Saindo do Pinel agora, Hospital Psiquiatrico ou, no linguajar mais moderno, CAISM. Q é Centro de Atendimento Instensivo em Saúde Mental ou qqer coisa bem parecida.
Estamos, eu e uma amiga, acompanhando um amigo recente. No dia 1/01 ele saiu de debaixo do Minhocão e pediu ajuda para se tratar e "parar de usar droga". Queria desesperadamente duas coisas: remedio e ser internado. Resoluto, determinado.
Olha, se nao fosse pela Maria Paula, ele estaria ainda na Rua da Amargura. Dps de mtas idas e vindas, conseguiu no Cratod a entrada pela qual tanto ansiava para a internaçao no Pinel.
Está amando. O respeito ao ritmo dele, o "quarto com televisão", a "comida à vontade". "Olha, de cada cinco funcionarios aqui, quatro é muito gente boa. Outro dia não dava pra jogar bola pq nao tinha gente pra formar dois times, o tio que fica ali na segurança foi com a gente la em cima colher goiaba, jaboticaba". E "a gente joga futebol, desenha, faz academia, faz artesanato, o que quiser. E come bem, a comida é uma delicia".
Se tem uma coisa que usuário de crack em tratamento tem orgulho é de ganhar peso. "Entrei aqui com 56, ja to com 63". 15 dias de tratamento.
E o medo q os q estao determinados em "largar as drogas" tem é de sair logo de lá. Sair antes de estar firmes, confiantes.
Das mães, entao, nem se fala. Só as mães sabem... Sabem o que passaram uma, duas, duzentas vezes. Largam, recaem, roubam, somem, voltam, agridem, vão presos, choram arrependidos, ficam um mes sem usar, recaem... Ver os filhos bem cuidados só aperta o coração pq depois não sabem se eles e elas vão segurar a onda. (A gente conversa no grupo antes de entrar pra visita).
Aí eu me desgosto mais uma vez com os clichês, os slogans, os dogmas. De gente que abomina internaçao, como se nao fosse indicado para crise aguda de qqer doença grave. Que quer a extinção de hospitais psiquiátricos, confundindo com os manicômios. Ou acha q é discriminação e exclusao e nao aceita um lugar especializado, como outros sao em cancer, queimados ou coraçao. Tem gente que defende a "liberdade" de ficar muito doente. Eu prefiro fazer o que puder para ajudar uma pessoa a deixar de sofrer - e de correr o risco, por exemplo, de matar alguem.
As politicas publicas tem de ser universais mas atender às singularidades. "Internaçao, só em último caso".
Nosso amigo Andre morava na rua. A família já não tinha mais forças (dinheiro, esperança, saco) pra aguentar. Ele queria ser internado. Ter de passar uma vez por semana por um grupo, com hora pra começar e terminar, em um lugar em q ele nao bateu o santo era um passo q ele nao conseguia suportar.
Assim como alguns precisam do rigor e vigor de uma igreja para se curar e para outros nao serve, alguns se dao bem no protocolo sem internação e outros não.
Andre está muito feliz consigo, se reconciliando com a familia q ja nao botava a menor fé nele, ansiando pela saída. Mas compreende q, ja tendo a alta médica, agora aguarda mais uns dias pela alta hospitalar, q vira na semana q vem dps de a equipe multidisciplinar do hospital assegurar um encaminhamento para os proximos passos. Que daremos ao lado dele, porque sem companhia e confiança eles não aguentam.
"...But when you talk about destruction/Don't you know that you can count me out"
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sábado, 29 de março de 2014
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Minhocão - Parte 3
Essa atualização foi de ontem à noite no meu Face
"Historia real, em tempo real:
O cara mora na rua e quer desesperadamente ser internado p largar o crack. Ficou dias em abstinencia, ontem recaiu e hj esta desolado.
Estivemos (eu e uma amiga) c ele em um Caps-AD (Centro de Atendimento Psicossocial especializado em alcool e outras drogas, equipamento da rede municipal de saude. Tem estaduais tb)
Primeiro passo: triagem. Uma entrevista e alguma medicaçao (nao vi qual).
Dois dias depois, exames clinicos.
Hoje, uma semana depois da triagem, ele teria seu primeiro atendimento em grupo.
Nao foi. Zero disposição. Não bota a menor fé de q vai sair do Caps, dormir debaixo do Minhocao e ficar firme e bem até a reuniao seguinte, dali a uma semana.
Sera q ele esta errado?
Consultada, a assistente social do Caps disse que nao tem como "pular etapas". "Tem que passar por 3 encontros c assistente e só depois começam os agendamentos com os médicos, psicólogos, psiquiatras".
Cara, acho isso tão dogmatico... As pessoas sao tao diferentes entre si, mas as etapas sao fixas, obrigatorias, inalteraveis...
IMAGINA morar debaixo do viaduto, seus amigos estao na mesma, entrando e saindo da nóia e o crack ta logo ali. Vc QUER largar, mas a abstinência fica insuportável e nada te ampara e segura.
P quem acha q "é so ter força-de-vontade", imagine-se privado de alguma coisa q te da muito prazer e/ou q seu corpo pede. Comer. Beber. Dormir, levantar, sentar, fazer xixi. Que força sobre-humana precisa ter para aguentar muitas horas alem daquela em q ja ficou insuportavel?
Esse cara tem familia - q ja nao tem mais saco pra lidar com idas e recaidas. Tem boa formaçao, foi camera e editor. As vezes pega servico de pintura c comerciantes q confiam em seu trabalho, q ele faz direitinho. Mas... Quer ser internado e nao pode.
