, sei que vc vai "desaprovar" esse comment, assim como vc fez com os comments relacionados ao seu outro post. Assim fica fácil né? Deixar apenas os comentarios favoraveis. Porque depois de pesquisar seu blog, cheguei a conclusão de aqui não há espaço pra discussão, apenas para sua opinião.

>>> Eu estabeleci uma regra básica: comentários divergentes, ok. Agressões, ofensas, ataques, violência verbal, não. É meu blog, é meu direito. Durante bastante tempo eu autorizava tudo tudo tudo, por mais nojento que fosse. Queria expor tudo que surge em uma discussão pra gente ter uma visão do mundo como um todo. Vários leitores pediam por favor para eu editar, evitar, excluir, porque não queriam entrar em uma briga de rua, queriam apenas um debate civilizado, ainda que acalorado, e perdiam a vontade de discutir diante de tanta baixaria.

Bom, saiba que sua atitude ignorante em relação aos acontecimentos atuais está lentamente acabando com sua imagem politica. Parabens. Se vc tem intenção de se eleger em qualquer cargo nesse ano, saiba que vc tera no minimo uns 2000 votos a menos. 

>>> Infelizmente, se as pessoas formam sua opinião a partir de frases fora de contexto e deturpações desonestas, não há muito o que fazer a não ser calar a minha boca sempre. Quantos votos você acha que eu perco por defender legalização de  maconha e do aborto ou o reconhecimento e respeito dos direitos dos homossexuais? Quantas pessoas me acusam, por isso, de ser “contra a vida”, a família, a decência? É triste ter de enfrentar ao mesmo tempo a desinformação ou má-fé dos mais conservadores E dos progressistas.

E se as pessoas estão se armando pra se defender da violencia da policia, saiba que é porque a policia usa violencia. Como se defender de balas de borracha, gas lacrimogenio e escudos blindados? Como defender sua moradia de ser destruida por um trator apenas para alimentar os desejos de especuladores?!

>>>> Sou contra a violência, pronto. Você pode discordar, mas precisa respeitar meu ponto de vista. Pra mim, a cena mais absurda, ABSURDA, intolerável da ação policial foi quando aqueles quatro ou cinco policiais com capacetes e cassetete partiram para cima de um homem negro COMPLETAMENTE inofensivo, desarmado, pacífico. Quantas vezes já vimos isso? Eu nunca vou aceitar, nunca vou me conformar. Nem que ali estivesse um meliante, um grupo de policiais JAMAIS poderia agir daquele modo. Mas quanto mais manifestantes reagem com violência, mais gente vai apoiar até mesmo a violência da polícia. Acontece direto nos conflitos com torcida organizada... “Bando de arruaceiros, quem mandou? E quem é decente nem deveria ir ao estádio”. Os que pensam assim aplaudem os policiais por cometer abusos... Parem todos com isso, pelo amor de Deus.

Como se defender qdo a Justiça e o Governo estão contra você e você não fez nada, não cometeu nenhum crime?!?

>>> Não é com violência. É com câmeras nos celulares, é deitando no caminho dos policiais, é levantando cartazes e cruzes, é acionando advogados e cortes internacionais, é gritando contra a intolerância. Morro de ódio às vezes, mas não consigo me permitir se violenta para me defender, não vou admitir a violência como legítima nunca. Perdoável no calor dos eventos, talvez. Premeditada, nunca.

Bom saber que se depender de você, essa estado na mesma merda em que está a anos (assim como outros estados e paises, porque merda tem em qualquer lugar, independente de partido politico ou de "pseudo-jornalista metida a politica". 

>>>> Oooi???
Tem merda em qualquer lugar e sempre terá, e eu sou “metida” a política porque não aceito isso passivamente. Porque desde SEMPRE eu quero fazer mais pelo mundo em que  vivo e tenho absoluta certeza que a política é a forma mais civilizada, ampla e viável de produzir transformações - não a “politicagem”, mas também não apenas a “sociedade civil organizada”, não o “movimento social”. Estes podem e devem influenciar a política, mas eu acredito no papel do Estado e na supremacia do Poder Público, e é onde eu quero estar.

(Para ser um diálogo mais franco, em vez de me acusar de um lugar anônimo (é fácil, eu estou exposta o tempo todo), por que você não me diz quem é, o que faz, quais suas tentativas reais para que, “se depender de você”, as coisas REALMENTE mudem nesta cidade, estado e PAÍS? É só uma provocação. Às vezes eu fico de saco cheio de quem vocifera na mesa do bar e empunha sua pena ferina no computador e JAMAIS sairia da cama às 5 da manhã para socorrer alguém na Brasilandia, mas me chama de "vendida". Talvez você seja super atuante e realmente saia do seu lugar para tentar interferir nas coisas com sua postura e atitude, mas talvez aja mais no computador do que no mundo lá fora. É válido participar na internet, mas acredite, eu  lido muito mais do que isso com a miséria tentando curar de verdade essa chaga).

