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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Dez coisas que você talvez não saiba sobre moradores de rua:

1 - Muitos ligam para a família (mães, filhas e filhos, irmãos, sobrinhas) e desligam quando alguém atende porque têm vergonha. Outros mentem dizendo que está tudo bem, porque não querem que a mãe sofra. A maioria, quando a gente pergunta sobre sua família, responde: "É esta aqui", mostrando os moradores de rua ao seu redor.

2 - Em São Paulo, muitos se referem ao seu lugar (debaixo de um viaduto, colado ao muro, no meio de um canteiro) como "maloca" e se denominam "maloqueiros". Ficam muito irritados se chamados de "mendigos".

3 - Em várias ocasiões, pedem ajuda para parar de fumar, cheirar ou beber. "Me arruma uma internação?" é um pedido frequente. Muitos já passaram várias vezes por CAPS e internações. Muitos pararam de fumar e cheirar, mas não conseguem largar a pinga. Uma garrafa conhecida como "barrigudinha" ou "gorote" custa R$2,50.

4 - Por que não querem ir para albergues? Porque não podem levar a mulher, os amigos, as crianças e os cachorros - e é lógico que jamais os deixariam para trás. Porque não podem deixar a carrocinha na rua (pode ser levada pelo rapa ou roubada). Porque não querem dormir em um quarto com dezenas de conhecidos com quem não se dão ou desconhecidos. Porque não podem beber ou fumar enquanto estiverem lá (e ficam furiosos quando outros cheiram ou usam pedra nos banheiros). Porque as camas têm pulgas. Porque alguns albergues os obrigam a sair da cama antes das 6 da manhã. Porque alguns albergues são muito distantes de onde "moram", e tem kombi pra levar mas ninguém os traz de volta.

5 - Elas e eles adoram ganhar kits de higiene: sabonete, barbeador, desodorante, xampu, escova e pasta de dentes. E também gel (homens) e esmalte de unha.

6 - Muitos cobertores são abandonados durante o dia por motivos diversos, entre eles o fato de que moradoras e moradores de rua, por problemas fisiológicos, psicológicos etc, urinam enquanto dormem. E lavar a roupa, para quem mora na rua, é um luxo. Os que fazem questão procuram um chafariz ou a sarjeta mesmo.

7 - De um jeito ou de outro, assistem televisão. Ontem mesmo um garoto que dormia no meio da ciclovia da Auro Soares viu minha camisa de futebol e perguntou "E o Peru, hein?". Também comentam política e filmes. Outro dia o assunto de madrugada no ponto de ônibus do Pateo do Colégio era "A Lagoa Azul".

8 - Muitos tomam remédios controlados porque têm convulsões. Às vezes (toda hora) o rapa leva seus objetos - mochila com documentos, roupa, livros (sim, livros!), remédios - e eles não conseguem repor o que foi levado.

9 - Se morrerem sem terem nenhum documento com foto (acontece muito) e sem que se localize a família, um amigo que queira evitar que sejam enterrados como indigentes ("não reclamados", "não identificados") precisará ir duas vezes a uma delegacia tentar obter autorização para providenciar a "inumação". Às vezes não dá certo.

10 - É impressionante como gostam de comemorar seus aniversários. Experimente fazer festa para um deles (bolo, velinhas, refrigerante) - os outros todos vão ficar ansiosos na expectativa do seu dia e fazer contagem regressiva.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Programa de Metas do Haddad - A Real em 123 posts

Meta 1



O prefeito diz: "Foram inseridas 349 mil famílias no Cadastro Único, superando a meta estabelecida de 280 mil".

PROBLEMAS:

1) Desde o início, a definição e justificativa da meta:

Por que "280 mil famílias"? De onde saiu esse número?
Como poderíamos verificar o cumprimento da meta, já que são números grandiosos e pouco palpáveis?
Qual o verdadeiro impacto (eficácia/efetividade) da mera inclusão de famílias no Cadastro?
É correto dizer que se trata de um "novo serviço ou benefício"?
A inclusão atende ao objetivo de "superar a extrema pobreza na cidade de São Paulo, elevando a renda, promovendo a inclusão produtiva e o acesso a serviços públicos para todos"?



O Cadastro Único em si, como se vê, é apenas um grande Banco de Dados, não é sinônimo de recebimento de serviços ou benefícios. A única meta razoável seria: "inclusão de TODAS as famílias que atendem os requisitos para fazerem parte do Cadastro Único". É o mínimo que precisa acontecer: que elas existam oficialmente nos registros oficiais de pobres e miseráveis.

2) O cálculo é "meio" confuso. Compare as seguintes informações, todas elas prestadas pela própria prefeitura:

- "O número de famílias cadastradas em dezembro de 2012 era de 493 mil. Em julho de 2013 este número passou para 709.595, chegando a 922.259 em julho de 2014, data da última atualização do CadÚnico".

Portanto, entre dezembro de 2012 e julho de 2014, o número de famílias cadastradas aumentou em 499 mil, não em 349 mil. Qual número é o certo? Por que há essa diferença de 150 mil famílias entre um cálculo e outro?

- Na página do Observatório Social da SMADS , que dá publicidade aos dados oficiais sobre os programas da Assistência Social, a informação mais recente é a de janeiro de 2013 (!): 520.515 famílias estavam no Cadastro Único.




(Pra complicar ainda mais, o gráfico de janeiro de 2013 foi "elaborado" em "julho de 2014"!)

Combinando as fontes (ambas oficiais), temos a seguinte evolução:



Se considerarmos como ponto de partida os dados de janeiro de 2013 (não os de dezembro, como faz o site do Plano de Metas):

- De janeiro a julho de 2013, entraram 198 mil famílias. 
- De julho de 2013 a julho de 2014, entraram 212 mil famílias.
Total: 410 mil famílias inseridas na gestão Haddad.
Também não bate com o acréscimo anunciado.

- O cronograma também tem inconsistências (aka "é uma zona"):

Assim está no portal do Programa de Metas:



Na atualização cadastral de julho de 2013, 137.187 famílias haviam sido incluídas (número que não condiz com nenhum dos cálculos acima).



As duas atualizações realizadas em 2014 registram a entrada de 125.796 famílias  (janeiro) e 86,868 famílias (julho).




350 entrevistadores foram contratados em novembro de 2013 para a realização de novos cadastros, quando 137 mil famílias já tinham sido incluídas. No total, 572 pessoas se envolveram diretamente com o cadastramento - apenas para dar uma ideia de volume, embora o trabalho de cada um seja evidentemente diferente, dá uma média de 610 famílias por cadastrador.

3) A distribuição geográfica das inserções deixa algumas dúvidas sobre sua correção.

A prefeitura se comprometeu com "Prioridade para implementação das ações nas Subprefeituras com maior concentração de famílias em situação de extrema pobreza e pobreza". Cidade Tiradentes, por exemplo, região muito pobre da cidade, teve menos inserções no cadastro do que a Lapa. Pode ser que realmente o cadastramento na Lapa estivesse mais defasado; é preciso esclarecer.



Também chama atenção o fato de Parelheiros e Mooca terem tido famílias excluídas do Cadastro, como mostra a tabela acima. Por que?

4) Recursos empregados:



Essa consulta foi feita hoje, 20 de fevereiro de 2015. O custo previsto era de R$ 103 milhões. O valor executado em 2013 foi de R$ 9,4 milhões (é o dado mais recente e ainda está "em atualização"). Ou seja: ou o gasto em 2014 foi de 94 milhões (dez vezes maior que em 2013), ou o orçamento inicial foi absurdamente maior do que o efetivamente realizado. Como foi possível errar tanto?

Também não fica claro como esses nove milhões foram empregados.

CONCLUSÕES:

O prefeito afirma que superou a meta estabelecida e na metade do prazo previsto. Diz que gastou 1/10 do que estimava. Mas há uma série de incoerências nos números apresentados (as contas "não fecham"), o emprego dos recursos não foi explicado e, acima de tudo, o verdadeiro benefício para a população não é claro. Centenas de milhares de famílias foram incluídas no Cadastro Único, e...?

Preparei uma serie de perguntas para o e-sic, o Sistema de Informações, e também para a Coordenadora do Observatório de Políticas Sociais - COPS, responsável pela apuração e divulgação dos dados oficiais, para ver se consigo esclarecer as dúvidas.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Enquanto isso, na General Olimpio da Silveira...

Esse é o nome da rua que fica debaixo do Elevado Costa e Silva. Passei um tempo lá hoje.

Fui visitar meus ammigos, só encontrei o Moisés. Estava dormindo. Com calor e depressão, como esperar algo diferente? E por mil razões é à noite que eles ficam acordados. Porque é quando compram seus, ahn, aditivos. Quando têm insônia (e não é por ter dormido de dia, é por ansiedade e angústia típicas das horas escuras... Eu tenho, você tem, imagine eles). E alguns porque tem medo; a noite é melhor ficar em vigília.

A roda de conhecidos perguntou se eu queria "deixar recado". Não tinha recado, queria só dar um oi. Achei que podia acordá-lo para saber se estava tudo bem sem incomodar muito. Brinquei com eles; "Passou a noite fritando por aí, né?". "Não, ele não é disso não". Mas eu sei que ele usa cocaína... Passa de uma certa hora, começa a dar desespero. Com dez reais ele compra o suficiente para passar. Então teimei: "Conheço...".

Depois de falar com meu amigo, voltei para me penitenciar. Coitado, estava com uma tosse horrorosa e ardendo em febre. Não foi mesmo "pra balada"; disse que mais tarde vai pro Pronto Socorro. "Ontem teve o maior preju", falou grogue de febre e sono. "Que foi"? "O rapa. Três caminhão. Levaram tudo. Panela, comida, o que tinha. Olha aí".

Bem que eu estranhei que só tinha um dormindo em colchão. O resto, no chão duro mesmo, com no máximo um pano ou papelão por cima.

Daqui a pouco eles se refazem... Doação não falta. Lugar em que possam ficar (em modelo diferente dos albergues e suas regras que afugentam, mesmo quando são bons), não tem.