Talvez a internaçao seja para ele uma fantasia, uma ilusao. E se nao for? E se for uma fantasia necessaria p q ele aguente?
Tanto teórico especialista em crack e morador de rua... Tanta generalização... "Precisam de trabalho". Tanto mutirão, receita coletiva, soluçao coercitiva ou libertaria igual pra todo mundo...
Os efeitos e consequencias do crack, devastadores, cabem em uma tabelinha. As caracteristicas de cada individuo, nao.
Como faz?"
"Historia real, em tempo real:
O cara mora na rua e quer desesperadamente ser internado p largar o crack. Ficou dias em abstinencia, ontem recaiu e hj esta desolado.
Estivemos (eu e uma amiga) c ele em um Caps-AD (Centro de Atendimento Psicossocial especializado em alcool e outras drogas, equipamento da rede municipal de saude. Tem estaduais tb)
Primeiro passo: triagem. Uma entrevista e alguma medicaçao (nao vi qual).
Dois dias depois, exames clinicos.
Hoje, uma semana depois da triagem, ele teria seu primeiro atendimento em grupo.
Nao foi. Zero disposição. Não bota a menor fé de q vai sair do Caps, dormir debaixo do Minhocao e ficar firme e bem até a reuniao seguinte, dali a uma semana.
Sera q ele esta errado?
Consultada, a assistente social do Caps disse que nao tem como "pular etapas". "Tem que passar por 3 encontros c assistente e só depois começam os agendamentos com os médicos, psicólogos, psiquiatras".
Cara, acho isso tão dogmatico... As pessoas sao tao diferentes entre si, mas as etapas sao fixas, obrigatorias, inalteraveis...
IMAGINA morar debaixo do viaduto, seus amigos estao na mesma, entrando e saindo da nóia e o crack ta logo ali. Vc QUER largar, mas a abstinência fica insuportável e nada te ampara e segura.
P quem acha q "é so ter força-de-vontade", imagine-se privado de alguma coisa q te da muito prazer e/ou q seu corpo pede. Comer. Beber. Dormir, levantar, sentar, fazer xixi. Que força sobre-humana precisa ter para aguentar muitas horas alem daquela em q ja ficou insuportavel?
Esse cara tem familia - q ja nao tem mais saco pra lidar com idas e recaidas. Tem boa formaçao, foi camera e editor. As vezes pega servico de pintura c comerciantes q confiam em seu trabalho, q ele faz direitinho. Mas... Quer ser internado e nao pode.
Talvez a internaçao seja para ele uma fantasia, uma ilusao. E se nao for? E se for uma fantasia necessaria p q ele aguente?
Tanto teórico especialista em crack e morador de rua... Tanta generalização... "Precisam de trabalho". Tanto mutirão, receita coletiva, soluçao coercitiva ou libertaria igual pra todo mundo...
Os efeitos e consequencias do crack, devastadores, cabem em uma tabelinha. As caracteristicas de cada individuo, nao.
Como faz?"
Minhocão parte 2
(Começou no post abaixo)
Capítulo 4
Chegando ao CAPS pouco antes do meio-dia, ficamos sabendo que o turno da manhã já tinha terminado e a triagem só aconteceria as 15h, "depois do intervalo de almoço". Reclamei: "Intervalão, hein"? "É que também tem troca de turno".
Ok, ok.
Resolvemos esperar, claro. Os dois com a ansiedade sob controle, totalmente decididos. Mas visivelmente decepcionados quando entenderam que a triagem não era um procedimento imediatamente anterior à internação. Foram de mala e cuia pra lá crentes que ficariam internados. Nós (eu e minha amiga que está acompanhando os dois ainda mais de perto) os tranquilizamos: "Nós não vamos largar de vocês enquanto não estiverem encaminhados de algum jeito".
Às três horas - depois da Maria Paula pagar um almoço para eles - passaram, um de cada vez, por uma longa entrevista. O passo seguinte seria um exame clínico dali a dois dias às sete da manhã. O que trazia muita esperança a um deles, principalmente, era saber que o tratamento incluía remédios. Ele anseia por remédios para ajudar a aguentar a abstinencia.
Capítulo 5
Um dos dois (digamos, "Claudio") lembrou que conhecia um Pastor Silvio que tinha projeto para dependentes de drogas onde eles poderiam se internar imediatamente. Lembrou o nome da instituição, com o Google conseguimos endereço e telefone. Poderíamos ir São Miguel Paulista para "dar entrada" e de lá eles iriam para a chácara onde é feito o tratamento. O método é basicamente oração, trabalho e apoio mútuo.
Foi fácil de achar e fomos super bem recebidos. Depois de ter passado o dia todo com eles, no entanto, não poderíamos acompanhá-los até a chácara em Guarulhos. Deixamos nossos números de telefone - a Irmã que fez a acolhida seria nosso contato para saber deles e para que eles mandassem notícias. A primeira visita só poderia acontecer dali a 15 dias.
O "Alberto" ficou relutante. Sabendo da rotina de trabalho, orações e vigília, criou coragem para perguntar: "E remédio? Não tem remédio"? Desde o início, a promessa de remédio do CAPS o tinha animado. "Vocês vão passar por um médico, farão todos os exames e usarão toda a medicação que ele indicar e terão acompanhamento periódico com ele e um psicólogo. Vou agendar o médico para amanhã de manhã, para vocês ficarem mais tranquilos".
Alberto pediu celular emprestado para ligar para a mulher. Encabulado, ficou um bom tempo falando com ela, explicando onde ficaria, como seria feito o contato com família e amigos, quando ela poderia visitá-lo. Fiquei com a impressão de que ela estava meio brava - cética, vai ver; no mínimo desconfiada - e que ele, ficou inseguro.