Obrigado pela atenção e pela hipocrisia de não publicar comentarios que questionam sua posição.

>>> Sarcasmo dispensável (o agradecimento). Uma coisa é questionar a minha opinião - e até me ofender, como você fez no penúltimo parágrafo, mas isso eu debito do calor do debate - e outra é fazer o equivalente a cuspir na minha cara. Não sou obrigada a dar espaço para qualquer tipo de coisa que apareça.
E olha, faço um desafio: qual é o político que você conhece, a quem você já tentou questionar, que expõe tão francamente e extensamente sua opinião sobre o que quer que seja? Somos quantos, uns quatro ou cinco? Então me exclua do seu universo da política se você quiser, mas duvido que encontre alguém com quem tenha interlocução tão próxima.

Abs,
S.
*******

PS: Alguém ligou para me ouvir, entender, tirar a dúvida - UMA jornalista, de UM veículo de comunicação, o portal R7. Agradeço sempre aos que se informam de verdade e dispensam o telefone-sem-fio e o "estão- dizendo-que-ela-disse".

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Nem vem!

1) Para quem tiver real interesse em saber o que penso... Sem essa de pirou, maconheira, bla bla bla: C#gadas em série (Pinheirinho)

2) Pensamentos ou slogans igualmente cretinos: "Na favela/ periferia só tem bandido"; "na favela/periferia só tem trabalhador"

3) Discordar, ok. Distorcer ("olha o que ela pensa de todas vítimas") é desonestidade básica.
Se são trabalhadores, lamento, escolheram métodos de bandidagem. O que pretendem, "matar ou morrer"?
http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/6101-desocupacao-da-favela-pinheirinho#foto-114674

4) Esses [na foto com porretes] são criminosos tirando proveito da situação, não pessoas comuns defendendo sua terra http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/6101-desocupacao-da-favela-pinheirinho#foto-114674



5) Chamo criminosos de aproveitadores, SIM. O que é COMPLETAMENTE diferente de chamar os desabrigados de criminosos. Mas é inútil discutir com a desonestidade...


***Palavras não quebram ossos, mas não vou publicar nenhum comentário semelhante a um porrete com pregos na ponta.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

C#gadas em série (Pinheirinho) - 3

Parte 6 - Afinal, de que lado você está?

Discordo da decisão do governo, de fazer cumprir a reintegração de posse. Desaprovo a ação e condeno a violência policial, os abusos, as barbaridades. Duvido que as pessoas desalojadas tenham encaminhamento decente. É muita gente... Não houve preparação verdadeira para sua realocação.

Mas também desaprovo e condeno o oportunismo, a exploração, a incitação ao ódio, a mentira de muitos dos que se colocam em defesa dos moradores do Pinheirinho.

É relativismo demais? Sinto muito. A vida é mais complexa do que parece nos slogans.

Maniqueísmo é raso, desonesto, sujo.


Policiais são heróis, suas vítimas são sempre bandidos
X
Policiais são bandidos, suas vítimas são heróis da resistência

Na favela todo mundo é bandido
X
Na favela todo mundo é trabalhador

Paulistas ricos votam nos tucanos que odeiam pobres
X
O PT faz tudo pelos pobres

#myass

No Rio o Exército patrulha ostensivamente as ruas das favelas à guisa de "pacificação". Volta e meia um morador toma um tiro de um soldado, fazer o que? Acidente de percurso. Não, o governo Paes-Cabral não é fascista, opressor, a política social deles é joinha.

A Polícia na Bahia é fina, educada, bem preparada, bem equipada, honesta e não se tem notícia de abuso. Se tiver, SE TIVER, o governador não tem NADA a ver com isso.

Em Pernambuco, a reação a uma rebelião no equivalente deles à Fundação Casa termina com adolescentes mortos, um deles degolado. Mas o Eduardo Campos é um socialista, qualquer violência que aconteça contra pobres não tem nada a ver com ele.

Greves em universidades federais são reprimidas com "energia". Indígenas e ribeirinhos são enxotados, encurralados, expulsos por funcionários das empresas que trabalham na m. da usina de Belo Monte. Presídios no Espírito Santo parecem masmorras. Acre, Amapá, Maranhão... Pobres dos pobres de lá. Mas ninguém lá é fascista, nazista, lacaio dos imperialistas, capitalista nojento.