***
Enquanto isso, o Clube de Mães que funciona no Castelinho da Rua Apa e faz um trabalho lindo, diferenciado, pena até pra pagar a conta de luz. Lá tem chuveiro e eles deixam a turma tomar banho... Nem isso eles encontram em outros lugares. E é só umas das coisas para oferecer "cidadania e dignididade", como o prefeito se gaba de fazer.

***
Um quarteirão adiante, uma viatura da polícia estava parada na faixa de ônibus e achei q podia ser algum problema com povo de rua, fui lá ver. Não tinha nenhum morador ali, mas um ônibus parado, só com o motorista, o cobrador, uma mulher e uma criança. "Que foi?", perguntei para um entregador de água que encostou a bicicleta ali pra ver no que ia dar. "Sequestro". "Como assim? Do ônibus??". "De uma criança. Ela berrava que queria a mãe, de longe dava pra ouvir os gritos. E a mulher que tá com ela diz que não tem nenhum contato da família, pra esclarecer que tá tudo bem".

Os passageiros acharam esquisito demais e, não sei bem como, chamaram a polícia e convenceram o motorista a parar ali (não necessariamente nessa ordem). Mais preocupados com a criança do que consigo mesmos, desceram pra pegar outra condução.

Tem horas que parece que esse mundo tem jeito, não parece?

Não vi o desfecho. O moço da bicicleta achou que também tava muito estranho. A criança gritava demais.

***
No ônibus para a Lapa, o cobrador reclamava. "O Janio fez aqueles ônibus de dois andares. Não falou nada na campanha, aí foi lá e fez". (Não deu pra ter certeza se ele achava isso bom ou ruim, mas tive a impressão que ele aprovou). "Aí a Erundina fez o corredor de Pirituba e Perus e ficou faltando "isso aqui" pra terminar. Passou quatro anos e não terminou. Ficou desenterrando cadáver em Perus". (Foram encontrados corpos sem identificação em uma vala comum; tem um curta sobre isso)Entendendo, claro, que OU faz uma coisa, OU faz outra. Não terminou o corredor (vai saber por que) x ficou desenterrando cadáver . Como sempre acontece. "O mundo caindo e você aí, falando de biometria".

***
Conversa seguiu com passageiro reclamando do absurdo que é a prefeitura querer que os cidadãos consertem as calçadas. "Vê lá em Perdizes, que é só pirambeira. Se não tem os degraus, ninguém aguenta subir. Vai fazer como? Aí multa porque não fez".

Vdd. A multa que o Kassab instituiu era cruel, desmedida. Ai o Haddad disse "vou notificar e dar 90 dias pra fazer; só depois aplico a multa". Também não deu em nada. E não vai dar!! Na maioria absolluta dos casos, é impossível o proprietário do imóvel fazer com que sua calçada tenha os padrões de acessibilidade. Porque ela é estreita demais, porque é um aclive medonho e ele não tem condições de resolver sozinho, porque tem poste/orelhão/lixeira/caixa de correio/árvore etc!

O certo é a prefeitura fazer a reforma e cobrar do proprietário a manutenção. Quando à reforma - pode repassar o custo para os proprietários de alguns imóveis (de maiores dimensões, por exemplo, como hipermercados e grandes condomínios residenciais), que já seriam beneficiados pelo fato de não ter de arcar com toda a dor-de-cabeça de uma obra, e isentar os imóveis mais modestos.

Vou ter eu que dar um jeito nisso!

***
A verba que o Haddad destinou no orçamento para obras de calçadas em cada Subprefeitura e RIDÍCULA. Não dá pra uma rua inteira.

***
Nada a ver, mas também foi hoje: sabe onde comprar o Guaraná Jesus, aquele que é cor-de-rosa e típico do Maranhão? Na LIberdade, o bairro japonês de São Paulo.

***
Fui confirmar se era mesmo Maranhão, e descobri que ele agora faz parte "do portfolio de produtos da Coca-Cola". Acabou com a minha graça.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Minhocão - Parte 3

Essa atualização foi de ontem à noite no meu Face

"Historia real, em tempo real:

O cara mora na rua e quer desesperadamente ser internado p largar o crack. Ficou dias em abstinencia, ontem recaiu e hj esta desolado.

Estivemos (eu e uma amiga) c ele em um Caps-AD (Centro de Atendimento Psicossocial especializado em alcool e outras drogas, equipamento da rede municipal de saude. Tem estaduais tb)

Primeiro passo: triagem. Uma entrevista e alguma medicaçao (nao vi qual).

Dois dias depois, exames clinicos.

Hoje, uma semana depois da triagem, ele teria seu primeiro atendimento em grupo.

Nao foi. Zero disposição. Não bota a menor fé de q vai sair do Caps, dormir debaixo do Minhocao e ficar firme e bem até a reuniao seguinte, dali a uma semana.

Sera q ele esta errado?

Consultada, a assistente social do Caps disse que nao tem como "pular etapas". "Tem que passar por 3 encontros c assistente e só depois começam os agendamentos com os médicos, psicólogos, psiquiatras".

Cara, acho isso tão dogmatico... As pessoas sao tao diferentes entre si, mas as etapas sao fixas, obrigatorias, inalteraveis...

IMAGINA morar debaixo do viaduto, seus amigos estao na mesma, entrando e saindo da nóia e o crack ta logo ali. Vc QUER largar, mas a abstinência fica insuportável e nada te ampara e segura.

P quem acha q "é so ter força-de-vontade", imagine-se privado de alguma coisa q te da muito prazer e/ou q seu corpo pede. Comer. Beber. Dormir, levantar, sentar, fazer xixi. Que força sobre-humana precisa ter para aguentar muitas horas alem daquela em q ja ficou insuportavel?

Esse cara tem familia - q ja nao tem mais saco pra lidar com idas e recaidas. Tem boa formaçao, foi camera e editor. As vezes pega servico de pintura c comerciantes q confiam em seu trabalho, q ele faz direitinho. Mas... Quer ser internado e nao pode.

Talvez a internaçao seja para ele uma fantasia, uma ilusao. E se nao for? E se for uma fantasia necessaria p q ele aguente?

Tanto teórico especialista em crack e morador de rua... Tanta generalização... "Precisam de trabalho". Tanto mutirão, receita coletiva, soluçao coercitiva ou libertaria igual pra todo mundo...

Os efeitos e consequencias do crack, devastadores, cabem em uma tabelinha. As caracteristicas de cada individuo, nao.

Como faz?"

Minhocão parte 2

(Começou no post abaixo)

Capítulo 4

Chegando ao CAPS pouco antes do meio-dia, ficamos sabendo que o turno da manhã já tinha terminado e a triagem só aconteceria as 15h, "depois do intervalo de almoço". Reclamei: "Intervalão, hein"? "É que também tem troca de turno".
Ok, ok.

Resolvemos esperar, claro. Os dois com a ansiedade sob controle, totalmente decididos. Mas visivelmente decepcionados quando entenderam que a triagem não era um procedimento imediatamente anterior à internação. Foram de mala e cuia pra lá crentes que ficariam internados. Nós (eu e minha amiga que está acompanhando os dois ainda mais de perto) os tranquilizamos: "Nós não vamos largar de vocês enquanto não estiverem encaminhados de algum jeito".

Às três horas - depois da Maria Paula pagar um almoço para eles - passaram, um de cada vez, por uma longa entrevista. O passo seguinte seria um exame clínico dali a dois dias às sete da manhã. O que trazia muita esperança a um deles, principalmente, era saber que o tratamento incluía remédios. Ele anseia por remédios para ajudar a aguentar a abstinencia.

Capítulo 5

Um dos dois (digamos, "Claudio") lembrou que conhecia um Pastor Silvio que tinha projeto para dependentes de drogas onde eles poderiam se internar imediatamente. Lembrou o nome da instituição, com o Google conseguimos endereço e telefone. Poderíamos ir São Miguel Paulista para "dar entrada" e de lá eles iriam para a chácara onde é feito o tratamento. O método é basicamente oração, trabalho e apoio mútuo.

Foi fácil de achar e fomos super bem recebidos. Depois de ter passado o dia todo com eles, no entanto, não poderíamos acompanhá-los até a chácara em Guarulhos. Deixamos nossos números de telefone - a Irmã que fez a acolhida seria nosso contato para saber deles e para que eles mandassem notícias. A primeira visita só poderia acontecer dali a 15 dias.

O "Alberto" ficou relutante. Sabendo da rotina de trabalho, orações e vigília, criou coragem para perguntar: "E remédio? Não tem remédio"? Desde o início, a promessa de remédio do CAPS o tinha animado. "Vocês vão passar por um médico, farão todos os exames e usarão toda a medicação que ele indicar e terão acompanhamento periódico com ele e um psicólogo. Vou agendar o médico para amanhã de manhã, para vocês ficarem mais tranquilos".

Alberto pediu celular emprestado para ligar para a mulher. Encabulado, ficou um bom tempo falando com ela, explicando onde ficaria, como seria feito o contato com família e amigos, quando ela poderia visitá-lo. Fiquei com a impressão de que ela estava meio brava - cética, vai ver; no mínimo desconfiada - e que ele, ficou inseguro.

Fizemos uma contribuição - não poderia pagar o valor completo (que é mesmo "para quem pode"), mas deixei R$200 para cobrir as despesas mínimas de estadia de cada um. Eles entraram no carro de um pastor (peruano muito gentil, ele mesmo ex-usuário, assim como a Irmã) e fomos embora também.

Capítulo 6

No trânsito das 6 da tarde, comentávamos o dia. Ânimo, desalento, preocupação, esperança, confiança, receio... Em algumas horas, passamos - os 4 - por isso tudo. Mas, incrivelmente, tinha dado certo no final. Era a primeira vez que ela se envolvia de maneira tão próxima com moradores de rua e usuários de crack e estava impactada pela experiência, a paciencia, persistência e disponibilidade necessárias, as idas e vindas. Não víamos a hora de visitá-los.