Fizemos uma contribuição - não poderia pagar o valor completo (que é mesmo "para quem pode"), mas deixei R$200 para cobrir as despesas mínimas de estadia de cada um. Eles entraram no carro de um pastor (peruano muito gentil, ele mesmo ex-usuário, assim como a Irmã) e fomos embora também.
Capítulo 6
No trânsito das 6 da tarde, comentávamos o dia. Ânimo, desalento, preocupação, esperança, confiança, receio... Em algumas horas, passamos - os 4 - por isso tudo. Mas, incrivelmente, tinha dado certo no final. Era a primeira vez que ela se envolvia de maneira tão próxima com moradores de rua e usuários de crack e estava impactada pela experiência, a paciencia, persistência e disponibilidade necessárias, as idas e vindas. Não víamos a hora de visitá-los.
Avisei: "A gente tem de ficar preparado para dar tudo errado... Para daqui a uma semana eles estarem na rua de novo".
Capítulo 7
50 minutos depois, a Irmã ligou no meu celular: "Eles não quiseram ficar. Não se sentiram bem acolhidos. Rasgo seu cheque"?
Sim, por favor...
[Continua e continua e continua...]
Capítulo 4
Chegando ao CAPS pouco antes do meio-dia, ficamos sabendo que o turno da manhã já tinha terminado e a triagem só aconteceria as 15h, "depois do intervalo de almoço". Reclamei: "Intervalão, hein"? "É que também tem troca de turno".
Ok, ok.
Resolvemos esperar, claro. Os dois com a ansiedade sob controle, totalmente decididos. Mas visivelmente decepcionados quando entenderam que a triagem não era um procedimento imediatamente anterior à internação. Foram de mala e cuia pra lá crentes que ficariam internados. Nós (eu e minha amiga que está acompanhando os dois ainda mais de perto) os tranquilizamos: "Nós não vamos largar de vocês enquanto não estiverem encaminhados de algum jeito".
Às três horas - depois da Maria Paula pagar um almoço para eles - passaram, um de cada vez, por uma longa entrevista. O passo seguinte seria um exame clínico dali a dois dias às sete da manhã. O que trazia muita esperança a um deles, principalmente, era saber que o tratamento incluía remédios. Ele anseia por remédios para ajudar a aguentar a abstinencia.
Capítulo 5
Um dos dois (digamos, "Claudio") lembrou que conhecia um Pastor Silvio que tinha projeto para dependentes de drogas onde eles poderiam se internar imediatamente. Lembrou o nome da instituição, com o Google conseguimos endereço e telefone. Poderíamos ir São Miguel Paulista para "dar entrada" e de lá eles iriam para a chácara onde é feito o tratamento. O método é basicamente oração, trabalho e apoio mútuo.
Foi fácil de achar e fomos super bem recebidos. Depois de ter passado o dia todo com eles, no entanto, não poderíamos acompanhá-los até a chácara em Guarulhos. Deixamos nossos números de telefone - a Irmã que fez a acolhida seria nosso contato para saber deles e para que eles mandassem notícias. A primeira visita só poderia acontecer dali a 15 dias.
O "Alberto" ficou relutante. Sabendo da rotina de trabalho, orações e vigília, criou coragem para perguntar: "E remédio? Não tem remédio"? Desde o início, a promessa de remédio do CAPS o tinha animado. "Vocês vão passar por um médico, farão todos os exames e usarão toda a medicação que ele indicar e terão acompanhamento periódico com ele e um psicólogo. Vou agendar o médico para amanhã de manhã, para vocês ficarem mais tranquilos".
Alberto pediu celular emprestado para ligar para a mulher. Encabulado, ficou um bom tempo falando com ela, explicando onde ficaria, como seria feito o contato com família e amigos, quando ela poderia visitá-lo. Fiquei com a impressão de que ela estava meio brava - cética, vai ver; no mínimo desconfiada - e que ele, ficou inseguro.
Fizemos uma contribuição - não poderia pagar o valor completo (que é mesmo "para quem pode"), mas deixei R$200 para cobrir as despesas mínimas de estadia de cada um. Eles entraram no carro de um pastor (peruano muito gentil, ele mesmo ex-usuário, assim como a Irmã) e fomos embora também.
Capítulo 6
No trânsito das 6 da tarde, comentávamos o dia. Ânimo, desalento, preocupação, esperança, confiança, receio... Em algumas horas, passamos - os 4 - por isso tudo. Mas, incrivelmente, tinha dado certo no final. Era a primeira vez que ela se envolvia de maneira tão próxima com moradores de rua e usuários de crack e estava impactada pela experiência, a paciencia, persistência e disponibilidade necessárias, as idas e vindas. Não víamos a hora de visitá-los.
Avisei: "A gente tem de ficar preparado para dar tudo errado... Para daqui a uma semana eles estarem na rua de novo".
Capítulo 7
50 minutos depois, a Irmã ligou no meu celular: "Eles não quiseram ficar. Não se sentiram bem acolhidos. Rasgo seu cheque"?
Sim, por favor...
[Continua e continua e continua...]
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Minhocão
Prólogo
1º de ano, levamos algumas coisas que sobraram da celebração no templo budista para o Minhocão, onde conheço algumas pessoas. Mas nem precisava. Encosta o carro, abre a porta, oferece doces e frutas, já vem alguns menos desconfiados. “Tem alguma coisa salgada”? “Tem, o pessoal levou pra lá [uma roda no canteiro central], tem bastante”. “Não tem mais para eu levar comigo? É que eu moro em outro mocó”, disse a moça. Em outro vão debaixo do Elevado Costa e Silva.