Mas São Paulo...  Ah, São Paulo dá #vergonha, São Paulo é o pior lugar do mundo pra se viver, não faz nada pelos mais pobres, muito pelo contrário. A Saúde em São Paulo é a pior do país, a Educação também, a Polícia é a pior do Hemisfério. O metrô de São Paulo dá vergonha, ver-go-nha. Em todas as capitais é melhor, mais avançado, mais confortável, atende mais gente. As favelas da capital são as piores do MUNDO. Porque aqui, ah, aqui quem manda é a direita. Aqui não se tem a liberdade de manifestação e expressão, de organização e de imprensa que tem em Mato Grosso ou na Bahia. Ou no Irã, Cuba, Venezuela ou na China - esses países "de esquerda", libertários, igualitários, justos, em que os ricos não tem privilégios, os trabalhadores são respeitados, os pobres vivem decentemente e o governo tolera a oposição.

#MYASS.

C#gadas em série (Pinheirinho) - 2

(O primeiro post foi este aqui)

Parte 4: energia, rigor, violência

Já participei do planejamento de ações em que era necessária a presença e quase certa a necessidade de atuação da Polícia Militar em situações de conflito ou tumulto. Jogos de futebol, por exemplo.

Sempre questionei o uso das malditas balas de borracha. A resposta que obtive sempre foi "é o armamento não letal determinado". P., determinado por quem? Podem por favor determinar outra coisa?

Em todo o mundo "riots" são dispersadas com jatos de água. Não consigo imaginar por que não seriam mais indicados do que projéteis. Imagine, no meio do tumulto uma arma é disparada em direção à massa. Quem ela vai atingir e onde? Sabe deus! Uma vez, na Paulista, um fotógrafo (da Folha da Tarde, se não me engano) foi atingido NO OLHO. Não importa - na coxa, na barriga, no braço, é um absurdo.

"Bomba de efeito moral" também é um horror. Gera pânico, desespero. Você ouve os estouros e não sabe se é tiro. Coração vai na garganta, perna fica bamba, nem que seja por um segundo. O "efeito moral" é esse... Pessoas podem sair correndo e caírem, serem pisoteadas... Outras podem, na sua fúria, contra-atacar como der no meio da fumaça, com paus e pedras. É assim que se controla a situação?

Outro erro INACEITÁVEL é bater em alguém caído. Chutar então... E quando são vários contra um, como aconteceu na porta de uma tenda com um sujeito absolutamente indefeso e pacífico, agredido por quatro ou cinco policiais? Crime para detenção em flagrante. Aliás, sair correndo atrás de alguém que está fugindo dando cacetadas nas costas também é errado. É violência, revide, descontrole. Errado.

Assim como é errado rosnar para as pessoas. Rigor, entendo, é necessário. Não dá para parar, conversar, discutir, abrir exceções, quebrar um galho. O bagulho é tenso. Mas um mínimo de humanidade é indispensável. A mulher que não pode voltar para casa e pegar NADA a não ser a mamadeira estava inconformada. Na porta de casa, pediu um segundo, implorou. Também já implorei compreensão de seguranças, guardas, policiais... É desesperador.

Parte 5: a resistência

Não venham falar em resistência pacífica... Pára.

Se quiserem defender o direito de as pessoas se organizarem em guerrilhas, milícias, irem para o pau, resistirem com porretes e coquetéis molotov, ok, temos uma discussão. Mas descrever a situação como um confronto apenas entre pessoas indefesas e pacíficas e as forças de segurança do estado é desonestidade.

A bandidagem que normalmente já dá "proteção" à comunidade participa ativamente da resistência. Claro. E um povo de fora que acha a maior graça em cobrir a cara à moda rebelião em presídio e em coquetel molotov como ícone da resistência ao imperialismo também participa orgulhoso da ação "política".

Em alguns casos de remoção, chega a acontecer o absurdo de uma parte das famílias querer ouvir as alternativas, cogitarem aceitar a mudança para outro lugar porque também já não aguentam mais viver naquelas condições - passei por isso em relação a algumas áreas de risco - e "lideranças" (bandidos ou militantes partidários) PROIBIREM as pessoas de fazer acordo, com postura e atitudes ameaçadoras. "Eles querem nos dividir para enfraquecer o movimento!". Super democrático.