Avisei: "A gente tem de ficar preparado para dar tudo errado... Para daqui a uma semana eles estarem na rua de novo".

Capítulo 7

50 minutos depois, a Irmã ligou no meu celular: "Eles não quiseram ficar. Não se sentiram bem acolhidos. Rasgo seu cheque"?

Sim, por favor...

[Continua e continua e continua...]

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Minhocão

Prólogo

1º de ano, levamos algumas coisas que sobraram da celebração no templo budista para o Minhocão, onde conheço algumas pessoas. Mas nem precisava. Encosta o carro, abre a porta, oferece doces e frutas, já vem alguns menos desconfiados. “Tem alguma coisa salgada”? “Tem, o pessoal levou pra lá [uma roda no canteiro central], tem bastante”. “Não tem mais para eu levar comigo? É que eu moro em outro mocó”, disse a moça. Em outro vão debaixo do Elevado Costa e Silva.

“Tem roupa?”, pergunta um. Tinha. Roupa boa, nova, cuidadosamente dobrada, para dar para quem estivesse precisando.

Depois de levar um pacote de chocolate para o grupo, um rapaz volta. “Posso pedir uma coisa”? “Pode. Se eu puder...”. Esperava qualquer pedido: passagem pra voltar pra minha terra, dez reais pra comprar farinha, ajuda para tirar documentos (foram os mais recentes, na véspera do Natal). “Arruma um tratamento pra mim. Não aguento mais. Voltei agora do Pronto-Socorro, [foi por causa do] pulmão”. Falou sério, sem drama. (Tem tanto drama e dramatização...) “Claro, vou ver o que consigo fazer. Nos próximos dias não vou estar em São Paulo, mas volto daqui a uma semana”. 

Medo de ele não segurar as pontas até lá. Medo de ele desistir de buscar tratamento. 

Capítulo 1

Uma amiga estava junto, sentiu sinceridade no pedido e voltou enquanto eu estava viajando. Perguntou por Luis, crente que era esse o nome. Depois de uma sequencia de “não está aqui” nos vários vãos, alguém disse “tá lá no PS”.

Foi ao PS Barra Funda, entrou na boa (às vezes "embaçam", não deixam, mas ela explicou o intuito), andou pelos corredores perguntando “Luis?”. Ficou horrorizada com a cena que todos sabemos mas poucos vemos: gente nos corredores, deitada ou recostada no chão. Muito morador de rua. Tinha Luis nenhum.

Eu: “Não era Luis, era André!”. “Nossa, lembro tão bem da fisionomia dele, troquei o nome??!”

Capítulo 2

Voltou, perguntou, encontrou o Alberto (o nome é outro, esse eu inventei). Que continuava totalmente disposto e ansioso por tratamento. Ela me ligou com ele do lado, conforme o combinado.

Eu já tinha perguntado em um CAPS-AD pelo qual passo sempre qual “o procedê”, como diriam. “Moram debaixo do Minhocão"? Teriam de ir ao CAPS Pinheiros, fora da mão pra mim e pra eles. “Você vai ficar como referência deles? Então traz comprovante do seu endereço e a gente passa eles pela triagem e depois vê onde vão se tratar de fato. Eles tem documento”?

Sei lá. Descobriria depois. 

***
Expliquei por telefone para Maria minha amiga, ele tinha documento sim. Combinamos às 10h30 do dia seguinte na frente da estação de metrô


Capítulo 3

Eu tinha receio de ele não aparecer, ela também. Mas ele estava determinado mesmo. Catou as posses todas (em uma sacola de supermercado) e se despediu do pessoal, que desejou sorte. 

O João, com quem já encontrei muitas vezes (que canta “King of Pain” (Police) sem errar uma palavra e sabe exatamente o que está dizendo) fez sua costumeira cara triste e disse que queria ajuda também. “Meu problema é o álcool”. “Ué, você não falou outro dia que largou o crack mas em compensação cheira muito”? Riu falsamente encabulado, tentou negar mas viu que já era. “Maconha, cocaína e bebida”. “Por que não fica só com a maconha, homem”?

No fim, não quis ir com a gente. Quer que eu interne a força a namorada dele, "que tá no crack lá no parque Dom Pedro". Eu a conheci no Natal – carioca, negra, bem baixinha, tem vinte e poucos anos e não sabe ler. Figura. Pergunta PRA ELA se é namorada dele? “Já fui, gostei dele pra caramba, mas não dá. O cara quando bebe fica ignorante”. 

Outro também perguntou “tem mais uma vaga nessa barca”? Pegou o “kit” (todos os pertences em uma sacolinha, como o outro) e embarcou no metrô com a gente sentido CAPS.

[Continua nos próximos posts... E continua, e continua...].

domingo, 8 de dezembro de 2013

Depois a gente reclama que não escutam...

[Publicado originalmente as 9h, editado as 15h00)

Uma das coisas mais irritantes desse mundo é falar e não ser ouvido. É querer falar e não ter como.

Viver numa cidade como São Paulo transforma essa irritação em ódio um sem-número de vezes. "PORRA, como é que ninguém resolve essa merda"? Aí pode ser um miserável de um buraco no meio da rua, uma espera de mais de uma hora por um ônibus, um sistema que cai toda hora, uma calçada coberta de mato e entulho, a falta de um equipamento de lazer, a burocracia INSUPORTÁVEL, a má-vontade, a desonestidade, a burrice.

Ou quando "resolvem" alguma coisa da cabeça sabe lá de quem, alguém gênio que nunca na vida precisou pegar um ônibus mas tem a solução para os pontos.

Não é à toa que os programas em que os repórteres enquadram as autoridades ou BERRAM no ar fazem tanto sucesso.

Pois muito bem. Quando aparece uma oportunidade de sermos OUVIDOS, não podemos desperdiçar. Mesmo que elas sejam imperfeitas. Mesmo que, pior do que isso, sejam meia-boca. Porque só entrando onde der para entrar a gente consegue aumentar esse espaço e torná-lo mais verdadeiro. É assim com audiências públicas (quanto mais vazias, melhor para o governo, que vai dizer "EU FIZ A MINHA PARTE"), debates eleitorais, conselhos.

Hoje tem eleição para os Conselhos Participativos nas Subprefeituras. O processo já começou meio torto, com a prefeitura tentando manipular as regras de modo a aumentar as chances dos candidatos apoiados pelo governo (AH VÁ). Mesmo assim – ou POR ISSO MESMO – quem quer participar PARA VALER tem mais é de ir votar.

É rápido, é fácil, é indolor. O local depende do seu título de eleitor – coloca o número dele aqui e você vai saber. Aí você leva o próprio título ou um documento com foto e pode escolher até cinco candidatos da sua região. Aqui tem a lista completa de candidatos.

Eu voto na Lapa e meu candidato aqui é o Rafael Saragiotto – 81.045. Mas conheço e apoio muita gente em outras Subprefeituras. (continua abaixo)

Esta não é a lista completa, porque esses são só os nomes e o número que eu sei de cor. Mas vou até ali na SubLapa votar e depois eu volto “aqui” e completo.

BORA APROVEITAR OS ESPAÇOS QUE ELES ABREM PRA GENTE FALAR!

***
Uma ZONA a eleição do Conselho Participativo.

Pra começar, as regras do processo eleitoral foram manipuladas de modo a dar mais força a candidatos afinados com o governo(como foi o governo quem o fez, como negar?). Eles descaracterizaram COMPLETAMENTE a ideia de um Conselho Participativo por Distrito.

Imagine que os eleitores podem votar em candidatos de qualquer lugar da cidade. O lugar onde você vota é "georreferenciado", como sempre (eu votei no prédio da SubLapa), mas o candidato não. Na prática, isso significa que eu posso ajudar a eleger conselheiros de Itaquera, M'Boi ou Butantã, sem viver lá. E os conselheiros do Jaguaré podem ser todos eleitos com votos vindos do Morumbi ou Cidade Dutra - nos casos dos partidos grandes, fazer campanha assim é muito fácil, é só mobilizar os filiados - e nenhum voto vindo do próprio Jaguaré. Olha o absurdo.

E se você não souber o número do seu candidato, vai precisar ter muito saco para procurar lá. (Imagine se não souber de nenhum dos cinco em que pretende votar). Tem lá uma pilha com 136 páginas e o nome de todos os candidatos. Em ordem alfabética? Não. Organizados por distrito. Aí pode acontecer perfeitamente de alguém conhecer muito bem um candidato mas não saber se aquela rua onde ele mora é do distrito Barra Funda ou Perdizes (dois dos seis distritos da Sub Lapa). Então, como não tem sequer um índice para facilitar, você tem de folhear tudo até encontrar a Subprefeitura que procura e correr os olhos entre todos os candidatos até chegar ao seu. Se tiver mais gente na fila, já viu. Se tirarem os papéis da ordem, idem. E se você nem tiver certeza se o candidato em que quer votar é da Sub de Pinheiros ou da Lapa, vai ter de ter muita paciência e atenção.

(Aliás, é uma lista igual à que tem na internet - um arquivo pdf que não permite busca por nome. Inacreditável)

Pensa que acabou? Algumas zonas eleitorais foram montadas longe demais dos locais "normais" de votação. Alguém que mora, digamos, na Paulista e normalmente vota no Rodrigues Alves vai ter de ir até a Barra Funda (é um exemplo faz-de-conta porque não lembro de nenhum concreto, mas a relação de distância é parecida).

Bom, como a votação vai até as cinco, vão aqui alguns nomes que eu sugiro para tentar ajudar.