“Tem roupa?”, pergunta um. Tinha. Roupa boa, nova, cuidadosamente dobrada, para dar para quem estivesse precisando.
Depois de levar um pacote de chocolate para o grupo, um rapaz volta. “Posso pedir uma coisa”? “Pode. Se eu puder...”. Esperava qualquer pedido: passagem pra voltar pra minha terra, dez reais pra comprar farinha, ajuda para tirar documentos (foram os mais recentes, na véspera do Natal). “Arruma um tratamento pra mim. Não aguento mais. Voltei agora do Pronto-Socorro, [foi por causa do] pulmão”. Falou sério, sem drama. (Tem tanto drama e dramatização...) “Claro, vou ver o que consigo fazer. Nos próximos dias não vou estar em São Paulo, mas volto daqui a uma semana”.
Medo de ele não segurar as pontas até lá. Medo de ele desistir de buscar tratamento.
Capítulo 1
Uma amiga estava junto, sentiu sinceridade no pedido e voltou enquanto eu estava viajando. Perguntou por Luis, crente que era esse o nome. Depois de uma sequencia de “não está aqui” nos vários vãos, alguém disse “tá lá no PS”.
Foi ao PS Barra Funda, entrou na boa (às vezes "embaçam", não deixam, mas ela explicou o intuito), andou pelos corredores perguntando “Luis?”. Ficou horrorizada com a cena que todos sabemos mas poucos vemos: gente nos corredores, deitada ou recostada no chão. Muito morador de rua. Tinha Luis nenhum.
Eu: “Não era Luis, era André!”. “Nossa, lembro tão bem da fisionomia dele, troquei o nome??!”
Capítulo 2
Voltou, perguntou, encontrou o Alberto (o nome é outro, esse eu inventei). Que continuava totalmente disposto e ansioso por tratamento. Ela me ligou com ele do lado, conforme o combinado.
Eu já tinha perguntado em um CAPS-AD pelo qual passo sempre qual “o procedê”, como diriam. “Moram debaixo do Minhocão"? Teriam de ir ao CAPS Pinheiros, fora da mão pra mim e pra eles. “Você vai ficar como referência deles? Então traz comprovante do seu endereço e a gente passa eles pela triagem e depois vê onde vão se tratar de fato. Eles tem documento”?
Sei lá. Descobriria depois.
***
Expliquei por telefone para Maria minha amiga, ele tinha documento sim. Combinamos às 10h30 do dia seguinte na frente da estação de metrô
Expliquei por telefone para Maria minha amiga, ele tinha documento sim. Combinamos às 10h30 do dia seguinte na frente da estação de metrô
Capítulo 3
Eu tinha receio de ele não aparecer, ela também. Mas ele estava determinado mesmo. Catou as posses todas (em uma sacola de supermercado) e se despediu do pessoal, que desejou sorte.
O João, com quem já encontrei muitas vezes (que canta “King of Pain” (Police) sem errar uma palavra e sabe exatamente o que está dizendo) fez sua costumeira cara triste e disse que queria ajuda também. “Meu problema é o álcool”. “Ué, você não falou outro dia que largou o crack mas em compensação cheira muito”? Riu falsamente encabulado, tentou negar mas viu que já era. “Maconha, cocaína e bebida”. “Por que não fica só com a maconha, homem”?
No fim, não quis ir com a gente. Quer que eu interne a força a namorada dele, "que tá no crack lá no parque Dom Pedro". Eu a conheci no Natal – carioca, negra, bem baixinha, tem vinte e poucos anos e não sabe ler. Figura. Pergunta PRA ELA se é namorada dele? “Já fui, gostei dele pra caramba, mas não dá. O cara quando bebe fica ignorante”.
Outro também perguntou “tem mais uma vaga nessa barca”? Pegou o “kit” (todos os pertences em uma sacolinha, como o outro) e embarcou no metrô com a gente sentido CAPS.
[Continua nos próximos posts... E continua, e continua...].
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Espetáculo de política
Em dezembro do ano passado:
"Investimento de 4 bilhões de reais", "mais de 2.400 leitos destinados aos usuários", "qualificação dos profissionais do setor e enfermarias especializadas nos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS)".
"Entre as principais propostas do projeto está a criação de 1.400 Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, além de 3.508 em enfermarias especializadas e mais de oito mil unidades de acolhimento. Os números podem até causar impacto, mas não são necessariamente suficientes para atender à quantidade de usuários que perambulam pelas ruas. Isso porque o total real ainda é uma incógnita para o Ministério da Saúde".
"A
presidente Dilma Rousseff lançou nesta quarta-feira em Brasília o Plano de
Enfrentamento ao Uso do Crack e outras Drogas, uma de suas principais promessas
de campanha" (leia aqui)
"Promessa de campanha", "promessa" de governo. E a mídia publica o release, faz a festa de que o governo precisa, e fica por isso mesmo!
O que o governo prometia?
"Investimento de 4 bilhões de reais", "mais de 2.400 leitos destinados aos usuários", "qualificação dos profissionais do setor e enfermarias especializadas nos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS)".
Andou?
Segundo o Jornal do Brasil, difícil saber: "Combate ao Crack às escuras", diz uma nota de ontem.
Bom, eles enfatizaram o fato que daqui a pouco o lançamento do programa faz um ano e ainda não ficou pronta a pesquisa que apontaria o número de usuários pelas ruas.
Mas o que eu queria saber mesmo é se, suficientes ou insuficientes para o total, as providências saíram DO PAPEL.
Então... Entrei no link indicado no portal http://www.brasil.gov.br , que era o seguinte: http://www.brasil.gov.br/sobre/saude/programas-e-campanhas/plano-nacional-de-combate-ao-crack-1 .