Os moradores do Pinheirinho, teoricamente, haviam pedido mais quinze dias para continuar negociando. Deveriam ter sido dados, mas não ia adiantar nada. Depois de quinze dias, a situação seria idêntica. Não haveria saída pacífica. Na USP, aconteceu algo semelhante. A ordem judicial poderia ter sido cumprida alguns dias antes da noite em que foi executada. Pediram tempo, mais tempo, "vamos sair, mas não desse jeito". A Polícia acatou e no fim os ocupantes não iam sair mesmo e acusaram o estado de intransigência.

A única saída pacífica, inteligente e justa para o Pinheirinho seria a regularização da área, (re)urbanização e, para usar palavra muito apreciada pela Rede Globo, "pacificação". Porque tão equivocado e desonesto quando o discurso reaça de que "na favela só tem bandido" é o discurso "progressista" de que na favela "só tem trabalhador". Tem os dois, minha gente. Os reaças nunca pisaram em uma favela. Os progressistas que já o fizeram SABEM como é.

Pergunte aos trabalhadores - motoristas, garçons, faxineiros, cozinheiros, ascensoristas, porteiros, balconistas, estudantes, auxiliares administrativos, auxiliares de enfermagem, motoboys, estagiários, pintores, pedreiros, eletricistas - se eles não são oprimidos pela bandidagem. Se os bandidos não tocam o terror, controlando desde o uso da quadra de esportes e o horário das festas a conflitos entre vizinhos e casais. Se não é f. ficar espremido entre corrupção e violência policial E a violência dos "chefes" do pedaço. Incrível como fazem o papel do Estado paternalista e opressor - afinal, eles ajudam, de verdade, em algumas situações. Em troca, estabelecem sua ditadura. Suas leis, sua justiça.

Agora, não tem COMO o estado não saber que é assim e que a população local estará em estado de beligerância, por escolha ou por falta de alternativa. Quem não quer ir pra trincheira, só quer zelar por sua TV, seus móveis, suas roupas também tá preso ali. "Por que não saíram antes?". Não só porque os líderes nem sempre permitem, como também porque sair carregando sua vida nas costas não é coisa simples. Então o governo SABE, quando determina a ação, dos riscos que está correndo. E prefere correr. Risco de confronto, óbvio, e de exploração do episódio (o que piora o confronto!).

Quem se ferra? É quem NÃO FAZ PARTE DESSA GUERRA. Quem não tem dinheiro, nem armas, nem padrinho, nem faz parte de alguma organização, seja pela razão que for. Porque é idoso, porque não para em casa (2 empregos + escola), porque não quer se envolver mesmo. Digo isso em defesa dos "desorganizados", sempre os mais prejudicados, mesmo quando são maioria. A organização é um instrumento legítimo e desejável na sociedade, mas a força que os grupos organizados adquirem nem sempre resulta em justiça para a maioria.

[Continuo mais tarde]

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

C#gadas em série (Pinheirinho)

Parte 1: a "Propriedade Privada" e a "Justiça"

Não sei em que condições o terreno foi adquirido. Talvez a situação seja absurda desde a aquisição, vai saber. Grilagem, papéis frios, corrupção, invasão... O Brasil tá forrado de "propriedades legais" que não tem um mísero documento em ordem, que alguém um dia cercou e disse "é minha". Desmatou, usou, parou de usar, largou, deixou especulando.

Se a origem da história for essa, o proprietário já deveria ter perdido o direito a ela séculos atrás. Digamos que nada disso tenha acontecido na história do Pinheirinho: a ÚNICA razão aceitável para que o terreno fosse desocupado e restituído ao proprietário seria para atender as vítimas do Naji Nahas... Que ele estivesse arrolado para saldar dívidas com pessoas "assaltadas" por ele... E olhe lá.

Parte 2: O tempo não foi o senhor da razão

A ação de reintegração de posse já subiu e desceu na Justiça várias vezes. Até onde eu sei, já "transitou em julgado" no STF, não poderia fazer o caminho de volta. E realmente uma ordem da Justiça Federal não poderia se sobrepor à decisão da juíza da Justiça Estadual, embora pareça aos leigos que uma é subordinada à outra.

Mas, como explica o Sakamoto, "ao receber uma ordem judicial, mesmo que formalmente correta, mas cuja execução possa colocar em risco a vida de pessoas, o Poder Executivo tem o dever de tomar todas as medidas para evitar esses excessos. E caso acredite que seja impossível, que pessoas saiam feridas ou com a dignidade vilipendiada, tem o dever de não cumpri-la e procurar alternativas".

Ao longo desses anos todos, a decisão já foi não cumprida. Protelada, empurrada com a barriga. Por que? Mil razões diferentes, possivelmente contraditórias. De coragem a medo. De compaixão à demagogia.