Jair do Amaral, de Pirituba - 74033
Rafael Saragiotto, da Lapa - 81.045
Helena Werneck, da Sé - 82.029
Zeca Pauliceia - 75046
Pádua, da Mooca - 86.015
Professor Alessandro Rossini, da Vila Maria - 80003

Estou na rua, quase sem bateria e não consigo pesquisar mais do que isso, mas se votarem em um, dois ou cinco desses seis, juro que serão votos dignos de confiança. E eu mesma vou ficar no pé para cobrar (sou uma mala)

Valeu.






sexta-feira, 26 de abril de 2013

Cinquenta tons de cinza

"Vai de metrô até o Brás, pega o trem sentido Estudantes e desce em Ferraz. Até a escola dá 1km e pouco, uns 20 minutos de caminhada".

Trem sentido Estudantes = igual a embarcar no de Guianases, baldear e pegar o que vai pra Estudantes. Mas isso só se desobre perguntando, porque a sinalização da CPTM no Brás continua ruim :o/

***
Íamos andando até a escola (eu e um amigo fotógrafo), mas estávamos de pé há horas com sacolas pesadas, então resolvemos pegar um táxi. Que não reconheceu a rua pelo nome, mas quando a gente disse que era "no São João, uma escola de estado", ele nem perguntou mais nada, "sei".

Tomara soubesse mesmo. Até porque, se dependesse de mim para informar o nome da escola, esquece.

***
"Não tô sequestrando vocês não", brincou, enquanto se enfiava em uma quebrada escura, pouco habitada, mato alto. Mas ali, no meio do mato, no alto do morro, estava a escola. Uma senhora muito expansiva e sorridente, com jeitão de gente finíssima (e no fim era mesmo) gritou para dentro do carro "é aqui mesmo".

Desci; ela ralhava em tom de gozação com um rapaz alto, com ar malandro mas mais atrapalhado que agressivo: "Jogou o cigarro no chão, Gabriel? Pô, Gabriel". Depois descobri que ela é a diretora. 

***
Escola de estado tem tudo aquela mesma cara... A cor das paredes, o piso, as dimensões do pátio, as escadas. Mas essa é bem ajeitadinha. Limpa (diz que depois da saída do turno está suja de novo, mas é assim também na PUC...). Portas, janelas, latas de lixo, sala dos professores, murais... Tudo bem cuidado.

Gostei da diretora, dos professores, dos funcionários. Simpáticos, animados, "descolados". E compreensivos. O portão não fecha rigorosamente às 19h00, porque eles sabem que é difícil chegar ali, principalmente para quem trabalha.

Mesmo assim... Depois de fechados os portões, muitos alunos pulam o muro... pra sair. E é alto.

***
A quebrada é feia mesmo. A escola tem um acordo com os bandidos: "da esquina pra lá", eles fazem "o deles". "Da esquina pra cá", não. É espaço da escola.

Eles respeitam.

Mesmo assim, na saída do "merendeiro" (geralmente é mulher, né?) na segunda à noite, mal ele botou o nariz pra fora do portão, encostaram dois garotos armados e levaram a moto. A polícia apareceu rápido e recuperou. O mais triste: "Eram ex-alunos. Com certeza tinham comido do que ele preparou. O que dá nessses moleques?". E fica a dúvida de por que eles não respeitaram o acordo e se serão punidos pelo tráfico.

***
A Secretaria de Cultura está organizando um festival com eliminatórias e tudo entre as escolas da cidade. Os alunos estão exultantes. A diretora, compreensiva mais uma vez, autorizou os meninos a sair de alguma aula, se o professor permitir, para ensaiar. "Não tem a menor chance de eles conseguirem se encontrar fora daqui".

Eu lembro quando a gente era liberada, no Colégio, para ensaiar, treinar, passar nas classes dando recado... Ô delícia.

***
O prefeito foi lá e falou sobre o estado lastimável em que encontrou a cidade. MUITA conta sem pagar, muita corrupção, prefeitura destruída. Foi lá o "dedo de silicone", lembra? Pois é, dá pra dar uma ideia... A diretora não se surpreendeu nem um pouco. Moradora antiga da cidade, filha do primeiro prefeito que Ferraz teve (foi emancipada não faz muito tempo), comentou enquanto tomávamos suco depois da minha palestra: "A gente sempre dizia "coitado do prefeito que entrar agora"."

***
"O Laudo Natal era o governador. Ele asfaltou muitas ruas e mandava os paralelepípedos pra cá. Foi assim que foi feito o primeiro calçamento aqui, quando meu pai era prefeito".

 Não acreditei! Quando fazem capeamento e recapeamento jogando asfalto por cima dos paralelepípedos - isto é, SEMPRE - fico indignada. Que desperdício!! Uma vez, quando era Subprefeita, perguntei se não tinha jeito de primeiro retirá-los, depois fazer o contrapiso e finalmente a "cobertura asfáltica". Riram da minha cara.

***
Contei para o Sergio Avelleda, ex-presidente da CPTM, que fui falando bem do trabalho dele no caminho. Em pouco tempo (uma gestão), aquela linha que corta a ZL melhorou muito. Era horrível. O Portela (ex-Secretário de Negócios Metropolitanos) falou no dia em que foi empossado: "Linha F é nossa prioridade. Mandei todo mundo que vai trabalhar comigo dar uma volta nela pra ver como ela está horrível). Chamei a atenção do meu amigo fotógrafo, carioca que mora há 15 anos em São Paulo, para os trens novos, os reformados, as estações idem... Os bicicletários, os muros derrubados... Falei que o presidente pegava o trem regularmente e que isso faz muita diferença...

Pensa que o Avelleda ficou envaidecido com os elogios? Como bom fanático pelo que faz, inevitalmente frustrado, respondeu um pouco trsite: "Putz, aquela estação de Ferraz já era pra estar pronta".

***
Enquanto estávamos na sala dos professores, um menino entrou procurando revistas para fazer uma atividade em sala de aula. Não tinha nenhuma.

Eu guardo tanta, mas tanta revista para alguém usar em sala de aula... Minha mãe sempre fazia isso; sempre tinha que recortar umas fotos, colar no caderno, fazer um cartaz... Com "cartolina branca, cola branca lavável, canetinha hidrocor". Já não tenho criança em casa, vou ver se mando umas pilhas pra lá.


***
A sala estava cheia de cartazes da Apeoesp, convocando para a manifestação de hoje na Paulista, xingando o governo de tudo quanto é nome. Sem que eu perguntasse, a diretora disse "eles vieram aí, pediram para colocar, claro que eu deixo". A professora que era minha anfitriã, que foi quem inventou de me levar lá, disse "Tem coisa que eles tem razão. Eu sou classe O. Tinha cinco quinquenios pra receber. Veio o senhor Serra e o senhor Paulo Renato e cortaram tudo. Não respeitaram direito adquirido! Eu encontrei o Serra uma vez em um evento quando ele ainda ia ser candidato a deputado. Ele me deu um quadro do Chaplin. Fiquei com tanta raiva dele que taquei fogo no quadro. E eu amo o Chaplin".

Ele tem um "certo" talento para exagerar na dose da austeridade... É f. Corta privilégios, bota ordem em algumas zonas mas no caminho atropela um monte de gente boa :o/

***
Perguntei para os meninos do Ensino Médio no auditório improvisado (eles desceram com as cadeiras da sala de aula) quantos já sabiam o que queriam fazer depois da faculdade. Uns 80% levantaram a mão. Fui tentando adivinhar os cursos: Direito, Medicina, Nutrição, Psicologia, Engenharia, Rádio e TV, Gastronomia... Tinha mão levantada para todos eles.


***
No caminho da Câmara para o Metrô (fui pra Ferraz depois da reunião da CCJ na quarta-feira), encontrei um líder muito bacana lá de São Miguel. Ele foi o responsável pela reforma (ressurreição...) do Mercado de lá, que estava um lixo. "Sabe quando você faz uma licitação? As pessoas se inscrevem, né? Lá não. A gente pra licitar os boxes tinha de ir atrás laçando interessado. Nem meu irmão quis entrar. Hoje, vai ver quanto vale um ponto daquele. Agora meu irmão brinca que ele devia ter entrado. Olha, ainda bem que não entrou, senão já iam falar que tinha coisa". Gente boa demais, verdadeiramente preocupado com o seu pedaço de mundo. "Vão inaugurar a estação nova em um lugar muito bom. Mas o comércio que ficava no caminho da estação velha vai ficar largado! A gente tem de pensar em alguma coisa para aquele pessoal ali!".

Conta que ajudou muito um vereador que hoje é Secretário. "Arrumei muito voto pra ele ali. Depois comecei a ver como é que ele trabalha... Não quero mais saber dele não". Eita nóis.

***
Na volta, peguei um táxi na Luz e o motorista me reconheceu. Gosta muito de mim. Odeia o Serra. Foi exonerado da Febem depois de ser acusado de tudo de ruim - agressão, tortura. "Foi pessoal. Me pegaram pra Cristo. Absurdo, um processo que levaria pelo menos dois anos foi concluído em quatro meses. Coisa da Berenice, que está lá até hoje. Agora tô aqui, atrás do volante".

Não tem tanto bode do Alckmin. Diz que "hoje em dia, não tem mais esquerda, nem direita. O que tem é situação e oposição". Tem medo dessa "aproximação do PT e do PSDB".  Eu disse "não se preocupe, ano que vem eles vão estar um contra o outro tentando se matar".

***
Simples o mundo, né? Preto e branco.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Segunda, 28

Pedi média e pão com manteiga na padaria, rapaz que me atendeu puxou conversa. "Se a senhora fosse o governador, presidente, não sei, o que ia fazer com essas casas noturnas?"

"Nessa hora muita gente aparece querendo criar leis, mas tem mais razão aqueles que exigem fiscalização das leis que já existem"

Ele concordou.

Mas pensei melhor e lembrei de mudanças que precisam ser feitas, sim, na legislação.

Para deixá-la mais... simples. Mais clara. Consolidada.

Hoje em dia, a aprovação de projetos, plantas, abertura de um negócio é baseada em um conjunto tão confuso, extenso, indecifrável ou incompreensível conjunto de regras que é muito mais fácil, e às vezes tentador, fazer errado.