Queria saber qual é o "Plano" (dificilmente é um plano mesmo, costuma ser no máximo uma lista de coisas que precisam ser feitas) e o seu andamento.
Resultado: Desculpe, mas esta página está apresentando um erro
Mandei um email para o site comunicando o erro. Vamos ver se respondem.
***
Enquanto isso, o Haddad diz que, para combater o crack em São Paulo, vai aplicar o "Plano Nacional". E usa o "nome fantasia": "Crack, é possível vencer".
Enquanto isso, o Haddad diz que, para combater o crack em São Paulo, vai aplicar o "Plano Nacional". E usa o "nome fantasia": "Crack, é possível vencer".
Ah, pelo menos com esse nome eu achei um link que funciona!
Eis a apresentação - como eu antecipava, é uma lista de providências, não um "plano". Nada de prazos, locais, custo total. Aqui está: http://www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer/publicacoes/crack-e-possivel-vencer-1
Sim, as propostas são boas, eu faria pouquíssima coisa diferente. Bom, muito do que se propõe ali já é política pública "consagrada". Por que em 8 anos de governo Lula nada foi feito, não sei.
Procurando bem, uma notícia: http://www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer/noticias/curso-de-prevencao-ao-uso-de-drogas-80-dos-educadores-ja-iniciaram-as-atividades (80% dos educadores inscritos "já" iniciaram as atividades no curso à distância. Agora, em setembro. Ufa. 112 mil se inscreveram, 70 mil foram pré-selecionados e 56 mil já deram início às atividades. O primeiro módulo termina em Abril. Acompanhemos).
Achei mais uma: http://www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer/noticias/equipe-tecnica-monitora-programa-crack-e-possivel-vencer-em-santa-catarina . "A União disponibilizou mais de R$ 56 milhões para a implementação de ações nas três frentes do programa: prevenção, cuidado (tratamento) e autoridade (segurança pública, combate ao tráfico de drogas)"
Sobre o andamento da criação de novos leitos, enfermarias, novos CAPs, Consultórios de Rua, não encontrei informações.
Se o valor da diária de internação foi reajustado "de R$57 para até R$200 por leito", como o Plano propõe, também não achei.
***
Depois eu vou ver quanto São Paulo já tem X quanto o governo federal diz que vai fazer no Brasil todo.
***
Pra encerrar:
Pra encerrar:
Em maio do Ano da Graça da campanha eleitoral de 2010, "Lula assina plano nacional de combate ao crack", que previa vultosos [not] R$410 milhões em investimento.
"O tema foi acertado em várias reuniões do governo nas últimas semanas e terá três frentes: combate, prevenção e tratamento".
A gente (oposição) gritou, falou que era ridículo, mentira, oportunismo.
Adiantou?
terça-feira, 26 de junho de 2012
Faltou vocação
Eu ia gravar agora um vídeo pra responder a uma das Perguntas Mais Frequentes: "Como você avalia a gestão de Gilberto Kassab"?
As pessoas esperam que eu dê UMA nota. Uma. Pra gestão toda. As notas são muito diferentes conforme a área!
Tenho dito que dou 7 para Educação, Cultura e Meio Ambiente. Para Mobilidade Urbana... 4. Habitação/reurbanização, deixa eu ver... Apesar de haver atuações pontuais muito boas, como em Heliópolis, Paraisópolis, Jaguaré e na beira das represas, além de outras quebradas (que, reconheço, trouxeram benefícios para milhares de famílias), ainda falta muito muito muito. 4,5. Habitação e Mobilidade são as áreas CRUCIAIS para o desenvolvimento de uma cidade - até porque tem efeito quase "automático" sobre Educação, Saúde, Segurança...
Tanto a Saúde quanto a Assistência Social tiveram um aumento de equipamentos/unidades, mas a qualidade do atendimento ainda deixa muito a desejar :o(
E tem o ponto que me irritou profunda e diretamente, a forma como ele conduziu as Subprefeituras. Quase sem atribuições, poder, autonomia e sem os recursos minimamente necessários para executar as poucas funções que lhe restaram.
***
Ainda vou gravar esse vídeo, mas achei esse aqui e posso compartilhá-lo desde já :)
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Diário de Uma Usuária - tb não sou eu desta vez
Uma pessoa me pediu ajuda, ou melhor, socorro. Alguém da sua família está sofrendo de horrível depressão (é uma redundância; depressão é sempre horrível, mas há graus mais paralisantes e aflitivos, por isso fiz questão dela).
"O motivo que me fez escrever é para pedir uma ajuda, NÃO É FINANCEIRA, é uma ajuda para conseguir um Psiquiatra e um Psicologo pela rede pública.. (...) Ele perdeu totalmente o interesse por tudo, esta em uma depressão profunda (...). Ele começou o tratamento mas particular é caro (...) [Bem sei; pago R$500 na consulta com minha excelente psiquiatra - VALE, mas e se eu não tivesse?]. Ele trabalha bem, só que de um tempo pra cá ele esta na crise e se não encontrar ajuda, ele não consegue fazer nada. (...) Tenho medo dele fazer alguma besteira".
Depressão é um pavor; lembro de pensar, nas minhas crises mais profundas, que preferia qualquer dor física àquela agonia. A falta absoluta de querer - de querer viver. Quando passei pela(s) minha(s), procurei e obtive ajuda; também já ajudei amig@s a perceberem que era isso que tinham e procurar ajuda.
Pois bem, comecei a pesquisar a rede de Saúde Mental.
No CAPS perto de casa, que é especializado em Álcool e Drogas, a Assistente Social indicou o que, em tese, atende o bairro onde ele mora. Muito atenciosa, deu endereço, horário de funcionamento e telefone.