Não ter cumprido porque seria absurdo simplesmente tirar todo mundo dali e obrigar as pessoas a começar tudo de novo sem lhes oferecer nenhum caminho é compreensível - não chega a ser louvável porque se isso significou não tomar iniciativa nenhuma para resolver a situação direito, que grande coisa. Vira omissão. "Alguém que resolva esse problema, eu é que não vou mexer nisso". Quer dizer, é um pouco de compaixão, um pouco de covardia.

Não ter cumprido por demagogia é inaceitável. "Querem expulsar vocês daí, mas eu não vou fazer isso!" é ignorar que, sem tomar providências de verdade, uma hora essa bodega ia explodir. Consolidar, arruar, puxar eletricidade etc. SEM levar em conta que era preciso REGULARIZAR  a posse do terreno é de uma irresponsabilidade tremenda. Até no Morro do Bumba fizeram isso, lembram?

Enfim, quanto mais o tempo passa sem providências, MAIS COMPLEXA é a situação. Barracos de madeira viram casas de alvenaria, surge o comércio local, as pessoas vão aumentando seu patrimônio, os lotes e casas vão valendo cada vez mais... É, imóvel valoriza em tudo quanto é lugar quando a vizinhança faz progressos e/ou tem muita procura. Adiar, sentar em cima, protelar, se omitir, adiar, adiar... Problema SÉRIO na administração pública.

Parte 3: Mas então o que?

Não podendo voltar no tempo e desfazer tudo de errado que foi feito antes, caberia ao Poder Público regularizar a área - será que não poderia ser desapropriada??? Caso isso não fosse possível ou fosse demorar demais por conta de mil recursos na Justiça, a prefeitura/o estado/a União deveriam ter procurado uma área tão próxima quanto possível para realocar os moradores.

Quanto mais demoram esses processos, mais complexa vai ficando a situação. As casas, como disse, vão ganhando solidez e valor - econômico e sentimental. A especulação imobiliária começa a se instalar também... E politicamente o lugar passa a ser cada vez mais atraente, mais interessante. Cenário de promessas e incitações, boatos e contra-informação, poder e terror. Terreno fértil para lideranças picaretas ou criminosas - que, não raramente, se impõem e subjugam lideranças legítimas.

Tô falando isso em tese? Não. Com conhecimento de causa e de casos. De moradores que se viram no meio de um cabo-de-guerra, oprimidos entre quadrilhas de bandidos, autoridades corruptas, servidores públicos abusados, Justiça estrábica, PM mal preparada, mal orientada ou mal intencionada.

Enfim, a combinação de necessidade e desejo, laços de amizade e relações de poder, organização cidadã e organização criminosa, interesses honestos e oportunismo dá merda sempre. E a omissão ou ação errada dos agentes públicos (prefeitura, estado, governo federal, vereadores, deputados etc) é o combustível da catástrofe que vai sendo armazenado até explodir.

[Continua mais tarde]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A USP, a USP, a USP...

Deu no Twitter:

Conceição Oliveira

“A gente não quer a polícia fora do Campus a gente quer a polícia fora do mundo”

Li o post e achei ponderado, civilizado, desapaixonado. Tem lado, claro - favorável aos ocupantes da reitoria. Isso não é problema, as pessoas tem o direito de ter um lado e de escrever em defesa dele.

Tem muita coisa lá a que não me oponho; destaquei aqui apenas os pontos dos quais discordo. A eles:

Os alunos temem represálias da reitoria que já persegue vários estudantes e funcionários com processos administrativos, daí esconderem o rosto. O fato de os fotógrafos e câmeras não respeitarem o medo real dos estudantes dificulta ainda mais a relação dos manifestantes com a mídia institucional.

 Na Federal de Rondônia, manifestantes também esconderam o rosto nesse modelo "rebelião na cadeia", e achei péssimo. Lá, eles alegam sofrer ameaças de morte - bom, aí a coisa muda de figura, mas ainda assim me causa má impressão. Prefiro as máscaras dos Anonymous (rs), mas deixa pra lá. O que realmente merece ser discutido, aqui, é o seguinte: a reitoria "persegue" estudantes e funcionários com "processos administrativos"? A reitoria tem tanto direito de abrir um processo quanto os estudantes e funcionários tem de solicitar abertura de sindicâncias etc... Seguidas as normas institucionais para abertura de processo, tomada de depoimentos, direito à defesa e ao contraditório, beleza. É assim que se faz no mundo das instituições democráticas. Os que se sentem prejudicados vão atrás de seus direitos conforme os ritos e as normas estabelecidos. Se as normas forem consideradas injustas, desiguais, desequilibradas, 'bora brigar. Se as normas forem justas mas desrespeitadas, 'bora brigar. Do contrário... 'Bora acusar e se defender dentro do sistema.