Alguns QUEREM fazer certo. Respeitam todas as determinações da prefeitura, Bombeiros, CREA, Inmetro, Vigilância Sanitária, tudo. E não conseguem abrir seu negócio porque, de posse do emaranhado de leis, decretos, portarias e normas técnicas, um funcionário desonesto consegue por obstáculos sem fim, até que o empresário pergunta: "O que mais eu "preciso" fazer para conseguir o alvará/licença de funcionamento?". Aí vem o "cafezinho" - que, conforme o caso, custa tanto quanto a cafeteria completa. E a fiscalização depois será na mesma base - que mané verificar se as saídas de emergência funcionam, é só pagar o café todo mês e pronto.

E tem os casos piores - o empresário nunca quis fazer nada certo, já chega oferecendo uma grana e pronto.

Nas duas versões - extorsão e propina - fiscalização é fundamental. Lógico. Mas insisto: se as normas forem confusas, "misteriosas", as pessoas terão dificuldade de fiscalizar. De fiscalizar o fiscal.

Então, procuremos todos conhecer as regras. Seguir as regras (como alguém lembrou hoje no Bom Dia Brasil, quando você aluga um salão pra festa de casamento, lembra de verificar alvará, segurança etc??), compreendê-las, divulgá-las, brigar por mudanças se for o caso.

***
Conversa continuou com ele me dizendo para "não desistir que eu chego lá". E contando que não desiste também - está a um ano de terminar a faculdade de Turismo. Tem contato com a prefeita de João Pessoa, sua terra, e está mandando projetos para ela avaliar - "Turismo para a terceira idade; programas turísticos com crianças da rede pública". Muito legal. Trocamos emails e espero que ele me mantenha informada;
prometi mandar algumas coisas também.

Ele também quer fazer uma pós, mas "sabe como é dificil conciliar com o trabalho aqui". Gente esforçada, persistente, animada, sonhadora ---> <3 p="">
***
Cenas da cidade: ao meu lado, o filho da dona ou gerente da Lan House, chegou da escola e correu para o computador. Queria jogar "Ben 10" e outras coisas que não ouvi. Tem uns 7 anos, se tanto.

Sentou-se na caderia e, enquanto esperava a máquina ligar, arriscou, com o maior sorriso: "Vou me drogar".

Na mesma hora a mãe saiu do balcão: "O queeeeeee?". Com a cara de espertinho que Deus lhe deu, respondeu: "Nada. Não falei nada".

Claro que ele ouviu alguém falar alguma coisa relacionando droga e internet, talvez condenando o vício em computador, talvez dizendo "eu não preciso de drogas, essa é a minha droga" (trabalhar, estudar, brincar, jogar). Nunca saberei. Mas a mãe foi firme: "Não fala mais essa bobagem. Coisa feia". Ele entendeu direitinho.

***
Até chegar à Lan House - adoro para me concentrar no trabalho - perguntei para umas cinco pessoas diferentes onde encontrar uma. Impressionante como não é mto fácil aqui em São Paulo; já tomei várias canseiras procurando. Fica a dica para quem precisar de uma em Santa Cecília: na travessa da Rua das Palmeiras que tem um Extra na esquina, um pouco pra cima dele. Fica meio escondida no térreo de um prédio, mas tem faixa pendurada da grade. A conexão é bem boa :o)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Eu venci, nós empatamos, vocês perderam

Como eu sempre digo (e não adianta nada, e por isso quero ser deputada federal para ver se faz mais efeito), o governo federal juntou uma porção de obras e chamou de "Plano" de "Aceleração". Boa parte dessas obras é de responsabilidade de estados e municípios; em alguns casos, o recurso é integralmente do governo federal e a obra também; em outros, ele só coloca o dinheiro. Tem de tudo: da Transposição do São Francisco e Belo Monte à construção de quadras cobertas nas escolas (vê lá se isso deveria ser considerado obra do PAC...). E em outros ainda, o governo local responde pela maioria dos recursos investidos e pela totalidade da obra. Imagine em que estado isso acontece muito - São Paulo, claro.

Aí, se a obra atrasa, se tem problemas com licitações, licenciamento, contratos, pagamentos, acidentes, questionamentos quanto a desapropriações, desocupações e compensação ambiental, é o governo estadual quem responde por tudo isso. MAS quando a obra fica pronta... Ê, é obra do PAC! Vai o Lula na inauguração e fala um monte! O relatório mostra o sinal verde e isso ajuda a elevar o índice de conclusão de projetos.

E depois eles ainda FALAM MAL DE SÃO PAULO, dizendo que a gente está ficando para trás enquanto o país avança celeremente. Que a gente não usa dinheiro federal porque não quer.

)(&*Y*YYGH*&T)(&¨¨¨%#@&¨R

Um exemplo entre muitos:


O governo do estado realiza várias obras de saneamento, melhorando uma cobertura que já é, de modo geral, muito melhor que do restante do país, com grande volume de recursos próprios e a execução todinha sob sua responsabilidade e... o PAC comemora o resultado.

#brincadeira.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Estação Carandiru

Tuitei:


Cenas de domingo 1: mãe atlética corre empurrando triciclo com filho com deficiência (possivelmente PC) na Dumont Villares. Com prazer.


Cena de domingo 3: vendedores esfregam 3 dedos indicando "compro seu carro" na rua do estacionamento do Anhembi. Carro usado tá barato agora

Perguntaram o que é kit-jumbo. Ia copiar e colar de alguma Wiki, mas achei mais legal buscar o Estação Carandiru, do Drauzio Varella. Que li muito tempo atrás, mas por aquela intuição que bate às vezes praticamente abri na página que explica o que é. Longo demais para um tuíte, então aí vai:

"Ao redor das duas, três da tarde, já é servida a janta (...). Daí em diante, quem tiver fome que se vire por conta própria.

Os horários esdrúxulos das refeições justificam-se em função da contagem, que deve acontecer às cinco da tarde. Daí a importância do recorte e a necessidade dos "jumbos": 


- O jumbo é a sacola que a família traz pra nós na visita ou deixa na portaria nos dias de semana. Ajuda muito, embora que tem uns cabeça-de-bagre que passam o jumbo na sede para pagar dívida de droga". 

No capítulo seguinte, Fim de Semana, ele fala mais um pouco do que a família traz:

"As visitas carregam sacolas de plástico abarrotadas; potinhos de plástico com pastéis, maionese, macarronada, calabresa frita e frango assado. Não há a menor preocupação com o colesterol: trazem só o que o preso gosta". 

No canteiro central em frente à entrada da Penitenciária do Estado, uma barraca de ambulante oferecia grandes sacos pretos, do tamanho dos que algumas pessoas já carregavam enquanto esperavam na fila o portão abrir. Na verdade não vi o que tinha dentro, mas não consegui pensar em outra coisa que não um "jumbo" pré-preparado. As pessoas vem de muito longe às vezes; é muito prático encontrar uma "cesta-básica para apenado" tão perto do destino. Brasileiro, empreendedor de nascença, já enxergou ali uma oportunidade.

Até chegar o rapa.

***
Deu vontade de reler Estação Carandiru. Recomendo muito.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Rua das Crianças, parte 1

Samuel, 3 anos. Três! Pensei que era uma criança miúda de cinco, de tanto que ele fala, contesta, pergunta, observa, conta, elabora.

- Soninha, pode nadar no rio?

CADA frase dele começa com "Soninha, ...". Foram umas 200 frases nas 5 horas em que passamos juntos.

- Naquele rio da sua casa não pode, porque ele é muito sujo.

Breve discussão no carro sobre "sujo de que". As meninas mais velhas, moradoras como ele da Rua das Crianças, Jardim Pantanal, discorrem sobre lama no fundo, xixi, cocô.

- Soninha, se o rio fosse limpo, pode nadar?
- Depende. Se ele for fundo não, porque pode morrer afogado.
- Por que morre afogado?

Porque afunda, fica com o pé preso na lama, engole água, água suja... Enche o pulmão, não consegue respirar.

- Mas pode gritar para alguém tirar você de lá.

Pode não ouvir, pode não dar tempo, pode não ter ninguém por perto, pode não conseguir gritar, pode não conseguir tirar.

- Soninha, se o rio fosse limpo e fosse raso, pode nadar?
- Sozinho, não. Se tiver um adulto por perto, pode.
- Por que um adulto?

Incrível, o Samuel. Que ao fim conseguiu reunir todas as condições para poder nadar no rio.

***
- Esse ano vai ter enchente.
- TOMARA que tenha enchente (Joyce, 14 anos).
- Você tá LOUCA? (Juliana, a irmã de 17).
- Eu não, tomara que encha logo porque só assim tem apartamento. Não aguento mais esse lugar. Ninguém merece. Não vejo a hora de ir embora daqui.

***
O Pantanal é o fim do mundo. 40 km de distância da Pompeia, no ponto cardeal oposto (Poente). Mas não é só a quilometragem; o fim da Rua das Crianças já é o fim do mundo se comparado à avenida mais próxima.

Parece que eu estou de volta à Vila Operária no começo dos anos 70, o bairro caiçara no fundão de Peruíbe, perto da linha do trem. Taperas de madeira, ruas de areia e água, crianças, pobreza. Mas é São Paulo, SP, Brasil, século XXI.

Corintiano pra todo lado rs. UM corajoso menino pequeno com camisa do São Paulo. Muito menino pequeno, muito.

***
Chegar até o Jardim Helena é fácil. Marginal, Trabalhadores, passa a entrada para Cumbica, passa o acesso à Jacu Pêssego/Anchieta/Imigrantes, segue para São Miguel - a segunda, entrada, que também dá acesso a Pimentas. Logo sai pra esquerda, direita na rua larga com nome de japonês, esquerda, direita, esquerda, acabou o asfalto. Aí é que complica, porque as ruas ("ruas") são todas muito parecidas. Passei do ponto, fui parar do lado de lá da curva do rio. Fiquei esperando uma porca passar com dois filhotinhos atrás. No fim achei a rua (pombas, se eu soubesse que chama "Das Crianças", o GPS teria me informado. Placa com o nome dela não ia ter mesmo, mas o Iphone é mais esperto e confiável que o poder público).