A pessoa que me escreveu já ligou para lá. Conseguir a informação foi fácil - difícil é conseguir ser atendido. Eis o relato:
"Liguei no CAPS -------- falei com ---------, que disse não ser lá... e passou o tel: 3078- 6886, do CAPS Itaim Bibi.
Liguei falei com ---------- que disse ter que procurar Posto UBS que tenha Psiquiatra; se encaminharem para lá é que podemos marcar consulta.
É isso que sempre acontece, não consegue se marcar consulta nem com Clínico, que dirá com Psiquiatra.
Mais agradeço por todas as informações, vou continuar tentando, se conseguir algo te aviso".
Primeiro escrevi aqui SEM COMENTÁRIOS, mas quero comentar sim.
Contando sobre o meu caso (preciso de Dermatologista e Ortopedista), falei que, quando a gente não tá morrendo de dor, deixa exame e consulta para depois... Se for difícil marcar, então...
Quando o seu mal é DEPRESSÃO, por mais que você esteja desesperado, não suportando aquilo, tomar iniciativa é justamente o mais difícil.
Aí você tem de ir à UBS - ou melhor, tem de tentar encontrar uma UBS com Psiquiatra (ainda não comecei a procurar, mas não deve ser nada fácil), marcar consulta para sei lá quando, esperar e quem sabe um dia começar o tratamento.
Não dá... Não dá.
A porta de entrada do SUS parece o portal de um videogame, em que você precisa de muitas senhas e habilidade e persistência para conseguir passar.
"O motivo que me fez escrever é para pedir uma ajuda, NÃO É FINANCEIRA, é uma ajuda para conseguir um Psiquiatra e um Psicologo pela rede pública.. (...) Ele perdeu totalmente o interesse por tudo, esta em uma depressão profunda (...). Ele começou o tratamento mas particular é caro (...) [Bem sei; pago R$500 na consulta com minha excelente psiquiatra - VALE, mas e se eu não tivesse?]. Ele trabalha bem, só que de um tempo pra cá ele esta na crise e se não encontrar ajuda, ele não consegue fazer nada. (...) Tenho medo dele fazer alguma besteira".
Depressão é um pavor; lembro de pensar, nas minhas crises mais profundas, que preferia qualquer dor física àquela agonia. A falta absoluta de querer - de querer viver. Quando passei pela(s) minha(s), procurei e obtive ajuda; também já ajudei amig@s a perceberem que era isso que tinham e procurar ajuda.
Pois bem, comecei a pesquisar a rede de Saúde Mental.
No CAPS perto de casa, que é especializado em Álcool e Drogas, a Assistente Social indicou o que, em tese, atende o bairro onde ele mora. Muito atenciosa, deu endereço, horário de funcionamento e telefone.
A pessoa que me escreveu já ligou para lá. Conseguir a informação foi fácil - difícil é conseguir ser atendido. Eis o relato:
"Liguei no CAPS -------- falei com ---------, que disse não ser lá... e passou o tel: 3078- 6886, do CAPS Itaim Bibi.
Liguei falei com ---------- que disse ter que procurar Posto UBS que tenha Psiquiatra; se encaminharem para lá é que podemos marcar consulta.
É isso que sempre acontece, não consegue se marcar consulta nem com Clínico, que dirá com Psiquiatra.
Mais agradeço por todas as informações, vou continuar tentando, se conseguir algo te aviso".
Primeiro escrevi aqui SEM COMENTÁRIOS, mas quero comentar sim.
Contando sobre o meu caso (preciso de Dermatologista e Ortopedista), falei que, quando a gente não tá morrendo de dor, deixa exame e consulta para depois... Se for difícil marcar, então...
Quando o seu mal é DEPRESSÃO, por mais que você esteja desesperado, não suportando aquilo, tomar iniciativa é justamente o mais difícil.
Aí você tem de ir à UBS - ou melhor, tem de tentar encontrar uma UBS com Psiquiatra (ainda não comecei a procurar, mas não deve ser nada fácil), marcar consulta para sei lá quando, esperar e quem sabe um dia começar o tratamento.
Não dá... Não dá.
A porta de entrada do SUS parece o portal de um videogame, em que você precisa de muitas senhas e habilidade e persistência para conseguir passar.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Seminário sobre Crack - Como foi
O seminário sobre Crack ontem, na Câmara Municipal, tinha o objetivo de reunir pessoas com visões e conhecimentos diferentes, vindas do governo e da sociedade civil, do município e do estado¹, da universidade e das ruas, para compartilhar fatos e opiniões entre si e com o público presente (no auditório do Plenarinho ou pela internet).
E foi bem isso que aconteceu.
Eu planejava exibir 3 blocos do 1º episódio do Profissão Repórter na Cracolândia, mas acabei passando só o 1º para termos mais tempo de conversar². E a conversa foi muito, muito boa.
Eram dois psiquiatras na Mesa, o muito experiente e conhecido Ronaldo Laranjeira e o jovem especialista Thiago Marques, recomendado pelo Dr. Dartiu Xavier (que também é referência no tema). Eles receavam fazer exposições muito parecidas, mas discutimos um pouco a pauta de cada um e as suas falas foram bem diferentes – e excelentes.
O Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo, Ronaldo Mapelli Jr, encerrou a rodada de exposições também de maneira brilhante. Todos foram aplaudidos com sincera admiração e gratidão. Sério, a sensação de muitos ali era de gratidão. Como é BOM se informar, entender, aprender.