Segurança tercerizada do Campus, como quase tudo hoje na universidade. (Legenda de uma foto no blog)

 Pois é... Ou é "terceirizada" ou é uma força própria e exclusiva da universidade - são essas as alternativas caso o patrulhamento não seja feito pela Segurança Pública.. Eu prefiro que o patrulhamento ostensivo em área pública, em nome da segurança das pessoas que por ali circulam, fique a cargo da força policial do Estado - no caso, a Polícia Militar.

“Enquadro” é o termo que os uspianos usam para se referir às revistas da polícia militar no campus. Eles denunciam o aumento dessas investidas policiais, assim como de outros episódios como o de uma catraca abandonada na reitoria pega por um aluno para fazer uma instalação e polícia e guarda universitária tomaram-na e a catraca está no lixo!

"Enquadro" é o nome que se dá às revistas policiais em qualquer lugar... O "aumento dessas investidas" é necessariamente um problema? Se uma pessoa é morta a tiros dentro do campus, acredito que uma das funções da polícia seja revistar os transeuntes à procura de armas, por mais desagradável que seja ser revistado (é uma merda, ninguém gosta). E não se pode esperar que a Polícia reviste apenas os... "usual suspects", né? Os pretos, os pobres, os mal vestidos... É chato, mas os "bonitinhos", os "boyzinhos", os bichos-grilos, os acadêmicos tem de ser "enquadrados" também. Se os PMs forem escrotos no enquadro, pau neles. Pau metafórico, viu, pessoal?  Tem de denunciar na mídia, na corregedoria, na OAB, na Pastoral, na Cúria Metropolitana, na ONU. Isso vale para enquadro na Cidade Universitária, na Augusta, no Capão ou na Brasilândia.
Sobre o episódio da catraca... me parece uma bobagem que não justifica paralisação, invasão, greve.

O que mais me chamou a atenção na fala desses jovens foi o fato de não burocratizarem o papel da universidade como um lugar de conseguir um prestigiado diploma. Esses jovens querem muito mais, argumentam que a universidade como lugar privilegiado da pesquisa, reflexão e pensamento precisa potencializar essa discussão, professores, estudantes, funcionários têm de ser agentes do debate sobre segurança pública, repressão etc. não apenas no espaço do campus, mas fora dele.

Claro. Mas não foi convocado um debate, reflexão e pesquisa sobre segurança pública, repressão, etc. Houve uma sublevação contra a detenção de três maconheiros que virou ocupação e protesto exigindo a saída da polícia do Campus e a renúncia do reitor. Debate está havendo "aqui fora", nos jornais, nas faculdades, nos blogs.

Esse discurso surpreende porque ele é ridicularizado, espezinhado tanto pela esquerda como pela direita que não cansa de repetir ‘isso é tão anos 60, isso é tão anos 80. O pragmatismo neoliberal da direita que transformou a universidade numa grande fábrica de produção em série sem reflexões transformadoras ou o pragmatismo da esquerda institucionalizada nos partidos que se encastelam nos seus centros acadêmicos e depois se surpreendem quando chapas de extrema-direita vem para a disputa não permitem espaço para sonhos. Aliás esses jovens que ocupam a reitoria não acham que o fato de lutar por mudanças concretas para a democratização da universidade seja sonhar. Para eles isso é função de estudantes, professores e funcionários que desejam uma universidade verdadeiramente pública.

Mas quais são, exatamente, as "mudanças concretas para a democratização da universidade" pelas quais eles lutam? Não estou sendo irônica, não é uma pergunta retórica. Quais são? Além de "eleição direta para reitor", que acho que é uma das reivindicações, o que mais se reivindica? No começo do governo Serra, um dos questionamentos dos manifestantes era sobre o decreto que obrigava a publicação da Execução Orçamentária da USP da forma como os órgãos da administração direta são obrigados a fazer. "Isso fere a autonomia universitária!", diziam. Oi??!!

Nós nos solidarizamos com a família do Felipe‘ (o estudante assassinado durante um assalto na área bancária da USP) e argumentam que o fato de se oporem à permanência da polícia militar no campus não significa que ‘estão se lixando para a morte do Felipe‘. E mais uma vez tecem críticas duras à PM: a polícia mata e reprime nas favelas, mata a população negra, “a polícia é também agente de violência, nós somos pensadores temos de levar essa discussão para a sociedade. ‘Nós temos convicção que a polícia não resolverá o problema da educação“. E prosseguem falando sobre a terceirização da segurança pública, denúncias de lavagem de dinheiro e a mídia que estereotipa o movimento.