***
Tenso. A menina com quem eu tinha combinado o passeio sai de dentro de casa aos prantos, chama uma vizinha pra ajudar - "Corre, tá quebrando tudo lá dentro". Logo sai uma mulher fora de si girando uma vassoura como se fosse uma boleadeira e a menina diz "sai com o carro, sai, vai pra lá, para lá na frente".

Parei "uma quadra" adiante. Cinco minutos depois a mulher vem pela rua, andando pesadamente, na direção do meu carro. Fiquei onde estava, janela aberta. Sem vassoura, no máximo me daria uma bofetada. Já ia passando sem se deter quando deu um passo pra trás. "Que susto!" (Assustei de verdade, e já funcionou antes para surpreender alguém que pretendia me agredir). A voz enrolada pediu desculpas. "Claro que desculpo", disse beeem suavemente. "Tem miliano que eu moro aqui, você entrou, você vai sair, quero ver quem não vai deixar você sair. Você me desculpa. Me desculpa? Eu não bebo não, viu".

Frio na barriga. Ô saco, será que os bandidos estão implicando com a minha presença (da outra vez que saí com as meninas, elas ficaram com medo de chegar em casa depois do "toque de recolher")? Costumo tretar com bandido nessas situações, mas veja bem, prefiro não.

No fim era "só", somente, apenas um problema de porre da mãe, mesmo. "Ela sempre fica assim".

***
A mãe apareceu duas vezes na conversa durante o passeio.

"Amanhã ela tem consulta" - com uma filha com deficiência intelectual, peleja para conseguir uma pensão para a menina. "Desse jeito ela vai perder a consulta", inquietaram-se as irmãs. "Antes não era assim. Ela podia ficar bebendo atééé de madrugada que no dia seguinte, a hora que precisava levantar ela levantava", contaram com orgulho.

A segunda vez foi quando a mãe da única menina que não é da mesma família, nossa colega de incursão/ excursão pelas luzinhas de Natal do Ibirapuera, ligou brava pra saber que horas eu ia levar as meninas para casa. "Eu tenho que trabalhar amanhã cedo. Ela saiu e nem me pediu porque eu não tava em casa. É só dessa vez que ela vai, da próxima não vai não".

Fiquei preocupada, as meninas me tranquilizaram. "Ih, não liga, minha mãe é chata assim mesmo". "Toda mãe é um pouco chata. Eu sou...". "Não, a senhora não tá entendendo. Ela é muito chata. Mas no fim não pega nada".

Joyce e Juliana acrescentaram: "Não se preocupa não, minha mãe falou com ela já. Minha mãe disse - "Ela é meio doidinha mas é de confiança"".

Demorei dois segundos para entender a frase. Primeiro, pensei que a mãe delas duas estava falando da mãe da outra. Depois, que as meninas estavam falando da própria mãe. No terceiro segundo, pesquei: a "meio doidinha" mas "de confiança" sou eu, uma mãe afiançou à outra.

Dei risada.

A Joyce: "Mas você é meio doidinha".

***
"Meu pai é um safado sem vergonha que não paga minha pensão".

Esse foi o Samuel.

"Um dia", contaram as mais velhas, "ele foi na feira atrás do pai. Chegou pra ele na frente de todo mundo e falou assim - "Minha mãe vai colocar você no pau porque você não paga minha pensão"."

Cuidado com o que se fala na frente do Samuel.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

X9 ZS

Helena, minha diarista, mora em um CDHU na Zona Sul.

Outro dia o sobrinho dela foi assassinado quando chegava de moto à casa da namorada. "Motona, rapaz bonito... Ninguém sabe se foi ciúme, se foi à toa, se confundiram ele com policial. Trabalhava como garçom em evento, era muito querido".

***
Além da violência galopante, tem as tensões cotidianas. Os "nóias", as brigas entre vizinhos, as ameaças.

E o desrespeito disseminado.

"A vizinha alugou o apartamento dela (no CDHU) e construiu uma casa pra ela no terreno em frente (que é da CDHU). Ganha dinheiro com o aluguel, o bar que ela construiu também, não paga luz, não paga água...."

"Outro dia um senhor vizinho nosso estava começando uma hortinha no terreno em frente. Vieram uns caras com um revólver pra cima dele - "Metade do terreno aqui é CDHU, a outra metade é particular". Como é particular se agora estão fazendo uma escola? Uma parte é CDHU, uma parte é do estado!".

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Armas, armas, armas. Como é fácil ter.

***
Afilhada dela veio para São Paulo fugida da miséria e violência no interior da Paraíba. A história de como ela conseguiu chegar a Campina Grande e depois a São Paulo é daqueles épicos que a literatura "da seca" já escreveu um par de vezes.

Estuprada lá - coisa difícil de admitir - chegou a São Paulo e rapidinho "se perdeu". Bebia vinho vagabundo com as amigas, dormia na rua, caía no funk, sumia.

Tinha dores atrozes, sangramento. Médicos atendiam a menina como se fosse algo que o gato tivesse pegado no lixo e arrastado até a Unidade de Saúde. Um chegou a falar do nojo que sentia (vou perguntar para a Helena para relembrar as palavras exatas). Tomou um senhor esporro de outro médico que a atendeu dias depois, mais doente do que da primeira vez, quando ele soube da "fineza" do colega.

Pessoas FAZEM diferença. Tem um governo, um sistema, um Secretário, um Coordenador etc. Mas se o filho da p. que tem o diploma, o registro no Conselho, está de plantão e atende os pacientes não tiver um pingo de honestidade, compostura, decência, respeito, nada mais faz sentido.

***
A afilhada usa crack. Engravidou e teve nenê com pouco mais de seis meses de gestação. Mirradinho, tamanho da palma da mão, ficou incubado semanas.

O pai (do bebê) é doido pela menina (a menina-mãe). É um garoto também... Apaixonou-se por ela, "vou tirar você desse lugar" (a rua).

A criança saiu da UTI neonatal e a mãe... Não sei se sabem do paradeiro. O moço queria cuidar da mãe também, mas se não dá, quer cuidar da criança, criá-la em sua casa, junto com a avó.

Mas...

Para adotar, teria, parece, de entrar na fila. Para provar que é mesmo o pai, teria de fazer DNA. Inscreveu-se no sistema público; prazo previsto: dois anos.

Enquanto isso, o bebê iria para um ABRIGO.

Por DOIS ANOS, imagine.

Não sei por que graça de Deus, a menina, me parece, acabou assinando um documento em que afirma que é ele o pai, portanto pode ficar com a guarda provisória até a confirmação oficial.

Talvez eu esteja contando a história errado. Acompanhei em capítulos, ao longo de muito tempo. Mas por mais errado que esteja meu relato, não tem nada mais errado que a história em si.


domingo, 5 de agosto de 2012

Missão comprida

Hoje eu devia ter zerado o hodômetro. Que foram mais de 100km, tenho certeza. Pompeia - Pqe do Carmo; de lá para o Bom Retiro; dali para Vila Ema. Uma passada no Brooklin para encerrar o dia e pronto, Pompeia #otravez.

***
Eu VI no Twitter que ia ter van grátis do metrô Itaquera para o Parque do Carmo, exatamente por causa do Festival das Cerejeiras. Mas tinha decidido ir de carro, ouvindo meus CDs. Domingo... Sussa. #vainessa #trouxa.

Os primeiros 7/8 do caminho foram bem. Quando já estávamos (eu e o Cesar) na avenida que margeia o parque o inferno começou. Tudo parado. 1km em 50 minutos, sabe como é? Não tinha para onde correr. Bom, nem para onde andar, onde parar, onde desistir do carro para sempre. Ali não precisava ter guardador, mas podia ter motorista de aluguel. "Moço, fica com meu carro e leva até a entrada do parque que eu vou a pé".

Não eram só os carros que estavam presos no mega congestionamento - os ÔNIBUS que passam por ali também estavam. Completo absurdo.

Uma hora veio uma ambulância do SAMU gritando desesperada. Fui me apertando, avisando os motoristas ao lado, consegui abrir espaço. Depois de passar pelo meu carro, a ambulância não conseguiu seguir em frente. IMPRESSIONANTE, ninguém mais fez o menor esforço para dar passagem. Ela subiu no canteiro central e foi pela contramão.

Quando eu for prefeita, não vou deixar entrar carro ali não, especialmente em dia de grandes eventos. Claro que o meu também não, que pergunta. Vou criar bolsões de estacionamento com linhas de van para fazer o translado.

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O transporte público TAMBÉM não colaborou com essa primeira parte da nossa jornada. O César vinha (veio) de trem/metrô da casa dele, perto da Estação Berrini, até o centro da cidade. O intervalo entre os trens estava sendo de 20 minutos.

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O Parque do Carmo é muito legal - enorme e bastante desfrutável. Mas é mal sinalizado que só ele. O evento  tem interesse maior do que final de campeonato, mas depois de passar pelo portão você precisa de um GPS para achar o caminho. Não tem placa, não tem faixa, não tem pintura no chão, não tem gente para mostrar o caminho.

Pô, demorei um tempão pra falar: #imaginanacopa.

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Tinha mais vereador na festa do que na Câmara.

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Nosso Claudio Fonseca estava lá. Durante a cerimônia de abertura, cujo palco estava repleto de políticos não-candidatos, tivemos boa conversa sobre projetos dele para os professores municipais. Blogarei amanhã.

Nosso Adinelson Motta também. Ele é candidato a ser colega vereador do Claudio Fonseca. Gente finíssima. Gozado foi o prefeito passar por ele: "Mottinha, quanto tempo!".Motta trabalhou na Câmara quando Kassab foi vereador. Eu nem imaginava.

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Resultado do DataIbope no Parque do Carmo: tenho uns 30% de intenção de voto.