Depois foi a vez daqueles que eu chamei de "comentaristas VIP" – convidados que também lidam de alguma maneira com o combate ao crack e teriam cerca de 5 minutos para complementar o que havia sido exposto a partir de sua vivência. Nessa rodada, falaram: Dr. Luiz Alberto C. de Oliveira "Laco", Célia Cristina Whitaker, Dra. Rosangela Elias, Dr. Cláudio Loreiro, Edsom Ortega Marques, Euclides Conradim e Wagner Abril Souto.
Foi realmente esclarecedor, instigante, inspirador. Ficaram evidentes os consensos e as divergências, que não chegam a se constituir em entraves para que as coisas andem. "As coisas", no caso, são os projetos de efetivo atendimento aos usuários do crack e suas famílias, incluindo o tratamento (que é uma etapa) e a reinserção social (que a complementa).
Eu anotei vários trechos das falas para destacar em outros posts. A gravação do evento está disponível na íntegra aqui http://bit.ly/SeminarioCrack – mas são 3 horas... Em breve, vamos editar para selecionar as partes mais importantes (vai ser difícil cortar alguma coisa, fora de brincadeira) ou ao menos cortar em segmentos mais curtos. As apresentações em Power Point também ficarão disponíveis, pois são um ótimo material , em grande medida, autoexplicativas.
Assim que eu tiver um tempo, passo a limpo minhas anotações.
1 – Nós convidamos o Ministério da Saúde, mas eles não mandaram ninguém.
2 – Quem quiser ver tudo, encontra facilmente na internet. Eu recomendo – é tocante, mesmo pra quem acha que já sabe muito sobre cracolândias.
domingo, 12 de abril de 2009
Uma "lei idiota" que não existe
Ferreira Gullar, na Folha de hoje (domingo): “Está na hora de revogar essa lei idiota”. São tantas as leis idiotas; estaríamos pensando na mesma? Fui ler com a maior curiosidade.
Mas a lei de que ele reclama é a que “proíbe a internação de doentes mentais”.
Se tal lei existisse, seria mais que idiota; seria, ela mesma, uma insanidade...
Como uma lei pode interferir de tal maneira na atividade médica?
***
Pensando bem, não seria inédito. Há dispositivos legais que estabelecem determinam a internação de usuários de substâncias psicoativas cujo comércio é proibido por lei (genericamente chamadas de “drogas”) por decisão de um juiz, não de um médico...
***
Em todo caso, a internação de doentes mentais NÃO É PROIBIDA. A campanha antimanicomial, à qual Gullar se refere com raiva e escárnio, era – é – contra as instituições hospitalares em que os doentes mentais são despejados e dopados, maltratados, abandonados.
Gullar diz que esteve “em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o "doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno”.
Mas em muitos lugares equivalia, sim, a um inferno! O fato de haver hospitais decentes não significa que todos o eram.
***
Gullar tem experiência pessoal com doença mental – por isso ficou tão furioso quando “um deputado petista [Paulo Delgado, de Minas Gerais] que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu".
Realmente, é compreensível o rancor. Ele se sentiu atingido por uma generalização – que, como todas, é injusta, mas tem fundamento na realidade!
Segue o escritor: “Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais”.
Pois é, aí está outra generalização... Incorreta e injusta. Austregésilo Carrano que o diga. Autor de “Canto dos Malditos”, que inspirou o filme “Bicho de Sete Cabeças”, ele conta as atrocidades a que foi submetido em um “hospital psiquiátrico” depois que o pai descobriu que ele fumava maconha.
Dizer que hospitais “daquele tipo não existiam mais” é sacanagem.
***
Muito sensatamente, Gullar explica: “Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo”.
[Continua no próximo post]
Mas a lei de que ele reclama é a que “proíbe a internação de doentes mentais”.
Se tal lei existisse, seria mais que idiota; seria, ela mesma, uma insanidade...
Como uma lei pode interferir de tal maneira na atividade médica?
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Pensando bem, não seria inédito. Há dispositivos legais que estabelecem determinam a internação de usuários de substâncias psicoativas cujo comércio é proibido por lei (genericamente chamadas de “drogas”) por decisão de um juiz, não de um médico...
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Em todo caso, a internação de doentes mentais NÃO É PROIBIDA. A campanha antimanicomial, à qual Gullar se refere com raiva e escárnio, era – é – contra as instituições hospitalares em que os doentes mentais são despejados e dopados, maltratados, abandonados.
Gullar diz que esteve “em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o "doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno”.
Mas em muitos lugares equivalia, sim, a um inferno! O fato de haver hospitais decentes não significa que todos o eram.
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Gullar tem experiência pessoal com doença mental – por isso ficou tão furioso quando “um deputado petista [Paulo Delgado, de Minas Gerais] que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu".
Realmente, é compreensível o rancor. Ele se sentiu atingido por uma generalização – que, como todas, é injusta, mas tem fundamento na realidade!
Segue o escritor: “Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra "manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais”.
Pois é, aí está outra generalização... Incorreta e injusta. Austregésilo Carrano que o diga. Autor de “Canto dos Malditos”, que inspirou o filme “Bicho de Sete Cabeças”, ele conta as atrocidades a que foi submetido em um “hospital psiquiátrico” depois que o pai descobriu que ele fumava maconha.
Dizer que hospitais “daquele tipo não existiam mais” é sacanagem.
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Muito sensatamente, Gullar explica: “Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo”.
[Continua no próximo post]
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Ainda ontem
A dona da casa cujo primeiro andar foi todo alagado, que perdeu coleções inteiras de livros (como Monteiro Lobato e Agatha Chirstie), equipamentos eletro-eletrônicos, móveis, discos, etc., e que mora com duas pessoas com dificuldades de locomoção, e que já foi alagada várias vezes, e que aguarda a conclusão de um processo de desapropriação para sair dali (impossível vender a casa agora), demonstrava senso de humor, calma e paciência inacreditáveis.