Então... "A polícia mata e reprime nas favelas?". PAU na polícia (aquele - metafórico, institucional). E em todo mundo que mata e reprime nas favelas, inclusive os bandidos. Fico puta com o endeusamento da bandidagem. São uns babacas, covardes, opressores, "justiceiros", que vão pra cima dos velhinhos, das mães, dos trabalhadores, das crianças e adolescentes com suas armas, seu terror. Mas não se fazem raps mandando os bandidos tomar no c. [Desculpem, são momentos de raiva reprimida]. Enfim, quando a polícia é "agente de violência", ela está ERRADA, completamente ERRADA, e tem de se punida com muito rigor. Mas a polícia tem seu papel em uma sociedade que concede ao Estado algumas tarefas - e eu sou a favor de delegar ao Estado a responsabilidade pela Segurança Pública, incluindo a responsabilidade pela formação de uma instituição com porte de arma. Eu, ao contrário de boa parte dos estadunidenses, não quero que os cidadãos sejam livres para terem, portarem e usarem armas para se defender, eu quero que essa responsabilidade fique com uma instituição do Estado. Eles são liberais ou neoliberais, eu sou socialista. E é claro que a polícia não "resolverá o problema da educação", santo deus!, e nem está lá pra isso. 

Na fala dos manifestantes é constante a denúncia do autoritarismo da gestão da USP: processos administrativos e criminais contra estudantes e funcionários é realidade após cada manifestação. Para eles a presença da polícia passa ao largo da segurança pública, porque ela está a serviço da repressão dos que se opõem ao autoritarismo do Reitor.

Então... Abrir processos administrativos e criminais não é exatamente sinônimo de "autoritarismo", se os processos forem conduzidos corretamente. 

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Para concluir (por enquanto, porque também quero discutir esse assunto mais e mais):

- Sou a favor da existência de Polícia e, ao contrário do que pensei quase a minha vida toda, acho que a organização do tipo militar talvez seja a melhor forma de lidar com armas, em função da rígida disciplina e hierarquia inerentes a esse sistema - mas isso é matéria pra seminário, congresso, simpósio, painel, tese de mestrado e não pra cá. E pode até ser que eu mude de ideia de novo, mas ultimamente tenho pensado assim.

- Sou a favor do patrulhamento, pela polícia, do espaço PÚBLICO que é a Cidade Universitária, desde que ela se atenha a cumprir lá dentro as funções que lhe cabem aqui fora, sem se meter em nada na vida acadêmica propriamente dita.

- Sou a favor da mudança na legislação para que a produção e comércio de maconha sejam legalizados e, portanto, deixem de ser monopólio de bandidos e possam acontecer conforme normas já estabelecidas na sociedade moderna, com algumas permissões e várias obrigações e restrições. Eu sou antitabagista mas não sou contra a Souza Cruz - quero é que ela seja fiscalizada com rigor. Prefiro a Santa Cruz vendendo tabaco ao CV ou o PCC.

- Sou a favor de tirar da polícia a permissão/obrigação para deter quem estiver usando maconha sem colocar em risco outras pessoas (fumar e dirigir, beber e dirigir, cheirar e dirigir são formas de colocar em risco outras pessoas). Mas isso precisa ficar claro na legislação - se porte de maconha for sujeito a penalidades alternativas, a polícia continua encarregada de levar os maconheiros ao DP, é isso? Porque se for isso, a gente pode até achar que é bobagem, que os PMs poderiam bem fazer vistas grossas e não sair atrás de maconheiro, MAS o comando da polícia não pode dar essa ordem para os seus comandados.

- Sou a favor de uma universidade pública que sirva ao conjunto da sociedade. Uma universidade que não pertença aos alunos, aos funcionários, aos professores, aos governantes, mas à população como um todo. Uma universidade com recursos financeiros suficientes, estrutura física decente e recursos humanos de qualidade. Uma universidade com COMPROMISSO. Esse compromisso implica em transparência, participação e controle social.

Quero que a sociedade possa ter conhecimento sobre a quantidade de aulas não dadas e não assistidas. Sobre o absenteísmo de alunos e professores. Sobre a picaretagem das listas de presença. Sobre os acordos informais de "eu finjo que fiz o trabalho e você finge que leu". Sobre as condições precárias de algumas instalações. Sobre a burocracia enlouquecedora. Sobre a permanência no Crusp (moradia) de quem já não teria direito a ficar lá. Sobre o dinheiro jogado fora em materiais e equipamentos deteriorados. Sobre as insuportáveis condições de mobilidade dentro do Campus. Eu estudei na USP, eu vi tudo isso, não li no jornal não...