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Corta para a Parte 2 da agenda: encontro no Instituto Cultural 7 Porteiras, na Avenida Tiradentes, 1290.
Onde eu pensava que já era Avenida Tiradentes, ainda era Santos Dumont. Quando começou a Tiradentes, o número (ímpar) era bem menor do que o do nosso destino. Fui atééé a Luz fazer o retorno e vim seguindo a Tiradentes de volta até o número... 1280, onde a rua terminava.

Ok, tá difícil entender, depois eu colo um mapa com desenhinho. Resumo da história é que Avenida Tiradentes e Santos Dumont se misturam e se confundem mesmo por um bom trecho - mas a Tiradentes continua como uma tripinha de rua completamente improvável, descontinuada, que devia ter outro nome! #coisasdesãopaulo.

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Eis o mapa com desenhinho:


Faço a menor ideia se ficou mais fácil entender agora.

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O encontro foi muito bom. Nosso anfitrião, Pai Guimarães de Ogum, reuniu dezenas de lideranças e frequentadores de Casas de Umbanda, Terreiros de Candomblé e outros interessados na discussão sobre respeito à liberdade religiosa, bandeira que o levou a disputar um mandato de vereador. Havia algumas dezenas de pessoas na plateia, mas ele estava amargurado com a ausência de dezenas de outras que tinham sido convidadas. Não viu nada... Não é raro o candidato conseguir reunir cinco, dez, vinte em um salão em que ele esperava ter cem amigos ou conhecidos. Campanha para vereador é uma das coisas mais penosas do mundo (exceto aquelas de 3 milhões de reais que, felizmente, são poucas. Mas funcionam).

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De lá fomos para ao encontro do Denilson Perozzo, outro candidato. Ponto de encontro: casa de dona Adelina (ai meu deus, não tenho certeza de que o nome dela é assim), uma figura daquelas que  derretem o coração da gente.

A cozinha da casa, uma belezinha, fica no fundo de um quintal com chão de terra e plantas, muitas plantas. Precisava ir ao banheiro, então entrei antes dos outros. "Ô de casa!", brinquei, sem saber quem ia encontrar. De bate-pronto ela respondeu, com a maior naturalidade: "Ô de fora!". Eu estava imitando um jeito de falar que já era antigo quando eu era pequena; ela estava falando de verdade.

O banheiro da casa tinha porta de cortina, como o da minha avó paterna. Parede e piso sem azulejo. Chuveiro sem box. Túnel do tempo.

Café passado no coador, bolinhos de chuva, garrafa de Fanta, sanduíche de bisnaguinha. E a dona da casa extasiada, pedindo desculpas por distribuir guardanapo de papel e agradecendo por estarmos ali. #vêsepode.

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Caminhamos até um terreno enorme na quadra de baixo. Era a chácara de uma família de alemães da qual fazia parte a Ema (pegou? pegou?). Uma reserva de Mata Atlântica, pequeno maciço verde a 500m da Anhaia Mello e o futuro monotrilho.

Uma construtora comprou a propriedade e pretendia fazer ali QUATRO TORRES de apartamentos. Disse que não ia derrubar nenhuma árvore. 1) Impossível. 2) Ainda que não derrubasse - seria um condomínio privado. 3) Ainda que liberasse o acesso do bosque ao público - um empreendimento desse tipo ia DESTRUIR a vizinhança. Uma rua estreita, tranquila, pedaço vivo da história do bairro. VIVO.

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Vizinhança agitou, vereadores Chico Macena e Juliana Cardoso encaminharam projeto para transformação da área em Parque Vila Ema e o prefeito baixou um Decreto de Utilidade Pública sobre a área, primeiro passo para a desapropriação. Um GRANDE passo, porque manifesta concretamente o interesse do poder público em tomar providência. Mas providência precisa ser tomada, orapois.

Segundo o povo de lá, estima-se que o terreno vá custar 27 milhões de reais à prefeitura. Se for isso, é uma pechincha. 'Xa comigo.

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De lá fomos para o Ong Ecobraz, que recicla equipamentos eletrônicos. Tão fantasticamente legal que vou deixar para contar essa parte depois. Quero voltar lá durante o dia para vê-la em funcionamento. E ajudá-los a comprar uma kombi em bom estado! Megasena? Ajudaria, mas não joguei. Tava pensado em Catarse mesmo.

(Tem foto da reunião na Ecobraz, e tb do Parque do Carmo etc, aqui no PPS Atualiza)

***
Véi, a Anhaia Mello tem placa indicando o caminho para a "Administração Regional Vila Prudente".

***
Saí de casa às 9, voltei agora há pouco. De manhã estava com preguiça; à tarde estava cansada, apesar de o passeio no parque ter sido muito legal. À noite estava recuperada e feliz, na vibe "eu amo São Paulo". Ô cidade legal. Doida, cansativa, burra às vezes, divertida, misturada, genial. Amo essa bodega de cidade, amo política, amo ser candidata. Tô com fome, tô com sono, tô sem voz e tô feliz.



terça-feira, 31 de julho de 2012

"Com'assim prédio popular nos Jardins?"

Pergunta que eu respondo!
Questiona que eu explico :o)



Amanhã (quarta), às 19h30, vou responder pela internet ao vivo - pode mandar sua pergunta desde já para soninharesponde@soninha.com.br.

Não seja mal-educado senão a sua mãe lava sua boca com sabão.

O endereço da transmissão eu vou passar amanhã mesmo pelo tuíter: www.twitter.com/soninhafrancine

bjs :)


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Não é pouco...

é MUITO legal! Tem um pessoal dando sangue para fazer isso acontecer. Você pode dar muito menos: com dez reais já ajuda. Mas também pode dar mais... hehehe

IOP/SP from bruno fernandes on Vimeo.


Informações: http://catarse.me/pt/projects/779-inside-out-sao-paulo-humanidade-compartilhada

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Não é uma gata à primeira vista...


Dei a entrevista no ano passado para uma revista de Turismo da Abril... Tema: São Paulo & seu aniversário. No fim, a repórter se desculpou - os editores vetaram: "Mané personagem paulistana o que, vai ser candidata, tá fora".

Pra não desperdiçar as respostas (lembrei disso agora), aí vão :)

1.  Desde quando mora na cidade? (desde sempre, já mudou e voltou, nunca mudou e nunca mudaria, SP é seu lugar no mundo...) 

Nasci em São Paulo, no apartamento 62 de um prédio na Duarte de Azevedo, Santana... A família inteira - italiana por parte de pai, portuguesa pelo lado da mãe - era da ZN. Já morei em vários lugares de Santana e tb na Liberdade, Jaguaré, Vila Madalena, Perdizes e agora estou na Vila Pompeia. Até gostaria de passar semanas ou meses em outros lugares do mundo, como Berlim, que eu amo - mas estaria o tempo todo pensando "por que não fazer isso em São Paulo também, ó raios?". As benditas ciclofaixas, o desfrute das áreas públicas, os patios internos nos edifícios abertos a quem quiser passar, os ônibus e metrôs sem catraca... Eu amo esta bagaça, com todos os seus defeitos. E, como todo mundo que a gente ama, fico querendo consertá-la rsrs. Se eu achar que já fiz por São Paulo o máximo que eu podia, aí sim me mando pro meu centro budista, onde pretendo estar quando morrer (sério! rs).

2.      Existe amor em SP?

Existe, Criolo! Em tudo quanto é lugar :o). Amor de casais por toda parte, de todos os feitios... De pais e filhos... De torcedores pelo seu time... Trabalhadores pelo seu trabalho (isso é bem São Paulo!)... Grafiteiros pelos muros... Músicos pela música... Amor de muita gente por cães e gatos, pelas árvores e filmes, pelos pedaços de horizonte que ainda dá pra ver entre os prédios, pelas mesas de bar na calçada, pelas bancas de revista, os parques e canteiros onde dá para correr, pela noite toda misturada de "boyzinhos" e rappers e roqueiros etc... Pelas padarias de manhã, os botecos a qualquer hora... Os ônibus elétricos, o metrô fora do horário de pico... A vida cultural "grátis"... Pelo centro velho e pela perifa... Um amor ao mesmo tempo fiel e "promíscuo" rsrs

3. Onde São Paulo é mais bonita? Onde é mais feia?

São Paulo é MUITO feia nas beiras de rio... Credo, o que foi que fizemos com eles... Uma amiga minha diz que um dia quer ser Secretária Municipal das Pequenas Marginais tipo Avenida do Estado, Aricanduva, Engenheiro Caetano Alvares...
Onde é mais bonita - onde a modernidade não desrespeitou a velhice... Onde há casinhas "de vó", com jardim, portão baixinho, imagem de Santa na entrada... Onde há edifícios de fachada caprichada em alto-relevo, igrejas caiadas, comércio antigo... Predinhos de três andares, árvores floridas.

4.  Pra não dizer que não falei das flores...onde elas estão no meio de tanto concreto?

No concreto! Ipês, azaleias, quaresmeiras, pata-de-vaca, manacás, alamandas... Lindas!