Enquanto jogávamos pilhas de livros enlameados no caminhão de lixo, ela às vezes dizia: "Nem vou pensar senão eu choro". Eu já estaria chorando - de raiva, tristeza - há muito tempo.
Ainda teve a idéia de trazer coca-cola na bandeja para quem estava na calçada com ela. Se solidarizava com o vizinho que tem uma loja de peles (a janela foi arrombada pela água), lembrava outros episódios, contava as cenas absurdas que já viu nos últimos anos.
***
Uma das lembranças foi uma reunião na Subprefeitura, na gestão do Adaucto. Enquanto conversavam no auditório, alguém tacou uma pedra - segundo as descrições, quase um paralelepípedo - pela janela próxima ao palco. Só não pegou no Subprefeito porque ele estava na platéia.
Quem atirou? Um ex-funcionário.
(Trilha sonora: faroeste).
***
Naquela época, os moradores que reclamavam mais ardidamente eram qualificados como "gente do PSDB, que só vem aqui pra encher o saco". Nos anos posteriores, os críticos mais contundentes eram classificados como "petistas a fim de atazanar". Ê, laiá.
***
Diz que a água chega a atingir 100km/hora quando desce a Pompéia. Que a Kalunga, para se proteger, subiu um muro meio metro e acabou prejudicando o escoamento do vale. Que o pessoal da escola de samba que fica debaixo do viaduto precisa sair correndo para não se afogar. Que o shopping pagou seis milhões para a EMURB e nada foi usado, até agora, em benefício do bairro. Que precisa fazer a ligação da galeria com o rio. Que a CET costuma aparecer a tempo para fechar o trânsito, mas que dessa vez foi tudo muito rápido. Que foi a comunidade quem conseguiu que o SESC Pompéia botasse uma placa dizendo "Em caso de chuva, não estacione aqui - risco de alagamento".
***
Os lixeiros quiseram tentar salvar algumas coisas, como o aparelho de som. E disseram que a empresa tem uma sala só com coisas "boas" que as pessoas jogam fora - livros, por exemplo. "Esses não têm jeito, mas tem gente que joga livro bom, livro inteiro. Todo mundo gosta e lê".
***
(Dos lixeiros): "Se você fosse prefeita, ia aumentar nosso salário, não ia?"
"Se eu pudesse, não tenha dúvida".
Por enquanto, prometi "só" um lugarzinho no céu. Na área VIP.
***
A moradora não quer sair do bairro. Tem amizade com o pessoal do supermercado, conhece todo mundo no quarteirão e, principalmente, não quer se afastar da unidade de saúde (um CAPS) onde o filho faz tratamento. "Eles são dez. O Dr Luiz é fantástico, todo o pessoal é demais".
O que eu menos esperava àquela altura era uma boa notícia.
Enquanto jogávamos pilhas de livros enlameados no caminhão de lixo, ela às vezes dizia: "Nem vou pensar senão eu choro". Eu já estaria chorando - de raiva, tristeza - há muito tempo.
Ainda teve a idéia de trazer coca-cola na bandeja para quem estava na calçada com ela. Se solidarizava com o vizinho que tem uma loja de peles (a janela foi arrombada pela água), lembrava outros episódios, contava as cenas absurdas que já viu nos últimos anos.
***
Uma das lembranças foi uma reunião na Subprefeitura, na gestão do Adaucto. Enquanto conversavam no auditório, alguém tacou uma pedra - segundo as descrições, quase um paralelepípedo - pela janela próxima ao palco. Só não pegou no Subprefeito porque ele estava na platéia.
Quem atirou? Um ex-funcionário.
(Trilha sonora: faroeste).
***
Naquela época, os moradores que reclamavam mais ardidamente eram qualificados como "gente do PSDB, que só vem aqui pra encher o saco". Nos anos posteriores, os críticos mais contundentes eram classificados como "petistas a fim de atazanar". Ê, laiá.
***
Diz que a água chega a atingir 100km/hora quando desce a Pompéia. Que a Kalunga, para se proteger, subiu um muro meio metro e acabou prejudicando o escoamento do vale. Que o pessoal da escola de samba que fica debaixo do viaduto precisa sair correndo para não se afogar. Que o shopping pagou seis milhões para a EMURB e nada foi usado, até agora, em benefício do bairro. Que precisa fazer a ligação da galeria com o rio. Que a CET costuma aparecer a tempo para fechar o trânsito, mas que dessa vez foi tudo muito rápido. Que foi a comunidade quem conseguiu que o SESC Pompéia botasse uma placa dizendo "Em caso de chuva, não estacione aqui - risco de alagamento".
***
Os lixeiros quiseram tentar salvar algumas coisas, como o aparelho de som. E disseram que a empresa tem uma sala só com coisas "boas" que as pessoas jogam fora - livros, por exemplo. "Esses não têm jeito, mas tem gente que joga livro bom, livro inteiro. Todo mundo gosta e lê".
***
(Dos lixeiros): "Se você fosse prefeita, ia aumentar nosso salário, não ia?"
"Se eu pudesse, não tenha dúvida".
Por enquanto, prometi "só" um lugarzinho no céu. Na área VIP.
***
A moradora não quer sair do bairro. Tem amizade com o pessoal do supermercado, conhece todo mundo no quarteirão e, principalmente, não quer se afastar da unidade de saúde (um CAPS) onde o filho faz tratamento. "Eles são dez. O Dr Luiz é fantástico, todo o pessoal é demais".
O que eu menos esperava àquela altura era uma boa notícia.
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