Não tenho muito tempo disponível, mas tenho paciência infinita para continuar discutindo. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O Rio de Janeiro continua...

Faz meia hora que o Bom Dia Brasil faz uma cobertura especial triunfante sobre a ocupação da Rocinha e a prisão do traficante Nem.

"Dia histórico no Rio de Janeiro! Novo capítulo sendo escrito na direção de uma cidade pacificada".

Menos,  pessoal, menos.

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Perto dos Secretários de Segurança que o Rio de Janeiro teve nos últimos anos, nos governos anteriores do PMDB, o Beltrame é um Winston Churchill. Incomparavelmente mais esclarecido em bem intencionado do que um Álvaro Lins, por exemplo, que era praticamente (ou literalmente?) um chefe de quadrilha.

É evidente que o governo está ATUANDO e de maneira mais sistemática, e isso é positivo. Mas o tom de exaltação às medidas e a avaliação dos resultados é muito condescendente, complacente e otimista.

Tá, é preciso elevar o moral da tropa, projetar uma imagem mais positiva e dar confiança a moradores, investidores e visitantes. Mas sem fazer do limão azedo uma musse adocidada. Sem fazer da imprensa (i.e., a Globo) a porta-voz + agência de publicidade do governo Cabral.

Até o fato de esse assunto não estar apenas nos Datenas e Facciolis da vida e aparecer praticamente TODO DIA no Bom Dia Brasil e outros noticiários "normais" é sintomático do caos que ainda vigora. Ver imagens de policiais em posição de tiro e ler no www.twitter.com/leiseca_rj "tiroteio aqui, tiroteio acolá" como uma notícia que não causa horror, mas apenas uma informação como "congestionamento na saída da cidade" ou "chuva no final da tarde" não pode ser normal.

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Outro dia foi assassinado um repórter com tiro de fuzil. Meu, isso era assunto para uma semana de telejornal. Jornalista abatido em ZONA DE GUERRA, foi o que aconteceu. "Ah, ele foi imprudente, a TV é culpada, quem se mete em coberturas como essa está sujeito a tomar um tiro"... #Falô. Vamos fazer de conta que nenhum cinegrafista morreu - aquelas imagens que eles mostram são normais, aceitáveis? Quando não tem morte de profissional da imprensa, parece até que é, de tão anestesiados que ficamos. Aquilo não é Bagdá, não é Kabul, é mais uma operação de guerra em um bairro da segunda maior capital do Brasil, sede da Olimpíada de 2016.

Como é que a cidade pacificada ainda tem tanto tiroteio? Como é que os bandidos ainda tem tanto fuzil, granada, revólver, submetralhadora?

E na favela onde morreu o câmera da Band, na Rocinha, na Mangueira e em outras "comunidades pacificadas", as imagens das ruas ainda são de um lugar imundo, sem pavimentação, sem calçadas, precário, deteriorado, um século distante da Zona Sul. Cara, ainda falta muito, MUITO.

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Ainda sobre a prisão do Nem - ótimo, foi uma boa operação conjunta (PM, PF, Exército) que culminou com o flagrante do bandidão no porta-malas de um carro de luxo. Inteligência, persistência, perspicácia, presença de espírito e resistência à oferta de propina estiveram presentes, parabéns. A tropa tem todo o direito de se sentir orgulhosa.

Mas daí a dizer que "este é um dia histórico, de recomeço"... Quem dera.

Marcola não tá preso? Fernandinho Beira-Mar não foi preso? E...?

Felizmente o Rodrigo Pimentel bota uns pingos em alguns is. "Está desarticulado o crime na Rocinha?", pergunta o apresentador. "Claro que não, a operação continua nos próximos dias. Ainda se estima que haja 200 bandidos armados na Rocinha e muitos fuzis, granadas".

Muito bem. Avanços importantes aconteceram nos últimos anos, mas o jogo está longe, longe, longe da conclusão. E comemorar os gols do nosso time é bom para estimular a equipe, mas fingir que o adversário está morto e ignorar o quanto o placar ainda exibe uma pontuação alta para ele pode animar a torcida que vê o jogo pela televisão, mas não engana por muito tempo o povo que está no estádio. (Embora eles adorem reeleger seus governantes... Mas essa discussão (eleições) fica para outro post)