5.  Onde é melhor para ir à noite? (se costuma frequentar a noite...pra escutar uma boa música, etc)

Vila Madalena A PÉ, porque de carro é um inferno. Aí dá pra escolher o bar, restaurante, boteco, numa boa. Eu adoro a Casa de Francisca, uma preciosidade ainda meio "escondida" nos Jardins... O RoseVelt, na Praça Roosevelt... O Blu Bistrô, na Monte Alegre. Ou em um Supermercado seguido de uma boa balada em casa, com pizza e vinho #adoro :o)

6.   E pra tomar um cafezinho, uma cerveja, comer uma boa comida? Onde fazer a feira?

Cafezinho aqui no centro, durante a semana... Delícia... Pode ser no CCBB, no Café Latte (na 3 de Dezembro), no Café da Fazenda (em frente à São Francisco) - bons lugares para almoçar, também! O restaurante do Pátio do Colégio também é uma coisa linda. Perto da minha casa, na Desembargador do Vale, tem o Gusta Café & Restaurante que também é demais. E o Café Raiz, na esquina da João Ramalho com a Cardoso, que serve um adorável café coado na mesa.
Almoçar e jantar pode ser no Rota do Acarajé, em Santa Cecília; no Nama Baru, restaurante de inspiração Thai na Avenida Pompeia; a Cervejaria Nacional, na Pedroso de Morais, é super legal - e eu nem gosto muito de cerveja, mas fiz a degustação e curti!; estive em um lugar ótimo na esquina da Bartira com a Cardoso de Almeida, o "Di Bacco"; e fiquei "freguesa" da Praça no Itaim onde fica o Kinoplex, que tem várias lanchonetes e restaurantes. É um lugar ultra "burguês", que em princípio não me atrairia, mas trabalhei lá semanas a fio e curti as alternativas, que são muitas! De Applebees a Disfrutty (na rua), de alemão (Braugarten, ótimo, inclusive a sobremesa) a japonês (Kodomo), de Galeto's a Starbucks  e Floriano (esses cinco, na praça). E ali por perto ainda tem o Senhora Salada, com belo almoço e sorvetes incríveis; o Si Señor, delícia de mexicano; o "Ristorante e Pizzaria Babbá" e o Brunetto...
Como eu AMO comer, ainda falaria de muitos lugares, mas vou citar só mais dois, NADA a ver um com o outro - o primeiro é o Bar do Zé Batidão, onde dá pra comer uma bela porção de fritas com queijo ouvindo poesia às quartas feiras (Sarau da Cooperifa); outro é no Shopping Center!  Enquanto a Praça de Alimentação fica sempre lotada, tem um restaurante ótimo bem ao lado da entrada do cinema no Bourbon que sempre tem espaço. Chega a ser um desperdício! Chama Intervalo Forneria, tem umas comidas ótimas (eu adoro o picadinho e a pizza taco de palmito), preços honestos e revistas e jogos pra passar o tempo :o)

7. Como é a São Paulo do futuro? "Tem solução"?

TEEEM! Precisa ser mais "inteligente", menos teimosa... Parar com essa ideia de jerico de fechar as pessoas em espaços "exclusivos", em condomínios que "tem tudo", e deixar todo mundo curtir a rua, que é a graça de uma cidade...  A convivência "misturada", o espaço público compartilhado por quem ESTÁ nele e não só de passagem entre casa e trabalho, trabalho e balada... Tem de oferecer calçadas que sejam boas pra andar, pra sentar em um banco e olhar a paisagem ou sentar em uma mesinha e tomar suco ou cerveja... Tem de encurtar as distâncias pras pessoas poderem ir a pé pra casa... Poderem dormir mais e passar mais tempo escolhendo o que fazer, e não presas em um deslocamento... Tem de ter mais comércio de rua e menos hipermercado, onde só dá mesmo pra ir de carro e nunca fazer amizade com a moça do caixa... Tem coisa que é moderna (usar mais internet e menos papel, carimbo, ida ao balcão da repartição ou do cartório) e tem coisa que é antiga: preservem os mercadinhos, as padarias, as quitandas no térreo dos prédios!!

8. O que achou da declaração do filósofo Alain de Botton?

A da desigualdade? Se for, ele tem razão! São Paulo tem muitas graças, muitas belezas. Mas as belezas desfrutadas pelos mais ricos - a começar pela paisagem! - estão séculos distantes da feiúra de outros lugares. E a beleza é só o sinal mais visível, o código mais decifrável desse abismo. Dentro de sua casa em lugares feios, as pessoas já "alcançam" alguns confortos "de rico", como as TVs de Tela Plana compradas em mil prestações, geladeiras bacanas, aparelhos de som possantes. Mas quando saem à rua, não tem jeito - tem uma feiúra que é muito desencorajadora, com a qual elas (e nós) não deveríamos nos acostumar jamais.

9. Por fim...como boa paulistana, o que diria para os turistas que fogem daqui e só querem conhecer o Rio?

VACILOU! O Rio é lindo, eu amo - a caminhada ou corrida na beira da praia, o vôlei até de madrugada, a boemia... Mas São Paulo é f*da, baita cidade "fértil", vibrante, biodiversa (rs), oferecida, divertida. Venha, veja o que tem de coisas legais gratuitas, passeie de metrô (no contrafluxo...), ande por aí reconhecendo a paisagem, peça dicas de programas para amigos e conhecidos e se apaixone pela bagaça. Não é assim uma "gata" à primeira vista, mas é muito, muito interessante.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sentir-se bem em São Paulo - parte 1

Todos os anos, no mês do aniversário de São Paulo (que é dia 25 agora, para os mais avoados), a Rede Nossa São Paulo divulga uma pesquisa contratada por eles ao Ibope que procura avaliar a percepção que as pessoas que vivem aqui tem da cidade. Em outras palavras, o quanto a cidade as agrada ou não; o quanto elas são felizes aqui.

A ideia é fantástica - lembra muito o conceito de FIB, a Felicidade Interna Bruta que começou no Butão, despertou o interesse do Canadá, da ONU e de alguns brasileiros... Parte do princípio (óbvio, pois não?) de que o PIB é uma medida muito esquisita para se medir se um país vai bem ou vai mal. Ele soma "todos os bens e serviços finais produzidos em uma determinada região". Portanto, se forem produzidas (portanto consumidas, no próprio lugar de origem ou elsewhere) mais armas, remédios para enxaqueca, defensivos agrícolas, produtos descartáveis em geral, vidros blindados para automóveis e próteses para amputados em acidentes, o PIB terá um aumento, e nem por isso a nação é um sucesso. Enfim, o PIB não mede p. nenhuma de qualidade, só quantidade. Sequer leva em conta o tamanho, características e necessidades da população. Uma medida de jerico, diria eu.

Aí tem o PIB per capita, que já melhora as coisas um pouco, porque divide isso aí tudo pela população. O defeito é fácil de perceber - de novo, porque o "isso aí tudo" que é somado não é necessariamente o que a população mais precisa e também porque qualquer média aplicada a humanos é um erro. São Francisco do Conde, na Bahia, tem o maior PIB per capita do país - é um produtor de petróleo com população pequena. E é um lugar infeliz e miserável.

Inventaram, assim, o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano (para ser mais precisa, os economistas  Amartya Sen, indiano, e Mahbub ul Haq, paquistanês, o desenvolveram na última década do século XX). A coisa começa a ficar mais interessante. Avalia-se o acesso da população a serviços e benfeitorias básicas e, em tese, quais suas perspectivas e possibilidades segundo um consenso também básico da civilização contemporânea. Hoje, o IDH leva em conta:

(Vale a pena ler mais sobre a origem e o modo de cálculo do IDH; é muito interessante).

Alguns estudiosos já foram além, considerando que o IDH mede coisas TÃO básicas, fundamentais, elementares - como a taxa de alfabetização de pessoas com 15 ou mais anos de idade (o MÍNIMO que se pode esperar de uma nação moderna é que seu habitante chegue à adolescência sabendo LER) - que acaba sendo um índice complacente, isto é, condições que mal ultrapassam a linha da decência já ganham pontos positivos. Ou porque ainda leva muito em consideração o poder aquisitivo - e, como é fácil constatar no Brasil, as pessoas podem ser capazes de comprar um monte de coisas para si e ainda ter de pular uma fossa a céu aberto para sair de casa. 

A FIRJAN, por exemplo, procurou reunir indicadores que reflitam melhor a realidade brasileira no IFDM, "estudo anual do Sistema FIRJAN que acompanha o desenvolvimento de todos os 5.564 municípios brasileiros em três áreas: Emprego & Renda, Educação e Saúde". É muito interessante.

E os butaneses vieram lá com a ideia de FIB (veja também aqui). Que indicadores podemos reunir, que dados mensuráveis podemos ter para quantificar o poeticamente imensurável: a felicidade de uma nação? Evidentemente, cada país deverá buscar os seus indicadores, porque para um butanês a felicidade pode estar associada à possibilidade de se encontrar pessoalmente com seu mestre budista ao menos uma vez por ano (falando sério), e para um brasileiro, felicidade é ver um filho se formando na universidade.

O IRBEM,  (Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município), construído de forma colaborativa pela Rede Nossa São Paulo e objeto de pesquisa anual do IBOPE, é o mais próximo que temos aqui de um FIB. No dia 18, quarta-feira, foi apresentado o resultado mais recente: "Além dos dados relacionados ao bem-estar, a pesquisa Ibope também abordou o índice de confiança da população nas instituições, a satisfação com os serviços públicos e a administração municipal e a percepção sobre a segurança na cidade".

Boa parte do que é medido pelo IRBEM está muito além da responsabilidade ou capacidade de atuação da administração municipal, mas creio que todos os números devam ser levados em conta pelos Três Poderes  das Três Esferas - e um prefeito (ou prefeita) precisa saber como vai sua cidade em determinado contexto nacional e mundial e o que pode/deve fazer a respeito.

Por crer nisso também, a Rede Nossa São Paulo convidou os pré-candidatos para comentar o resultado da pesquisa no Sesc Consolação, e isso me incluiu (ufa rs). No próximo post, eu trato do meu comentário.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Recuerdos de 2008 - 2

Segundo programa da campanha eleitoral de 2008.

O primeiro explicava os princípios gerais da nossa candidatura (compromisso de conduta durante a campanha + princípios básicos do programa de governo).

Neste, aquilo que eu considero fundamental para São Paulo ter jeito: ou bem a gente ataca a desigualdade, que aqui (como, em geral, no país todo), tem um componente territorial forte (região central rica X periferia pobre, em todos os sentidos), ou a gente não vai conseguir resolver nenhum dos outros problemas. (Se uma mãe precisa sair de casa às 4 da manhã e só vai voltar às 8 da noite porque passa seis horas chacoalhando na condução, o que vamos fazer com as creches? Abrir às 4 e fechar às 8? Esse é só um exemplo básico da inviabilidade)

 

 (O programa já tinha seus defeitos técnicos; a versão no YouTube tem mais ainda. Mas vale pelo conteúdo :oP)